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▲Encenação de Maralyn e Maurice, no London Boat Show em 1974, depois de quatro meses a sobreviver num pequeno barco de borracha, após o afundamento do iate onde viajavam

Getty Images

▲Encenação de Maralyn e Maurice, no London Boat Show em 1974, depois de quatro meses a sobreviver num pequeno barco de borracha, após o afundamento do iate onde viajavam

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A história de Maurice e Maralyn, perdidos a caminho da Nova Zelândia: "Dois apaixonados que estavam tão à deriva no barco como em terra"

A epopeia aconteceu em 1973 e deixou consequências no casal, naqueles que o rodeavam e em todos os que se inspiraram pela viagem, agora recontada por Sophie Elmhirt em livro. Entrevistámos a autora.

Sophie Elmhirst deparou-se com esta história — não por acaso — durante um dos confinamentos da pandemia de Covid-19. A ideia de um casal britânico ter passado 118 dias à deriva no oceano Pacífico, a sobreviver numa jangada de borracha depois de o barco que construíram — após venderem casa e tudo que tinham — ter sido atingido por uma baleia, era o escape à realidade que a jornalista britânica necessitava para se aventurar mais na escrita de não-ficção.

Já o fazia — e continua a fazer — através das grandes reportagens que escreve para jornais como o The Guardian ou revistas como a The New Yorker. Mas desta vez, para este livro, permitiu-se às veleidades das técnicas literárias, que permitiram acrescentar verdade e compleição a estas personagens, sobre as quais tanto se escreveu e noticiou na década de 70.

Sophie Elmhirst não conhecia esta história que ocorreu em 1973, enquanto Maurice e Maralyn Bailey davam a volta ao mundo (o objetivo era a Nova Zelândia), mas soube escrever sobre um universo em completa simbiose como se o tivesse vivenciado, sabendo observar os acontecimentos tanto do ponto de vista dos náufragos, das tartarugas, das baleias, como do sol, da imensidão do mar ou das estrelas. Náufragos (edição da Zigurate) é, mais do que uma história de sobrevivência no mar, uma metáfora de amor e companheirismo que explica aos solitários que o laço, a ligação aos outros, salva.

▲ A capa de "Náufragos", de Sophie Elmhirst, na edição portuguesa da Zigurate

Imagino que se tenha deparado com muitas histórias de pessoas que decidiram viver a bordo de um barco. Porquê esta história de 1973? Foi muito noticiada na altura e os próprios protagonistas escreveram dois livros sobre a experiência…
Eu estava a fazer toda essa pesquisa para um artigo e escrevi depois sobre algo completamente diferente: uns tech guys malucos que tentaram construir uma comunidade de bitcoins num cruzeiro. Foi aí que o artigo foi parar. Mas tinha também encontrado esta história e nem queria acreditar. Era um casal de ingleses – um casal, e normalmente estas histórias são sempre protagonizadas por homens. São sempre homens solteiros ou grupos de homens que ficam retidos ou naufragam. Quando encontrei a história, o que vi foi uma pequena fotografia a preto e branco de um homem e de uma mulher, com um aspeto muito inglês, muito aprumado. Fiquei imediatamente interessada por se tratar de um casal. Isso tornou a história imediatamente diferente, uma experiência muito diferente. Por outro lado, não foi assim há tanto tempo, foi há 50 anos. Nunca tinha ouvido falar deles.

Comecei a fazer perguntas: “já ouviram esta história? Lembram-se desta história?” À minha mãe, às pessoas dessa geração, “lembram-se de isto ter acontecido?”. Encontrei uma primeira pessoa que se lembrava. Depois mais pessoas entraram em contacto comigo por se lembrarem deles ou que leram os seus livros. Pareceu-me que valia a pena ressuscitar aquilo que aconteceu. Eles tinham feito algo tão excecional e, no entanto, eram, em muitos aspetos, um casal muito vulgar.

Quando decidiu que ia escrever sobre esta história, como é que decidiu fazê-lo? Porque esta não é bem — u não é só — a história de um naufrágio…
Isso foi muito importante para mim desde o início, não queria que terminasse com o salvamento. Queria tentar dar uma ideia de toda a vida deles. O que também me interessou foi a psicologia e a dinâmica interna do casamento. Era tão interessante saber como era quando eles estavam à deriva, como seria depois de uma experiência dessas, qual o impacto que teria no resto das suas vidas, na relação deles, nas pessoas à volta deles.

Ele tinha 40 anos aquando do naufrágio, nasceu em 1933. Ela era oito anos mais nova. Como é que o casal pôde dar-se ao luxo de deixar de trabalhar com essa idade para ir viver aquele sonho num barco?
Eles eram da classe média, pode dizer-se. Venderam a casa para ter um barco.

Associamos normalmente esta vida em barcos a pessoas ricas.
Sim. Eles sabiam que só podiam fazer uma viagem. E conseguiam ter um barco se vendessem a casa. Essa era a única maneira. Ainda andaram a poupar um pouco todos os meses, mas nunca conseguiram. A única forma foi mesmo vender tudo. E é curioso, porque depois conseguiram manter uma vida a bordo do segundo barco, durante algum tempo. Mas acabou por se tornar impraticável.

Nunca foram para a Nova Zelândia, como pretendiam.
Tiveram de regressar a Inglaterra, vender o barco e voltar ao tipo de vida a que, de certa forma, tentaram fugir. Isso deveu-se estritamente a razões financeiras. Não era uma vida economicamente sustentável.

Seria mais imaginável alguém que o fizesse hoje do que nos anos 70.
Sim, foi uma decisão muito radical. As famílias pensavam que eles eram loucos, especialmente a família dela. Acho que ele nem sequer estava em contacto com a família, que também não estava muito atenta ao que ele andava a fazer. Mas, com a irmã dela, falei muito. Ir contra as convenções da época, especialmente para uma mulher, foi…

"Foram bastante rápidos a estabelecer rotinas porque eram ambos pessoas muito práticas. Ela, mais. Mas ambos muito práticos. Ele era muito bom a consertar e a remendar, por isso rapidamente resolveram os aspetos físicos da sobrevivência. Era realmente uma questão de quanto tempo conseguiriam sobreviver com aquela dieta ou sem ficarem demasiado doentes. E eles estiveram muito perto do fim, fisicamente."

Estava mais interessada em retratar a relação deles?
Este foi um casal que se manteve unido ao longo de todos aqueles anos.

Ele sobreviveu-lhe. Porque que é que continuou a contar a vida dele depois da morte dela?
A última parte – o epílogo – foi, na verdade, a parte mais importante para mim, a parte que mais me tocou. O livro trata, fundamentalmente, de diferentes tipos de isolamento. E a verdade desta história é que ele começou muito sozinho e acabou muito sozinho, mas teve esta extraordinária ligação e experiência no meio da sua vida. Achei a relação deles muito comovente, muito tocante, pelo facto de ela ter podido fazer este tipo de salvamento, ativo, ao longo da vida, porque ele precisava.

O livro diz-nos que foi o companheirismo deles que os fez sobreviver no mar.
Ela era muito boa, eles tinham partes que se davam bem – e ela era a positiva. Ele ficou espantado com isso. Ele era o pessimista da relação. É estranho, imaginar-se-ia que ela sobreviveria a ele mais facilmente do que ao contrário.

Nunca tendo falado com nenhum deles, descreve os acontecimentos no barco como se os tivesse experienciado. Como traçou o limite entre imaginação e factos?
Estou muito interessada nesta área da não-ficção. Tenho falado muito sobre isso. Muitos leitores perguntam-me: “espera aí, quanto é que inventaste? Quanto é que estás a imaginar?” E eu digo sempre “não inventei nada”. O que estava a tentar fazer era encontrar uma forma de escrever uma história em que os leitores pudessem viver tão vividamente como as personagens podem viver na ficção. Não vejo porque é que a não-ficção não pode fazer isso. Acho que se pode ser absolutamente fiel aos factos. É uma questão de estilo que nos permite usar tudo o que for possível para executar uma versão da história que pareça muito próxima e muito viva, suponho. Houve obviamente muitas partes muito cruciais da investigação que permitiram que isso acontecesse.

Quais, por exemplo?
A escrita que ele fez e que não foi publicada, as cartas que escreveu. Nelas, ele permitiu que entrássemos realmente naquela vida emocional, muito mais do que ele tinha feito no início da sua vida ou nos relatos que escreveu anteriormente. Mas foi também importante falar com pessoas que os conheceram bem, que os conheceram durante a maior parte das vidas deles. Pude reunir esse tipo de ideias acerca deles – da forma como pensavam e como se comportavam uns com os outros – através das observações de outras pessoas sobre a dinâmica dos dois. Suponho que estava apenas a tentar reunir o máximo de provas da sua vida emocional. Lembro-me de ter pedido à minha editora, logo no início: “Quero descrever o oceano. Quero descrever a sensação de estar lá fora. Se calhar, deveria estar sempre a referir ‘deve ter sido assim’ ou ‘talvez se tenha passado assim’”. Mas ela permitiu-me tomar algumas liberdades. Disse-me: “Não. Escreve apenas. Reúne provas para tudo, mas, em termos da forma como escreves, do estilo que usas, sê livre. Não é preciso fazer ressalvas a tudo. Não tens de justificar tudo.”

▲ Sophie Elmhirst: "Estou interessada em saber com quem os leitores se identificam na história. Fazemos este jogo mental: 'Se isto me acontecesse, seria mais como ela ou mais como ele?'”

A sensibilidade enriqueceu a história, deu-lhe mais verdade. Libertar-se da escrita jornalística tout court foi difícil?
É muito difícil perceber os limites, sim. Como é que nos deixamos ir e até onde. Primeiro porque, e isto pode parecer terrível, mas eles não estão cá para se opor. Escrevi muitas vezes, como jornalista, sobre pessoas e elas leram o artigo depois. E, na verdade, na maior parte das vezes as pessoas não se opõem. Se assim for, isso dá-nos uma certa liberdade enquanto escritores. Mas diria também que, apesar de na não-ficção e no jornalismo estarmos sempre a dizer – e especialmente neste momento – que a verdade é muito importante, os textos que escrevemos são sempre uma construção. Tal como em muita escrita de não-ficção, especialmente na escrita académica ou no artigo de opinião. Isso, para mim, é muitas vezes tão ficcional como o facto de o meu fio condutor ser uma história. Só quero contar a história da melhor maneira possível. Acho que são apenas formas diferentes de organizar o material, basicamente. É como ler dois relatos diferentes sobre a mesma coisa.

Na forma como escreveu este livro manifestou a capacidade de colocar o leitor em contacto imersivo com aquele universo, de colocar-nos no lugar de outras figuras que não apenas as humanas, como as baleias ou as tartarugas. Foi-lhe natural ou teve essa necessidade?
Por mais que quisesse estar dentro das cabeças daquele casal, queria vê-los de outros pontos-de-vista. As baleias foram muito importantes para mim porque foram muito importantes para eles. Só o tamanho desta criatura dá-nos uma sensação de humildade enorme. E foi o que aconteceu com eles também, suponho. O que era adorável era aquela sensação, à medida que os dias avançavam, de que se sentiam como se fizessem parte daquele ecossistema. Mas também a ideia de que estavam realmente a invadir este mundo, que não era o mundo deles.

Já aqui falámos sobre o facto de Maralyn ser muito positiva e pragmática e de terem conseguido implementar algumas rotinas. Em essência, o que é que acha que os fez sobreviver, tendo em conta toda a investigação que fez?
Foram bastante rápidos a estabelecer rotinas porque eram ambos pessoas muito práticas. Ela, mais. Mas ambos muito práticos. Ele era muito bom a consertar e a remendar, por isso rapidamente resolveram os aspetos físicos da sobrevivência. Era realmente uma questão de quanto tempo conseguiriam sobreviver com aquela dieta ou sem ficarem demasiado doentes. E eles estiveram muito perto do fim, fisicamente. Mas para mim o tipo de triunfo inacreditável da sobrevivência por parte dela – acho que a grande maioria das pessoas não seria capaz de o fazer –, foi a sobrevivência psicológica: o que ela conseguiu fazer para que ele continuasse a acreditar na possibilidade de sobreviverem. Acho que foi esse o maior feito dela, é incrivelmente difícil.

Ele nunca acreditou nela, mas alimentou-se da comoção de a ver acreditar.
Ela conseguiu sustentá-lo o tempo suficiente com a ideia do novo barco que adquiririam e da viagem seguinte que fariam, do que iriam comer, para onde iriam. Ela tinha todos esses planos, que eram basicamente ficção. Mas acho que isso foi crucial para os sustentar. Surpreende-me que, naquela situação, se tenha os recursos para ter essas ideias e acreditar nelas e, muito menos, ir depois concretizá-las – o que eles fizeram.

"Sendo ele próprio um náufrago, ela entra na vida dele e ele deve ter-se sentido muito sortudo. Ainda hoje, quando falo com a irmã dela, ela diz-me: 'Ainda não percebo o que ela viu nele”' Eles não eram um par óbvio. Ele estava sozinho, estava a naufragar e ela foi a sua salvadora, no meio disto tudo."

Teve necessidade de procurar muitos objetos visuais, como fotografias deles, do barco? Fez uma espécie de parede visual?
Sim, tinha uma coleção inteira, tinha envelopes. Tive muita sorte, havia álbuns de fotografias inteiros que podia ver e tinha cópias de muitas e muitas fotografias deles. E, especialmente, tinha as versões originais dos dois livros deles que foram publicados. E, em alguns deles, havia fotografias incríveis.

Que este livro não tem.
Muita gente me pergunta porque não pus fotografias no livro. A minha editora estava muito convencida de que queria que as pessoas imaginassem. Mas havia algumas fotografias incríveis deles no momento do salvamento, a serem levantados da jangada. Estavam tão magros e frágeis… E ela tirou fotos incríveis do barco em circunstâncias inesperadas. Descrevo isso no livro. Por isso, sim, foi muito útil e importante ter esse tipo de provas visuais.

Quem é que terá mudado mais com a experiência, ele ou ela?
Não sei… Uma coisa que achei quase triste, especialmente ao escrever a última parte, foi esta sensação de que nunca conseguiremos escapar às nossas verdadeiras naturezas. Quando olho agora para o final, penso: “Será que era um desejo meu, será que eu queria acreditar que ele tinha mudado?” Ele era uma pessoa solitária. Acho que a grande mudança ao longo das suas vidas, e que se sente no livro, foi o impacto que ela teve na vida dele. Acho que foi isso que o mudou mais, apesar de mais tarde voltar ao mesmo tipo de reclusão.

Leva-nos a pensar no naufrágio como uma metáfora dele próprio.
Totalmente. Sendo ele próprio um náufrago, ela entra na vida dele e ele deve ter-se sentido muito sortudo. Ainda hoje, quando falo com a irmã dela, ela diz-me: “Ainda não percebo o que ela viu nele”. Eles não eram um par óbvio. Ele estava sozinho, estava a naufragar e ela foi a sua salvadora, no meio disto tudo. Dois apaixonados que estavam tão à deriva no barco como em terra.

Sente que teve necessidade de escrever sobre um naufrágio por estarmos a viver dias conturbados? Terá sido uma espécie de refúgio?
Sim. Quando me confrontei com esta ideia, no meio de um dos confinamentos,tudo fez sentido. Parecia óbvio que eu estava à procura de uma forma de escapar. Acho que tentei dizer isto no fim: a ideia muito óbvia de que, por mais que tenhamos o instinto de escapar, de fugir, de tentar sair, quando o mundo nos parece muito angustiante, estranho ou o que quer que seja, o que nos salva não é o isolamento, não é essa coisa que ele desejava, que era estar longe e lá fora. A resposta era ela e a relação deles. E também as outras pessoas: o barco de pesca que passa e os resgata, o veleiro sul-coreano que vem. Ou seja, onde encontramos a nossa esperança é na ligação aos outros. Por isso, suponho que o círculo se fechou. Comecei a querer ir-me embora com eles e acabei a valorizar as pessoas à minha volta.

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▲ "Ela conseguiu sustentá-lo com a ideia do novo barco que adquiririam e da viagem seguinte que fariam, do que iriam comer, para onde iriam. Ela tinha todos esses planos, que eram ficção"

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O Nobel da Literatura português, José Saramago, tem um livro intitulado Jangada de Pedra, em que a Península Ibérica se separa do continente e fica à deriva no Atlântico.
Uau, isso é incrível.

Numa escala mais pequena, este casal de britânicos não queria estar ligado à terra, ao Reino Unido?
Exatamente. Nunca disse isto porque seria absurdo, mas estava sempre a pensar no Brexit, quando estava a escrever. Sentia, como muitos britânicos, que se tinha tratado de um ato terrível de autoflagelação e de miopia – e um mal-entendido. Esta história também nasceu de um instinto de separação, “vamos ficar sozinhos, não precisamos disto, queremos ser separados e distintos”. E, claro, tantos anos depois, como estamos agora? Nove anos depois, todos nos apercebemos de que não o devíamos ter feito.

Mudou como escritora, depois de ter escrito este livro? Ou mudou a sua visão do mundo?
Estou interessada em saber com quem os leitores se identificam na história. Fazemos este jogo mental: “Se isto me acontecesse, seria mais como ela ou mais como ele?” Infelizmente, eu seria mais como ele. Gostava de ser como ela, mas não sou.

Teremos um bocadinho de ambos.
Sim, teremos um bocadinho de ambos. Mas conheço pessoas assim. A minha mãe é como ela. Eu não sou. Fez-me pensar: “OK, se tens tendência a ser mais como ele, se tendes a ser pessimista, a isolares-te – é mais fácil de fazer –, então tens de te esforçar mais para te ligares aos outros”. Tem de ser uma parte ativa da tua vida, manteres-te ligada. É importante a nível pessoal e é importante a nível político. Não sei se me mudou, mas penso muito nisso.

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