O cineasta Miguel Gomes e Filipa Reis, da produtora Uma Pedra no Sapato, fizeram um “pedido urgente” de autorização de rodagem à Câmara Municipal de Lisboa para filmar as manifestações pelo direito à habitação, nomeadamente as acampadas que decorrem no Rossio, em Lisboa. O objetivo é integrar essas imagens na montagem de Selvajaria, o próximo filme do realizador de Tabu ou Grand Tour, que deverá estar concluído na primavera de 2027. O pedido, sabe o Observador, foi feito esta segunda-feira.
Selvajaria parte de uma adaptação livre da obra-prima da literatura brasileira Os Sertões, de Euclides da Cunha, que dá conta da guerra que teve lugar na Bahia no ano de 1897. É um dos mais ambiciosos projetos do realizador português, que venceu em 2024 o prémio de melhor realizador no festival de Cannes com o filme Grand Tour.
A ação do filme situa-se em Canudos, lugarejo perdido no norte do Estado da Bahia, em finais do séc. XIX, e grande parte da rodagem do filme foi feita no Brasil.
“Selvajaria revela-nos o poder da luta e da resistência, quando o poder autoritário quer impor a sua visão sobre os valores que devem reger a sociedade, quando não há abertura para expressar opiniões ou contestar as leis que são implementadas. O que temos assistido em Lisboa e no Porto, com manifestações pacíficas de milhares de pessoas em prol de um direito básico e constitucional, como é o da habitação, faz com que queiramos também integrar estas imagens de resiliência no nosso filme”, refere a produtora Filipa Reis, da Uma Pedra no Sapato, em comunicado.
O Observador contactou o município liderado por Carlos Moedas para saber qual o prazo em que prevê dar resposta ao pedido do realizador e produtora e aguarda resposta da autarquia.
De recordar que, no passado fim de semana, a Autoridade Aeronáutica Nacional (AAN) proibiu o uso de drones no Rossio, em Lisboa, durante a manifestação e acampada pelo direito à habitação, uma decisão que acabaria — após as denúncias da comunicação social — rapidamente por ser revertida, no que a PSP designou como um “mal-entendido”.
Nas últimas semanas, têm sido muitas as figuras da cultura portuguesa que têm marcado presença nas manifestações pelo direito à habitação, tanto em Lisboa como no Porto. Centenas delas assinaram, a 21 de outubro, uma carta aberta em que repudiam “a violência vivida no Porto e em Lisboa” e demonstram apoio às exigências dos manifestantes.