O Campeonato do Mundo, no Canadá, acabou por ter uma passagem discreta de Portugal, os Europeus que se realizavam apenas uma semana depois na Eslovénia também não levantavam propriamente expetativas muito elevadas entre a delegação nacional, que neste caso deixou cair João Almeida e António Morgado e apostava em Afonso Silva (Tavira) e Pedro Silva (Boavista) além de Nelson Oliveira (Movistar) e Tiago Antunes (Efapel). Ainda assim, dentro de uma prova de fundo de elites que deveria ser escrita por outros nomes, a aposta passava pela maior competitividade possível no atual momento da temporada.
“O Campeonato da Europa apresenta um nível de exigência muito elevado, com percursos e características próprias. As convocatórias de Elites e Sub-23 foram definidas procurando reunir os atletas mais adequados ao perfil das provas, ao momento competitivo e às diferentes funções previstas na estratégia coletiva da Seleção”, destacara Valter Sousa, selecionador de Elites e Sub-23 que é também o coordenador da Seleção, antes da competição de juniores, que teve Guilherme Santos (17.º) e Gonçalo Costa (19.º) no top 20 da prova integrados no grupo que chegou com 15 segundos de diferença em relação ao vencedor, Elias Dybin.
“Existiram algumas alterações na convocatória. João Almeida e António Morgado são dois atletas de enorme qualidade e importância para o ciclismo português mas, tendo em conta o momento específico de cada um e o diálogo mantido com os próprios atletas, considerámos que esta seria a decisão mais adequada para esta competição. Mas as escolhas não colocam em causa o valor de quem ficou de fora. O objetivo é apresentar grupos competitivos, coesos e preparados para representar Portugal da melhor forma”, salientara.
A parte tática também fazia parte dos planos do selecionador nacional, que conseguiu colocar Tiago Antunes numa fuga que contava também com Luka Mezgec (Eslovénia), Jochem Kerckhaert (Países Baixos), Fabian Weiss (Suíça), Josef Cerny (Rep. Checa) e Jakob Söderqvist (Suécia). Não era possível ver grande futuro à tentativa de andar na frente, não só por ser uma prova longa mas também pelos corredores em causa, mas o grupo chegou a ter cerca de 1.30 minutos de vantagem até à primeira passagem por Mozjanca, uma ascensão de 2,1 quilómetros com pendente média de 10,2% com rampas que chegavam aos 15,8%. Após a primeira subida, sobravam apenas Antunes, Kerckhaert e Weiss. Antes da segunda, Antunes e Weiss. Na antecâmara de nova passagem pela zona mais dura, só Antunes, o último a ser neutralizado a 82 quilómetros.
As principais seleções começavam a tentar jogar na frente, com a Bélgica e a Itália a puxarem na frente e a fazerem os primeiros testes aos principais favoritos, com o espanhol Juan Ayuso a ficar muito cedo para trás sem capacidade de seguir o ritmo na frente (tal como Nelson Oliveira) e com o suíço Jan Christen a passar para a frente para mexer ainda mais com a corrida. No final da segunda subida, o helvético já tinha sido de novo apanhado mas Ayuso estava de vez fora da lista de possíveis vencedores. Na terceira, com Bélgica, Itália e França a puxarem para deixar de fora o dinamarquês Mads Pedersen e Nelson Oliveira a ficar como único corredor português depois de Tiago Antunes ter “afundado”, ainda houve depois uma tentativa de ataque do francês Pavel Sivakov mas acabou por ser neutralizada. A duas voltas do final, ataques reais… zero.
O número de corredores que chegavam à aproximação da parte a subir do circuito ia baixando, agora com a Eslovénia a dar também sinais de trabalho para Primoz Roglic, mas Nelson Oliveira conseguia sempre dar sinais de “resistência” para se colocar melhor no grupo quando chegava Mozjanca. Neste caso, as mexidas já estavam a ser diferentes, com Christen a partir mais cedo num ritmo alto que estava a quebrar bem mais o número de corredores colados à frente com grande mérito do belga Maxim Van Gils. Giulio Ciccone assumiu depois a batuta, Remco Evenepoel contra-atacou e, quando Primoz Roglic tentava ainda colar, o belga acabou por sofrer uma aparatosa queda numa curva antes de se levantar, ver a bicicleta e voltar à estrada.
Ciccone ficou sozinho na frente mas a formação belga liderou a perseguição ao italiano acreditando que, mais atrás, Remco conseguiria voltar a colar. Foi o próprio transalpino que percebeu não haver grande sentido em forçar o ritmo naquela fase e, no meio dessas confusões, Remco foi para a frente com Ciccone na roda. Não havia qualquer aparente dano da queda no belga, talvez até fosse demasiado cedo para se atirar assim para a liderança. Para ele, estava no momento. E foi assim até ao início da quinta e última volta, com o grupo de 10/15 corredores que ia na perseguição a dar sinais de que podia partir com um atraso que já ia nos 27 segundos, um “fosso” que ficava demasiado longo com a ideia de uma medalha de bronze ainda na mira.
Remco Evenepoel, que é aquele tipo de corredores que não gosta propriamente de andar a puxar sozinho na frente, nunca deu sinais de dar o lado para Ciccone seguir na frente, dando mostras de que estava confiante de que conseguiria resolver no 1×1 contra o italiano. Mais atrás, Christian Scaroni, outro transalpino, soube ir percebendo as movimentações para se soltar, saindo na perseguição à dupla da frente num movimento que deixou o francês Mathys Rondel para trás e ficando a cerca de 40 segundos da liderança… sem que Ciccone soubesse que tinha um companheiro que podia funcionar como ajuda. Tudo ficou reservado para os últimos metros, com Ciccone a atacar numa curva por dentro antes da recuperação de Remco Evenepoel que chegou mesmo ao título europeu depois de uns Mundiais para esquecer ao lançar a bicicleta para a frente.
Desta forma, Remco Evenepoel conseguiu alcançar o único título pela Bélgica que ainda lhe faltava, depois de ter ganho o Mundial de 2022 e os Jogos Olímpicos de 2024. Em paralelo, o belga foi também campeão olímpico (2024), mundial (2023, 2024, 2025 e 2026) e europeu (2019 e 2025) de contrarrelógio.