Facto: vivemos num mundo polarizado, rodeados de uma gritaria ensurdecedora, onde todos têm uma megafone para expressar a sua opinião, numa busca constante de validação, onde se diaboliza sem critério o outro lado da trincheira. Há uma grande probabilidade de terem revirado os olhos até ao limite do deslocamento da córnea enquanto leram isto, e é bom que assim seja. São clichés contemporâneos, repetidos ad nauseum de tal forma que quase se transformaram numa lengalenga infantil sem significado. O que não quer dizer que não tenham muito de verdade, à parte de serem uma rotunda generalização. É justo que este parágrafo seja considerado uma reflexão banal que não acrescenta nada de substancial, não tem vislumbre de originalidade, mas diria que também não aleija.
Então, a que propósito gastei eu estes 651 caracteres, sem contar com os espaços? Foi algo que me veio à ideia depois de ver Luisinha — Chapter by Chapter, o novo documentário da Prime Video, “documentário que acompanha a modelo e influenciadora portuguesa Luisinha Oliveira, numa viagem pelas diferentes etapas do seu percurso pessoal e profissional.” E agora vou passar os caracteres que se seguem a tentar não parecer uma velha cínica a escarnecer do entusiasmo e da esperança ingénua de uma jovem com todos os sonhos do mundo, como eu já tive. Só que, na altura, eu não estava a par do conceito de vision board. E isso, parecendo que não, faz diferença.
Luisinha — Chapter by Chapter arranca com imagens da protagonista a ser lindíssima e super telegénica, acompanhadas por uma narração da própria: “Sempre sonhei muito. Mas durante muitos anos, tive medo da dimensão dos meus próprios sonhos.(…) Passei muitos anos a imaginar a vida que queria.” E aqui surge a minha primeira objeção. Até porque Luisinha está sempre a falar do passado como se fosse longínquo, do longo caminho percorrido, do constante olhar pelo espelho retrovisor para não se esquecer da escada que subiu. Mas como é que te havias de esquecer, pequena? Se foi há mais ou menos 5/7 minutos, não mais que um lusco-fusco. A Luisinha tem 26 anos e, quanto a mim, parece-me demasiado nostálgica para quem tem menos anos de vida do que o Isaltino Morais à frente da Câmara de Oeiras.
[o trailer de “Luisinha”:]
A seguir, é apresentado o co-protagonista desta história. E não, não estou a falar do Condessa. Senhoras e senhores, o vision board de Luisinha. E faz tanto sentido o que estou a dizer que na sinopse partilhada pela Prime, é esta a grafia: “Vision Board”, com maiúscula. Luisinha chega a um estúdio com um led gigante curvo, o que demonstra valor de produção, onde está projetado o seu mais que tudo. Não, não estou a falar do Condessa, que mania! Não é o namorado que a define. É mesmo o “Vision Board”. VB para os amigos. Em inglês, claro. Luisinha fica extasiada e sentencia: “Está lindo”. Senta-se elegantemente no sofá, deixa cair as sandálias dos pés com uma pedicure impecável e no ecrã surge o nome do documentário, enquanto as luzes baixam. Gorgeous. A partir daqui, vamos acompanhar uma sucessão de eventos em que uma influencer/modelo vive a sua vida, conquista os seus goals, é amada por uma família que ela ama e que claramente se orgulha dela, e com razão. E diverte-se com os amigos e é acarinhada por um namorado talentoso, bonito e desconstruído, que está caidinho por ela e não tem vergonha de o dizer. O que é que isto tem de mal? Nada. E é esse o problema.
Luisinha Oliveira é modelo e influencer, nasceu no Porto e promete que, ao longo de 1 hora e pouco, vai contar “como cheguei aqui, de onde é que eu vim e para onde é que quero ir”. O primeiro evento que é documentado é o seu 26.º aniversário, onde “conhecemos” os pais, os amigos e o namorado que lhe dá umas asas que simbolizam o sonho dela de desfilar para a Victoria’s Secrets, apesar da sua curta altura para o padrão das passarelas. Descobrimos que Luisinha era uma criança tímida que floresceu durante a adolescência, espantem-se, que é amiga do seu amigo e a quem custa estar longe dos pais, consequência da mudança para a capital. E não há nada de errado aqui. Mas também não há nada.
Segue-se um capítulo em que Luisinha fala da importância do journaling e eu reviro os olhos, porque é mais forte do que eu — ainda assim, “if it works for you”, ‘tá tudo bem. Ela diz que gosta muito de escrever desde pequena, e eu empatizo, mas a seguir percebo que isto é um product placement, porque ela lançou um “Querido Well-being Journal by luisinha” e a minha vesícula biliar começa a dar de si. Mais à frente, haverá outro momento de publicidade não-subliminar à Fine, uma linha de skincare a que Luisinha dá a cara em conjunto com Leonor Borges, uma amiga que conheceu em Santorini e ficou para vida. E por um mero acaso de calendário foi lançada nas vésperas da estreia deste documentário. E não há nada de mal com isso, mas… vocês perceberam.
▲ Luisinha diverte-se com os amigos e é acarinhada por um namorado talentoso, bonito e desconstruído, que está caidinho por ela e não tem vergonha de o dizer. O que é que isto tem de mal? Nada. E é esse o problema
Passamos a um Do-it-yourself do seu tão amado vision board, que não é mais que um trabalho de Educação Visual e Tecnológica recheado de manifesting, mindfulness e quotes aesthetic tais como: “Amazon best seller”, “Little miss first millionaire of her family”, “I’m booked, busy and thriving”, “I’m in my happy girl era”. Eu estou a tentar, mas não está a ser fácil.
Ela tem uma relação que me parece genuinamente forte e carinhosa com a irmã, a atriz Beatriz Barosa, mas depois as histórias que partilham são coisas como “No outro dia, estava a gravar uma campanha lá em casa, estávamos prontos a começar e eu disse ‘Esperem que eu tenho de por uma velinha para o casting da minha irmã’.” Ou quando Beatriz recorda os concursos de piadas de Luisinha: “Dizia ‘vou comer’ com os pés e ria-se. Ou ‘vou comer com os cabelos’. Tínhamos a esperança que algum dia ela dissesse uma piada nova, mas era sempre isto”. Fala-se ainda do vídeo do Briegate, que não sei se estão a par, mas deviam. A Beatriz publicou um vídeo a fazer uma receita de Tiktok de um queijo brie e aquilo não ficou grande espingarda de aspeto e “ela levou imenso hate” e a Luisinha ficou furiosa e bateu-se arduamente na caixa de comentários pela irmã. Tudo amoroso. Mas cabe num documentário?
Depois, a Luisinha vai à Fashion Week de Milão e há um momento de tensão. O que é que acham que vai acontecer? Hipótese A: Luisinha é destratada pelo criador e vê-se no dilema de bater com a porta ou engolir o sapo. Hipótese B: Luisinha descobre que está grávida minutos antes e tem um ataque de pânico. Hipótese C: Os sapatos eram um tamanho acima dos dela. Se estiveram atentos, não vão ter dificuldade em acertar. Há outro momento delicioso em que ela elogia a sua squad de girlies, porque alinham sempre nos desafios que ela lhes propõe e saem da zona de conforto delas. Qual é que acham que foi o desafio? Vou dar uma pista, é uma actividade física. Hipótese A: fazer os caminho de Santiago. Hipótese B: ir a Fátima de joelhos. Hipótese C: Puppy Yoga. Pois é, se não temos uma equipa de miúdas corajosas que olham de frente para um tapete de yoga e um cão-salsicha bebé e não se apavoram, não sei o que temos. A Luisinha tem um grupo de 17 amigas que mantém e diz que as pessoas ficavam surpreendidas quando ela contava isso e respondiam “Isso é porque ainda és nova”. Mas ela demonstrou que estavam errados. Agora que está caquética, do alto dos seus 26 anos.
▲ Luisinha — Chapter by Chapter arranca com imagens da protagonista a ser lindíssima e super telegénica, acompanhadas por uma narração da própria
Os melhores e mais bonitos momentos do documentário pertencem aos mais velhos: a avó Mena e o avô Ni e a avó pianista, Mindete. E a Tété, alguém que não é família, mas é como se fosse e que “quando dizem coisas dela” fica muito irritada. E não é por eu ser apologista de que tudo é melhor com velhos, mas estes são mesmo amorosos, verdadeiros e a rebentar de orgulho pela neta. E ela também tem orgulho neles e isso é muito bonito. Porque a impressão com que fiquei, no final da história, é que a Luisinha é a neta que qualquer avô gostaria de ter, a filha, a amiga, a irmã, a namorada. Parece-me genuinamente boa miúda, nada deslumbrada e com os valores no sítio certo. E é claro que é produto de um contexto privilegiado e que soube dar uso às oportunidades que lhe foram dadas e que é mais fácil espalhar amor, sorrisos e manifestar boa energia para o universo quando se foi criada com carinho, proteção e conforto. Ainda assim, isso não é garantia de nada e ela podia ser um belo de um estafermo insuportável. Não me parece o caso. Daí a isto ser matéria para um documentário são outros quinhentos. Porque o facto é que sem conflito, não há história.
“Mas começaste a conversa com os malefícios da bipolarização e agora queixas-te da falta de conflito? És daquelas que só gostas de barraco e gritaria nos realities?” Sim e sim. Mas isso agora não é para aqui chamado. A Luisinha não tinha de vir de uma família disfuncional, ter superado um cancro ou ter partido um quarto de hotel sob o efeito de substâncias diversas para isto ter sumo. Mas isto não é um documentário, é um vlog com ficha técnica profissional. E a Luisinha não tem culpa nenhuma disso. A própria declara no final: “Este documentário não é sobre seguidores, não é sobre redes sociais, não é sobre fama, não é sobre números. É sobre não desistir, continuar a acreditar nos nossos sonhos e em nós e no nosso potencial, mesmo sem a garantia de que as coisas vão acontecer”. Tudo muito lindo e ela é muito linda e parece-me que a capa condiz com o livro. Mas não é uma história. Pelo menos, ainda não é. E se tudo continuar a correr como me parece que ela merece, assim vai continuar. Uma vida feliz sem grandes lombas ou becos sem saída. Como os avós desejam à netinha. Bom para um álbum de fotografias ou um carrossel no insta. Não para um documentário.