O antigo ministro das Finanças reconheceu esta quarta-feira que “algumas das mudanças feitas ultimamente” no setor da Educação não têm acautelado “todas as contingências” dessas alterações. Sem referir diretamente as recentes falhas detetadas nas correções dos exames nacionais, Mário Centeno assumiu que essas novidades criaram “problemas que não existiam antes”.

“As alterações têm que ser pensadas, têm que ser faseadas, graduais, têm de prever todas as contingências dessa alteração. Algumas das mudanças feitas ultimamente, confesso, questiono-me eu próprio se passaram por todos esses estádios, porque deparámo-nos com problemas que não existiam antes, no contexto de uma alteração. Alguma coisa falhou e eu acho que é preciso todos pensarmos no que é que falhou. Está na mão deste ministro fazer isto, poderia ser na mão de outro qualquer”, acrescentou, à margem de um evento na Universidade de Aveiro com o tema “UA 2030: Pensar o Futuro”.

Depois de na conferência ter dito, em resposta a uma pergunta do seu ex-colega de Governo Tiago Brandão Rodrigues (antigo ministro da Educação), que “só se fala dos ministros da Educação para dizer mal”, explicou aos jornalistas que “em termos de debate público” se olha “mais vezes para o copo vazio do que para a parte cheia do copo”. “Na educação, em que temos estado numa transformação profundíssima da nossa população — com mais educação, mais universidades e maior investimento — essa é a parte do copo para onde nós temos de olhar e acarinhar. Isso tem de ser feito com os ministros, mas não passa apenas pelos ministros”.

“Nós temos em todas as pastas ministeriais — e na educação e na saúde em particular, que são serviços públicos que todos acarinhamos e gostamos — que ter uma noção de que elas não existem se não forem as ligações com a população. Eu não acredito em reformas milagrosas que de repente alteram a nossa forma de viver e nos levam para um mundo desconhecido, mas que alguns pensam que é melhor. Todas as alterações têm de ser feitas em conjunto com as pessoas e têm de partir da valorização do momento presente”, detalhou.

Além dos ministros, o antigo governador do Banco de Portugal lembra que essas transformações, em especial nas áreas da Educação e da Ciência, são os seus atores: como as famílias, instituições, escolas e universidades. “É aí onde eu aposto mesmo que a [transformação] tenha que acontecer. O ministro, só por si, e eu não estou a falar de nenhum em particular, não se pode intrometer nesta evolução”.

Durante a conferência, Mário Centeno destacou a franca evolução da Educação em Portugal, recordando que há menos de meio século, em 1982, “só 2% dos trabalhadores do setor privado tinham licenciatura”. “Leva 45 anos a acabar esta revolução. E ninguém fala dela, só falam das desgraças do ministro da Educação e dos sindicalistas”, apontou.

“Temos mais ou menos 100 anos de atraso [na educação] e esse atraso leva muitas décadas a ultrapassar, muita paciência e muita perseverança. Coisas que se reconhecem dificilmente na política”.

Questionado diretamente sobre o descongelamento das propinas, anunciado recentemente pelo Governo, Mário Centeno referiu que “em termos de pensamento genérico” prefere ver a “ação social a responder às dimensões especiais” e não o valor da propina “propriamente dita”. “Têm que se explicar todas as decisões, porque se calhar também se está a avançar no sentido da ação social. É o equilíbrio, é o papel do ministro, espero que ele o faça bem”.

Mário Centeno prevê “anos muito difíceis” no financiamento europeu para a Educação

O antigo ministro prevê ainda “anos muito difíceis” para o financiamento europeu no setor da Educação. “O Orçamento Europeu vai reduzir-se, sim ou sim. Temos que pagar o PRR, o PRR foi financiado com dívida europeia, a Europa não está disposta a perpetuar essa dívida, portanto vai ter que a pagar”, disse ainda no palco do evento na Universidade de Aveiro. “Era difícil sem cérebros, não sem financiamento”.

O financiamento está em risco, segundo o economista, devido à coesão da própria Europa, cada vez mais posta em causa por vários partidos de diferentes países que conquistam maior preponderância política. “O exemplo mais claro disso é o Reino Unido. O Reino Unido é hoje um país com enormes dificuldades internas e a rotação de primeiros-ministros mostra exatamente isso. Se nós quisermos na Europa alimentar ideias parecidas, vamos pelo mesmo caminho, não há muita surpresa a ter por aí”.

“Tudo o que fizermos em nome da Europa em Portugal não diminui a soberania portuguesa, aumenta essa soberania, dá o exemplo do nosso compromisso e, portanto, é muito importante que os agentes políticos portugueses também acompanhem esse processo de integração. A União Europeia, no seu conjunto, trouxe-nos melhorias e alargou os nossos horizontes de uma forma que o país sozinho não conseguia fazer. Nós somos todos beneficiados pela construção da Europa e essa construção da Europa tem de ser levada a sério”, rematou, em declarações aos jornalistas no final do evento.