O Sporting chegou ao Pavilhão Municipal de Santo Tirso com o peso de uma época histórica nas costas — e isso tanto pode ser um fardo como uma motivação. Na temporada passada, os leões de Ricardo Costa conquistaram o tritriplete: Supertaça, Campeonato e Taça de Portugal, pela terceira vez consecutiva, num feito inédito no andebol português. A cereja no topo do bolo foi a Taça de Portugal, vencida em Alcobaça frente ao Benfica por 41-39, após prolongamento, num final de loucos — o décimo título nacional consecutivo da equipa leonina, outro recorde histórico.

Do outro lado estava, uma vez mais, o Benfica. Os encarnados foram os adversários do Sporting na final da Taça de Portugal da época passada, perdendo por 41-39 após prolongamento. O último troféu do Benfica em andebol datava de 2022, quando conquistou precisamente esta Supertaça. Desde então, a hegemonia leonina não deu sinais de abrandamento — e Jota González chegou a Santo Tirso com quatro anos de seca nos troféus para tentar encerrar.

A história recente entre as duas equipas dava, de forma esmagadora, razão ao Sporting. Na época 2024/25, os leões tinham vencido o Benfica por 37-21 na Supertaça, na Póvoa de Varzim, num resultado sem margem para discussão. O desfecho da Taça de Portugal, em junho, tinha sido bem mais equilibrado — mas o troféu voltara a ficar em Alvalade. E talvez fosse esse o sinal que o Benfica trazia para Santo Tirso: o de que é capaz de chegar ao fim e discutir troféus, mesmo que o resultado final continue a fugir-lhe.

E, a partir do segundo golo do Sporting, foi fugindo com cada vez maior distância, depois de um início avassalador dos leões, que abriram a contagem e nunca deixaram os encarnados estar na frente do marcador. As águias pareciam não encontrar poiso no jogo — incluindo na baliza defendida por Mohamed Aly, que esteve sem sofrer golos dos cinco aos 13 minutos de Supertaça. Ainda antes de os 14′ estarem cumpridos, o Sporting vencia por 9-3. O guardião egípcio estava lá quando não apareciam os bloqueios de uma parede verde e branca que vendia o golo cada vez mais caro. Esteve lá numa dupla tentativa iniciada por Sindre Heldal e Vailupau, que viram o guarda-redes negar-lhes o quarto golo das águias. Na recarga, Aly voltou a agigantar-se e adiou a redução, que chegaria segundos depois por Bernardo Pegas.

O número 21 do Benfica entrou para contrariar o alto custo que o Sporting estabelecia para quem tentasse encontrar o caminho das redes. E pouco depois de conseguir o quarto, marcou o quinto. O início intenso dos leões transformava-se numa prova de resiliência dos encarnados — à imagem do que têm sido as últimas temporadas do andebol nacional. A ideia de igualdade ganhava força com a exclusão de Kiko Costa. Esbatia-se, no entanto, com mais um golo de vantagem para os campeões nacionais, que venciam por seis golos aos 20′. O 11-5 transformou-se em 12-5 aos 22′ e em 13-5 aos 23′, já depois da exclusão de Fábio Silva, que deixou o Benfica com menos um jogador em campo.

Os verde e brancos não só estancavam a sua baliza quando tinham menos uma unidade, como conseguiram transformar a superioridade numérica em efeitos práticos: golos. Um dos grandes responsáveis pela primeira parte do plano era Aly, que continuava a puxar pelas bancadas a cada defesa que fazia e a cada golo que negava. A segunda parte do plano fiava-se, acima de tudo, em Kiko Costa, que marcou por quatro vezes a Tobias Thulin, que também não era espetador numa partida em que foi responsável por travar muitas das investidas que a barreira encarnada não conseguia impedir. Ao intervalo, Costa acumulava cinco dos 15 golos que o Sporting conseguiu marcar na primeira meia hora de partida. Com o golo de Afonso Mendes, o resultado antes do descanso era de 15-6 e os leões tinham uma mão no seu 11.º título consecutivo.

O segundo tempo chegou com um golo do sportinguista Diogo Branquinho, que deu continuidade à veia goleadora dos leões. A segunda parte ameaçava ser uma caixa de ressonância da primeira. Mas Fábio Silva, a tal ferramenta encarnada de deflação, operou a reação, reduzindo a vantagem leonina. Na baliza oposta, Kiko Costa continuava a acumular golos e restabeleceu a diferença de 10 golos entre os dois conjuntos. Os encarnados voltavam a correr atrás do resultado e os leões começavam a correr atrás das águias, que apostavam tudo ao abdicar de um guarda-redes e trazer para a frente mais uma unidade. Numa das investidas, Aly voltou a fazer a diferença e foi minando a réstia de esperança do Benfica. Primeiro, com uma defesa. Depois com um golo de baliza a baliza, quando os encarnados ainda não tinham reposto Thulin na quadra.

A vantagem passou de 10 para 13 golos. Filipe Monteiro fez o 21-9 e 22-9. Com ainda 20 minutos por disputar, havia poucas voltas a dar que não passassem por uma Supertaça verde e branca. O Benfica reagiu, com João Bandeira a reduzir para os 22-11 que duraram pouco tempo, uma vez que Kiko Costa marcaria o seu oitavo logo de seguida. Depois, uma vez mais, foi Fábio Silva a marcar na reação e Gonçalo Meireles fez o sétimo golo das águias no segundo tempo — mais golos em 15 minutos do que todos os golos que os encarnados tinham conseguido marcar em toda a primeira parte.

Os 15 minutos finais trouxeram mais ritmos e mais golos. De um lado, um Sporting com uma exclusão; do outro, um Benfica mais eficaz do que na primeira meia hora de jogo. Com ainda 12 minutos por jogar, o cenário de igualdade numérica voltou a verificar-se. Não pelo facto de a exclusão do Sporting ter terminado. Mas por ser assinalada uma exclusão contra os encarnados, que conseguiram mitigar as diferenças que se verificaram com o mesmo cenário na primeira parte. Ainda assim, já era muito tarde para ressuscitar uma primeira meia hora em falso com que o Benfica entrou na Supertaça.

Ou não era? Com ainda cerca de sete minutos por disputar, os leões chegavam perto de Ricardo Costa, no timeout, com muitos remates falhados nos minutos anteriores. As águias chegavam junto de Anders Hallberg com mais eficácia no período homólogo. O resultado mostrava isso mesmo a seis minutos do final: 26-19, ainda para o Sporting. Quando a sorte podia mudar o que o primeiro tempo e o início do segundo tinham antecipado, o Benfica voltava a ficar sem um jogador nos dois minutos seguintes, quando faltavam cerca de quatro minutos para a partida terminar e com o Sporting a marcar mais três golos, contra dois de resposta do adversário. Depois, com menos de três minutos para jogar, uma segunda exclusão, desta feita de Alexis. O 29.º não demorou a chegar e a resposta do Benfica também não. Mas o 30.º, de Diaz, chegou depois. O 31.º, de Salvador Salvador, na sequência.

O Benfica marcou por último, mas era o adversário a celebrar a conquista da Supertaça, com um resultado final de 31-24 a favor dos leões, que contaram com a presença do seu presidente, Frederico Varandas. E na presença do líder verde e branco, Aly, antes de ser erguido o troféu, levantou a distinção de melhor em campo desde o centro da quadra.

Afinal, a primeira parte em falso tinha feito a diferença. Foi precisamente isso que Thulin e Hallberg referiram na flash interview. O técnico dos encarnados afirmou que a primeira meia hora “não foi boa o suficiente”. Do lado oposto, Aly defendeu que os leões foram “a equipa que pressionou mais” durante todo o jogo e Ricardo Costa frisou a importância de “esquecer os 10 títulos anteriores” para que o grupo se conseguisse focar na conquista do troféu.