Mind da Gap, Allen Halloween, Sam The Kid com Orquestra e Orelha Negra, Garota Não, Mão Morta e Capicua são alguns dos nomes que vão atuar no Festival Iminente, em setembro, na antiga Escola Afonso Domingues, em Lisboa.
O festival de música e arte urbana cumpre dez anos de 17 a 20 de setembro, e o programa anunciado esta quarta-feira apresenta “mais de cem atuações, instalações e exposições de artistas nacionais e internacionais”, combinando concertos, artes visuais, instalações, performances, conversas e gastronomia.
Entre os nomes anunciados para os concertos estão o rapper e produtor Sam The Kid, com Orquestra e Orelha Negra, para apresentar o álbum “Beats Vol.1: Amor”, os Mind de Gap, Micro e os Mão Morta com o acordeonista João Barradas e a artista visual Mariana Vilanova.
A eles juntam-se ainda Dino d’Santiago, que vai estrear o álbum “Aye”, “fruto de três anos de gravações e viagens ao Brasil”, Batida, Lena d’Água, La Familia Gitana, Gisela João, DJ Marfox e DJ Nigga Fox ou Ana Lua Caiano, entre outros.
Destaque ainda para a estreia do projeto UN!DD, que junta artistas “de matriz cabo-verdiana feita nos arredores de Lisboa”, com Acácia Maior, Cachupa Psicadélica, Fidju Kitxora, Prétu e Scúru Fitchadu.
Na antiga Escola Afonso Domingues, vão estar presentes vários nomes da arte urbana, entre os quais Vhils, maismenos, de Miguel Januário, Akacorleone, Athanasios Kanakis, OBEY SKTR, Pedrita, Tamara Alves ou Wasted Rita.
O Iminente, criado em 2016 por Alexandre Farto (Vhils) e já realizado em vários locais da cidade, afirma-se, segundo a organização, “como uma das principais plataformas de cultura urbana contemporânea ligadas a Lisboa”. Contudo, a escolha da antiga Escola Industrial Afonso Domingues, local que acolhe o evento este ano e também em 2027, traz para o centro do debate a situação do edifício, que foi oficialmente extinto em 2010 — numa altura em que se equacionava a construção da Terceira Travessia do Tejo (Chelas-Barreiro) e o uso da ferrovia de alta velocidade (TGV), que nunca avançaram.
Com o passar dos anos, e apesar de não ter condições de habitabilidade, o imóvel foi sendo ocupado por pessoas em situação de sem-abrigo. Tanto a autarquia como a organização do festival sabiam desta realidade quando assinaram o protocolo de cedência do espaço, em 2024, como ambos confirmaram ao Observador em abril, quando uma reportagem revelava como cerca de duas dezenas de pessoas, algumas a viver há anos no edifício, foram confrontadas com uma placa da Câmara Municipal de Lisboa (CML) a anunciar o “encerramento e controlo de acessos” ao terreno. A autarquia e a organização do Iminente rejeitaram sempre os termos “despejo” e “expulsão”, mas era isso que sentia quem ali vivia, num processo marcado pela falta de respostas claras sobre o seu destino.
Desde a publicação da reportagem, o perímetro do edifício foi progressivamente vedado — primeiro com gradeamento e, mais tarde, com placas metálicas opacas para impedir novos acessos. Já este mês, as seis pessoas que ali viviam foram informadas por técnicos da CML de que teriam duas semanas para abandonar o espaço. Confrontada pelo Observador, a organização do festival garantiu que nunca exigira a saída dos moradores, até porque “a realização do festival não depende da desocupação do edifício, e o projeto de implantação está a ser preparado de forma a não ocupar os espaços onde estas pessoas vivem nem perturbar o seu quotidiano”.
Após a publicação da notícia, realizou-se uma segunda reunião com os ocupantes, onde foram informados de que, afinal, não havia prazo para saírem. Segundo a CML, foi-lhes apresentada “uma proposta concreta de integração numa resposta de alojamento apoiado na comunidade, que disponibiliza unidades habitacionais e assegura acompanhamento técnico regular por equipas especializadas”, visando proporcionar estabilidade habitacional e autonomia em áreas como saúde, regularização documental, prestações sociais e empregabilidade.
No mesmo dia, a organização do Iminente fez o seu primeiro comunicado público sobre o tema, revelando que alguns moradores já tinham visitado a habitação proposta pelos serviços sociais e que os restantes o fariam na segunda-feira seguinte, esclarecendo que “não é um albergue”, mas “unidades habitacionais individuais e dignas”, num primeiro passo para o programa Housing First. No mesmo texto, o festival lamentava que “nem todos os parceiros tenham sido ouvidos antes nas notícias”, referindo-se, por ausência de outros, a este jornal, que contactou a CML e o Iminente em todas as reportagens. Mais tarde, num comunicado enviado à Lusa a 16 de julho, a organização reforçou que encontrar um lugar digno para estas pessoas foi “prioridade máxima”, rematando: “As questões da habitação, da marginalização e do abandono urbano são questões que sempre discutimos no festival e fora dele, e que continuaremos a discutir com militância”. O festival acontece no próximo mês de setembro.