Um quarto lugar é sempre um quarto lugar, um quarto lugar no atual contexto do Mundial de Superbikes, em treinos, qualificações ou corridas, é sempre muito mais do que um quarto lugar. Foi por isso que a moldura humana de milhares de pessoas que se deslocou ao Estoril esta sexta-feira festejou quase como um triunfo o tempo conseguido por Miguel Oliveira na última volta da sessão vespertina, com o português a ser o quarto mais rápido do dia nos tempos acumulados apenas atrás das Ducati que têm dominado por completo o ano de 2026. O Falcão voltou a abrir asas, mesmo num mundo onde compete para ser o “melhor dos outros”.

O melhor ficou guardado para o fim: Miguel voltou a voar e acaba treinos livres no Estoril em 4.º (ou seja, como “melhor dos outros”)

“Hoje é só sexta-feira. Não quero dar grande importância a isso ou ser otimista mas estamos dentro do nosso objetivo: cinco primeiros, diria. Seria um bom resultado e realista”, assumiu o piloto da BMW depois do primeiro dia de regresso ao Estoril, onde já não corrida há 14 anos quando andava pelo Mundial de Moto3.

“Na qualificação vamos verificar um pouco o que poderemos fazer para a competição, a evolução durante a semana até ao Grande Prémio [as corridas] é o objetivo. Estes fins de semana nas Superbikes, mesmo nas corridas em casa, não se aproximam do que eu tinha de fazer na MotoGP, onde tinha um horário louco… Lá no MotoGP pilotava-se quando se tinha tempo livre, vamos colocar assim. Algumas das corridas foram caóticas”, comentou ainda a propósito daquela que foi a sua realidade durante sete anos, antes de fazer agora em 2026 a sua estreia no Mundial de Superbikes, partindo muito atrás de outros pilotos e marcas.

Este sábado de manhã, com as bancadas a darem uma falsa sensação de pouco público quando na verdade havia muitos que estavam apenas concentrados nas zonas mais próximas das boxes em busca de um breve momento em que pudessem ver, cumprimentar ou tirar uma fotografia com o ídolo português, o resultado foi ligeiramente abaixo mas Miguel Oliveira conseguiu confirmar aqueles que eram os principais objetivos: ficar no top 5 e melhorar em relação ao que fizera na véspera. E não demorou a mostrar do que era capaz.

Logo no primeiro momento de time attack, e quando parecia estar a perder tempo nos setores intermédios, o Falcão conseguiu baixar para a fasquia do 1.34, algo que esteve longe de alcançar esta sexta-feira onde só na última volta da sessão vespertina chegou ao 1.35. Estava dado o mote para mais um momento em que era um dos “melhores dos outros”, tendo em conta o domínio do já campeão Bulega e de Iker Lecuona. E só não foi mesmo o melhor porque Alex Lowes surpreendeu tudo e todos ao fazer 1.34,430 com a sua Bimota, ficando em terceiro da grelha à frente de Alberto Surra (1.34,511) e Miguel Oliveira (1.34,549). Mais do que a segunda linha na partida, o português tinha mais um bálsamo de confiança para o que se seguia.

O formato do circuito do Estoril não era o melhor para quem partia no meio, havendo essa preocupação de fugir a tudo o que fosse confusão nas curvas iniciais para a partir daí aproveitar as vantagens de colocar em corrida os tempos que encontrou nos treinos livres e na qualificação. Foi isso que o português conseguiu: não quis forçar no arranque, desceu à sexta posição, passou de novo para quinto atrás de Surra, esperou que Alex Lowes fosse superado pelo italiano para chegar ao quarto lugar ainda na segunda volta. Lá na frente, Iker Lecuona ainda rodou na frente mas Bulega não demorou a assumir a liderança com um ritmo que voltou a fulminar recordes de tempo numa demonstração de força de quem já se sagrou campeão em 2026.

A partir daqui, sem que Alex Lowes desse sinais de poder regressar à luta pelo top 4, havia duas lutas em curso: Bulega com Lecuona, com o espanhol que deu nas vistas no último fim de semana a conseguir dentro do possível superar o ritmo do companheiro de equipa, Surra com Oliveira, com o português a ir tentando minimizar a distância de um segundo para o transalpino que também pertence à Ducati. Só mesmo as diferenças foram mudando nessas batalhas, com o desgaste da BMW do português a fazer com que o gap para a moto do piloto da Motocorsa Racing a subir para os dois segundos, numa corrida 1 que só teve mesmo emoção dos cinco primeiros lugares para baixo. Apesar de não ter chegado ao pódio, Miguel Oliveira teve mais do que uma vitória – e sobrou essa “medalha” de ser o “primeiro dos outros” na corrida 1.