Mais de mil cineastas israelitas e 43 organizações israelitas de direitos humanos manifestaram esta terça-feira apoio aos autores do premiado documentário NAZA sobre o massacre em Gaza, no contexto de uma crescente campanha nacional de ameaças contra eles.
As organizações humanitárias apelaram, numa declaração conjunta, às autoridades israelitas para que cessem a incitação e as ameaças contra Yuval Abraham e Rachel Shor, bem como para que se abstenham de perseguir os cineastas ou as suas fontes oficiais dos serviços secretos militares israelitas que deram testemunhos sob anonimato.
“A resposta institucional ao filme e as ameaças contra os seus criadores são típicas de regimes ditatoriais”, diz a declaração assinada pelas organizações não-governamentais (ONG) Peace Now, Adalah, B’Tselem, Doctors for Human Rights Israel ou Breaking the Silence, entre outras.
Por sua vez, mais de mil cineastas israelitas assinaram, por sua vez, uma petição na plataforma coletiva de Atzuma a favor da “liberdade de expressão e criação”, apelando a outros para expressarem a sua solidariedade com Shor e Abraham.
“Nos últimos dias, assistimos a uma campanha sem precedentes de difamação e incitamento contra cineastas, e a distância entre isto e a violência e a ameaça física às suas vidas está a diminuir cada vez mais”, denunciam os artistas no manifesto.
Os cineastas defendem que “a principal função da arte e do jornalismo é refletir a sociedade em que operam, gerar diálogo e debate sem preconceitos, mesmo quando a realidade é difícil”.
Entre os signatários, segundo o jornal Haaretz, estão os cineastas israelitas de destaque Ari Folman – que realizou ‘Valsa com Bashir’ -, Shlomi Elkabetz e o realizador de documentários Ran Tal.
“Esperamos que o filme seja distribuído em Israel o mais rapidamente possível e que todos possam vê-lo, formar a sua própria opinião e gerar um debate genuíno e direto sobre a guerra em Gaza e as suas consequências, um debate que até agora mal ocorreu nos media e na sociedade israelitas”, acrescentam.
Ambos os grupos também rejeitaram o pedido do ministro da Cultura israelita, Miki Zohar, para retirar a cidadania de Abraham e Shor devido ao documentário.
As ONG também exigiram uma investigação israelita “séria” sobre o elevado número de vítimas em Gaza, incluindo civis – segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 74.000 palestinianos foram mortos e cerca de 8.000 continuam desaparecidos – e o acesso livre para jornalistas a Gaza (onde Israel não lhes permite o acesso desde outubro de 2023).
O documentário, produzido pelo jornal britânico The Guardian e que ganhou o prémio especial do júri no Festival de Cinema de Veneza no sábado, deve o seu nome ao acrónimo usado pelo serviço de inteligência israelita para estimar o número de civis que morrerão num ataque aéreo — por exemplo, “20 NAZA”.
Em 80 minutos, NAZA analisa a campanha de ataques sistemáticos de Israel no enclave palestiniano através do testemunho de 24 oficiais e soldados dos Serviços de Informações, que pormenorizam estratégias de espionagem telefónica e sistemas de inteligência artificial para identificar alvos.
Segundo denunciam os seus realizadores, este mecanismo funciona como um sistema em grande escala que provoca deliberadamente a morte de centenas de vítimas civis colaterais num único ataque.