Fez um ás e agachou-se, sem expressão. Quase com a cara de quem tinha de processar o que tinha acabado de fazer. Aquele ás ganhou o jogo. Aquele tenista chamava-se Jaime Faria e cresceu nos courts de Lisboa. Do outro lado do Atlântico, em Cincinnati, nos EUA, fez um serviço que confirmou o seu triunfo sobre o australiano Adam Walton, que lhe valeu a passagem aos oitavos de final do ATP de Cincinnati. Mas não foi o único a consegui-lo, uma vez que Nuno Borges — número 1 em Portugal — também conseguiu avançar na prova. É, por isso, a primeira vez que Portugal tem dois atletas nos oitavos num torneio Masters 1000.

Primeiro, foi o tenista mais velho a dar o exemplo. Esta terça-feira, Nuno Borges, número 47 do mundo, venceu Andrey Rublev, número 18, com parciais de 6-3 e 6-4. Antes, já tinha vencido um atleta com melhor ranking ATP do que ele, ao bater Francisco Cerundolo com parciais de 6-4 e 6-4, depois de abrir a sua prestação na competição com uma vitória sobre o número 440, o australiano Thanasi Kokkinakis. Horas depois, foi Jaime Faria, número 79 do mundo, a protagonizar uma das surpresas da campanha, já depois da vitória sobre Adam Walton, por 4-6, 6-4 e 7-6 (7-3), em duas horas e 11 minutos — mas com muito drama pelo meio.

O próprio Faria admitiu que a cabeça já estava longe de Cincinnati quando o marcador apontava 4-6 e 1-4 no segundo set. “A minha cabeça já estava nos bilhetes de avião para Winston-Salem. Estou muito contente por ter continuado a lutar e ter conseguido dar a volta”, admitiu. O nervosismo antes do jogo foi visível — e assumido com uma honestidade desarmante: “A pressão hoje era maior e senti-a. Sabia que era um dia importante para mim e para o ténis português. Não dormi bem, estive nervoso o dia todo, a ir à casa de banho em cada cinco minutos. Nem sempre é fácil. Às vezes, tens de ganhar com o que tens”.

Faria venceu cinco jogos consecutivos no segundo set para forçar a negra e resolveu o tie-break com autoridade, por 7-3. O jogo teve ainda um momento insólito: uma interrupção causada pelo hino norte-americano que começou a tocar num court vizinho. Faria partiu uma raquete no início da partida — sinal do estado de nervos — e terminou o encontro com algumas queixas musculares.

No caminho até aos oitavos, derrotou Ben Shelton — número 6 do mundo na modalidade. A vitória sobre Shelton, em particular, tem um peso histórico que vai além deste torneio. Faria tornou-se o sétimo português de sempre a derrotar um top 10 mundial, juntando-se a João Sousa, Nuno Borges, Gastão Elias, Frederico Gil, Nuno Marques e Henrique Rocha. “É um momento muito emocional. É a minha primeira vitória sobre um jogador do top 10 mundial, estou a saborear. Trabalho para estes momentos”, disse o tenista, que ocupa atualmente o 79.º lugar do ranking ATP e veio da qualificação para chegar até aqui.

Antes de Faria, apenas João Sousa, Nuno Borges e Frederico Gil tinham chegado a esta fase, mas sempre em momentos separados. No lote dos 16 melhores em Cincinnati, apenas os EUA têm mais representantes do que Portugal — quatro contra dois. “O ténis português está-se a unir e estamos cada vez mais fortes. É muito significativo termos dois portugueses nos oitavos de final de um Masters 1000”, afirmou Faria, acrescentando, com humor, que está a seguir as pisadas do compatriota: “Estou a seguir os passos dele. Como diz a música, ‘follow the leader'”.

Nos oitavos de final, Faria defronta esta quarta-feira (22h em Lisboa) o italiano Lorenzo Musetti — será o primeiro encontro oficial entre os dois. Borges joga no mesmo dia (20h30 em Lisboa) contra o norte-americano Brandon Nakashima. Para ambos, é uma oportunidade de ir ainda mais longe num torneio que, há uma semana, não prometia nada disto.

*artigo atualizado às 19h08: Jaime Faria venceu Adam Walton e não Ben Shelton no jogo dos 16 avos de final do Cincinnati Open. Ben Shelton foi adversário de Faria nos 32 avos de final