O Festival Política, que decorre em Lisboa entre esta quarta-feira e sábado, vai exibir uma série de curtos filmes que dedicam olhares diversos à cidade de Lisboa.

“O cinema acaba sendo uma importante representação artística, acaba dizendo muito sobre o seu tempo, acaba sendo um registo histórico também”, assinala o cineasta brasileiro Carlos Mouta Confort, em declarações à Lusa.

Realizador de Um sentimento chamado Carnaval, que acompanha a instalação dos blocos de Carnaval de rua brasileiros em Lisboa, onde “este movimento surge como um símbolo de presença migratória, resistência e sentido de liberdade”, Carlos Mouta Confort observa que apropriar-se da cultura é também apropriar-se da rua.

Um sentimento chamado Carnaval é um de quatro filmes que o Festival Política vai exibir numa sessão chamada “Direito à Cidade”, agendada para esta quinta-feira, às 21h30.

Não há um só Carnaval brasileiro, mas, em Lisboa, as várias manifestações que lhe dão corpo uniram-se num momento só.

“Aqui elas se unem e acabam por fazer um Carnaval único”, nota Confort, destacando que estar na cidade é também utilizá-la como um local de convívio e não só de trabalho.

“Como é que eu posso me sentir um pouco em casa estando longe? Eu acho que essas manifestações representam isso”, realça, contando que “todos os brasileiros” com quem tem mais contacto “de alguma forma têm uma relação com o Carnaval muito particular”.

O sentimento de pertença é “chegar e dizer ‘essa é a minha cultura também'”, abrindo portas a “todo o mundo que queira participar da festa”.

Em Lisbone baas kora, de Filipe Barroso, o foco está noutra das muitas comunidades que habitam a capital, a oriunda do Bangladesh, junto da qual passou mais de um ano e meio em filmagens.

Tentado a perceber “como é que a comunidade estava a viver em Lisboa, principalmente com todos os ataques e falsas informações sobre o Bangladesh”, o realizador foi “logo de imediato” bem recebido.

“Era uma mosca na parede, como se fosse mais uma pessoa lá presente e deram-me muita liberdade de filmar”, relata à Lusa.

Encontrou interesse por parte da comunidade em “comunicar a verdade, comunicar o que é que se passava” e “um enorme desejo de se integrarem na cultura portuguesa, na vida portuguesa”, afirma.

Filipe Barroso nunca foi ao Bangladesh, mas em Portugal só encontrou “boas pessoas, de coração”, e com “desejo de colaborar, de seguir as regras, de contribuir para a sociedade portuguesa”.

Em troca, pedem que as aceitem “como elas são”, mas o realizador “infelizmente” não encontrou “esse respeito” na sociedade acolhedora.

Além de Lisbone baas kora e Um sentimento chamado Carnaval, a sessão – que vai decorrer no Mercado Santa Clara – vai exibir ainda os filmes Irregular, de Julio Moreira, e Catálogo de uma cidade sem teto, de Diogo Cunha.

Descartado pela gestão cultural da Câmara Municipal de Lisboa, onde costumava realizar-se no mês de abril, o Festival Política foi apoiado pela Junta de Freguesia de São Vicente, onde a 10.ª edição vai acontecer, entre hoje e sábado, com um programa inteiramente gratuito e tendo como tema central os 50 anos da Constituição da República Portuguesa.