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"Quente e Frio", como sempre, com Filomena Martins. Filomena, bem-vinda mais uma vez.
Olá, Filipa.
Vamos começar com a nossa previsão. Estávamos a falar agora aqui em off, acho que é a altura de eu reformar as minhas sandálias. É agora que vamos saber quando é que acaba o calor e regressa a chuva.
É isso mesmo. Vamos saber, porque este calor invulgar para esta altura do ano, temos de admitir, tem os dias contados. A mudança de tempo vai acontecer em duas fases. Primeiro vão descer as temperaturas e vão chegar madrugadas frias, bem frias, e depois vai regressar a chuva, que poderá tornar-se provável de norte a sul no início da próxima semana, embora ela vá chegar antes, mas ainda vai ser aos pouquinhos.
Então e quando é que começa a descida das temperaturas?
Já amanhã, terça-feira. E vai notar-se tanto durante o dia como, sobretudo, durante a noite. O sobretudo aqui ainda não faz falta, mas durante a noite já vai dar jeito. Em Lisboa, a máxima dos 26 graus de hoje passa para 22 amanhã, para 19 na quinta, portanto abaixo de 20. Em Évora, por exemplo, passamos dos 27 para 24 e depois para 20. No Porto, dos 23 para 19 e depois para 17. Portanto, já se vai notar. É uma mudança significativa em poucos dias. Não vem uma vaga de frio, vem uma massa de ar frio que nos apanha de raspão, mas este raspão ainda deixa marca.
Eu não sei se isto é possível ou não, mas temperaturas negativas?
Vamos ter pontualmente no interior, sim.
Bem, passamos de dias bem quentes para temperaturas negativas.
No interior e durante a noite. Na quinta-feira, Bragança poderá registar uma mínima ligeiramente abaixo do zero, e várias zonas ali no interior é provável. Obviamente, na serra vai estar abaixo de zero. Em Évora, a previsão, por exemplo, aponta para cerca de 5 graus, Coimbra 7, Lisboa 9 durante a noite. Portanto, aquelas madrugadas dos 26 e 27 graus foram há muito pouco tempo, mas já não contam. Nos Vales e naqueles lugares mais abrigados entre norte e centro, vai formar-se geada, sobretudo nas madrugadas de quarta e quinta, e também vai ficar muito frio.
Vamos então passar à chuva. Já disse aqui várias vezes que detesto, mas estamos no tempo dela, vai ter de ser. Quando é que ela chega, finalmente, Filomena?
Sexta-feira. Quinta já poderá haver alguns chuviscos mais para norte. Sexta-feira já há alguma probabilidade de precipitação frequente. Por exemplo, o Porto apresenta probabilidades de haver chuva 51%, 41 em Coimbra, 35 em Lisboa e no fim de semana este sinal torna-se muito forte. No sábado o IPMA aponta para 84% de probabilidade de chuva no Porto, 76 em Coimbra e 75 em Lisboa, e depois anda tudo ali nos 70%. E nos domingos as probabilidades já andam nos 90%, 82% em Lisboa, 78, 51 em Évora, 45 em Faro e depois as probabilidades passam para 100% nos dias a seguir, na segunda e na terça. Portanto, a chuva vai tornar-se muito provável no norte e no centro durante o fim de semana e depois chega ao resto do país.
E como é que vai ser na próxima semana? Vai haver chuva em todo o país?
É a tendência que se destaca nas previsões locais. Segunda-feira, as probabilidades são de 100% no Porto, Coimbra, Santarém, Lisboa, Évora e Faro, e de 98 na Guarda e Bragança, portanto, é o país todo. E na terça-feira continuam mais ou menos essas probabilidades, 96 e 100% de uma ponta a outra do país. E na quarta-feira ainda entre 76 e 86%. Portanto, pelo menos até quarta-feira, vamos ter um sinal muito forte que a chuva está de regresso, está para ficar, está em todo o país. Há aqui uma diferença importante e que é preciso ver. Quando se lê probabilidade de 100%, não quer dizer que vai chover durante todo o dia, nem a toda hora, nem que a chuva vai ser intensa. Há uma probabilidade de chover de 100%. Portanto, vai chover, vai chover a alguma altura do dia, não sabemos quando, ainda não se sabe bem como é que as frentes que aí vêm nos vão atingir.
Mas estamos aqui a falar de uma tempestade?
Ainda não é certo, é muito provável. Falámos disso na semana passada. Os modelos mostram a possibilidade de uma mudança na circulação atmosférica quando pressões e frentes atlânticas aproximarem-se muito de Portugal. Agora, a previsão e a trajetória desses sistemas continua a ser decisiva para perceber onde e quanto poderá chover. Por agora a notícia é mesmo o regresso da chuva. Daqui a uns dias vamos ter a confirmação de onde é que essas tempestades vêm e onde é que vão bater.
Nós temos estado aqui a falar do continente, mas como é que vai ser nos Açores e na Madeira?
Nos Açores a semana vai continuar com períodos de chuva, e tem a ver com esta passagem destas perturbações atlânticas. Na Madeira, depois da chuva intensa no domingo, fez estragos, há a possibilidade de novos períodos de precipitação que merecem acompanhamento, sobretudo no fim de semana também, porque alguns cenários apontam para um agravamento da instabilidade. Ainda a esta distância não é possível prever a intensidade, mas a previsão é esta.
Então qual é que vai ser a grande mudança destes próximos dias?
É isto.
Passar do quente para o frio.
Exatamente. Passar de um início de novembro invulgarmente quente e seco, para madrugadas muito frias a meio dessa semana. Depois um período de chuva que começa devagarinho, mas depois se torna muito mais frequente. Portanto, o fim de semana já será de transição. Segunda e terça para já os dias que o IPMA apresenta como sinal mais sinalizado de chuva.
Muito bem, Filomena, vamos passar aqui ao nosso fenômeno. É o frio continental que vem da Rússia. Estamos aqui a ouvir falar de uma massa de ar frio vinda da Rússia É mesmo possível que chegue a Portugal?
É, vai chegar de raspão.
Ui.
Mas é importante explicar como é que acontece.
Fazamos isso.
Durante o outono e o inverno, o interior da Europa e da Rússia podem arrefecer muito rapidamente e quando a circulação atmosférica é favorável, esse ar frio normalmente desloca-se para o Oeste, atravessando diferentes países europeus e uma parte pode chegar à Península Ibérica. Quando esta massa traz aquele ar mesmo gelado, lá dos confins da Sibéria, estas massas de ar frio chamam-se a besta russa.
Uau. Um nome nada simpático.
Não. E pode deixar metade da Europa debaixo de neve. Há aqui uma ressalva, não significa que o ar que chega a Portugal tenha a mesma temperatura que tinha quando saiu da Rússia. Durante o percurso, ele vai sendo modificado pelas superfícies que atravessa, pela mistura com outras massas de ar, e normalmente quando chega aqui, já vem bem mais temperado. Normalmente, quando passa os Pirenéus, começa a perder força.
Mas por que o frio chega precisamente agora?
Exatamente, porque a circulação atmosférica na Europa está a mudar, está a fazer estas mudanças para nos trazer também a chuva. Os modelos têm mostrado um anticiclone muito forte perto das Ilhas Britânicas e a sua posição favorece a circulação de ar mais frio, que vem do interior do continente europeu e vem em direção à Europa Ocidental. E Portugal vai receber parte desse ar frio, sobretudo por causa dos ventos de leste que nos trazem este ar frio.
Mas um anticiclone não costuma trazer bom tempo, calor?
Bom tempo, muitas vezes.
Pelo menos é essa a ideia que tenho.
Bom tempo, muitas vezes. Calor, não necessariamente. É um equívoco muito comum, o teu e o de muita gente. Um anticiclone é uma região de pressão atmosférica elevada, geralmente está associada a ar descendente, menos nuvens e tempo mais estável, mas a temperatura depende da origem do ar que circula à volta dele. Se um anticiclone favorecer a chegada de ar quente do sul, temos temperaturas elevadas. Se favorecer a entrada deste ar frio de leste ou às vezes de nordeste, temos temperaturas mais baixas. E a outra particularidade, que com o céu limpo como está, o sol perde calor durante a noite e evapora-se e pode tornar as madrugadas ainda mais frias. Portanto, o anticiclone pode trazer sol e, ao mesmo tempo, geadas.
Afinal, pronto, não era bem assim como eu pensava.
Não era bem como tudo isso.
Exato. Então, mas qual é a diferença entre este frio continental e o frio que costuma chegar do Atlântico?
O frio continental é fácil, forma-se ou circula sobre grandes extensões de terra, vem normalmente daquelas regiões nórdicas, neste caso, normalmente da Rússia e da Sibéria. No inverno, essas superfícies arrefecem muito, o ar pode se tornar frio e normalmente é muito seco, aquele frio seco, que greta os lábios, sabes?
Sei, não é nada bom.
Não. Quando chega a Portugal, pode provocar estas madrugadas muito frias, sobretudo se o céu estiver limpo e o vento for fraco. Já o ar marítimo vem do oceano, vem do outro lado, vem do lado da Gronelândia e da Islândia. O Atlântico dá-lhe humidade, influencia a temperatura, por isso o ar marítimo chega frequentemente acompanhado de mais nuvens, chuva e vento.
Eu acho que este aqui ainda é pior.
É. E em muitas situações, as noites tornam-se menos frias porque as nuvens reduzem o arrefecimento da superfície. É quando a gente diz que chove e ficou menos frio.
Pois. Nós até dizemos que o frio úmido entra pelos ossos, não é?
É, é uma expressão muito portuguesa.
Mas nem dá pra aquecer.
É uma expressão portuguesa e tem uma explicação física. O que sentimos não depende apenas da temperatura indicada pelo termômetro. O vento, que normalmente vem associado a esse frio, aumenta a perda de calor do nosso corpo. Às vezes a roupa fica úmida, parece sempre molhada, perde parte da sua capacidade de isolamento e a evaporação da água retira também calor à pele. Portanto, sentimos normalmente aquele desconforto num dia com 10 °C, vento e chuva, e às vezes podem estar 5 °C com o frio seco e não sentimos tanto esse frio. Tem a ver com a umidade, entrar pelos ossos, o vento e a roupa molhada.
Eu tenho que pensar nesta sensação. É tão desconfortável.
É, não é?
Meu Deus, então, mas vamos sentir aqui estes dois tipos de frio esta semana?
Vamos. Vamos ter primeiro a influência do ar mais frio e seco, já é a partir de amanhã e quarta e quinta será terrível e com geada. Se o Atlântico voltar a dominar com esta circulação atmosférica, vem a chuva, o vento e as madrugadas serão menos frias quando começar a chover, mas sentiremos mais desconforto por causa do vento e da umidade. É a diferença dos dois frios.
Que impressão. Bom, vamos passar à nossa curiosidade, Filomena. Os morcegos podem ajudar a produzir mais chocolate. Como assim?
Não gostas de morcegos nem de chocolate?
Chocolate, gosto. Morcegos, tenho as minhas dúvidas.
São simpáticos.
Pois, alguns deles têm um ar assim fofinho. Até posso concordar.
Esta é uma mistura difícil, é estranha, mas é validada.
Como é que isto funciona?
Uma investigação concluiu que em determinadas condições, a presença de aves e de morcegos contribui para aumentar muito a produção de cacau. E estamos a falar de muito mesmo, porque pode ser o dobro da produção.
Bem, mas o que os morcegos têm que ver com o chocolate? Que eu sei que ainda não consegui perceber.
O chocolate é produzido a partir do cacau, que cresce em árvores das regiões tropicais. Essas árvores podem ser atacadas por insetos, que prejudicam os frutos e reduzem a produção. Ora, muitas aves e morcegos alimentam-se precisamente de insetos. Funcionam, portanto, como uma espécie de controle natural das pragas. E podem ajudar os agricultores sem a necessidade de recorrer a tantos tratamentos químicos.
Isso é bom. Mas como é que os investigadores descobriram isso? Como é que chegaram a esta conclusão?
Os malandros dos investigadores foram pra Amazônia peruana, foram investigar 28 explorações, dizem eles, eu digo que também foram de férias. Em parte dessas explorações, eles colocaram redes à volta de determinadas árvores para impedir o acesso de aves e morcegos. E depois compararam essas árvores e a produção dessas árvores com a de outras, onde os animais, os morcegos, andavam a circular livremente. E descobriram que havia realmente diferenças muito grandes entre a produção de umas e de outras.
Que engraçado. Mas estas árvores, que acabam por ser visitadas por aves, morcegos, produziram mesmo mais cacau, foi uma quantidade tão drástica?
Foi. Em determinadas condições, estes animais, para o controle das pragas, teve-se uma produção que era quase duas vezes superior. Portanto, daí o dobro. Ou seja, proteger estas aves e estes morcegos pode ter um benefício econômico direto para os agricultores. Os investigadores estimaram que este serviço natural que os morcegos prestam para o controle de pragas podem representar, nas condições estudadas, cerca de 1640 dólares por hectare e por ano.
Pronto, então os morcegos já subiram uns pontinhos na minha consideração. Muito bem.
Agora só falta produzires cacau.
Exato. Filomena Martins com mais um "Quente e Frio". Até amanhã.
Até amanhã.