Ver uma final de um Campeonato do Mundo de futebol costumava ser muito simples: dez minutos antes da hora marcada, ligávamos a televisão, assistíamos ao onzes finalistas, tínhamos direito a cinco minutos de conversa em que os comentadores discutiam entre si o que poderíamos esperar do jogo e depois era bola, bola, bola. Com um intervalo de 15 minutos pelo meio, claro.
Foi ingénuo da nossa parte pensar que um Campeonato do Mundo passado nos Estados Unidos de Trump pudesse ser um Campeonato do Mundo como os outros: por todos os lados sentiu-se a tentativa dos Estados Unidos de Trump em transformar o objeto cultural que tinha nas mãos num produto comercial e político trumpiano.
Um árbitro somali foi barrado de entrar nos EUA, onde ia apitar; a seleção do Irão não pôde dormir nos EUA, sendo prejudicada no seu descanso; na final, Capdevilla, que foi um dos vencedores da seleção espanhola de 2008, foi impedido de entrar nos EUA por ter jogado uma vez num jogo de exibição com o Irão; um jogador dos EUA, expulso num jogo, viu a sua suspensão anulada depois da intervenção da Casa Branca. No país que não liberta os Epstein Files, o árbitro escolhido para a final é um homem acusado de participar em orgias, na presença de armas e cocaína.
[o “halftime show” da final:]
Talvez isto não seja apenas um erro de casting, na escolha do país de acolhimento do Campeonato do Mundo – talvez haja uma separação mais profunda. O futebol é o desporto mais popular no mundo inteiro – mas nem isso impediu os EUA de tentar colonizar o desporto e adaptá-lo à cultura americana. Normal em quem acredita que a Superbowl é o evento desportivo mais visto do mundo e não faz ideia do que o futebol é.
Só assim se entende a sucessão de decisões inqualificáveis, que culminou na decisão de criar um espectáculo ao intervalo, ao jeito da Superbowl, transformando a pausa, aquele período sagrado de 15 minutos em que os jogadores descansavam, os treinadores instruíam os jogadores e nós íamos fazer xixi, buscar uma cerveja e ouvir de novo os comentadores, num pastelão de meia hora que quebra por completo o aquecimento e o ritmo dos jogadores e demonstra uma total falta de respeito pelo desporto tal como sempre foi jogado.
▲ Madonna entre Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo
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E isso vê-se em coisas tão simples como estas: nunca, até hoje, exceto em circunstâncias atmosféricas extremas, se haviam feito pausas para hidratação a meio de cada parte. Ora, o jogo é constituído por duas partes de 45 minutos; a ideia é uma equipa usar 45 minutos para criar um ritmo que lhe permita marcar. Mas os americanos viram na pausa para hidratação uma oportunidade para fazer dinheiro com anúncios – sem se preocuparem minimamente com o bem-estar dos jogadores e a qualidade do espectáculo.
Que os americanos façam isto com os seus desportos é lá com eles – mas este desporto não é americano. O futebol, o desporto mais popular e amado de todos, pertence aos europeus e aos latino-americanos – basta ver quem vence a esmagadora maioria dos campeonatos do mundo. O que significa que os Estados Unidos de Trump não só não respeitaram a cultura alheia como quiseram colonizá-la.
De modo que não admira que só no fim do jogo tenhamos visto os jogadores que foram campeões do mundo por Espanha em 2008 e que estavam nas bancadas – mas vimos, desde o 1.º segundo da transmissão, estrelas como Matt Damon ou Pharrell Williams, porque é disso que os EUA gostam: do brilho das estrelas; não de uma cultura, mas do individualismo.
▲ Justin Bieber
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Nada é mais americano que criar o que eles chamam um Halftime Show e que eu chamarei Entretém ao Intervalo. O curador – porque hoje tudo tem de ser curado – do Entretém ao Intervalo foi Chris Martin, o líder dos Coldplay. É difícil entender para que é que foi preciso um curador, para descobrir gente tão obscura como Madonna, ou Shakira – que parece ser a única artista não americana que a FIFA conhece – ou o desgraçado do Justin Bieber e os Marretas.
Um equivalente português do Entretém ao Intervalo seria uma versão de vinte minutos do Natal dos Hospitais, apenas que com artistas piores e uma ainda maior falta de gosto e noção. Num segundo, e de forma a preparar-nos para o que se segue, um comentador explica de forma burocrática o que são os Marretas. E de repente deixamos de ver um relvado verde e jogadores jovens para vermos uma espécie de discoteca roxa e uma sexagenária vestida de roxo, chamada Madonna, a cantar Music. No carrinho em que ela se desloca vêm Ronaldinho e Ronaldo. Ronaldinho e Ronaldo chegam ao relvado e entre eles está Madonna. Parecem septuagenários que fugiram do lar e ao chegar à rua ficaram perdidos. Honestamente: está aqui um bom início de um filme ou de uma série, alguém escreva isto.
▲ Os BTS
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E é neste momento que aparecem os Marretas, uma frase que nunca pensei escrever – e vão ser precisos anos de terapia para lidar com isto: os Marretas estão a tocar White Stripes. Parabéns à conta bancária de Jack White e parabéns aos operadores de câmara que continuam a descobrir semiestrelas nas bancadas que só os americanos conhecem. Agora tocam os BTS, uma boy band, para não sei como aparecer Ted Lasso, uma personagem de TV (um treinador de futebol que não percebia nada de futebol mas tinha um coração muito lindo) tão interessante quanto o seu conhecimento de futebol.
Já disse que no início da transmissão houve um discurso de Tom Cruise, enquanto os operadores de câmara nos mostravam as estrelas (mas escondiam o cumprimento que Trump deu a Sanchez)? Porque é que precisamos de um discurso de Tom Cruise antes da final do Campeonato do Mundo? Porque é que Capdevilla não pôde ver o jogo ao lado dos seus colegas da Espanha de 2008, como deveria?
[o discurso de Tom Cruise antes do “halftime show”:]
Terão passado uns 5 minutos e já é difícil lidar com a azia. Mas eis que vem Justin Bieber, que é o equivalente musical a empadão. Porque é que estamos a ouvir más canções de amor, numa voz choninhas, ao intervalo do Campeonato do Mundo? Porque é que Chris Martin é tão mau em tudo, incluindo curar o Entretém ao Intervalo? Porque é que Shakira aparece sempre nestas coisas? — ela que terá sido a coisa menos má do momento em causa.
E porque é que os EUA decidiram que cada minuto tem de ser monetizado e não só tem de ser monetizado como tem de ser monetizado através do mais intragável azeite? É hora de ir fazer xixi, sacar mais umas minis e alguém nos explicar porque é que Espanha ainda não está a ganhar. Mas estamos a gramar com isto – ao menos podíamos estar a gramar com os Geese e Olivia Rodrigo, com os Fcukers e Slayyyter, mas não, é mesmo com isto.
Há um tapete que diz LOVE e crianças espalhadas pelo recinto. A música é muito má; o futebol costumava ser mais simples. O que é que fizemos para merecer isto? Que estádio é este do capitalismo de estádio?
Um comentador diz que o mais importante é que as pessoas sejam felizes – mas nós seríamos mais felizes apenas com simples futebol. Felizmente isto acabou, felizmente o futebol já pode ser apenas futebol outra vez.