Importa esclarecer, antes de avançarmos, que não sou, nem de perto nem de longe, um entendido na matéria. Dito isto, parece-me possível destrinçar em Ralph Anderson — a personagem principal da extraordinária série (inspirada, como sempre, num livro de Stephen King) The Outsider — os motivos pelos quais este subgénero literário encarna, em boa medida, a essência da literatura. Ao longo da série, veremos o Inexplicável amontoar-se em redor deste pobre detetive que, a páginas tantas, chega a pedir permissão ao seu psicólogo para acreditar no que não consegue explicar, sendo o momento decisivo do enredo a cena em que o detetive Sablo lhe explica que Ralph quer compreender o que se está a passar, ao passo que Sablo deseja apenas que tudo acabe.
Esta ideia é central na literatura de terror porque é decisiva também em toda a literatura que mereça esse nome. A filosofia, a política e a ciência, no fundo, todos os sistemas de pensamento sério, procuram articular e compreender, ao passo que a literatura visa sobretudo apontar para o mistério insondável que dá pelo nome de vida.
Ora, é também este mistério insondável que está no centro de Que o Inferno Pareça Aqui, onde acompanhamos a história de uma série de mortes racionalmente inexplicáveis ocorridas em Guimarães, durante a semana das Festas Nicolinas, sendo o principal suspeito por tamanha mortandade um pacato dermatologista.
Zamith aproveitará o seu conhecimento profundo da arquitetura do horror para construir uma história que, à boleia de espíritos malignos, descreve argutamente a insularidade minhota (na verdade, a insularidade de todo o Portugal não lisboeta), a adolescência contemporânea e a ascensão da extrema direita.
E talvez esteja no deslocamento da trama, habitualmente situada em cidades remotas dos Estados Unidos e Inglaterra, para Guimarães o maior motivo de interesse neste sucessor de Coisas Ruins (Suma de Letras, 2025). Não pela simples actualização lusitana da linhagem, mas porque, de facto, a iconografia católica e a incorporação de ritos pagãos nas tradições portuguesas, ainda para mais com a banda sonora de caixas e bombos, permite a construção de um universo habitado por espíritos que a nossa sobriedade irrefletida tende a olhar de soslaio, até ao momento em que o monstro nos entra por portas que julgávamos trancadas. Nesse sentido, torna-se evidente o mérito de Zamith ao fazer com que as personagens interpretem um imaginário (qual imaginário, mundo) medieval à luz das séries da Netflix e da HBO, repetidamente invocadas.
Título: “Que o Inferno Pareça Aqui” | Autor: João Zamith | Editora: Penguin | Páginas: 425
O papel da extrema direita no romance (várias personagens, sobretudo as mais jovens, pertencem ao 1128, um partido omnipresente nas redes sociais, que pretende acabar com a bandalheira da imigração oriunda de países do Indostão) é aqui, então, o de propor uma interpretação simplista para um fenómeno demasiado complexo para ser entendido, quanto mais combatido. E, tentando evitar ao máximo spoilers, ao longo das páginas, vamos percebendo que a tentativa de instrumentalização da presença fantasmagórica serve apenas para alimentar um monstro cuja fome aumenta com o ódio e que acabará por comer todos por igual.
Logo na epígrafe, João Zamith cita o pregão a São Nicolau de onde extrai o título do romance mas, interessantemente, também o comunicado da comissão de Festas Nicolinas divulgado em 2020 onde a referida comissão contesta as restrições impostas por conta do COVID-19. Nele lemos: “O perigo inerente a uma tradição diz-nos que um corte pode ser fatal. Não se passa um testemunho sem um estafeta. Sem a realização das Festas Nicolinas 2020, estão em perigo as Festas Nicolinas 2021 e sucessivas”. Estas três frases constituem, como Zamith bem intuiu, um tratado acerca do que é uma tradição, mas, à medida que avançamos na história, percebemos que são também uma extraordinária definição de identidade. A partir do momento em que consentimos que um elo se destrince, perdemos o controlo que imaginávamos ter sobre uma comunidade. Isto, claro, poderia ser um argumento contra a perda de identidade nacional, a fazer fé em partidos como o supracitado 1128, mas é muito mais um argumento sobre como a ruptura de vínculos sociais acicata transformações que rapidamente corroem qualquer resquício de empatia.
Dito isto, o romance de Zamith por vezes parece sofrer de uma ambição desmesurada e, ao procurar tratar tudo ao mesmo tempo, sentimos em alguns momentos que a história negligencia as personagens em detrimento da estrutura.
Esta vontade disruptiva e de confluência de vários ingredientes, que, por sinal, tanta falta faz à literatura portuguesa contemporânea, parece em alguns momentos escapar ao domínio do escritor, tornando-se isso particularmente evidente nos capítulos intitulados “Memórias Póstumas de Pedro Leal”. O referido Pedro Leal é a primeira vítima que nos é apresentada na história, sendo o seu homicídio o elemento central da narrativa. E, numa alusão explícita às Memórias Póstumas de Brás Cubas, Zamith permitirá à personagem narrar as suas últimas horas de vida a partir do além. Isto revela arrojo e vontade de inovação, mas, de um ponto de vista formal, não parece resultar, uma vez que estes textos são escritos por um defunto que, mais do que preocupado em contar a sua história (A quem? Como? Para quê?), parece querer tornar-se escritor, estando esses capítulos polvilhados de rasuras dispensáveis que não servem nenhum propósito (além de que isso pressuporia que no Além haveria papel e canetas) e de momentos de experimentação formalista que imaginamos não serem uma prioridade para um morto que dificilmente encontrará editora.