Pelo menos 25 pessoas, maioritariamente crianças e jovens, morreram e várias ficaram feridas este sábado em Cabo Verde na sequência de um acidente de viação com um autocarro na ilha do Fogo, confirmou o jornal cabo-verdiano A Nação, citando o presidente da Câmara Municipal de São Filipe, Nuías Silva.

O número de vítimas mortais tem vindo a subir. Um primeiro balanço apontava para 18 mortes e um segundo para 22.

De acordo com o jornal Expresso das Ilhas, o motorista do autocarro encontra-se entre as vítimas mortais. Do total de 25 mortes, 20 foram confirmadas logo no local do acidente, incluindo a do motorista, e cinco pessoas morreram no Hospital Regional São Francisco de Assis.

Numa primeira fase, as autoridades comunicaram a existência de 19 feridos, tendo corrigido mais tarde esse número para 14, uma vez que cinco dos feridos acabaram por morrer.

Esta segunda-feira, 13 pessoas continuam internadas naquele hospital, sendo que duas delas inspiram maiores cuidados devido à gravidade dos ferimentos, avança o Expresso das Ilhas. Os dois jovens que se encontram em estado grave foram alvo de intervenções cirúrgicas e estão estáveis.

Segundo a Câmara Municipal de São Filipe, o “autocarro transportava alunos num passeio” quando saiu da estrada e caiu de uma altura de cerca de 30 metros, na localidade de Campanas de Cima, no município de Santa Catarina do Fogo.

A Câmara Municipal de São Filipe adiantou ainda que mantém uma equipa no local, em articulação com a Delegacia de Saúde, a Polícia Nacional, os Bombeiros Municipais Voluntários e outras autoridades, para prestar assistência às vítimas e aos familiares.

Segundo o jornal A Nação, sete das 25 vítimas mortais foram já sepultadas, numa celebração realizada durante a madrugada de domingo, com a presença de familiares e de centenas de pessoas. O jornal explica que a decisão de realizar os enterros tão rapidamente esteve relacionada não só com questões logísticas, mas também com pedidos das famílias.

Acidente em Cabo Verde. “Não há nenhum indício de crime”

O município declarou dois dias de luto municipal e anunciou uma reunião extraordinária para este domingo, para deliberar sobre os apoios aos familiares das vítimas.

Governo promete investigação “séria e profunda”

O Governo cabo-verdiano anunciou, entretanto, uma análise “séria e profunda” às circunstâncias do acidente, incluindo às condições de construção, avaliação e fiscalização das estradas.

“É evidente que a construção de estradas nos interpela a todos. Conhecemos o processo e sabemos como as coisas acontecem nesta terra, sabemos qual é o lugar da avaliação e da fiscalização na sociedade cabo-verdiana. O que falta é agir e tomar medidas concretas e vamos fazê-lo”, afirmou o primeiro-ministro, Francisco Carvalho, durante a deslocação à ilha do Fogo, citado pela Agência Cabo-verdiana de Notícias (Inforpress).

O Instituto de Estradas de Cabo Verde deverá deslocar-se ao local do acidente para avaliar as condições da via e as circunstâncias da ocorrência, adiantou o chefe do Governo.

Segundo Francisco Carvalho, a análise deverá considerar as características da estrada, o percurso e as condições de mobilidade, entre outros fatores que possam ajudar a compreender o sucedido e prevenir novos acidentes.

“Este acontecimento não passa de forma nenhuma em branco. Não viemos ao Fogo só marcar presença”, afirmou.

O primeiro-ministro disse ainda que o Governo está a recolher informação sobre as condições das estradas para posteriormente tomar decisões “de forma rápida”.

Francisco Carvalho defendeu que a atuação do Governo deverá passar por “agir, corrigir, antecipar e prevenir”, garantindo que os diferentes aspetos relacionados com a segurança rodoviária serão considerados na avaliação.

Durante a deslocação ao Fogo, o primeiro-ministro participou nos funerais de 18 vítimas e visitou o local do acidente e afirmou que, neste momento, a prioridade é prestar solidariedade às famílias das vítimas e assegurar o apoio às pessoas afetadas.

“Viemos ao Fogo para trazer um abraço de solidariedade para as famílias, para todos que estão a ser afetados”, afirmou, considerando que este é, antes de mais, um momento de “abraço, aconchego e amparo”.

O Presidente cabo-verdiano, José Maria Neves, que também esteve este domingo na ilha do Fogo para os funerais, defendeu a necessidade de uma investigação às causas do acidente para ver “como tomar medidas e pôr cobro às situações desta natureza”.

“É preciso dar conforto e apoio psicológico a todas as famílias, há 25 mortes. Isso constitui uma imensa tragédia, sobretudo porque são jovens e adolescentes que acabam por perder a vida na força da idade e também porque há dezenas de famílias afetadas por esta catástrofe”, afirmou José Maria Neves.

O presidente da Câmara Municipal de São Filipe, Nuías Silva, pediu igualmente uma investigação detalhada para evitar futuros acidentes e enfatizou a necessidade de reforçar as medidas de segurança nas estradas.

Falha técnica, sobrelotação, curvas fechadas e declive acentuado. Polícia investiga possíveis causas do acidente

Entretanto, de acordo com o jornal A Nação, a Polícia Nacional e um conjunto de peritos rodoviários já estão a investigar os contornos do acidente. O jornal dá conta de que, apesar de o relatório das autoridades ainda não estar concluído, há pelo menos quatro hipóteses em cima da mesa a partir dos elementos recolhidos no local.

Duas possíveis explicações prendem-se com as condições específicas do local: um declive acentuado ou uma curva fechada na zona onde o acidente ocorreu poderá ter estado na origem do desastre. O jornal explica que aquela zona, além de ter curvas bastante fechadas e declives muito acentuados, não está equipada com barreiras de proteção de alto impacto.

Há dois outros cenários a ser considerados pelos especialistas. Um deles é a possibilidade de a lotação da viatura ter sido excedida, sobrecarregando a capacidade de travagem do autocarro numa situação de emergência.

Mas o cenário para o qual converge a maioria dos relatos até agora recolhidos, aponta ainda A Nação, é o de uma falha técnica súbita no sistema de travagem do autocarro, ocorrida num momento em que a viatura se encontrava num declive acentuado descendente, ganhando grande velocidade.

Ainda de acordo com o mesmo jornal, a polícia cabo-verdiana já garantiu que irá submeter o autocarro a uma detalhada peritagem técnica para determinar as causas do acidente.

Montenegro e Aguiar-Branco lamentam tragédia

O primeiro-ministro português, Luís Montenegro, diz ter recebido “com profunda consternação a notícia da tragédia que atingiu a Ilha do Fogo”.

“Em nome do Governo português e em meu nome pessoal, apresento as mais sentidas condolências às famílias das vítimas e a todo o povo cabo-verdiano, em particular à comunidade do Fogo”, escreveu Montenegro na rede social X. “Portugal está convosco neste momento de dor. Aos feridos, desejo uma rápida recuperação.”

Também o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, lamentou a tragédia, sublinhando num comunicado “a brutalidade e a injustiça desta tragédia, que interrompeu tão cedo tantas vidas”, que provoca “uma dor difícil de exprimir por palavras”.

“Em nome da Assembleia da República e em meu nome pessoal, apresento as mais sentidas condolências às famílias e aos amigos das vítimas, bem como às autoridades e a todo o povo cabo-verdiano. Uma palavra muito especial de profunda solidariedade para as famílias das crianças atingidas por esta tragédia”, diz ainda.

Notícia atualizada às 12h30 de 7 de setembro, com atualização do número de pessoas hospitalizadas