Parecia uma fatalidade, uma inevitabilidade, uma certeza universal. No entanto, nesse terreno pródigo que é o futebol, tudo o que parece muitas vezes não é. Ou, para quem prefira, num instante tudo muda. Quando o Torreense fez a estreia nas provas europeias na Noruega frente ao Lilleström, havia quase um sentimento paternalista em relação ao conjunto que fez furor após ganhar a Taça de Portugal estando na Segunda Liga. A seguir, a bola começou a rolar. 90 minutos. Afinal, havia muito mais para contar sobre uma equipa que pode não estar a fazer a melhor campanha no segundo escalão mas que se bate sempre bem nos jogos grandes. Aí, o Torreense foi melhor. Foi melhor, ganhou e deixou também um aviso aos adversários seguintes. 

A conexão espanhola deixou o supercomputador em curto-circuito: Torreense vence na Noruega na estreia na Liga Europa e faz (mais) história

Seguia-se o Sunderland, em Leiria, depois da hipótese levantada de uma viagem mais longa até ao Algarve que acabou por cair com naturalidade. A viagem estava sempre garantida mas, desta forma, todos os adeptos de Torres Vedras que conseguissem sair mais cedo do trabalho (ou mesmo não trabalhar à tarde) podiam ver a estreia do Torreense na Liga Europa em casa e logo frente a um adversário da melhor liga do mundo, o Sunderland. Era mais um duelo de David contra Golias, com um número que mostrava bem a diferença de realidades: o conjunto português recebe 500 mil euros fixos pelos direitos televisivos dos jogos da Segunda Liga, os ingleses tiveram direito na presente temporada a um bolo total de… 200 milhões. Ainda assim, e um pouco à semelhança do que acontecera na final da Taça de Portugal, havia uma palavra a dizer.

“Vai ser um jogo muito difícil contra uma excelente equipa. Não vamos comparar sequer orçamentos. Um salário de um mês de um jogador do Sunderland paga dois anos do orçamento do Torreense. Vamos manter o nosso modelo de jogo, mas obviamente que temos de nos adaptar ao adversário, que tem muita qualidade e competência individual com jogadores internacionais. Vamos tentar criar oportunidades para sermos felizes. Dissemos que vínhamos à Liga Europa para competir, é isso que vamos fazer”, frisou Carlos Simões, técnico adjunto de Luís Tralhão que marcou presença na habitual conferência de imprensa.

“Seguimos iguais desde o primeiro dia. Sabemos da dificuldade desta competição, que é uma grande oportunidade para ganharmos público e mostrarmos que Portugal tem grandes equipas na Primeira e na Segunda Liga. Não mudou nada com a vitória na Noruega. Amanhã [Quinta-feira], vamos tentar fazer o mesmo. Com personalidade e trabalho podemos mostrar que somos uma boa equipa. Quando cheguei, no primeiro ano ninguém conhecia o clube e, hoje em dia, dizes o nome do Torreense e todos conhecem”, destacou também Javi Vázquez, um dos jogadores que tem sido mais valorizado nos últimos meses.

Apesar da situação complicada na Premier League, com apenas uma vitória e quatro pontos em seis jogos, o Sunderland, que venceu o AZ Alkmaar na primeira jornada da Liga Europa, não deixava de apresentar um plantel de luxo para esta competição, mesmo assumindo que voltaria a fazer alguma rotação tendo em conta o próximo compromisso caseiro com o Bournemouth (que está logo atrás na classificação). Diarra e Bryan Brobbey estavam lesionados mas ainda havia nomes como Granit Xhaka, Enzo Le Fée, Mukiele, Wilson Isidor, Talbi Malick Fofana ou Reinildo, que passou pela equipa B do Benfica antes de jogar no Fafe e no Sp. Covilhã antes de dar o salto da B SAD para o Lille. Melhor ou pior, era uma equipa boa e competitiva.

Ainda assim, não o suficiente para impedir que o Torreense continuasse a fazer história. O Sunderland foi dominando a partida mas em termos práticos, a nível de oportunidades, só de bola parada. Cada canto era uma potencial situação de perigo, cada lançamento era uma possível chance, o conjunto português soube manter a concentração entre várias faltas ofensivas assinaladas que deixavam os ingleses à beira de um ataque de nervos dentro e fora de campo (teve mesmo um golo anulado após lançamento por falta no início da jogada). O golpe de teatro, esse, estava ainda por chegar: Volnei Feltes, central brasileiro de 26 anos que foi contratado esta temporada aos gregos do Panserraikos depois de ter feito a formação no Internacional e passado pelo Estoril, subiu a conduzir bola, fez a finta e disparou um míssil ao ângulo de fora da área para o golo de uma vida que deixou os adeptos da formação de Torres Vedras em delírio em Leiria (37′).

No segundo tempo, como já era esperado, o Sunderland foi com tudo. Alderete teve um desvio de calcanhar que passou a rasar o poste (53′), Lucas Paes teve depois uma defesa fabulosa a nova tentativa do defesa. Os ingleses dominavam por completo, aproveitando também a quebra a pique em termos físicos do Torreense. A formação de Torres Vedras tentava resistir a todo o custo mas os visitantes conseguiram chegar mesmo ao empate, com o gigante Ahoka a desviar de cabeça na área um cruzamento de Mukiele da direita (68′). A entrada em campo de Dany Jean ainda deu argumentos ao Torreense para esticar mais o encontro e não estar apenas remetido à defesa mas as mexidas do Sunderland conseguiram também melhorar e muito o rendimento da equipa, com Lucas Paes e Stopira a evitarem a reviravolta em mais uma oportunidade (70′). No entanto, e como a justiça é feita de golos e não de ideias, a resistência caiu nos descontos, com Sadiki a marcar um grande golo após jogada de Le Fée e Xhaka para o 2-1 que fez a reviravolta em Leiria (90+3).