Dentro de 41 dias, o mundo vai ficar a conhecer o nome do novo (ou não) melhor jogador da atualidade. É a 26 de outubro que se realiza a tradicional gala da France Football, na qual é atribuída a Bola de Ouro, com as votações a fecharem daqui a duas semanas. O certame deste ano conta com inúmeras novidades, a começar pela saída de França 11 anos depois e a passagem para Londres. De resto, quando ainda falta mais de um mês para a atribuição do prémio, a Bola de Ouro deixou as quatro linhas e está agora a ser jogada fora de campo, entre dois companheiros de seleção que, dentro de poucos dias, deverão partilhar o balneário.

Dembélé, a história de uma promessa adiada que só teve de esperar mais tempo para se concretizar

Amplamente reconhecidos como dois dos melhores futebolistas da atualidade, Ousmane Dembélé e Kylian Mbappé são dois dos principais nomes apontados à conquista desta Bola de Ouro. De um lado está o vencedor do ano passado que se sagrou bicampeão europeu com o PSG, tendo sido decisivo frente a Liverpool e Bayern e na final contra o Arsenal, para lá de ter sido campeão de França como melhor jogador da Ligue 1 e marcado seis golos no Campeonato do Mundo. Do outro está o capitão dos bleus que, apesar de não ter conquistado qualquer troféu na segunda temporada em Madrid pelo Real, tornou-se o melhor marcador de sempre da história dos Mundiais, pulverizando diversos recordes.

O caso que ecoa agora na imprensa francesa teve início na passada semana, quando o jogador do Real Madrid deu uma entrevista à France Football. “Compromisso defensivo? É um discurso que faz menos sentido, porque se eu não marcar, as pessoas vão perguntar-me porque é que não marco. Mais tarde, aprendi que, quando se é futebolista, há milhões de treinadores em cada jogo que se disputa. E nem todos os treinadores estão felizes em casa. Cada um tem o seu próprio ponto de vista, mas acho que o objetivo do futebol é marcar golos, marcar mais um do que o adversário. Um jogador que marca golos nunca será um problema numa equipa, porque nunca vi uma equipa ganhar títulos por não marcar nenhum golo”, começou por dizer à publicação francesa.

Ousmane, o menino de ouro que também é o melhor dos melhores: Dembélé é coroado pela FIFA e junta The Best à Bola de Ouro

“Voto em mim [risos]. Tenho a sensação de que posso ganhar este ano. Tenho argumentos a meu favor, como o facto de ser o melhor marcador da história dos Mundiais, do torneio mais importante de sempre, à frente de grandes lendas. Dembélé? Sempre foi visto como um jogador muito talentoso, enquanto eu sempre fui visto como o escolhido. Alcancei o nível mais alto muito cedo na minha carreira. A sua carreira foi diferente. Passou por lesões e momentos difíceis, mas teve um regresso incrível”, acrescentou, poucos dias antes de Lamine Yamal ter vindo também “reclamar” o triunfo de forma direta ou “indireta”, neste caso com as contribuições do presidente do Barça, Joan Laporta, e do agente, Jorge Mendes.

A resposta de Dembélé surgiu no fim de semana, depois da vitória do PSG em casa do Brest (1-0). “Sempre estive no fundo da sala a trabalhar arduamente. Ao longo de toda a minha carreira não disse uma única palavra, mas trabalhei imenso. Como já disse, nunca me viram como o escolhido, mas esforcei-me e, no ano passado, fui recompensado com uma época fantástica no PSG. Este ano vamos ver. Estou sem pressão, com tranquilidade”, disse o vencedor da última Bola de Ouro à Ligue 1+, numa entrevista que, segundo Jérôme Rothen, foi “encomendada” pelo clube ainda antes da partida, com o ex-jogador a garantir num podcast da RMC Sport que Dembélé tinha sido sugerido pelo PSG na condição de haver uma pergunta sobre a Bola de Ouro.

“Dembélé ficou muito chateado, isso é certo. Está muito zangado com o Kylian Mbappé. Para ele, é uma forma de traição. São palavras fortes, mas é exatamente assim que ele vê a situação. E não é só ele, são todas as pessoas que rodeiam o Ousmane, as pessoas que estão com ele no balneário do PSG. Também estão os seus companheiros da seleção francesa. Dizem-me que há muitos jogadores da seleção francesa que, mais uma vez, não compreendem todas as suas declarações [de Mbappé], que se identificam mais com a equipa do Dembélé do que com a do Mbappé e, no entanto, trata-se da mesma equipa. Ao que parece, agora há dois lados. O Ousmane, que é muito mais conciliador do que o Kylian, tem desempenhado o papel de mediador entre alguns jogadores da seleção francesa. Adoraria ser uma mosca na parede e ver o aperto de mão entre o Ousmane Dembélé e o Kylian Mbappé na próxima janela internacional. Acho que as paredes vão tremer um pouco”, acrescentou o comentador que também foi internacional pelos bleus.

A concentração da seleção francesa vai acontecer já na próxima semana, quando se iniciar a Liga das Nações. Este estágio marca também a estreia de Zinédine Zidane ao serviço da seleção do seu país. “A sensação que tivemos no Mundial é ainda mais evidente hoje. Muitos jogadores tiveram problemas com o comportamento e as declarações de Kylian Mbappé, essa é a realidade. Ele afastou muita gente dentro da seleção francesa. O Mundial decorreu como decorreu, por isso é verdade que, quando se termina como melhor marcador e se tem um comportamento exemplar, como foi o caso do Kylian no Mundial, isso atenua, em certa medida, todas as críticas dentro do grupo. Mas este tipo de declarações irá prejudicá-lo”, completou Rothen.

Quem também se juntou ao debate foi Christophe Dugarry, antigo futebolista que representou França em 55 ocasiões. “São duas formas de entender o futebol que se confrontam, duas visões do futebol, dois egos diferentes. O que mais me incomoda é que há demasiado ‘eu’ nas declarações do Kylian. Isso deixa-me sempre um pouco desconfortável. Surpreende-me que ele fale tanto na primeira pessoa do singular, que se coloque tanto em destaque. Surpreende-me num desporto coletivo. Não ganhar nada coletivamente e destacar-se tanto individualmente incomoda-me. Incomoda-me pelo futebol de que gosto, pelo futebol que gosto de ver e pelo futebol de que desfruto hoje. O Mbappé é assim e isso também faz parte da sua força. Não percebo o que é que incomoda o Ousmane Dembélé. Se deixarem de ser amigos por causa disto, é porque a amizade não era assim tão forte. Tens o direito de brincar um pouco, de provocar um pouco”, rematou.