Derrota com o Manchester City mesmo reduzido a dez após expulsão de Phil Foden, derrota com o Brighton na Taça da Liga depois de uma vantagem de dois golos, empate diante do Fulham que acabou por ser quase um mal menor por ter surgido em cima do minuto 90, novo empate na receção ao Tottenham consentido nos descontos a jogar mais um. O Manchester United até pode ter iniciado uma nova era com o técnico que era na última temporada interino, Michael Carrick, e pode ter andado no mercado em busca de caras novas que pudessem dar outro equilíbrio ao plantel (Carlos Baleba, Tielemans e Andrey Santos) mas parece que não sai de uma espécie de Dia da Marmota que chegou para ficar em Old Trafford. E não fica por aí.
Depois dessa última igualdade diante do Tottenham, equipa que ainda não ganhou esta época apesar de todo o investimento feito (contando com aquilo que terá de pagar ainda no início da próxima temporada são mais de 400 milhões de euros…), os red devils confirmaram aquele que está a ser um dos piores arranques dos últimos tempos na Premier League. Mais: com apenas seis pontos em sete partidas, o clube teve aquele que foi o início menos conseguido das últimas quatro décadas. Era também por isso que, mais do que se tinha visto no final da era Ruben Amorim, a contestação era cada vez maior entre os adeptos do United. E voltavam as vozes de fora a falar sobre o momento da equipa, neste caso do antigo avançado Wayne Rooney.
“Olhamos para aquilo e vemos que o Bruno Fernandes está farto. Acho genuinamente que ele parece estar a pensar: ‘Lá vamos nós outra vez’. Há um limite de vezes em que isso pode acontecer. Ele tem carregado a equipa mas às vezes é preciso tirá-lo dessa posição, desse papel, para voltar a respirar. Sinto que agora se nota a tensão a acumular-se e vai haver uma explosão com ele se isto continuar assim. Ele não tem medo de dar a cara e expressar a sua opinião. Portanto, haverá essa explosão se as coisas continuarem como estão. Nesta fase é claro que a equipa precisa de ter três elementos no meio-campo porque estão a ser superados em corrida e em jogo. Temos [Kobbie] Mainoo e [Youri] Tielemans, que não são os mais rápidos nem os mais móveis, a tentar cobrir toda a largura do campo como dois médios, e não conseguem fazê-lo”, comentara.
O próprio Michael Carrick, antiga figura do clube, puxava dos galões desse “estatuto” para pedir tempo entre a contestação crescente que ia sentindo. “Quando as coisas não correm bem de acordo com o planeado, eu percebo, por vezes, a reação. Obviamente, dói. Dói muito. Não é uma coisa simpática de se passar mas, por vezes, é o que é. É claro que conseguimos recuperar, somos mais do que capazes de o fazer. Temos apenas de ser um pouco mais espertos, em determinados momentos, e mais teimosos e fortes em certas coisas. Sei que não está a correr bem, que parece um desastre, mas temos de saber lidar com as coisas difíceis. O treinador que ganhou a liga no ano passado está lá há muito, muito tempo, por exemplo”, recordou o inglês.
Era por isso que o encontro em Madrid frente ao Atlético para a Liga dos Campeões era tão importante. Foi por isso que, depois de mais uma derrota que começou a ser construída com apenas 52 segundos por Pablo Barrios (Lookman fez o 2-0 final aos 79′, já depois da expulsão de Leny Yoro), tudo “rebentou” de vez.
Detonador? Lisandro Martínez. O central argentino, que voltou na última temporada ao ativo depois de uma grave lesão, não se coibiu de criticar de forma aberta vários setores do clube, a começar pelo próprio diretor de futebol, Jason Wilcox. “Foi uma exibição muito fraca. Tenho de me controlar… Mas é o reflexo exato no espelho daquilo que é o nosso clube neste momento. Fizemos uma época fantástica no ano passado e agora esperamos mais de quem está acima. Precisamos de mais jogadores para competir. Muitas equipas reforçam-se com muitos jogadores, tal como o Atl. Madrid, que tem uma equipa excelente e mereceu vencer. Esperava mais de toda a gente. Mais investimento, sem dúvida. Espero mais do nosso diretor técnico [Jason Wilcox], para ser sincero. E também dos jogadores, claro que temos de fazer mais. Mas é importante fazer uma equipa forte para correspondermos a este tipo de noites”, comentou o defesa na flash interview.
“É algo geral. Na época passada criámos uma base e demos tudo para criar uma equipa incrível mas isto… É irritante, desapontante. Chego aqui e não vejo a equipa a tentar arranjar soluções. Treinador? Não me parece que tenha culpa. Faz o melhor que pode. Mas cada época é diferente. Não podemos fazer o que fizemos na época passada. Já toda a gente sabe como jogamos, o que fizemos no passado. E se não mudamos… É um grande problema. Mas mudar, mudar e mudar de treinador… E que tal fazer o mesmo noutras áreas? Não posso dizer mais do que isto. É fácil apontar o dedo sempre ao treinador e aos jogadores mas temos de olhar para dentro do clube”, acrescentou ainda o argentino, visando Jason Wilcox.
“Ainda não vi as declarações mas depois de um jogo como este em que tentas alcançar algo e ficas desapontado, às vezes pode ser um bocadinho emocional. Não vi e não acho que seja a melhor altura para comentar. Todos nos importamos. Agora é a altura para nos unirmos e trabalharmos. Precisamos de melhorar algumas coisas, outras estamos a fazer bem, mas temos de ganhar jogos”, referiu depois de forma muito fugaz Michael Carrick, tentando evitar incendiar ainda mais um balneário que ficou a ferro e fogo após a explosão de Lisandro Martínez. Mais: Amad Diallo, numa mensagem no Snapchat, fez questão de escrever “P*** de vergonha. Nem tenho palavras”. O United não estava bem em campo. Agora, ficou pior fora dele.
Jamie Carragher, ex-internacional inglês e capitão do Liverpool, não poupou o argentino pelas declarações. “É engraçado… Quando os jogadores dizem isso, nunca falam das suas próprias posições. Sempre que um jogador diz que o clube não fez o suficiente no mercado de transferências, não está a falar da posição dele. Eles foram horríveis esta noite e também, quando está a falar do início desta época… Ele é um bom jogador, aliás é campeão do mundo, mas teve um início de época horrível. Horrível, mesmo fraco. No ano passado, quando o Ruben Amorim atacou os responsáveis acima dele, eu disse logo: ‘Devias ser despedido’. Não apenas pelos comentários, eu dizia ‘Tens sorte por ainda teres emprego’. Não podes andar a atacar as pessoas que estão acima de ti”, frisou o antigo defesa em declarações à CBS Sports depois do jogo.
Carragher não foi o único a criticar Lisandro Martínez mas, entre essas palavras, sobrou também uma ideia que promete continuar a fomentar a discussão no clube (e a divisão no mesmo): onde está afinal a génese da crise que o Manchester United continua a viver? Foi isso que motivou também alguns comentários sobre a saída de Ruben Amorim, com alguns comentadores a referirem que o português foi mais vítima do que culpado ao mesmo tempo que reforçavam o ponto comum entre as críticas do técnico e agora do central: Jason Wilcox, diretor do futebol que começa agora a ser também visado pelo plantel. Seguem-se mais dois encontros fora, com o Leeds e com o Como, e essa certeza de que novos capítulos irão surgir…
[Annie conhece o ministro do Interior de Cuba há muito tempo, mas a paixão que os une é relativamente recente. É justamente nessa altura que Zé Manel, como ela lhe chama, vai ser implicado num dos maiores escândalos da liderança de Fidel Castro. O “Caso Ochoa” envolve droga, fuzilamento, prisão e o narcotraficante mais conhecido do mundo: Pablo Escobar. Já pode ouvir o quinto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]