A ideia de transformar Óbidos num laboratório de teste de políticas culturais, como atribuir um passe cultural e avaliar os seus impactos durante 15 anos, foi lançada esta terça-feira no FÓLIO pelo Conselho Estratégico da Literatura.
Óbidos “pode ser um caso de estudo” de políticas culturais como “a criação de um passe mensal de 100 euros, que só podia ser gasto em cultura”, e que seriam oferecidos a jovens de 15 anos, durante cerca de 15 ou 50 anos, para, no final desse prazo, “avaliar que impactos esse valor tinha tido na formação de hábitos culturais desses jovens e das suas famílias”, sugeriu esta terça-feira o poeta Pedro Freitas, um dos conselheiros fundadores do Conselho Estratégico da Literatura e do Conhecimento.
“Transmitiriam aos filhos o hábito de lerem livros, irem ao cinema, ao teatro?” questionou, defendendo ser “importante conhecer os resultados efetivos das medidas e avaliar o seu alargamento a todo o país, em parceria com as autarquias e equipamentos culturais”.
Este é um dos exemplos de “reflexão estratégica” que a autarquia de Óbidos pretende que resulte do órgão consultivo apresentado esta terça-feira no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, e que terá como missão prestar aconselhamento ao município na criação de medidas que consolidem a literatura como política pública.
“Consideramos que a literatura tem o poder de transformar os territórios”, afirmou o vice-presidente da autarquia, Ricardo Duque, apostado em transformar a vila onde se realizam anualmente dois festivais literários [o FÓLIO e o Latitudes], “num território de referência na reflexão sobre cultura, leitura, conhecimento, democracia e desenvolvimento”.
“Quem tem responsabilidades públicas é também um sinal de humildade reconhecer que não domina todos os assuntos e recorrer a pessoas que, pelo seu percurso e experiência, possam contribuir para a criação de uma estratégia cultural integrada”.
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No caso de Óbidos a escolha recaiu na presidente da Fundação José Saramago, Pilar Del Rio, no produtor cultural e dizedor de poesia Pedro Freitas e nos escritores José Luís Peixoto, Mia Couto, Afonso Cruz, Valter Hugo Mãe, Tatiana Salem Levi, José Eduardo Agualusa, Dulce Maria Cardoso e Gonçalo M. Tavares.
Ao conselho caberá contribuir para transformar Óbidos “não apenas numa vila com programação cultural, mas sim num território criador de políticas públicas” que possam vir a ser replicadas a nível nacional e fomentar o debate nacional e internacional.
Territórios como Óbidos “têm um grande potencial de atração de pessoas de todo o mundo”, afirmou José Luís Peixoto, defendendo que o turismo e a literatura podem ser alavancas para potenciar “um conhecimento mais aprofundado da sua história”.
O município pretende, através do conselho estratégico recém-criado, avaliar áreas de intervenção como a leitura e formação de públicos, a internacionalização, a criação artística ou a avaliação de indicadores que sustentem a continuidade da estratégia perseguida pela autarquia que investe 17% do seu orçamento na área da cultura, atribui anualmente um cheque-livro a todos os alunos do concelho e institui a gratuidade de todos os eventos para os munícipes de Óbidos.
O novo órgão consultivo deverá ainda ajudar no suporte institucional à candidatura da vila a Capital Portuguesa da Cultura 2028, anunciada oficialmente em junho deste ano.
Além de Pedro Freitas e de José Luis Peixoto a apresentação do conselho estratégico contou esta terça-feira com Pilar Del Rio, numa conversa integrada na programação do FÓLIO, que decorre até ao próximo domingo.
O festival realiza-se desde 2015, ano em que a vila do distrito de Leiria passou a estar integrada na Rede de Cidades Criativas da UNESCO, como Cidade da Literatura.