Quase dez anos depois de Lincoln no Bardo, o escritor norte-americano George Saunders lançou um novo romance. Vigília é um livro pequeno (a edição portuguesa da Relógio d’Água tem apenas 168 páginas), que recupera o tema da morte, explorado na obra anterior, vencedora do Booker Prize em 2017, para abordar uma questão premente: as alterações climáticas e o contributo da indústria petrolífera para o aquecimento global. Os dois assuntos cruzam-se de maneira inesperada na figura de K. J. Boone, um magnata (fictício) do petróleo, que se encontra à beira da morte num quarto da sua mansão em Dallas, no Texas.

Boone é a incarnação do “sonho americano”. Oriundo de uma família do Wyoming com poucos recursos, construiu a pulso uma carreira de sucesso no setor da extração e da distribuição de petróleo, um dos mais lucrativos dos Estados Unidos, que o tornou rico, famoso e influente. No seu caminho para a notoriedade, Boone não olhou a meios para atingir o seu fim. Determinado, confiante e controlador, fez o que foi preciso para ter acesso a oportunidades que, à partida, lhe estavam vedadas. Como se fosse um “tanque” (um nome que a mulher usava para o descrever), passou por cima de tudo o que se atravessou no seu caminho, e para que pudesse manter o seu império petrolífero e a sua influência intactos, mentiu com todos os dentes que tinha, incluindo durante discursos públicos, contratou cientistas duvidosos e divulgou notícias falsas sobre o impacto da exploração e da queima de petróleo no planeta. Mas chegou ao “topo dos topos”, tão alto quanto alguém é capaz de chegar.

Boone pode não ter sido o mais honesto dos homens, mas fez “o que tinha de ser feito” e ninguém pode culpá-lo por isso. Porém, muita gente o culpa. Durante a sua convalescência num quarto secundário da sua casa, é visitado por diferentes figuras (com traços cómicos) que tentam, sem sucesso, levá-lo a arrepender-se de ter contribuído, ao longo dos anos, de forma consciente e sistemática para o problema das alterações climáticas. Enquanto isso, o espírito de Jill “Boneca” Blaine mantém-se por perto. A antiga telefonista do Indiana morreu quando o carro do marido, Lloyd, que tinha sido armadilhado por um inimigo, explodiu. Naquele dia, o casal tinha trocado de carros e Jill morreu por engano. Após a sua morte, decidiu dedicar o seu tempo a consolar os que estão prestes a passar para o “outro lado” e a procurar a “elevação”, um estado de graça espiritual que só é possível alcançar após o esquecimento total da vida na terra. Boone é o 343.º indivíduo que tenta ajudar, mas, ao contrário dos anteriores, o magnata não quer ser consolado. Simplesmente não está para aí virado.

A obstinação que o empresário revela perante Jill é a mesma com que recebe os espíritos que procuram, em vão, uma admissão da sua culpa em relação à “catástrofe” que assola o mundo. As acusações somam-se umas às outras, mas o magnata recusa-se a ceder. Afinal, o que é que querem que ele faça? Será que sabem quanto petróleo é necessário por ano para alimentar só os Estados Unidos? Alguém tem de o extrair, certo? E mesmo que os cientistas da “Brigada da Histeria” estejam corretos, a transição energética até 2040 não vai fazer qualquer diferença. Portanto, é seguir em frente. Quanto ao próprio, sabe que deu sempre o seu melhor. Não fez nada de mal e não vai deixar nada de mau. O mundo é um lugar melhor por ele ter existido.

A certeza com que defende interiormente as suas crenças é abalada com a chegada da filha, Julia, que revela ao pai catatónico que sabe o que ele fez e que está desiludida. Porém, apesar dos incentivos de Jill, só quando está prestes a morrer é que o Boone percebe o mal que causou. Quando desperta da morte para a nova vida espiritual, decide juntar-se a um dos seus acusadores e embarcar numa missão pela iluminação de almas perdidas como a sua.

Título: “Vigília” | Autor: George Saunders | Tradutora: Alda Rodrigues | Editora: Relógio d’Água | Páginas: 168

A forma como Saunders escolheu abordar a questão das alterações climáticas é, sem dúvida, original. Porém, falta profundidade à narrativa. As personagens são planas e desinteressantes, e dificilmente causam alguma reação no leitor. K. J. Boone tem obviamente um caráter duvidoso, e é claro que a sua trajetória profissional não trouxe nada de bom ao mundo, mas, tal como é apresentado, não passa de um velho rabugento e trambiqueiro com a mania das grandezas. Jill “Boneca” Blaine está no centro de algumas das melhores passagens do livro, como quando, após mergulhar numa espiral de memórias, viaja até ao Indiana em busca do marido, Lloyd, e descobre  que ele “seguiu em frente”, tanto na vida como na morte. Mas mesmo este momento é demasiado breve e tão pouco desenvolvido que não acrescenta praticamente nada à história de Jill, cuja existência contrasta fortemente com a do homem que vela. Ao contrário de Boone, que viveu até à velhice, Jill morreu cedo de mais, antes que soubesse quem era ou o que queria da vida. Já o magnata usou seus anos na terra para contribuir para a destruição do planeta.

De maneira geral, a ideia que fica após a leitura de Vigília é a de que as personagens, pouco desenvolvidas, não têm nada a oferecer. A sua construção falhada deve-se, em parte, ao facto de o romance ser maioritariamente composto por diálogo focado no negacionismo de Boone e no seu contributo para as alterações climáticas. O papel das petrolíferas no aquecimento global é referido várias vezes, mas nada é verdadeiramente explicado, apenas sugerido, e a mensagem acaba por se perder no meio do ruído.

Para quem gostou de Lincoln no Bardo, um romance louvado pela originalidade e pela forma inovadora como aborda os temas da morte e do luto, Vigília, o mais recente romance de George Saunders, será certamente uma desilusão. Falta-lhe força e profundidade e, por isso, falha enquanto sátira e obra de ficção, e também enquanto alerta e chamada de atenção.