Foi considerado “um livro único de viagens e um clássico raro entre nós” pelo saudoso Gil de Carvalho numa crítica à primeira edição (Lisboa: Relógio d’Água, 1993), que a Companhia das Ilhas agora recuperou para o seu catálogo de livros heterodoxos de viajantes (v. Impressões Insulares de Joaquim M. Palma, 2022). É este um livro em contraciclo absoluto da glorificação simplista das ilhas açorianas e dos abismosos delírios turísticos em que o arquipélago foi enredado e preso, na última década a galope, e traz a marca forte — por vezes retorcida, é verdade — dum espírito livre que conhece bem aqueles territórios, por repetida vilegiatura neles; e o mesmo diria dos trabalhos açóricos de João Miguel Fernandes Jorge, o amigo íntimo do autor, como a recente colectânea de ensaios, ficções e narrativas de viagem Rodeado de Ilha (Lisboa: Relógio d’Água, 2021, 308 pp.) e dois livros de poesia ainda dos anos 90, Terra Nostra (1992) e Bellis Azorica (1999), além dum longo prefácio inter-pares do romance de Vitorino Nemésio Mau Tempo no Canal (2004; só Vasco Graça Moura escreveu outro de fôlego, em 1988, mas para uma tradução francesa). As obras destes dois escritores, correndo juntas porém tão distintas, representam uma aproximação aos Açores por escritores continentais de alcance e profundidade comparáveis por nenhumas outras no último meio século, e isto deve ser dito e redito até que seja reconhecido, pois demora.
E para que se saiba mais em contexto, direi que a escassa obra de Maria de Fátima Borges (1943-2020) — “minha grande amiga e minha grande escritora portuguesa” (p. 7), “que tanto admiro […] desde o tempo em que fomos caloiros em Coimbra” (p. 115), “a primeira leitora deste livro, ainda dactilografado” (p. 88n.) —, a quem Do Corvo a Santa Maria. Derivas é dedicado, foi publicada pela Cotovia dos irmãos André e João Miguel Fernandes Jorge em 1989, logo nos inícios da sua actividade (bastante depois, em 2018, Vai Chover Amanhã haveria de sair em auto-edição).
A escritora micaelense foi determinante para que Magalhães e Fernandes Jorge trocassem sazonalmente a sua “casa mais silenciosa e fechada do que qualquer pequena ilha” (p. 122), algures entre Bombarral e Peniche, creio, permitindo descobrir “nos Açores o Portugal que julgava perdido e nunca mais abandonei essa pacificação de viver” (p. 126). “Comecei a ler tudo o que fui encontrando sobre os Açores, a ver tudo o que fosse ilha e parte de ilha, a tornar orientada a minha imaginação para esse apaixonamento” (p. 127), a tal ponto confiado no que uma imersão de meses e meses lhe traria em “aprendizagem de lugares que, aos poucos, se iriam tornando próximos de mim” (p. 127). Sobremaneira, permitiu-lhe dizer — em finais dos anos 80 — que “De tanta gente local que encontrei, quase ninguém conhecia as ilhas todas ou, quando conhecia alguma, tinha invariavelmente lá estado menos tempo e calcorreado muito menos do que eu. O que teria alguma justificação no caso das suas ilhas ocidentais. Mas o desconhecimento de São Jorge entre os próprios açorianos das outras ilhas sempre me chocou” (p. 56; o itálico é meu). E reflectindo sobre como os açorianos vivem o seu mar, que “pouco mais é que uma fronteira incómoda, uma espécie de desaire” (p. 41), pois “todos a todos se prendem na corda indivisível dos limites da ilha” (p. 176), Joaquim Manuel Magalhães comenta, lucidamente, que o mar em Vitorino Nemésio é “uma componente metafísica, um adereço com histórias de que precisa para acentuar motivos que são de terra e à terra voltam” (p. 42).
Esse afastamento terra/mar surpreendeu-o, de facto: “Numa ilha, sobretudo em ilhas pequenas, podemos ser dados a crer que há sempre uma experiência exacerbada do mar. […] Nos Açores de hoje, pouco mais vi do que o efeito dos transportes de mercadorias entre ilhas, uma pesca ainda demasiado próxima do artesanal e uma presença regular na paisagem. […] O uso turístico do mar, a existência de uma frota mercantil, a relação aventureira, até mesmo uma actividade piscatória de vulto, nada disso comparece a fazer dele [o mar] qualquer coisa tão central como é a lavoura, isto é, o pasto para as vacas e a recolha do leite” (p. 41; itálico meu). São as ilhas açorianas “terra pobre como todas as terras portuguesas, onde a maior parte fica na recolha má de precárias situações” (p. 48), e a outra parte lança-se na emigração, que é, afinal — a par da vaca — a “outra monocultura [que] não desaparecerá tão cedo” (p. 105) no “lugar arrancado da Europa que são estas ilhas” (p. 107), como “montanhas sem continentes vizinhos” (p. 96). Dos granéis da Graciosa, disse, “espreitam crianças de testa baixa à espera da emigração” (p. 75). Mais tarde, há de referir que “Há imensas zonas que não foram “humanizadas”, pelo que se mantém acolhedor o que é inóspito, sem marcas de abandono” (p. 103) e ruínas, que a emigração gerou em larga abundância.
Título: “Do Corvo a Santa Maria. Derivas” | Autor: Joaquim Manuel Magalhães | Editor: Companhia das Ilhas | Páginas: 242 | Preço: 18 €
Quem, antes de 1993, tivesse lido Os Dois Crepúsculos e Um Pouco da Morte, dois livros de ensaios e crónicas de Joaquim Manuel Magalhães (e muitos dos seus versos de 1974 em diante), jamais estranharia a virulência crítica do autor — próxima da de Jorge de Sena, diria — lançada em frases de Do Corvo a Santa Maria como: “a tribo errante e tacanha dos portugueses” (p. 109); “Nunca imaginei que uma universidade e a sua cidade [Coimbra] fossem um lugar tão tacanhamente ignominioso” (p. 125); sobretudo, que os Açores são “lugares ora trágicos ora pacificadores […] onde a sobriedade da pobreza não viu ainda cair excessivamente sobre si a traição industrial, a banalidade da demografia massificadora, o caos das periferias desabando no centro das cidades” (p. 107), “São Jorge, sempre que se sai dos cimos deslumbrantes, […] parece toda escangalhada, humana e urbanisticamente. […] tudo parece que levou um pontapé” (p. 103), “estamos sentados debaixo de um centenário metrosídero, na Caloura, com vizinhos infames a almoçar” (p. 127), para ainda se exasperar com os “labregos das ondas” na marina da Horta (p. 199) e com os “pantanosos best-sellers em embrulhos de devoluções” supostamente destruídos por intempérie na livraria dum centro comercial de Ponta Delgada, que agora recusa receber o livro das mãos do seu novo editor — sequer no regime habitual da indigna e duvidosa consignação (v. pp. 156-57)…
A páginas tantas, Joaquim Manuel Magalhães esclarece que Sérgio H. Coimbra, o seu editor no inigualável caderno “Vida” do semanário O Independente, onde estes escritos tiveram primacial publicação, lhe exigira (sic) que escrevesse dos Açores e não sobre os Açores. “E assim surgiu o ímpeto para me dar voz no contexto das ilhas” (p. 127), donde “estes inúmeros meses e meses da minha vida fecharam-se sobre mim, não quis interpretar ninguém. Via bem extremas pobrezas, via bem uma burguesia provinciana e oportunista; via bem rurais carregados em vários subdesenvolvimentos. Contudo, não os conhecia longamente” (p. 192). E todavia — note-se bem: estamos em 1990 ou 91, e muito mudou desde então, para melhor e para pior também — o autor fala-nos de “um registo de pobreza e resistência que culmina tantas histórias de sobrevivência que não deixam de me perseguir na memória passada das ilhas, e até ao presente, com tantas crianças malcrescidas e tantos sinais de difícil crescimento em muita da população” (p. 23; itálico meu).
Apesar dos prodígios naturais que a origem vulcânica confere às ilhas açóricas, o poeta proclama que “a natureza | é o próprio abismo” (p. 139), e sua “possibilidade” é sempre destruir e matar, pelo que “não pode deixar de ser aquilo que, para mim, obsessivamente é a presença da morte” (p. 116). E interroga: “Mas também não é assim a própria morte, um vulcão que sabemos que vai chegar?” É que “debaixo da crosta cortada por catástrofes que depois nos seduzem, o seu [da natureza] apelo é o contrário do da arte, é o da morte, o da vida, o da escuridão do que em absoluto nunca entenderemos” (p. 113). A consciência da efemeridade da vida humana tem ali, portanto, um acréscimo que percorre em contínuo essa fiada de derivas a pé, táxi ou carro alugado, em que, “sedentário curioso” (sic), Joaquim Manuel Magalhães dá “atenção desmesurada a todas as formas vegetais” (p. 201), atento, portanto, ao que ciclicamente se renova e revelando um vasto conhecimento botânico que não lhe conhecíamos como seus leitores. Naquelas ilhas onde “a natureza podia, em completo à vontade, murmurar a cada um o que sempre faz, a minúscula palavra morte” (p. 149), encontrou ele “o mundo, isso que sabemos quanto nos sobrevive, a mostrar-nos na beleza mais intensa quanto nada é de nós” (p. 189), passageiros breves disto tudo, afinal um “desastre movido pela esperança” (p. 187), e que “a mesma vida que nos acaricia nesse afago nos desgasta e, quase sem o sentirmos, nos vai empurrando para a dor. Ou, tantas vezes, para essa bem pior amargura, a sua antecipação” (p. 190).
“Estas paisagens — diz — ajudam-nos a desaparecer” (p. 185), “é também a ilha que nos ajuda a esquecer” (p. 175), até “os agouros da imaginação acostumada aos desmoronamentos da vida” (p. 189). Os longos poemas no início, meio e fim deste livro, com muita vida privada em filigrana, e os encontros de sexo ou sedução narrados, é também deles que tratam.
“Além do caminho da Povoação ao Faial da Terra, em São Miguel, é o Pico visto do Faial que me desperta sobremaneira a nostalgia dos Açores” (p. 107), tratando-se, concorda, da “mais bela paisagem portuguesa […] com o alvo casario além do canal e o telão inverosímil da montanha” (p. 90). E “São Jorge tem cimos capazes de fazer face a tudo aquilo que esperamos da natureza açoriana” (p. 101). Porém avisa: “Não há, nos Açores, nada que possa fazer inferior a Graciosa” (p. 199), “a bem-amada Graciosa” (p. 36), “a ilha macia”, “a perfeição das suas casas, da paz que não cessa de nos enredar” (p. 80). Num verso, o poeta exprime “o lento consolo | desta mansidão” (p. 135), numa página defende “o hábito salutar da indiferença” (p. 168), noutra, ainda, as “pessoas afeitas ao descontínuo” e o “alheamento ao obrigatório quotidiano” (p. 148) — e somos levados a pensar que encontrou naquelas ilhas atlânticas o “jorro manso das coisas que não são da nossa vida e que vivemos” (p. 189).
Sem inquérito etnográfico e etnobotânico deliberado, Magalhães pergunta a quem passa nomes de plantas e compara-os com os de Portugal: “ao que eu chamava bordões, chamavam eles papoilas de mascarado” (p. 215); “o tamariz de flor rosada […] a que chamam aqui, a princípio absurdamente, salgueiro” (p. 76); “dessas faias que são diferentes das árvores a que chamamos assim” (p. 174). E não lhe escapam alguns usos, como figos secos vendidos em seiras de folha de palmeira (p. 158) e cestos de chicharro cobertos com fetos (p. 160) — até mesmo “as espichas dos pescadores (a que chamamos passadores)” (p. 146). Lamente-se que não tenha dado atenção específica à arquitectura, além de duas ou três apreciações locais, como as “casas perfeitas” da Graciosa, já referidas, em Santa Maria “pelos campos essas harmoniosas habitações que parecem abrigar seres voláteis” (p. 223), mas que abundam de abandono (p. 101), ou as casas de Angra e São Mateus e o campo, que lançam o escritor “num bem-estar de província bem cuidada que só experimento equivalente em Évora e nas suas pequenas quintas circundantes” (p. 45).
Outras observações a registar e conferir: “Gostei muito da altivez dos corvinos, da altivez com que nos acolhiam por saberem já nos estar a excluir” (p. 34); “a reconhecida capacidade dos picoenses para darem respostas ambíguas, quase délficas, quando se lhes levanta qualquer questão” (p. 216); nas Flores viu “o arquipélago em estado puro, sem a manha dos disfarces que nos outros lados tão claramente se pressentem, profundamente amável nos seus defeitos” (p. 27). “As danças do cachalote [na costa agreste do Pico] envolvem-me num clima de devaneio tão forte que gostaria de não as perder em ano nenhum da minha vida. Quando vejo as crianças de Rabo de Peixe ou as casas desfiguradas da Ponta Garça […], penso logo que tais danças as haveriam de curar” (p. 219).
Dois pequenos trechos são, para mim, inesquecíveis: o da “folha que não conhecia” e ficou presa à grelha do pára-brisas do automóvel, no dia seguinte uma outra na mesma posição e depois uma outra ainda, tudo isso como “dádivas das mais secretas”, fazendo do “continuar ao volante donde a vejo uma discreta felicidade que nenhuma desordem do mundo vai impedir” (pp. 168-69); e o pequeno pássaro ferido na estrada, que o poeta evitou ajudar a morrer, “com uma roda partir de vez todo esse sofrimento que crepitava”, e muito se arrependeu disso. Para concluir em seguida, com a verve que lhe conhecemos e tanto admiramos: “Eu que sou totalmente a favor da morte assistida, que neste país nos negam, talvez pela iníqua manha da Igreja e dos totalitários” (p. 171).