Ao mesmo tempo que expõe no Largo do Poço Novo, na Quinta do Anjo — até 10 de dezembro —, doze painéis alusivos ao trabalho fotográfico do lisboeta José Artur Leitão Bárcia (1895-1957) em boa parte dedicado àquela aldeia no sopé da Serra da Arrábida, a arquiteta Cecília Matos preparou este álbum fotográfico que lhe serve de memória perene, dando a conhecer imagens do fotógrafo amador apenas sumariamente identificado por António Sena em Uma História da Imagem Fotográfica em Portugal, 1839-1997 (ed. Asa, 1998) e relativas àquela geografia de além-Tejo.
Não podemos deixar de pensar em Carlos Relvas (1838-94) ou, mais ainda, no seu contemporâneo Jorge Almeida Lima (1897-1957), descoberto numa exposição no Museu Nacional de Arte Contemporânea vai para 30 anos, como praticantes amadores da arte fotográfica — e em tantos outros, dos reis Dom Carlos e Dona Amélia ao major José Veloso de Castro (1869-1945), a partir de agora exibido no Centro Português de Fotografia, na Cadeia da Relação do Porto, ou a José Viegas Samorrinha (1879-1941), com estúdio em Faro, estudado pela equipa da Torre do Tombo, onde se conserva o seu espólio — e na fotografia como documento de relevância histórica e sociológica, tanto para contextos citadinos como campestres.
À época, a “novidade” da imagem fotográfica e a acessibilidade dos aparelhos também cativou pintores e escultores, como a portuense Aurélia de Souza (1866-1922) e o açoriano Ernesto Canto da Maia (1890-1981), o que, depois de conhecido, veio permitir novas e mais assertivas abordagens acerca da sua obra plástica. A descoberta ou revisitação desse património está, de facto, a ganhar novo dinamismo expositivo e editorial. Lembro ainda Laudalino da Ponte Pacheco (1963-75), na ilha de São Miguel, publicado pela editora Araucária.
Título: “Os Dias de José Bárcia, 1895-1917. A colecção fotográfica da Quinta do Anjo, Palmela e Setúbal” | Autora, designer e editora: Cecília Matos | Páginas: 242
Tendo encontrado, na casa da última herdeira de Bárcia, um baú com centenas de negativos em vidro, a sua biblioteca e epistolário, Cecília Matos quis saber mais sobre este homem “que caíra no esquecimento” (p. 8), mas havia sido segundo violino na orquestra do Teatro Nacional D. Maria II e colaborara, enquanto desenhador da Direcção Geral das Obras Públicas, com o olisipógrafo Júlio de Castro (1840-1919), o famoso autor de Lisboa Antiga, antigo funcionário da Biblioteca Nacional, 33 anos mais velho que ele, seu amigo, mentor e — asseveram alguns — “segundo pai” (p. 18). A figura de Bárcia é curiosa, de facto.
Morador do bairro da Graça, criou aí a Real Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, dava aulas de piano e violino em casa a jovens músicos, era pintor-restaurador de quadros antigos, gostava de cães, de caçar e de se fazer retratar como caçador, ou de montar a cavalo: v. capa e pp. 69, 176-77), produzia postais fotográficos com vistas de Lisboa e outras, que vendia em lojas da Baixa como a Livraria António Maria Pereira ou a Tipografia Correia & Raposo. Além dos serviços prestados ao Visconde de Castilho, ilustrando alguns dos seus livros, trabalhou com o pintor José Veloso Salgado (1864-1945) na Escola Médico-Cirúrgica, em construção em 1906, que fotografou enquanto pintava frescos na Sala dos Actos (imagens da colecção do Museu de Lisboa; v. p. 35).
Para a revista Serões, de Adrião de Seixas, fotografou em 1907-8 nos seus ambientes de trabalho os escritores Carlos Malheiro Dias e Afonso Lopes Vieira, os pintores António Ramalho e Columbano Bordallo Pinheiro e o escultor Simões de Almeida. Bárcia era sobrinho-neto do pintor romântico José Rodrigues (1828-87). Um dos seus últimos trabalhos consistiu em fotografar, na década de 1910, as primeiras construções do complexo do Hospital Júlio de Matos.
O arquivo de José Bárcia no Arquivo Municipal de Lisboa é composto por 1197 documentos fotográficos em bom estado de conservação, mas desses em geral não se ocupa este livro, focado nas suas imagens de Palmela, Setúbal e da Quinta do Alto, mas também da Moita, onde sua mulher, Maria Ascenso Xavier, foi professora primária. Alguns meses após o Regicídio, Castilho visitou Bárcia na Quinta do Anjo, entre Palmela e Azeitão — na verdade a residência de sua tia, Amélia Várgea, também ela professora primária, onde José Artur ia regularmente desde 1907 —, o que permitiu fotografá-lo a ler um jornal sentado num pátio, com cães aos pés, a visitar o castelo de Palmela ou em conversa com um local — imagens que se juntam a outras, no seu escritório na residência na Travessa do Prior, ao Lumiar, ou em Benfica, na varanda da casa dum amigo comum (p. 62).
“Interessado por tecnologia” (p. 31), Bárcia encantava as crianças da aldeia com projeções de lanterna mágica sobre paredes caiadas, uma das quais Viagens de Gulliver, mas também com fotografias de cenas vividas ali, como rapazes pastoreando perus (p. 56) ovelhas (p. 230) e carneiros (p. 224), ajudando nos trabalhos na eira (p. 169) ou “recolhendo a jumenta” (p. 226), vendendo pão, assando pinhas ou jogando ao berlinde (p. 76). Seguramente marcantes, as festas religiosas como o Círio da Quinta do Anjo — em 1909 ainda com carros de bois (pp. 200-205) — e as Festas de Nossa Senhora da Atalaia, com peditório porta a porta com padre e músicos, não podiam escapar ao fotógrafo, de resto como os bailes no pátio da Quinta, e, mais ainda, os passeios à serra do Louro com piquenique perto dos seus moinhos de vento, os almoços sob latadas e as burricadas.
Como Silva Porto pintor, surpreendeu raparigas pelos caminhos, com burros albardados, e outros camponeses nas suas lides quotidianas (entre outras, “O tio Veríssimo vindimando” e “Lavando roupa no tanque do charco”, pp. 178-79). Retratou figuras destacadas naqueles lugares, como Francisco Salvador, Martinho da Silveira ou João Guilherme Cardoso (logo na p. 9, aliás um parente da autora), mas também um velho pedinte de passagem (p. 153), como haviam feito Relvas, Lima e outros. Para se ver quanto Bárcia assumiu com gosto “a vida no campo”, um dos depoimentos recolhidos por Matos informa que tocava órgão na missa de domingo. A fotografia revelou-se então uma forma de empatia por quem vinha ocasionalmente da cidade, e nesse sentido há que perceber, creio, que estamos perante a revelação de um caso excepcional no panorama da fotografia em Portugal à época.
Num tempo em que o excursionismo estava em grande, José Artur Bárcia acompanhou tanto membros da Sociedade dos Arquitectos em visitas a Tomar e a Mafra, em 1907-8, como um grupo ao Portinho e ao Convento da Arrábida, conhecendo também a Lapa de Santa Margarida em 1904, numa viagem de barco e de burro, que lhe permitiu fotografar do mar a fortaleza do Outão, já primeiro sanatório do país, e o forte de Santa Maria da Arrábida (pp. 102-3), como noutras circunstâncias havia feito ao castelo de Palmela. Mas entre estas fotografias digamos históricas ressaltam sem dúvida aquelas — quase uma reportagem — das festas em Setúbal pelo centenário da morte do poeta Barbosa du Bocage, em 1905.
Iniciativa de mérito, que importa conhecer e louvar.