Poeta, ensaísta, tradutora, professora de clássicos e, desde esta quinta-feira, 8 de outubro de 2026, Prémio Nobel da Literatura. Anne Carson, escritora canadiana, é a vencedora deste ano e é conhecida por modernizar a antiguidade, diz-nos o editor que primeiro a publicou em Portugal.
Carson nasceu em Toronto a 21 de junho de 1950 e publicou o primeiro livro, Eros, o Amargo e Doce, em 1986. O livro fala de amor na literatura e filosofia da Grécia Antiga e a versão portuguesa é das Edições 70 e só foi publicada entre nós no final de 2024.
A maioria das obras traduzidas para português faz parte do catálogo da editora independente não (edições). Autobiografia do Vermelho foi o primeiro livro escolhido pelo editor João Concha, em 2020. Seguiram-se A Beleza do Marido, Vidro, Ironia e Deus, Águalisa e Homens nas Horas Vagas, que chegou ao mercado este ano.
Quem é Anne Carson, qual o estilo da escritora, que livros estão disponíveis em português e por onde começar. A explicação é dada ao Observador por João Concha.
Como descreve Anne Carson?
Precisaríamos de muitas palavras para descrever Anne Carson e tenho a certeza de que seria, ainda assim, impossível chegar ao seu âmago. Correndo o risco de dizer uma banalidade, Anne Carson cruza, mistura ou confunde géneros literários. Portanto, desde a tradução ao ensaio, passando pela poesia, ela é tudo isto ao mesmo tempo nos seus textos. Isso é o que pode eventualmente distingui-la de outros autores. Também é singular o facto de ela ser uma classicista que traz para o mundo contemporâneo, para um contexto atual, uma série de referências da antiguidade. Reinventa, reutiliza, recorta, cola, monta à sua maneira e à sua forma.
O João é o editor da maioria das obras da escritora em Portugal. Como é que a descobriu e porque é que lhe interessou publicá-la cá?
Descobri-a na língua original, em inglês, e também numa tradução em espanhol. Tornou-se rapidamente uma das minhas autoras, se não a minha autora contemporânea predileta. Quis editá-la por ser tão singular e porque ainda não tinha [em 2020] qualquer obra editada cá.
Como foi o processo para adquirir os direitos e, sobretudo, para traduzir textos tão complexos?
Relativamente à edição, não foi especialmente difícil, embora o contacto tenha sido feito com os agentes literários e todas as pessoas que fazem essa mediação entre a autora e a editora. Em termos de tradução, isso sim, é bastante difícil. E aqui tenho que agradecer e reconhecer o trabalho do Ricardo Marques, que traduziu comigo a primeira edição da Anne Carson em português, além do trabalho da Tatiana Faia, que traduziu dois livros, e do Rui Cascais Parada, que traduziu mais dois. Foram eles que permitiram que a Anne Carson viesse do inglês para o português e estivesse disponível aqui.
Neste momento, quantos títulos têm traduzidos na não (edições)?
São cinco. A Beleza do Marido (2020) está esgotado, mas os outros quatro estão disponíveis, com Homens nas Horas Vagas (2026) atualmente na segunda edição.
Simultaneamente foram publicados outros livros da autora noutras editoras.
Sim, foi traduzido um texto que é também uma peça de teatro, Antigotriz, pela Companhia das Ilhas, e foi traduzido Eros, o Amargo e Doce pela Edições 70.
Eros, o Amargo e Doce é a primeira obra publicada da autora. Porque optou por não editar esse livro?
Como editor, fui escolhendo aqueles livros que me interessavam mais publicar. Comecei pelo meu preferido, que é Autobiografia do Vermelho. Achei que eventualmente seria um pouco mais acessível como porta de entrada no universo da escritora. Sendo um romance em verso, seria o livro certo para começar a mostrar Anne Carson em português. Ainda assim, é um livro bastante denso e com uma série de questões complexas. Aborda essa passagem da antiguidade para a contemporaneidade, além das questões queer associadas ao protagonista que é o Gerião, um herói que é um monstro vermelho, mitológico mas real.
Para quem nunca leu nada da autora, Autobiografia do Vermelho será o livro mais indicado para começar?
Sim, é uma boa porta de entrada, mas para quem quer conhecer a diversidade formal e estilística de Anne Carson, talvez Homens nas Horas Vagas seja também o livro certo. É uma espécie de prova ou demonstração de tudo aquilo que ela consegue fazer.
Vai publicar mais algum título da autora?
Neste momento, não há nenhum livro garantido como novidade a lançar.
Conhece a autora pessoalmente?
Enviei-lhe os livros quando os publiquei, mas nunca tivemos contacto direto. A mediação é sempre feita através de agentes literários.
É uma autora que gosta de estar resguardada?
Sei que já recusou alguns convites para participar em festivais em Portugal. É uma figura relativamente discreta, um pouco arredada de uma série de circuitos mais comerciais ou mediáticos. Aliás, há uma palavra que ela usa mais do que uma vez em inglês, “elusive”, que poderia ser traduzida como fugidia ou misteriosa. Acho que se aplica também a Anne Carson.
O nome da escritora canadiana surgia nas apostas para o Prémio Nobel da Literatura, mas também sabemos que estas previsões são sempre muito relativas. Como recebeu a notícia de ter agora no catálogo a vencedora do Nobel?
Posso dizer que foi com alguma surpresa. Quando comecei a editar Anne Carson, não me recordo de ela estar na lista de apostas para o Nobel. Nos últimos anos foi aparecendo como possível vencedora, é verdade. Ainda assim, não parece uma escolha muito evidente, muito óbvia. É uma escritora bastante experimental.
Nos próximos dias vai certamente aumentar a procura pelos livros da escritora. Estão preparados para dar resposta?
Não sei se será possível fazermos mais edições, mas gostaria muito. Já aconteceu com outros premiados os direitos irem parar de editoras mais pequenas a grandes grupos editoriais, é sempre uma possibilidade. Independentemente do que suceder, fico feliz que o trabalho dela tenha sido divulgado cá, pela não (edições) e por outras editoras que também a publicaram.