Muitos foram os craques que, com uma raquete na mão, por lá passaram. Entre Roger Federer, Novak Djokovic, Juan Martin del Potro, Thomas Muster ou Juan Carlos Ferrero, o ritual já parecia sagrado — durante 25 anos sabia-se que, mais dia, menos dia, Portugal acolheria, em abril, um torneio a contar para o circuito mundial de ténis. Houve até um português, Frederico Gil, que em 2010 por pouco não levou o troféu para casa. Ver tenistas do top-10 do ranking da ATP (Association of Tennis Professionals) a baterem bolas num court de terra batida no meio do Complexo Desportivo do Jamor já quase se tornara um hábito. Até que, de repente, tudo parecia estar a acabar.
Foi um comunicado a trazer as más notícias: a 18 de novembro, João Lagos, empresário que organizou todas as edições do torneio, revelou que não tinha reunido as condições para, em 2015, assegurar o Portugal Open. É o fim, pensou-se. Ou não. Umas semanas depois até Emídio Guerreiro, secretário de Estado do Desporto, decidia falar para garantir que a prova se realizaria nos próximos três anos — sem dinheiros públicos. E sem João Lagos. Para já, quando restam quatro meses para a suposta realização do Portugal Open, nada mais foi dito ou confirmado.
Organizou o Portugal Open durante 25 anos. E falou pela primeira vez ao Observador desde que abandonou a organização do torneio. O empresário diz que não tratará da 26.ª edição da prova devido à decisão de uma juíza e falou de Jorge Mendes, proprietário da Gestifute, como um dos possíveis novos organizadores do torneio.
Qual foi a primeira coisa em que pensou quando Emídio Guerreiro, secretário de Estado do Desporto, garantiu a realização do Portugal Open em 2015?
Naturalmente que quando se ouve um secretário de Estado dizer uma coisa dessas, dá-se isso como bom. Posteriormente, pelo que vim a saber, dá-me ideia que era mais um desejo do que uma garantia, pois não competiria ao Estado qualquer tipo de financiamento ao Open. Ainda por cima, obviamente que sabia que esse futuro Open não iria ser feito por mim, em 2015, 2016 e 2017, nos próximos três anos. Fiquei convencido de que teria garantias, de quem quer que fosse o futuro organizador. Mas percebi que não era bem assim e fiquei um pouco intrigado com a situação. Até hoje não consegui ficar esclarecido se haverá, ou não, um Open de Portugal.
As garantias podem passar pela Gestifute, empresa de Jorge Mendes?
O que eu sei é aquilo que a opinião pública fala. Pega-se muito na marca Gestifute, que está associada aos grandes nomes e negócios de futebol. Mas não me parece que seja a Gestifute o grande promotor de um futuro Open de Portugal. Eventualmente fará parte de um grupo do qual ainda não se conhecem todos os dados. Cheguei a contactar uma empresa do universo Jorge Mendes, aqui há uns largos meses, para, em conjunto comigo, serem parte de uma solução. Essa démarche não teve grande sucesso. Por isso aguardo com alguma curiosidade ver o Jorge Mendes ou alguma das suas empresas associadas a um evento desta natureza.
Mas essa empresa demonstrou interesse em participar na organização do Portugal Open?
Não propriamente, embora quisessem colaborar de alguma forma, nem que fosse encontrar um parceiro internacional. Mas não passou de uma conversa simpática que eu pretendia que fosse construtiva. É com alguma estranheza que vejo o nome de Jorge Mendes vir a público. Mas, na realidade, da boca do Jorge Mendes ou de algum dos membros da sua organização, ainda não ouvi nada oficialmente.
Chegou a falar com ele na altura?
Não, não. Aquilo que sei é que o Jorge Mendes é porventura o maior empresário do mundo do futebol. É com grande satisfação que vemos os protagonistas deste nível serem portugueses. Não se lhe conhecem outros interesses no desporto além do futebol. Mas com grande mérito veria Jorge Mendes e o seu grupo intervirem em outras áreas.
E já se falou que Benno Van Veggel também poderá estar envolvido na organização do Portugal Open.
É uma figura que conheço bem, desde que veio para Portugal, há cerca de 30 anos. Era um jovem praticante de ténis e vinha cá jogar os torneios da época. É um emigrante holandês que se radicou em Portugal. E foi outra entidade que consultei para a eventualidade de encontrarmos uma solução nos problemas de tinha com a continuidade do Open. Na altura o interesse não foi grande, por isso é também com alguma surpresa que o vejo agora a aparecer. Surpreende-me que não tenha trabalhado uma solução comigo e que agora possa aparecer numa solução que nada tem a ver comigo. Mas as semanas passam e nada disto é concretizado ou oficializado.
Isso preocupa-o?
Estamos a falar de entidades que não têm experiência na organização de grandes eventos. É com algum receio que vejo o tempo a passar e, neste altura, em outros anos, já muito trabalho estava feito. Gosto muito que o Open possa ter continuidade, mas por outro lado temo pela sua concretização em níveis que a prova nos habituou. É uma preocupação que eu tenho.
A especulação dura desde 18 de novembro, quando anunciou que a João Lagos Sports não reuniu as condições necessárias para organizar o Portugal Open. Que condições são essas?
As condições que eu precisava de preencher não são necessariamente as que um grupo novo terá de preencher. Era a 26.ª edição consecutiva, não tinha de comprar licença nenhuma, era apenas a continuação do que vinha fazendo desde 1990. Neste caso, ao que tudo indica, isto será uma licença nova, nas mãos de novos produtores, e consta que têm à cabeça um investimento de dois milhões de euros para reiniciar o Open. É um problema acrescido do ponto de vista financeiro. Os meus problemas eram garantir o prize money, as infraestruturas e montar e desmontar um estádio provisório.
Por norma, qual era o orçamento necessário para organizar o Portugal Open?
Sobretudo nestes últimos anos, em que a crise atacou forte no nosso país, o orçamento andava algures entre os 3,5 e os 4 milhões de euros. Isto numa organização experimentada, que conhecia todos os cantos à cabeça, onde cortar e economizar. Mas numa organização sem a nossa experiência, há o risco de custar um pouco mais. Sobretudo porque, na próxima edição, e aconteceria a qualquer organização, haverá no próximo ano outro torneio na semana do Portugal Open.
Por decisão da ATP.
Nos últimos anos eram apenas dois torneios: o Portugal Open e o Open de Munique. Antes costumava também haver o torneio de Valência. Mas depois esse torneio mudou de data, passou para outubro e a realizar-se dentro de um grande pavilhão. Mas a partir de 2015 terá um torneio concorrente nessa semana, em Istambul, num grande pavilhão, pelo que sei com condições fantásticas, novas e modernas. E logo num país emergente e cheio de capacidade económica. É mais um fator de dificuldade.
Ficará mais difícil atrair os grandes nomes do ténis para Portugal?
Sim. É mais um fator de dificuldade para manter o Portugal Open com níveis competitivos. Não é nada que o Open não tenha já vivido nos tempos em que éramos três torneios. E nesses anos o nosso, apesar de tudo, era sempre o melhor. Serão tempos difíceis para o futuro do Open e para quem quer que seja o seu organizador. Não serei eu, claro. Talvez por todas estas prerrogativas e dificuldades é que os promotores ainda não tenham sido anunciados oficialmente, sejam eles a Gestifute de Jorge Mendes, o Benno Van Veggel ou um ex-colaborador meu.
Quem?
É o João Zilhão. Trabalhou comigo muitos anos e aprendeu uma boa parte deste ofício. Começou no Open enquanto apanha-bolas, praticamente, e fez um percurso de 20 e tal anos a trabalhar ao meu lado. Enfim, é alguém que não deixou as melhores saudades. Por cá aprendeu umas coisas, mas não tudo. Tinha uma área muito específica, ligada às partes técnicas, mas não propriamente às questões organizativas e comerciais. Essas são as mais difíceis, sobretudo hoje. Angariar anualmente qualquer coisa entre os três e os quatro milhões de euros não é tarefa fácil neste país.
Se os novos promotores o convidassem para colaborar na organização do Portugal Open de 2015, aceitaria?
É uma boa pergunta. Para já não acredito que venha esse convite. Eu é que lhes fiz esse convite, numa situação um pouco diferente. Eu próprio os convidei para uma solução conjunta. Não fui bem-sucedido e não acredito que isso possa agora acontecer em sentido contrário. Mas cá estou para o que der e vier. Não acredito. Em grande medida porque a participação do João Zilhão e uma empresa alemã [U.COM Event, sediada em Düsseldorf] para a qual ele trabalha, e que trabalhou para mim durante muitos anos, tornaram-se entidades não muito cordiais na minha atividade profissional, por variadíssimas razões.
Em 1990, quando organizou a primeira edição do então Estoril Open, esperava que conseguisse atrair alguns dos melhores tenistas do circuito?
Esse era o meu grande defeso. Quando comecei o Open já tinha quase 20 anos de organização de outro tipo de eventos de ténis, mais pequeninos. Ansiava desenvolver. Por isso chegámos ao Open e, chegando lá, a ambição era seguir as pisadas de torneios como Wimbledon e Roland Garros. Desejava que Portugal tivesse um Open desses, não com a mesma grandeza, isso seria impossível, mas com o ritmo e regularidade anual às quais me habituei a assistir nestes torneios. Esperava ter vivido estes 25 anos e muito mais. Se não se tivesse gorado certos acontecimentos, como encontrar algum apoio e sócios quando precisei deles, teria conseguido continuar durante mais 25 anos.
Qual foi o ponto alto deste quarto de século de Portugal Open?
O ponto alto era todos os anos. Desde o primeiro, que foi uma aventura enorme. O máximo que tinha feito tinha feito nessa altura fora um torneio, da categoria Challenge, com 50 mil dólares de prize money. E o primeiro Open foi logo com 250 mil dólares, uma loucura de dinheiro. Nem tinha ideia onde e como conseguiria gerar esse tipo de receita. E não era só o prize money. Era toda a estrutura. Era necessário um estádio com o mínimo de 3.500 lugares. Não havia e foi preciso construi-lo de raiz, uma coisa que tive de fazer ao longo das 25 edições. Eram custos que desconhecia e no primeiro ano nem tinha como fazer um orçamento. Era uma descoberta constante. As despesas cresciam a cada dia que passava. Só no final do primeiro ano é que tivemos consciência do que era organizar um evento destes.
E foi ficando mais fácil?
Depois, todos os anos, quando terminava o torneio, havia que recomeçar de novo e andar 12 meses a correr atrás dos 3, 4 ou 5 milhões de euros. E quanto mais patrocinadores houvesse, mais custava. Porque eles esperam determinadas contrapartidas ou operações de corporate. Como uma tenda maior ou mais bem arranjada, para receberem clientes.
Sempre conseguiu satisfazer os interesses dos patrocinadores e parceiros?
Claro, o objetivo era esse. E foi de sucesso em sucesso que os Opens se foram sucedendo. Se não houvesse satisfação dos patrocinadores, a parceria não se repetiria nos anos seguintes. Foi acontecendo com maior dificuldade nos últimos anos, desde que a crise se instalou. A disponibilidade das empresas para este tipo de investimentos, em comunicação e marketing, foram diminuindo. A pouco e pouco tive que ir reduzindo os níveis de risco nos quais me via envolvido todos os anos. Mas lutei até ao limite até não ser mais possível manter o Portugal Open e a minha empresa.
Esse foi o pior momento que viveu nestes 25 anos?
Naturalmente que sim. Estive à beira de conseguir organizar o torneio. Tinha as condições todas reunidas para a continuidade do Open, que já não conseguia reunir nos últimos três anos: um patrocinador principal garantido e, ao nível das infraestruturas, uma série de garantias que iriam trazer grandes melhoramentos para a instalação do Open. E não fora o mau julgamento de uma juíza no processo de revitalização [Processo Especial de Revitalização (PER)] da minha empresa, na qual, apesar de ter o apoio de 80% dos meus credores, fez as contas de uma forma perfeitamente disparatada.
Que julgamento foi esse?
As dificuldades que tive durante o último Portugal Open levaram-me a meter um PER, que é chegar a um entendimento com os meus credores e ajudarem-me a recuperar a minha empresa, assegurando as condições para que o torneio pudesse continuar nos próximos anos. Consegui a maioria do apoio dos credores para me ajudarem a ultrapassar as dificuldades. Mas isso precisava de ser homologado pela juíza, o que não aconteceu.
Quais foram os motivos para a justiça não homologar o PER?
A senhora fez as contas e não dava 80%. E isso prejudicou todo um sistema que deu muitos meses de trabalho a muita gente. Era condição necessária para continuar com o Open e garantir à ATP que o torneio podia continuar a realizar-se em Portugal. E até estava garantido um novo sponsor para os próximos três anos. Ao não homologar deitou tudo isto por água abaixo. E a licença do torneio, que estava dependente das garantias, perdeu-se. Não tive outro remédio que dizer à ATP que, daqui para a frente, não tinha mais condições.
Qual era o patrocinador?
Não posso dizer. Nem devo.
Acha que no futuro voltará a reunir as condições?
Eu já as tinha. Mas alguém estava à espera que a vida me corresse mal e aproveitou esse meu momento de fraqueza para me tentarem substituir junto da ATP.
Quem?
Esses que já falámos. As entidades que procurei para que se juntassem a mim na procura de uma solução. Não o fizeram. Mas pelos vistos interessaram-se pelo Open e, quando eu fracassei, foram de roda e entraram em ação.
Todo este processo teve alguma relação com o pedido de insolvência da João Lagos Sports que, em abril, a Unidade de Estruturas Metálicas, SA. remeteu para o Tribunal de Comércio de Lisboa?
São as situações limites que se enfrenta quando se é teimoso em levar adiante e não desistir do Open, que era um evento fundamental para o desenvolvimento do ténis no país.
Porquê?
Era o grande ato de propagação e divulgação da modalidade. Para que o mercado e o número de praticantes de ténis cresça, é preciso promove-lo. E nada melhor que o Portugal Open para isso acontecer. E levava vantagem face às outras modalidades, pois mais nenhuma tinha, anualmente, um ato de promoção e de grande propaganda. A sua perda iria ser um grande abalo para o ténis e para Portugal. O torneio habituou-nos a ter por cá os grandes nomes do ténis mundial. Todos nos lembramos da presença do Roger Federer a vencer aqui, a vir duas vezes. E do [Novak] Djokovic, do [Rafael] Nadal, do [Thomas] Muster, do [Sergi] Brugera… Grandes campeões. Alguns até se revelaram no Portugal Open.
Qual foi o mais difícil de convencer a participar no Portugal Open?
Certa maneira, todos os números um do mundo são altamente cobiçados. Jogam poucos torneios além dos maiores e dos Grand Slams que têm de disputar. Fora disso, não jogam muitas mais semanas. Portanto, conseguir que viessem a Portugal em vez de outro sítio, nunca é fácil. Claro que há dinheiros envolvidos e cachets em jogo.
Chegou a cometer alguma loucura para conseguir um Federer ou um Djokovic?
Hmmm, não. De certa forma conseguimos sempre bons [negócios] deles e que viessem aqui cobrando menos do que se fosse jogar ao Médio Oriente ou a cidades bem mais poderosas do ponto de vista económico. O país era atrativo e a data também. Ao início éramos o primeiro torneio de terra batida na Europa. A pouco e pouco fomos andando para a frente e nos últimos anos já estávamos quase em maio. Isso sempre foi um fator de competitividade com as outras cidades onde há torneios antes de Roland Garros, onde os grandes nomes se querem apresentar no máximo da sua forma. A passagem pelo Estoril, para alguns jogadores, tornou-se quase numa obrigação. E como vários campeões de Roland Garros venceram aqui antes, participar no Portugal Open passou talvez a ser encarado como uma boa decisão técnica.
Arrepende-se de não ter conseguido trazer algum nome ao torneio?
Dá-me ideia que os tive cá todos. Tenho pena porventura de não ter trazido o Rafael Nadal no auge. Ele esteve cá [em 2004], mas teve o azar de ter uma lesão que, nessa ano, o impediu de terminar o jogo contra um dos seus grandes rivais, o francês Richard Gasquet, que são da mesma idade e geração. Eram grandes rivais nos juniores. Ele desistiu nos quartos-de-final. Na altura até ficámos na dúvida, mas era uma lesão que o impediu de disputar Roland Garros.
▲ Na edição de 2010 do então Estoril Open, o português Frederico Gil perdeu na final contra o espanhol Albert Montañés
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Qual foi o melhor jogo a que assistiu?
Não posso esquecer a grande final do Frederico Gil [em 2010?], o único português a chegar à final do Portugal Open. Ficou muito perto da vitória. Se fosse permitidas apostas naquele momento, no último set, na negra, quando ele tem dois pontos de break, a vitória estava mais do que previsível. Mas os nervos foram superiores e perdeu a vantagem que tinha.
Foi isso que faltou, um português a vencer o Portugal Open?
Claro que sim, foi uma das coisas que ficará por fazer. A evolução do ténis aconteceu e não tem comparação ao que era em 1990. Mas ainda assim insuficiente para produzir um lote de jogadores para disputar constantemente o pódio do Portugal Open. Era um dos objetivos ao qual tencionava chegar. É uma tarefa que ainda falta fazer, e quem sabe, se tiver energia, se não me dedicarei agora à formação de jogadores. O ténis continua a precisar.