Cientistas portugueses concluíram que o aumento da temperatura da água altera a dieta e o desenvolvimento do sapo-comum e defendem a preservação de “refúgios térmicos” para proteger anfíbios e outras espécies dos efeitos do aquecimento global.
A conclusão consta num estudo divulgado esta terça-feira pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), onde os cientistas trabalham, e que foi considerado inédito, pois pela primeira vez foi demonstrado em vertebrados que “a capacidade de compensar os efeitos do aumento da temperatura através da alimentação é condicionada por limitações fisiológicas”.
Cientistas do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da FCUL criaram girinos de sapo-comum (Bufo spinosus) recolhidos na Serra de Sintra, sujeitando-os a três temperaturas de água (12ºC, 16ºC e 20ºC) e a três tipos de dieta (animal, vegetal ou escolha entre ambas).
Segundo o estudo, “o aumento da temperatura alterou o ciclo de vida, acelerou o desenvolvimento e crescimento larvar”, mas “reduziu a massa e condição corporal”.
“Em temperaturas mais baixas, os girinos incorporam uma maior proporção de alimento de origem animal na dieta, enquanto em temperaturas mais elevadas aumentam o consumo de matéria vegetal e a taxa de consumo. No entanto, verificámos que esta estratégia se torna progressivamente menos eficaz à medida que a temperatura aumenta”, refere, citada em comunicado da FCUL, a primeira autora do estudo, Sara Bento.
Nas experiências feitas pela equipa, o período larvar diminuiu progressivamente: passou de cerca de seis meses, nas condições mais frias de temperatura de água, para um mês, nas mais quentes.
Por outro lado, as temperaturas mais elevadas de água alteraram a composição dos tecidos corporais dos jovens sapos após a metamorfose, sugerindo que “o aquecimento não afeta apenas o crescimento e o desenvolvimento, mas também a forma como os organismos processam e armazenam os nutrientes”.
De acordo com os cientistas, os resultados do estudo poderão ter implicações em outras espécies, uma vez que, “ao modificar a composição dos tecidos corporais” dos sapos, “o aumento da temperatura poderá também alterar o valor energético destes animais enquanto presas, produzindo efeitos em cascata nas cadeias alimentares“.
Por isso, os autores do estudo defendem que, numa região particularmente sensível aos efeitos das alterações climáticas como a mediterrânica, a “preservação de refúgios térmicos em zonas húmidas” e outros locais de água doce “poderá desempenhar um papel importante na proteção dos anfíbios e de muitas outras espécies aquáticas”.
O trabalho, publicado na revista científica Scientific Reports, foi conduzido por investigadores do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da FCUL em colaboração com investigadores das universidades Queen Mary de Londres, no Reino Unido, e de Uppsala, na Suécia.