O príncipe Harry testemunhou esta quarta-feira no Supremo Tribunal de Londres no processo contra a Associated Newspapers Limited, o grupo que detém o tabloide Daily Mirror, alegando que foi uma “experiência traumática” que tornou a vida de sua mulher, Meghan Markle, “um verdadeiro inferno”.
“Nunca acreditei que a minha vida fosse um alvo fácil para ser comercializada por essas pessoas”, afirmou Harry, que viu o seu depoimento ser antecipado depois de inicialmente ter sido agendado para esta quinta-feira. “Ter a minha vida, como a de outras pessoas, comercializada desta forma desde a minha adolescência, investigando cada aspeto da minha vida privada, ouvindo chamadas, obtendo informações sobre voos, para que pudessem descobrir para onde eu ia. Era uma época em que todos competiam entre si. Sentar-me aqui e passar por tudo isto novamente, e ouvi-los apresentar a sua defesa e alegar que não tenho direito a qualquer privacidade é repugnante“, continuou, citado na BBC.
No seu depoimento, o filho mais novo do rei Carlos III afirmou que, durante todo o processo, a sua vida só “piorou, não melhorou” e que a Associated Newspapers “continua a perseguir-me e tornou a vida da minha mulher um verdadeiro inferno“. Destacou também “a paranoia” que sentia quase constantemente por temer que as pessoas do seu círculo mais próximo fossem responsáveis pelas “informações privadas” que chegavam às manchetes. “Sempre suspeitei que pessoas próximas a mim, incluindo os meus amigos e guarda-costas, fossem as fontes dessas informações privadas”, afirmou.
O duque de Sussex, juntamente com outras seis pessoas, incluindo o músico Elton John e a atriz Elizabeth Hurley, está a processar a editora Associated Newspapers por práticas ilegais de recolha de informações mas as alegações de Harry referem-se especificamente a 14 artigos publicados pelos títulos da Associated Newspapers entre 2001 e 2013. Quando questionado pelo advogado de defesa, Antony White, sobre o porquê de não se ter pronunciado sobre o assunto mais cedo, Harry respondeu que, “até certo ponto”, acreditava que as informações contidas nos artigos provinham de fontes legítimas e que “a instituição” da qual fazia parte, referindo-se à Família Real britânica, significava que ele não teria “permissão para reclamar”.
No seu depoimento de 23 páginas por escrito, que foi publicado ao mesmo tempo do testemunho em pessoa, o príncipe revelou que a sua “relação difícil” com a imprensa começou após a morte da sua mãe, Diana, em 1997, quando ele tinha 12 anos: “Como membro da instituição, a política era ‘nunca reclamar, nunca explicar’. Não havia alternativa; fui condicionado a aceitar isso”, escreveu Harry, acrescentando: “Na maior parte das vezes, eu aceitava o interesse pelo meu desempenho nas funções públicas. No entanto, no final de 2016, quando a minha relação com Meghan, a minha atual mulher, se tornou pública, comecei a ficar cada vez mais incomodado com a abordagem de não tomar medidas contra a imprensa, após ataques persistentes e cruéis, assédio e artigos intrusivos, às vezes racistas, sobre Meghan.”
Harry afirmou também que a editora lançou “uma campanha, uma obsessão por manter todos os aspetos da minha vida sob vigilância, para que pudessem ganhar vantagem sobre os seus concorrentes e levar-me a um estado de paranoia inacreditável, isolando-me e, provavelmente, querendo levar-me a consumir drogas e álcool para vender mais jornais“.
Quanto a episódios em concreto, Harry recordou o artigo do Daily Mail, publicado em julho de 2006, que detalhava as suas reações e as do irmão, o príncipe William, à publicação de uma fotografia da princesa Diana após o acidente de carro que lhe tirou a vida em 1998. Descrevendo-o como “realmente repugnante”, afirmou que foi “mais do que cruel” publicar um artigo sobre “discussões confidenciais”: “Se a Associated estava disposta a publicar este tipo de material, então isso realmente me faz questionar até onde eles estão dispostos a ir”, escreveu, acrescentando que as informações partilhadas no artigo o fizeram pensar que os jornalistas “estavam claramente a ouvir as nossas chamadas”.
Uma vez que a acusação de Harry se foca entre 2001 e 2013, a sua relação com Chelsy Davy, com quem namorou entre 2004 e 2010, é tema de discussão. Na sua declaração, afirma que o Daily Mail foi o primeiro a divulgar o nome da advogada e que “a partir desse momento tudo explodiu e a vida como ela a conhecia acabou; a sua capacidade de desfrutar de alguma privacidade evaporou-se instantaneamente”. Revelou ainda que, durante o relacionamento, estava “muito preocupado que algo de mau fosse acontecer” e que, quando Davy fez uma visita surpresa a Harry à Argentina, o príncipe “suspeitou que alguém tivesse sido pago para revelar os nossos planos”. “Nunca suspeitei da Chelsy em relação a histórias como esta, mas suspeitava das amigas dela. Se tivesse visto esta história na altura, teria ficado muito frustrado e zangado. Teria questionado como é que a Associated descobriu esta informação. Mas, ao mesmo tempo, teria sentido que tinha de aceitar isto como a realidade da minha vida. Este tipo de intrusão era assustador para a Chelsy: fazia-a sentir que estava a ser perseguida e que a imprensa a tinha apanhado, e era assustador para mim também, porque não havia nada que eu pudesse fazer para impedir isso e agora ela estava no meu mundo”, citou o The Guardian.
O julgamento no processo contra a Associated Newspapers teve início esta segunda-feira e vai continuar durante nove semanas. Harry alega que a editora contratou investigadores privados que utilizaram meios ilegais para recolher informações sobre personalidades no final da década de 1990 e início da década de 2000, incluindo a contratação de investigadores privados para colocar escutas nos seus carros, casas e telemóveis, e o pagamento a agentes da polícia por informações privilegiadas. A Associated Newspapers tem negado as acusações.