Se antes era difícil, agora ainda mais complicado se podia tornar. Portugal tem um registo assinalável em Campeonatos da Europa Sub-17, com um total de sete vitórias apenas superado nesta categoria pelo registo da Espanha (nove). No entanto, por uma ou outra razão, o passo seguinte ficou sempre adiado: chegar a uma decisão do Mundial. Para se ter noção dos problemas, apenas por uma ocasião a Seleção conseguiu atingir o pódio da competição, no longínquo ano de 1989 quando perdeu nas meias-finais com a Escócia antes de ficar com o bronze depois do triunfo com o Bahrain numa geração que contava com nomes como Luís Figo, Emílio Peixe, Abel Xavier, Gil, Tulipa ou Bino, atual técnico dos Sub-17. No entanto, havia agora algo diferente numa prova que estreava um novo formato que será replicado pelos seniores com um total de 48 equipas.

A geração de 1995, com Marco Caneira, Pedro Hipólito, Vargas, Zeferino ou Márcio Santos, não conseguiu. A geração de 2003, com João Moutinho, Miguel Veloso, Vieirinha, Manuel Fernandes, Carlos Saleiro ou Paulo Machado, não conseguiu. Muitas outras gerações de sucesso na campanha no Europeu não foram sequer à fase final do Mundial. Agora, Portugal começava a despertar para um conjunto de jogadores que, depois da vitória no Campeonato da Europa, em junho, queria continuar a provar ser uma das melhores equipas desta geração. Apoio não faltou, com alguns grupos de WhatsApp de portugueses no Qatar a serem reativados depois do Mundial de seniores no final de 2022 para garantir sempre bancadas cheias naquela que é a prova com mais espectadores de sempre. A resposta em campo, essa, não podia ter sido melhor.

A primeira fase não terminou bem, com uma derrota frente ao Japão depois das goleadas diante da Nova Caledónia e de Marrocos, o passe seguinte a eliminar trouxa a melhor versão da equipa de Bino Maçães com vitórias consecutivas frente a Bélgica (2-1), México (5-0) e Suíça (2-0). Stevan Manuel, Mateus Mide, Rafael Quintas, Duarte Cunha e José Neto receberam prémios de MVP valorizando sempre a equipa e/ou alguns dos companheiros, Anísio Cabral chegava às meias-finais como melhor marcador da prova a par do austríaco Johannes Moser (seis golos) e o selecionador contava com todos os jogadores para esse passo final para a história frente ao Brasil, que teve de sofrer para eliminar Marrocos no último lance dos quartos após duas vitórias nos 16 avos e nos oitavos, diante de Paraguai e França, no desempate por grandes penalidades.

“Nesta fase todos os detalhes contam, quer ao nível do jogo, quer no desempenho dos jogadores. É verdade que o Brasil utilizará jogadores que ainda não jogaram e também não terão o ritmo que deveriam ter, sendo que devemos aproveitar esse fator. Estou muito contente pela maturidade e gestão que os jogadores conseguiram ter e fazer contra a Suíça, mesmo estando bem em termos defensivos e de agressividade, pois contar com todos será sempre fundamental, pois serão todos precisos”, referira Bino na antevisão, a propósito dos três jogadores brasileiros castigados contra uma Seleção que contava com todos os elementos apesar de haver alguns em risco na partida dos quartos frente à Suíça. No final, entre um duelo intenso com muitas faltas e vários lances a roçar o vermelho (direto ou por acumulação de cartões), Portugal acabou por ser mais forte no desempate por grandes penalidades e chegou a uma histórica decisão no Mundial Sub-17 diante da Áustria, que antes tinha conseguido vencer a Itália por 2-0 com mais um golo de Johannes Moser.

Com todos os jogadores aptos, Bino Maçães apostou sobretudo na recuperação física de todos os elementos para apostar na mesma formação inicial que batera a Suíça: Romário Cunha na baliza; Daniel Banjaqui, Martim Chelmik, Mauro Furtado, José Neto no quarteto defensivo; Rafael Quintas, Bernardo Lima e Mateus Mide no meio; Duarte Cunha e Stevan Manuel no apoio a Anísio Cabral, referência ofensiva que construiu a primeira boa oportunidade do encontro com um remate na área que acabou prensado num defesa contrário quando se dirigia para a baliza (10′). Portugal estava melhor e mais confiante no encontro apesar de um bom remate de fora de Zé Lucas que passou por cima (16′), mas um erro de perceção de Mauro Furtado numa abordagem a uma bola em profundidade que deixou Dell sozinho na área acabou por inverter esse rumo, apesar da grande “mancha” de Romário Cunha antes do corte de Chelmik em cima da linha a evitar o golo brasileiro (20′). A canarinha desperdiçava a melhor chance da primeira parte mas ganhava confiança.

Mauro Furtado ainda teve um livre direto para defesa segura de João Pedro (28′) mas o intervalo chegaria mesmo sem golos, com Portugal a mostrar uma organização que não dava muitas hipóteses às unidades ofensivas do Brasil mas a não revelar a mesma capacidade de sair em transições após recuperar a posse que tinha demonstrado em jogos anteriores, o que deixava Duarte Cunha e Stevan Manuel com menos jogo e Anísio Cabral mais sozinho na frente apesar do controlo que o meio-campo conseguia ter com bola.

O segundo tempo começou de forma mais quezilenta, com vários lances de disputa a meio-campo e o cartão amarelo despropositado ao capitão Rafael Quintas numa jogada em que escorregou e ainda foi atingido de forma dura na perna, ficando em visíveis dificuldades físicas que levaram à substituição pouco depois a par de Stevan Manuel para as entradas de Santiago Verdi e Yoan Pereira (57′). Não ficaria por aí: quase a meio da etapa complementar, Portugal pediu pela segunda e última vez a revisão do VAR num lance duríssimo em que Luís Pacheco atingiu Duarte Cunha no tornozelo sem bola mas o árbitro Vassilios Fotias entendeu que seria apenas para amarelo (com posterior entrada de João Aragão perante nova lesão aos 68′). O desgaste já se começava a sentir também, com as apostas de Bino a darem outro rendimento e a permitirem a Anísio ter a melhor oportunidade após o intervalo na área mas com um remate muito ao lado (79′). O duelo ia seguir para o desempate por penáltis, que já tinha valido ao Brasil triunfos com Paraguai e França, com Romário a atirar por cima com 4-4, Ruan Pablo a acertar de seguida no poste e Ângelo a atirar por cima para o 6-5 final.