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E o Vencedor é na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube, hoje com a Judite França, o Anselmo Crespo e o António Costa. Eu sou o Ricardo Conceição. Vamos hoje aos resultados das reuniões entre os partidos e o governo sobre novas medidas para a habitação e também passamos pelas mudanças na EDP e pela sondagem publicada hoje no Expresso, que faz uma pergunta aos inquiridos: como deve o governo governar sem maioria absoluta? Deve escolher um parceiro preferencial ou vai escolhendo o parceiro conforme a dança? E ontem, aqui no Vencedor, o Anselmo Crespo estava um pouco descrente sobre o resultado das reuniões que o primeiro-ministro estava a ter com o PS e com o Chega, e depois as reuniões subsequentes no Parlamento, já sem a presença do primeiro-ministro. Confirmas o teu desencanto, Anselmo? Sem resultados.

Eu estou longe de ser o professor Caramba, mas não posso dizer que tenha ficado muito surpreendido.

Até porque Crespo não se escreve com K.

Exatamente. Estou longe de estar muito surpreendido com o desfecho até agora. É verdade que o jogo ainda não acabou e que as negociações ainda não terminaram, mas eu achei desde o início, desde a declaração de Luís Montenegro ao país, que estávamos perante um jogo de sombras e uma certa teatralidade em tudo isto. Obviamente, Luís Montenegro não tinha grande escapatória depois da posição que o presidente da República assumiu, e eu acho que bem. O presidente da República está a fazer o papel que lhe compete, que não fosse mostrar abertura para o diálogo. Mas nem sequer é preciso ter uma memória muito longa. Basta sabermos que antes dessa intervenção do presidente da República, havia, de facto, uma incapacidade por parte dos principais partidos de se entenderem, nomeadamente sobre a lei do arrendamento, que é aquela que neste momento está mais em foco, ainda que eu ache que seja um erro estar a olhar para o problema da habitação só olhando para a lei do arrendamento. Eu acho que o problema da habitação, já várias pessoas o disseram e eu também tenho dito, não há uma bala de prata, não há uma lei que vá resolver sozinha os problemas da habitação. Tem que ser um conjunto de medidas em várias frentes, na área fiscal, na lei do arrendamento, na construção, atuando do lado da oferta, atuando do lado da procura. E portanto, era mais ou menos evidente que não era porque o presidente da República tinha batido o pé e dado um murro na mesa que de repente os partidos iam, pura e simplesmente entender facilmente. E há aqui uma dificuldade enorme, sobretudo do Partido Socialista. O Partido Socialista está numa posição particularmente difícil para chegar a um entendimento com o governo. Primeiro pelo sentimento social, pela contestação que existe nas ruas. Em segundo lugar, porque o Partido Socialista está a ser acusado, e com alguma verdade, de ser um dos grandes responsáveis por termos chegado à situação a que chegamos. Não é o único, mas é um dos grandes responsáveis. E em terceiro lugar, porque depois do Chega ter dado a mão ao PSD ou à AD para viabilizar na generalidade a lei do arrendamento, o Partido Socialista terá sempre muita dificuldade em agora juntar-se a esta dupla e torná-la um trio. E portanto, o Partido Socialista parte para uma negociação, e eu já o critiquei aqui, dizendo: "Nós estamos disponíveis para negociar as nossas propostas, as vossas não. Depois podemos eventualmente admitir por aqui algumas vossas, mas o ponto de partida são as nossas propostas." Isto não faz sentido nenhum, porque o Partido Socialista não é governo. E portanto, claro, ninguém vai dizer que não a uma reunião, muito menos depois de o presidente da República ter dito: "Sentem-se à mesa e conversem."

O presidente da República que diz ainda acreditar.

Pronto, e eu acho que a esperança é a última a morrer. Agora, eu não estou a ver como é que o governo pode ceder, e ceder aqui é o governo deitar fora a sua proposta inicial e começar a negociar a do Partido Socialista, porque se o governo fizer isso, perde o Chega também. Não estou a ver como é que o PS agora sai desta posição intransigente de dizer: "Nós só negociamos se partirmos do zero, se começarmos a construir uma lei do zero." E não estou a ver como é que o Chega, que também já se acantonou a dizer: "A partir de agora, só viabilizamos se o PS também estiver." Portanto, eu não estou a ver como é que se sai daqui. Não é impossível, mas vejo como muito difícil que possa haver um acordo, por um lado, e mesmo que haja um acordo, vejo ainda mais difícil que uma nova lei do arrendamento feita desta forma possa ter ou produzir qualquer tipo de efeito benéfico no mercado de arrendamento.

Acho que o António está a ver um caminho.

Mostra-nos a luz, António.

Não arriscaria.

É um comboio.

Não arriscaria ir tão longe, mas eu estava a ouvir-te, Anselmo, e a pensar. Na verdade, o PS tem outra dificuldade, porque não pode viabilizar orçamentos e depois recusar-se a negociar outras leis, porque as pessoas não percebem isso. Eu tenho dificuldade em perceber a posição do PS. Eu percebo o que tu dizes sobre a dificuldade, obviamente, que tem. Mas daí a partir para a proposta de que deitem tudo fora e agora vamos discutir outra, não tem ponta de sentido e é a evidência de que não quer negociar nada.

Claro.

Mas então, se não quer negociar nada, não venha Conversa da treta, se me permitem a expressão. Não se diz: "Não estou disponível, porque a proposta que está em cima da mesa é de tal forma fora do nosso âmbito de possibilidade de avaliação de um diálogo." Para chegarem a um entendimento, é evidente que tem que ser a proposta de quem governa, corrigida de algumas coisas que são tão ofensivas para o PS e para o Chega, que não podem lá estar. Mas a base da proposta há de ser de quem governa, porque senão não faz sentido.

A subverter o sistema.

O PS poderia ter dito, por exemplo, se tivesse boa fé política para negociar verdadeiramente, diria: "Nós não aceitamos o fim do teto às renovações de contratos, que é hoje de 2%, para um período de contratos, até nem é para todos os contratos, mas nos termos em que está hoje. Não aceitamos 2%. E o governo poderia dizer: "Muito bem, nós não queremos nada, não queremos teto nenhum, vocês querem um teto. Vamos lá encontrar um valor que seja razoável para não prejudicar o mercado, para não bloquear o mercado e que também não permita que os preços de novos contratos ou contratos existentes aumente de 100 para 200 no espaço de um mês. A inflação mais uma margem para os proprietários. Há de haver uma fórmula que seja aceitável e que permita ao governo dizer: "Nós criamos condições para que não haja um teto administrativo artificial abaixo do que anda a economia, mas também não permitimos que seja uma coisa que pressione os preços mais do que eles estão pressionados por falta de oferta." Quando o PS nem sequer discute isto e diz: "Vocês deitem lá fora a vossa proposta, que está no Parlamento, e vamos negociar de raiz", não quer negociar. Pronto. Qual é a dificuldade? Obviamente, do ponto de vista político, é aceitável. Claro, tem que gerir o tema com o presidente. Dizem que agora vão se sentar, mas nunca se querem sentar. Mas o que é incoerente? Então não viabilizam o orçamento, sem o ver, a bem da estabilidade, e depois chegam a uma questão concreta, que é um problema que é comummente aceite. É o problema mais sério que nós temos do ponto de vista social, do ponto de vista económico e aparentemente do ponto de vista político-institucional no país, e não há disponibilidade para negociar em cima de uma proposta que está em cima da mesa. Não faz sentido.

Judite, tu tens algum caminho, não?

Nenhum, zero.

Deixa-me acrescentar, o Chega parece mais coerente, que é: eu tenho aqui um conjunto de medidas.

Quando põe aquela condição de ter o PS também.

A partir de agora.

Não, eu estou dizendo nas tuas medidas, que é: eu estou disponível para isso se vocês meterem um conjunto de medidas.

Sim, pôr lá quatro ou cinco linhas vermelhas.

Linhas vermelhas e é isto. Pronto. Perante a proposta que existe. Na proposta que existe, eu estou disponível para negociar isto. Claro que faz a maldade ao PS, que é: eu não vou ficar sozinho com o ónus de que vamos aprovar uma lei do arrendamento que ficará conhecida como a lei de despejos, embora os despejos que estejam aqui em causa sejam despejos de quem não paga a renda.

Claro. Eu acho que o PS levar a condição de ou recomeçam do zero o processo ou então nada, e depois sair e dizer que o governo é intransigente, a piada está feita. Porque de facto não faz o mínimo sentido. Eu acho que o PS tem uma espécie de uma obsessão com a renda moderada dos 2.300 €.

Sim, é uma obsessão. Repara, é o nome.

É o nome. O nome também não lembra careca, de facto. Não é renda moderada.

É um desastre.

Quem escolheu esse nome.

Mas a renda moderada, nesta operação, vai dos 500 € aos 2.300 €. Quem se lembrou de pôr renda moderada, não sei se foi nas infraestruturas, se foi na comunicação do governo, que acharam que fazia muito sentido, de facto, estraga tudo o que é o conceito que é. Que é o objetivo: vamos dar benefícios fiscais tentando apanhar o máximo de casas que estão fora do mercado.

Mas o problema, professor António, é de semântica.

É, claro.

E agora vamos explicar ao país que estes senhores não se entendem por causa de um problema de semântica. Mudem "renda moderada".

Chamem-lhe António como eu pai. Hoje é Anselmo, não é António.

Passa a imagem de que alguém entende 2.300 € como uma renda moderada.

Sim, mas não é isso que quer dizer, de facto. Enfim, eu acho que dificilmente os portugueses que estão de facto apostados em que algo funcione no país, na área da habitação e do arrendamento, terão muita dificuldade em perdoar a políticos assim, porque objetivamente, nem numa situação de emergência são capazes de fazer o que é preciso pelo país. É para isso que existem políticos. É para fazerem o que é preciso e o que podem pelo país. E portanto, não fazerem o mínimo esforço de chegar a um ponto de entendimento que permita aplicar uma nova lei do arrendamento, obrigando a que se mantenha esta, que tem tido um belíssimo resultado, como se sabe. Ainda por cima o PS com a culpa no cartório que tem. Enfim, devia ter outra atitude. Já estou como o António, o Chega pelo menos leva ali uma série de condições e até diz que já marcou uma reunião no Ministério das Finanças para tratar disso. Quer dizer, tem outra atitude, tem uma atitude. O Chega tem uma atitude mais responsável do que o PS.

Mas isso reedifica numa coisa que o Anselmo dizia aqui ontem no "E o vencedor é", que no final todos querem agitar a bandeirinha de eu ganhei. É isso que é colocado à frente dos interesses do país.

Todos já estão como a outra: que se lixem as eleições, vou fazer aquilo que é preciso. Pois, objetivamente temos um problema. Se quiserem todos ter a bandeirinha a dizer: "Fui eu que fiz isto", o PS tem de voltar a eleições e ganhar.

Imaginem que não há acordo na lei do arrendamento e nas restantes leis que é preciso aprovar para tentar corrigir os problemas da habitação agora. Quem é que acham que vai ser o maior prejudicado? O PS? O Chega? É quem está no poder.

Com certeza.

E quantas é que vocês acham que o José Luís Carneiro e André Ventura estão a fazer?

Mas será que ganham alguma coisa com isso também?

Podem não ganhar, mas perder não perdem seguramente. Ao PS convém-lhe muito mais estar agora ao lado das ruas, que foi basicamente o que uma parte do Partido Socialista fez, foi ir para a rua.

Mas tu achas que os partidos estão a ler bem? Acho que há aqui duas ruas, há as ruas das praças e as restantes ruas.

Verdade.

E os partidos estão a ler bem o sentimento das ruas?

Eu acho que não.

Eu percebo a pergunta. Eu também acho que não, e acho que as sondagens das quais vamos falar daqui a pouquinho mostram isso.

Não vemos toda a gente nas praças.

Não vemos.

Não.

Mas vemos uma coisa, que é, apesar de tudo, o ônus da governação está em cima da AD, não está em cima do Partido Socialista. E o Partido Socialista, se amanhã fôssemos pra eleições, eu consigo vos dizer já aqui qual é o discurso: "Nós aprovamos dois orçamentos de Estado. Não foi por nossa causa que há a instabilidade política. Nós demos todas as condições ao governo para governar. Nós quisemos sentar-nos à mesa." Eu consigo antecipar todo o discurso de José Luís Carneiro amanhã. E o do André Ventura ainda é mais fácil de antecipar, é só ir buscar os últimos 10 e está feito. André Ventura está jogado de uma forma particularmente inteligente neste tema, mesmo, muito inteligente. Primeiro, porque não o podem acusar de não ter mostrado vontade para negociar, até aprovou na generalidade. E agora, quando percebeu a posição do Presidente da República e percebeu a posição em que estava o Partido Socialista, pensou: "Posso matar dois coelhos duma cajadada só. Posso bater na AD e ainda posso bater também no Partido Socialista, trazendo-o pra discussão."

Judite, que notas preparaste?

Eu quero dar ao PS um oito pela atitude de hoje.

Anselmo?

Eu ontem dei 10 às negociações, eu desço um ponto da Judite, dou sete ao PS.

Sete.

Eu estava a pensar, parece que eu dou uma nota diferente. Pode ser a mesma nota.

Pode ser, põe um oito pra PS.

Está dada. Vamos olhar agora pra sondagem publicada hoje.

Desculpe, só acrescentar uma coisa.

Diga.

Fica uma dúvida para os próximos vencedores.

Sim.

Isto significa alguma mudança estratégica da negociação do PS ou é caso isolado por causa do contexto da lei do arrendamento e da habitação? Acho que vamos perceber.

Mas é contraditória, não é?

É, mas suspeito que isto pode ter aqui um fundo.

Uma mudança de estratégia?

Sim, na relação com o governo.

Deixa passar o orçamento e a seguir?

Não, e chumba todo o resto e diz: "Justamente esta é a ideia de nós não andamos abaixo, mas vocês não governam é conosco. Desempesse lá com o..." Haveremos.

Entramos aqui numa nova fase, achas?

Acho que é possível.

Vamos também à sondagem publicada hoje pelo Expresso, que no fundo perguntava aos inquiridos como deve o governo governar sem maioria absoluta, se deve privilegiar um parceiro ou escolher o parceiro consoante as necessidades, já à semelhança do que tem feito o atual governo e há até, Anselmo, muita simpatia com a ideia de um bloco central.

Sim. Esta sondagem é muito curiosa porque ela dá para ser analisada sobre vários pontos de vista e eu percebo perfeitamente pessoas que façam análises totalmente distintas, porque não há uma conclusão óbvia. Quer dizer, essa que tu enunciaste é óbvia, que apesar de tudo, entre o eleitorado do PS e do PSD ou da AD, a esmagadora maioria das pessoas é favorável à ideia de um bloco central, mas depois, pra lá disso, os números dão para interpretarmos como quisermos. Podemos massacrá-los e eles dizem exatamente aquilo que nós quisermos que eles digam. O que eu retirei de toda a sondagem, que eu acho que tem ali elementos muito interessantes e muito curiosos: que as pessoas verdadeiramente estão um bocadinho desesperadas à procura de uma solução qualquer. Eu acho que a sondagem reflete muito a exasperação do eleitorado com as lideranças políticas atuais. Eu acho que nem os típicos eleitores do PS estão fascinados com a liderança do PS e muito menos os eleitores da AD estão fascinados com a liderança da AD. Eu acho que tirando o eleitorado do André Ventura, do Chega, que esse sim está fascinado com o André Ventura, todos os outros estão um bocadinho perdidos. E, portanto, já estão por tudo. Perdido por cem, perdido por mil. E eu acho que é isso que leva a esta conclusão que a sondagem retira de, apesar de tudo, as pessoas estão à procura de um caminho, de uma solução, de uma saída qualquer pra este impasse, porque é verdadeiramente isso que nós estamos a viver. Não é só por causa da lei do arrendamento ou da habitação. Nós já estávamos neste impasse, pelo menos há mais de um ano, seguramente. Tirando aquelas coisas que o governo foi conseguindo fazer e fazer andar a privatização da TAP, mas só 49%, a alta velocidade, o aeroporto, que eram tudo coisas que eram mais ou menos pacíficas pro Partido Socialista, porque já vinham atrás e foi só assinar o cheque e atar e pôr ao fumeiro. Tirando essas coisas, daí pra frente o governo passou a ter uma incapacidade enorme de governar e, portanto, o país ficou parado. E está parado. Primeiro foi o Código Trabalho, agora é a Lei do Arrendamento. Não se consegue desatar o nó. E esta sondagem, eu acho que é muito interessante por causa disso, porque as pessoas já estão naquela lógica do se calhar a única forma, como não há uma liderança clara e não há aqui um caminho claro, nem do PS, nem da AD, o melhor é juntar os dois e pode ser que isto pelo menos estabilize durante algum tempo. Pode ser que isto pelo menos corra bem durante algum tempo. Mas eu acho que o grande drama do eleitorado neste momento é mesmo isso, é não ver um caminho, é não ver uma liderança e um projeto de país em que as pessoas verdadeiramente acreditem nesse projeto.

E sentimos isso não nas lataria, mas nas conversas em que vamos tendo com familiares e amigos.

Mas foi o eleitorado que escolheu este modelo.

Sim, mas o eleitorado, repara, o eleitorado foi duas vezes.

Às vezes não combinam. Escolheram este modelo que também contribui ativamente.

Mas, Antônio, no espaço de um ano, o eleitorado foi a votos duas vezes

E não quer ir outra vez, também já percebemos.

Mas a conclusão de duas eleições foi: nós não sabemos bem o que queremos. Na primeira deu a vitória à AD, mas com uma maioria mínima. Tão mínima que aquilo foi por um deputado. Na segunda, quis claramente penalizar o Partido Socialista, foi a grande conclusão que se tirou daquela eleição, mas também não quis dar propriamente carta branca à AD para poder governar sozinha. Isso mostra o quê? Que o eleitorado também não quer o Chega, porque senão o Chega, por que duas eleições seguidas o Chega ainda não chegou ao poder?

E podes juntar-lhe as presidenciais, porque nesse cálculo também se enquadra.

De maneira a aí também é diferente.

Mas tem a ver com a escolha do Chega, porque se quisesse tinha tido oportunidades.

Claro.

As presidenciais foram muito particulares.

Mas houve uma escolha para o eleitorado todo, da esquerda, do centro, da direita, e a verdade é que isso se verificou. Provavelmente vamos assistir, aqui num parêntesis, provavelmente Seguro vai concorrer a um novo mandato, estamos muito longe, não sabemos quem é que vai estar do outro lado, mas vamos verificar provavelmente que Seguro vai ganhar com menos margem no segundo mandato do que no primeiro. Basta que vá à segunda volta, não havendo uma primeira volta, um candidato que seja mais PSD, mais centrista, e que não afaste os eleitores PSD como Ventura afastou. Mas o meu ponto era esse. Na verdade, o eleitorado na opção que fez também não fez uma escolha. Cada um de nós fez a sua escolha, mas o resultado foi uma não escolha que também contribui hoje para este impasse que depois dá nisto, que o governo não consegue sair disto.

E a situação agudiza.

Agudiza esse impasse e com a dificuldade do contexto.

Porque também com movimentos presos, também não há grande hipótese de brilhar.

Não, é isso. Eu ouço gente do PSD dizer: "Isto podia-se fazer, assumir, um acordo com o Chega." E assume-se. Mas a verdade é que o Chega os sinais que dá é que é tudo menos confiável. A verdade é essa. Confiar no Chega é uma coisa difícil, mesmo para quem tenha muita vontade em confiar no Chega.

Judite.

Pois, eu olhei para esta questão do bloco central e vê-se um país claramente dividido, 40 acham boa ideia, 39 acham má, portanto é um empate técnico. Claro que olhando para dentro dos partidos, a decisão já não é a mesma. Os eleitores do Partido Socialista preferem o bloco central, porque não estão no poder agora e é por isso que preferem, contra os 53% do PS que acham que seria uma boa solução. Uma coisa nós temos a certeza: coligação pós-eleitoral entre o PSD e o Chega é rejeitada quase por 60%. Portanto, o PSD está basicamente encurralado. E aquilo que o eleitorado lhe vai dizendo é: "Não escolhas nenhum, escolhe caso a caso", que basicamente é aquilo que tem feito.

É o que tem feito Luís Montenegro, não é verdade?

A sondagem tem várias coisas, e uma das coisas que eu achei curioso terem pedido aos inquiridos foi que dessem nota de zero a 10 à preparação de cada um para ser primeiro-ministro. E o vencedor é Mário Centeno. Tem uma nota negativa, são 4,4, mas chega para ganhar.

Está bem colocado.

Logo atrás está José Luís Carneiro com 4,3 e depois está Passos Coelho. Luís Montenegro não vem no fim da lista, porque no fim da lista está André Ventura.

Mas o que é curioso é que essas notas resultam, e eis aqui dizendo, dois que nunca foram primeiros-ministros.

Exatamente.

E um sobre o qual há uma capacidade, apesar de toda a avaliação que se faz.

Mas eu acho que é isso que explica, Mário Centeno está muito menos exposto e tem muito menos histórico.

Como primeiro-ministro não tem nenhum. Portanto, o benefício da dúvida.

Sim.

Ainda por cima foi o Ronaldo das finanças e era o do superávit.

Acho que agora já não deve querer ser o Ronaldo, suspeito.

Agora quer o Jorge Jesus.

Mas basicamente aquilo que nós temos em comum entre Pedro Passos Coelho e Mário Centeno é que vieram criticar o governo. O que claramente rende junto do eleitorado.

E José Luís Carneiro também.

E José Luís Carneiro também, por definição da sua profissão. Eu achei que para Luís Montenegro é uma queda em relação ao último barómetro de fevereiro, março, continua a cair, e isto para Luís Montenegro é muito mau sinal. Acho que se olharmos para esta sondagem percebemos que há metade dos inquiridos, e mais de metade acha que chegou a hora da remodelação. É evidente quem é que está em primeiro lugar na lista, é mais ou menos evidente.

É evidente e não é saúde.

Não, não é. Por pouco.

Mas lá quem é?

É o ministro da Administração Interna, Luís Neves.

Não é toda a gente que viu a saudade.

Não, mas enfim.

Mas é previsível.

Era um líder mais ou menos previsível, de facto.

Vou só dizer uma coisa sobre Mário Centeno. Não sei se têm reparado que Mário Centeno anda a correr os programas do daytime todos.

Foi.

Se isto não parece uma campanha eleitoral, não sei o que parece.

Querem dar notas num instante a este capítulo ou avançamos?

Eu dou uma nota ao primeiro-ministro, dou-lhe o quatro que o eleitorado lhe dá.

São, queres dar alguma nota?

Eu dou um 12 à resiliência do eleitorado, que já não sabe o que há de fazer à sua vida.

Mas ao menos vai respondendo aos inquéritos.

Sim, sim. António, queres dar alguma nota? Então, vamos para o teu outro tema, que são as mudanças.

Vou dar 16 ao gestor.

Às mudanças na EDP.

Na EDP. Não é muito comum em Portugal, não é nada comum. Eu, aliás, faço um esforço grande pra me lembrar de outros exemplos. Quem esteja sentado no lugar mais bem pago do país, nas empresas, basicamente ser presidente da EDP é isso que significa. A remuneração de Miguel Stilwell d'Andrade no último ano foi cerca de € 2.400.000 e no anterior € 2.5 milhões. E que decida não continuar. É um gestor que tem 50 anos e diz aos acionistas: "Eu não quero continuar". Claro, nós cinicamente poderíamos dizer: "Depois do que ganhou, também pode ir descansar com 50 anos". Acho que esse não é o objetivo de Miguel Stilwell, nem é isso que está no fundamento. Eu acho que é interessante que Miguel Stilwell está na EDP há 25 anos e há 15 no conselho de administração executivo e há cerca de seis, sete como CEO. Mas se recordarão, entra como CEO num contexto muito particular, que foi a decisão do juiz de afastar António Mexia compulsivamente, portanto deixou de ser CEO. Na verdade, Miguel Stilwell foi CEO interino durante três a quatro meses, creio, uns meses. E assume a função uns meses depois. Acaba por ser o próprio a anunciar que não está disponível pra continuar numa empresa que tem projetos, que cresceu, que apanhou um contexto muito difícil, o contexto do baby drill de Trump, que obviamente afetou muito, que é o principal negócio que é a EDP Renováveis nos Estados Unidos. Apanhou um contexto geopolítico em que o seu principal acionista, são os chineses, passou a ser, não quero ser tóxico, mas um ativo muito difícil em muitos mercados, no mercado europeu, no mercado americano. Teve boas decisões, levantou muito capital, a empresa cresceu, a rentabilidade talvez não tenha acompanhado o que foi o crescimento. Houve apostas que correram bem internacionais, outras que não correram tão bem. E na verdade, os Estados Unidos continuam a ser o principal mercado. E essa é uma decisão que já vem, na verdade, de António Mexia, de entrar no mercado das renováveis nos Estados Unidos. Mas o que isso nos diz? Que se calhar a gestão acionista da EDP não está a correr assim tão bem, porque não consegue reter o seu principal CEO, porque o próprio disse publicamente, não tem nenhum plano, vai acabar o mandato em março e logo verá o que vai fazer à vida. Enfim, tem 50 anos, com o seu perfil tem o mundo pela frente.

Não vai para o fundo de emprego, seguro.

Não vai. Significa que se calhar chineses e espanhóis, China Three Gorges, que é o acionista do Estado chinês, e uma família espanhola muito rica, chama a família Mazaweu, que tem cerca de 7% e os chineses cerca de 20, 22, não estarão a gerir ou se calhar estão a interferir mais do que o alegado na gestão de uma empresa deste tamanho. E eu acho que esse é um ponto muito importante, governação daquela empresa, pra que um gestor que aparentemente tem tudo, tem salário, tem projeto, tem capacidade de investimento, tem dinheiro e afinal não quer continuar. A minha nota está dada, dou um 16 a Miguel Stilwell. E amanhã mais "E o Vencedor É?", na edição de fim de semana, um pouco mais tarde, depois das 10h30, amanhã com o Luís Rosa e a Mafalda Pratas.