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O "mundo misterioso" de Agatha Christie está em exposição em Londres

Viajou a bordo do Expresso do Oriente antes de Poirot, fez surf no Havai na década de 1920 e escreveu uma peça que está em cena há 75 anos. Nova exposição revela a vida pouco conhecida da autora.

"Ela era uma mulher muito mais ativa, interessante e moderna do que lhe dão crédito", admite o bisneto da criadora de Hercule Poirot e Miss Marple
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▲"Ela era uma mulher muito mais ativa, interessante e moderna do que lhe dão crédito", admite o bisneto da criadora de Hercule Poirot e Miss Marple

Getty Images

▲"Ela era uma mulher muito mais ativa, interessante e moderna do que lhe dão crédito", admite o bisneto da criadora de Hercule Poirot e Miss Marple

Getty Images

A “rainha do crime” e criadora dos detetives mais célebres do século XX, Agatha Christie, é a estrela de uma nova exposição na British Library, em Londres, inaugurada no passado dia 30 de outubro. No ano em que se assinalam os 50 anos da sua morte, a vida enigmática da escritora é recordada através de uma coleção de artefactos que revela alguém muito diferente de Miss Marple, a velhota intuitiva que sempre lhe foi associada. Em exibição até 25 de junho, Agatha Christie: A World of Mystery explora mais de 200 objetos pessoais e cenários de viagens ao Oriente e a escavações arqueológicas, que inspiraram as aventuras de Hercule Poirot, Miss Marple, Tommy, Tuppence e muitos mais.

Um dos itens em destaque é a máquina de 1937, que Christie terá utilizado para escrever mistérios como No Início, Eram Dez…. Fácil de transportar, era tratada pela escritora “como um computador portátil”, afirma a curadora da exposição, Lucy Rowland, citada pelo The Times. A ferramenta, indispensável para uma cronista em movimento, foi um dos objetos favoritos da autora durante as viagens que efetuou com o segundo marido, o arqueólogo Max Mallowan, a escavações na Síria e no Iraque. As expedições em causa informaram policiais, como Intriga em Bagdade ou Crime na Mesopotâmia, mas também o livro de memórias Come, Tell Me How You Live (traduzido para Na Síria, na edição portuguesa).

Fragmentos da década de 1930, a mais produtiva da carreira de Christie, estão disponíveis sob a forma de filmes curtos e fotografias, que a escritora capturou com uma câmara Leica, também exposta. Esses não são os únicos registos fotográficos presentes, que abrangem imagens centenárias da infância de Christie na casa de campo onde nasceu em 1890, na costa sul de Devon.

▲ A réplica de uma carruagem de comboio do tempo e das histórias de Agatha Christie, que faz parte da exposição

O manuscrito do seu primeiro conto, House of Beauty — que inspirou o livro editado em 1926, House of Dreams —, mas também um manual de instruções da autoria de Sir Arthur Conan Doyle sobre o método dedutivo de Sherlock Holmes, constam na coleção de objetos alusivos à infância e adolescência da autora.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Christie voluntariou-se para desempenhar funções de técnica de farmácia e enfermeira, que lhe permitiram aprofundar o conhecimento sobre drogas e venenos. Agora, todas as toxinas que figuram nos seus livros estão expostas num armário da British Library, além de notas manuscritas sobre as substâncias utilizadas pelos homicidas que escreveu — nomeadamente sobre o assassino do romance O Cavalo Amarelo.

O livro em causa destaca-se na bibliografia da autora por detalhar os sintomas do envenenamento por tálio — uma das substâncias em exibição —, o que alertou os leitores para os perigos da exposição a este elemento químico. A informação que difundiu terá salvado, pelo menos, três vidas. “Disto tenho a certeza absoluta — se não tivesse lido O Cavalo Amarelo e, consequentemente, conhecido os efeitos do envenenamento por tálio, X não teria sobrevivido”, escreveu uma leitora sul-americana numa carta endereçada a Christie, em 1975.

Outro dos ex-libris da mostra é uma carruagem de comboio em tamanho real, semelhante àquelas onde viajou pela Europa fora e na direção do Oriente — experiências que influenciaram um dos seus romances mais conhecidos, que foi adaptado ao cinema múltiplas vezes, Um Crime no Expresso do Oriente.

Em 1922, a autora fez uma viagem de dez meses pelo Império Britânico, acompanhada pelo primeiro marido, o oficial da força aérea Archibald Christie. O casal deixou a filha de dois anos com familiares nas ilhas britânicas e conheceu destinos longínquos e inacessíveis à maior parte dos seus contemporâneos, como a África do Sul, Nova Zelândia, Havai ou Canadá. A exposição exibe fotografias desta “Grand Tour“, onde é possível ver Christie em cima de uma prancha de surf — um retrato da escritora que tem muito pouco que ver com a engenhosa Miss Marple, limitada à pequena vila de St. Mary Mead, onde dedica o tempo a jardinagem, tricot e observação de pássaros.

▲ A máquina de escrever Remington de 1937 usada por Agatha Christie, emprestada pelo arquivo oficial da família da escritora, pode ser vista na British Library

“Ela [a Agatha] era uma mulher muito mais ativa, interessante e moderna do que lhe dão crédito“, admite o bisneto da autora e presidente da empresa que negoceia os seus direitos, James Prichard, ao The Times. “A ideia de entrar num comboio ou barco em 1920 ou 1930 em direção a um sítio sobre o qual não se sabe nada […] onde as vistas e os cheiros e tudo o resto é completamente diferente… É difícil compreendermos o quão corajosa ela era.”

Nos últimos anos de vida, Christie dedicou-se à escrita para teatro e, em 1952, estreou A Ratoeira (The Mousetrap) — em cena no West End londrino há quase 75 anos. A British Library expõe fotografias desta época, afixadas entre manuscritos de outras criações originais da autora, gravações da sua voz, correspondência pessoal e ainda cartazes e figurinos das adaptações dos seus romances ao cinema e à televisão.

Agatha Christie: A World of Mistery quer despertar os visitantes para uma visão mais compreensiva da vida da autora, tão ou mais interessante do que aquela que compôs para as suas personagens. Depois da exposição andarilha Agatha Christie and Archaeology: Mystery in Mesopotamia — apresentada no British Museum em 2001 — a biblioteca nacional do Reino Unido vai além do universo de ficção que a britânica criou e desafia os fãs e aspirantes a detetives a “procurar pistas escondidas e easter eggs” entre os artefactos de uma vida.

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