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ILUSTRAÇÃO INÊS CORREIA / OBSERVADOR

ILUSTRAÇÃO INÊS CORREIA / OBSERVADOR

O meu filho faz muitas birras. Isto é normal? Devo ficar preocupado? E o que podemos fazer?

Uma criança que grita, chora e se atira para o chão não está necessariamente a ser mal-educada: as birras infantis são normais. Apesar disso, há sinais que merecem atenção.

Às vezes, basta dizer “Está na hora de irmos para casa”. Ou “tens de vestir o casaco”. Ou “agora não podes comer o chocolate”. E começa o drama: a criança protesta, chora e, segundos depois, está a gritar e a atirar-se para o chão. As birras são um dos momentos mais difíceis da parentalidade: a paciência dos adultos é posta à prova quando surgem estas explosões.

Mas o que está, ao certo, por detrás destes episódios? E como podemos reagir sem os agravar?

A primeira coisa (e talvez a mais importante) a saber sobre as birras é que são normais e expectáveis. “Fazem parte de um neurodesenvolvimento normativo, é raríssimo uma criança que não as faça e, na verdade, a ausência de qualquer birra nas idades em que isso é esperado pode ser sinal de alerta”, diz a pediatra do neurodesenvolvimento Bárbara Salgueiro.

Estes episódios são frequentes sobretudo na fase dos “terríveis dois” [anos] que quase todos os pais conhecem, mas podem surgir mais precocemente e terminar mais tarde. “Muitas vezes iniciam-se pelos 15 ou 18 meses e podem acontecer até cerca dos cinco anos.”

A criança expressa-se assim porque ainda não tem capacidade de autorregulação emocional, não tem linguagem suficiente para explicar o que sente e ainda lhe é difícil compreender o que é esperado dela. “Nesta idade ainda não há capacidade de lidar com emoções difíceis, como a frustração.”

São episódios mais frequentes quando a criança é contrariada, mas também podem surgir quando está com sono, com fome ou cansada. “A maior parte das crianças entre os dois e os três anos faz, pelo menos, uma birra por dia. Podem ser mais ou menos intensas, mas acontecem diariamente.” E o mais habitual, frisa, é durarem apenas dois ou três minutos. No entanto, quando estes episódios acontecem muitas vezes ao longo do dia, todos os dias, ou são muito prolongados, os pais devem procurar ajuda.

“A maior parte das crianças entre os dois e os três anos faz, pelo menos, uma birra por dia. Podem ser mais ou menos intensas, mas acontecem diariamente", diz a pediatra do neurodesenvolvimento Bárbara Salgueiro. Quando as birras são muito frequentes e intensas, no entanto, é necessário fazer muitas perguntas aos pais para perceber as causas. “É muito agitada? Parece distraída? Interage pouco com os outros? Está permanentemente a testar os limites?” 

Recentemente, numa consulta, a mãe de uma criança contou a Bárbara Salgueiro como o filho foi a chorar e a gritar durante uma viagem de carro de Lisboa para o Algarve. “Isto já não é uma birra, é uma desregulação intensíssima, um meltdown. Quando há estas desregulações muito intensas, muito prolongadas e muito repetidas, então temos de fazer uma avaliação para perceber o que se passa.”

Quando as birras são muito frequentes e intensas é necessário fazer muitas perguntas aos pais, para perceber as causas. Há dois mitos persistentes: achar que a criança tem alguma alguma perturbação do desenvolvimento ou que é mal educada. Mas pode haver muitas outras explicações.

Desde logo, há que olhar para um dos pilares do bem-estar, o sono, e perceber se é adequado. “Se dorme poucas horas, se tem um sono muito fragmentado, se tem apneia… Isto pode ter impacto no comportamento durante o dia, porque a criança não descansou bem.”

Depois é preciso perceber como é o comportamento geral da criança: “É muito agitada? Parece distraída? Interage pouco com os outros? Está permanentemente a testar os limites?” Estas são respostas que podem apontar na direção de diagnósticos como a perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA), a perturbação do espetro do autismo (PEA) ou a perturbação de oposição e desafio (POD), mas também para outras alterações do processamento sensorial que não se enquadrem num diagnóstico.

Também importa avaliar a linguagem. “Aos três anos é esperado que haja já uma linguagem com erros, mas fluida. Se a criança não tem linguagem suficiente para expressar o que sente e quer, isso pode comprometer muito a capacidade de autorregulação.” E por fim, é preciso perceber o contexto familiar: “é importante avaliar, por exemplo, se existem conflitos familiares, se os pais têm alguma condição do ponto de vista neurodesenvolvimental ou psiquiátrico, porque isso pode afetar a criança.”

A pediatra frisa que é frequente os pais chegarem à consulta cheios de sentimentos de culpa ou vergonha, quando as birras dos filhos são muitas, mas gosta sempre de lhes lembrar que estão, certamente, a fazer o melhor que podem e sabem. Apesar disso, como especialista, estes são alguns dos conselhos que transmite, para os ajudar a lidar com uma criança em plena birra:

  • Ter presente que cabe aos adultos manter a calma. Se a criança grita, devemos fazer o oposto: diminuir o tom de voz e falar calmamente.
  • É útil agacharmo-nos ao nível da criança e olhá-la nos olhos, para garantir que nos está a ver e ouvir. Em algumas situações, pode ser eficaz não reforçar o comportamento com atenção. Ninguém faz uma birra se não tiver público e, sem ninguém a assistir, por norma, o episódio extingue-se.
  • Quando a criança tem uma perturbação de neurodesenvolvimento (PHDA, PEA, POD) faz sentido seguir estratégias mais individuais, indicadas pelos profissionais que a acompanham: pode ser eficaz colocá-la num ambiente mais calmo ou dar-lhe um abraço com alguma pressão, por exemplo.
  • Bater e gritar nunca são uma resposta adequada. A criança não aprende a regular-se através do medo. Pelo contrário, estas reações podem agravar a desregulação e transmitir a ideia de que a força física é uma forma aceitável de resolver conflitos.
  • Dizer “não” e ser assertivo. Os limites e a firmeza criam segurança e ajudam a criança a ter balizas que vão ser essenciais para construir a sua capacidade de atenção, planeamento e controlo da impulsividade.
  • Não usar tablets e telemóveis para distrair a criança durante as birras. As atuais recomendações das principais sociedades pediátricas e neuropediátricas são claras: até aos três anos, os ecrãs táteis devem ser evitados, sendo a exceção a realização de videochamadas com familiares distantes.

Bárbara Salgueiro é pediatra do neurodesenvolvimento no Centro de Neurodesenvolvimento e Comportamento da Criança e do Adolescente do Hospital da Luz Lisboa.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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