Beth Brower não tem uma explicação simples para as histórias que cria. Na cabeça da autora convivem dezenas de personagens — umas já ganharam vida em livros, outras continuam à espera do momento certo — e são elas que vão guiando a história. “Falam entre elas, falam comigo e a minha principal tarefa é saber ouvir. A parte difícil é passar para o papel o que elas querem transmitir”, explica ao Observador.
Conversamos com a americana por vídeochamada, a partir de Londres, Inglaterra, onde está a passar uma temporada para encaixar reuniões e pesquisa. É precisamente aí que decorre a ação da coleção que transportou o nome de Beth Brower do estado do Utah (nos EUA) para o mundo. Os Diários de Emma M. Lion, ou as “confissões comprometedoras de uma jovem vitoriana”, como está anunciado nas capas, têm como protagonista uma jovem órfã apaixonada por literatura que tem não só de se encaixar numa alta sociedade londrina que lhe diz pouco, como de descobrir como salvar da ruína a casa da família e a herança que o primo Archibald quase lhe destruiu. Estamos no ano de 1883, mas a protagonista tem sido comparada a Jane Austen (em versão moderna), às figuras femininas da série Gilmore Girls e aos valores de Mulherzinhas — tudo com sarcasmo e um sentido de humor que transformaram os livros em fenómenos no TikTok.
As personagens abrem-nos as portas do bairro fictício de St. Crispian, no qual rapidamente passamos o ponto da inconveniência. Não há vontade de fechar os livros e, para irmos embora, teremos de ser convidados a sair. Toda a gente quer ler Os Diários de Emma M. Lion e há vários motivos para isso — pela parte que nos toca, o facto de a protagonista ter uma avó portuguesa também ajuda a tornar a narrativa cativante.
Serão 25 livros no total e os dois primeiros volumes acabam de ganhar uma versão portuguesa, através da Bertrand Editora. Beth Brower explica ao Observador como nasceu a ideia — que coincidiu com a fase mais dura da vida da escritora — e como tudo se transformou na bola de neve que tomou conta da Internet.
▲ Título: "Os Diários de Emma M. Lion — volume 1" | Autora: Beth Brower | Editora:Bertrand Editora | Páginas: 152
Qual é a história?
Tudo começa em 1883, mais precisamente em março desse ano. Estamos em Londres (Inglaterra), no bairro fictício de St. Ciprian. Emma M. Lion está de regresso à Casa Lápis-Lazúli, uma herança dos pais (ambos mortos) onde era suposto dedicar-se à leitura e ao crescimento pessoal, desviando-se ao máximo da agenda de obrigações da alta sociedade inglesa. Problema: da família restam um primo que, em vez de ter mantido a salvo as finanças, lhe destruiu o património quase todo; e uma tia que precisa dela exclusivamente para ajudar a encontrar um pretendente para a prima. Obstinada, perspicaz, provocadora e incrivelmente irónica, é Emma a protagonista e narradora destes diários que cobrem quatro anos da vida dela e do núcleo que se vai juntando à medida que a história avança.
Porquê Londres?
Na verdade, Beth Brower tinha estado em Londres uma única vez, quando tinha pouco mais de 20 anos. Viajou de mochila às costas pelo Reino Unido e passou menos de uma semana na capital inglesa. Só depois de escrever os primeiros seis livros da saga de Emma M. Lion é que regressou. “St. Crispian [o bairro onde decorre a ação] é inventado, mas fica em Londres. Fui fiel ao que vi [mentalmente] e era Londres. Acontecia-me escrever coisas, depois pesquisava e percebia que tinha escrito a verdade. Só precisava de ouvir, prestar atenção e a veracidade do cenário estabelece-se.”
Uma ideia que lhe bateu à porta (da cabeça)
Estava a escrever The Beast of Ten (o quinto livro no currículo), quando ouviu uma das vozes que lhe fazem companhia: “Tens uma série de livros para escrever, que são como um diário”. Soube que eram emotivos, mas também com sentido de humor e que abordariam tragédia, comédia e luto. A ideia surgiu de forma invulgar porque não foi nas personagens ou na história que pensou inicialmente, mas sim no formato: “Sabia que iria escrever os diários de alguém. Depois, suponho que entrei na história e perguntei: ‘De quem são estes diários e de quando?’ Foi como se me visse a sair do [estabelecimento] Reed and Rite (Cálamo e Ritual, um trocadilho fonético com Read and Write, Ler e Escrever), a ir pela Whereabouts Lane [Travessa do Deus-Dará]. Era de tarde, olhei para o outro lado da rua e lá estava uma jovem a subir. Atravessei a estrada, segui-a e ela guiou-me até à Casa Lápis-Lazúli, era a Emma”, explica ao Observador.
Encontrou assim a protagonista e sentiu que precisava desesperadamente de descobrir o que se passava na vida dela. Para Beth Brower nunca é linear (ou sequer lógico) a forma como começa uma história. “Ou me é mostrada uma imagem ou vejo-me a caminhar por uma paisagem desconhecida, por exemplo. Entro nos livros de uma forma quase mística e, se confiar no processo e permitir que as personagens me guiem, elas dão-me todas as informações, elas sabem tudo o que está a acontecer.”
As personagens vivem a vida delas e a tarefa da escritora é observar. “Mantenho-me fora do caminho e dou o meu melhor para transmitir o que estou a ver e a ouvir.”
Mantém conversas com as personagens, como se se tratassem de pessoas reais. Quando viaja, é sempre acompanhada, mesmo que às vezes só haja bilhete de avião ou de comboio para uma pessoa. “No verão estive em Paris e o Islington [o duque na história] esteve sempre comigo, não estava à espera. Sempre que vou a Oxford, está lá o Hawkes [o vigário], que costuma ser mais esquivo.”
Na cabeça dela há diálogos constantes entre as personagens. “Às vezes estou a conduzir e digo que não podem falar naquele momento, mas não me ouvem.”
Quem é Emma M. Lion?
Chegar ao nome da personagem, que faz também parte dos títulos dos livros, foi uma das tarefas mais difíceis, por mais estranho que possa parecer. “Eu sabia o nome de outras personagens e sabia como ela era e como era a voz, mas escrevia, escrevia, e o nome não me vinha à cabeça. Até que ela me disse: ‘Deste o meu nome a outra personagem’.”
A escritora pegou então nos manuscritos e percorreu-os, um a um. Deteve-se numa história inacabada, perante uma personagem muito introvertida, Emma M. Lion. “Sabia que não seria uma conversa fácil, mas ela [a personagem] concordou [em abdicar do nome].”
Pegou no nome e colocou-no no novo manuscrito. “A Emma disse-me: ‘Ok, obrigada, este nome sempre me pertenceu’.”
Uma avó portuguesa, certamente
A avó materna da protagonista é portuguesa, um detalhe que Beth Brower quis incluir com carinho depois de ter vivido um ano e meio no Brasil. “Sei que o português do Brasil é um pouco diferente do português de Portugal, mas a verdade é que, enquanto estive no Rio de Janeiro, apaixonei-me pela língua, pela arquitetura e pela ligação a Portugal. Quando regressei aos EUA, estudei Fernando Pessoa na faculdade durante algum tempo.”
Contudo, lamenta, ainda não visitou Portugal — algo que, espera, talvez possa acontecer brevemente com a publicação dos livros por cá. “Quando a Emma estava a falar da sua família, fiquei encantada ao perceber que tinha uma avó portuguesa.”
Quantos volumes terá a história?
A resposta não esteve clara desde o início. Os três primeiros volumes foram pensados como um todo. Depois, o desenrolar da história começou a ditar que seriam precisos cerca de quatro anos para contar tudo o que era preciso. “Há acontecimentos que, se fossem acelerados, se tornaram banais. Algumas das experiências pelas quais as personagens passam têm profundidade e ressoam com a verosimilhança da vida porque permito que o tempo necessário passe.”
Durante muito tempo, não soube se seriam 23 ou 25 volumes, porque uma das personagens se recusava a dar-lhe determinadas informações, garante. “Por mais que perguntasse, não revelava alguns pormenores.” A resposta acabou por surgir, apontando para a segunda hipótese: 25 livros, sem qualquer dúvida.
▲ Título: "Os Diários de Emma M. Lion — volume 2" | Autora: Beth Brower | Editora:Bertrand Editora | Páginas: 200
Quantos estão publicados em Portugal?
Os Diários de Emma M. Lion — volume 1 chegou às livrarias portuguesas em setembro de 2026, com o volume 2 publicado a 1 de outubro. O terceiro estará à venda a 12 de novembro e os seguintes estão agendados para 2027.
A versão portuguesa é da responsabilidade da Bertrand Editora, que tem pela frente alguma margem até chegar ao nono volume da edição original, previsto para fevereiro do próximo ano. A autora está atualmente a escrever o décimo volume.
Porque é que a coleção ganhou popularidade?
Uma protagonista carismática, rodeada de personagens excêntricas, bailes pomposos, acontecimentos inexplicáveis, tradições levadas à letra, mas também pensamentos revolucionários compõem uma narrativa muito visual e dinâmica. É fácil ficar agarrado logo nas primeiras páginas e essa informação começou por passar de boca em boca, espalhando-se devagar numa fase inicial.
Os dois primeiros volumes da história chegaram ao mercado norte-americano em simultâneo, autopublicados pela autora em 2019, sem o selo de qualidade associado a grandes editoras ou sequer qualquer antecipação da própria autora. Estava doente há vários anos quando começou a escrever a história de Emma e, a atravessar o pior momento na fase da publicação. Por isso, quase não anunciou o projeto. “Simplesmente publiquei-o discretamente. Foi como colocá-lo num pequeno barco e soltá-lo num lago de manhã. Foi o lançamento mais discreto que já fiz.”
No entanto, algo lhe dizia que esta coleção seria especial, diferente de tudo o que tinha escrito até então. O burburinho foi crescendo à medida que surgiam mais volumes. O lançamento do terceiro já pedia mais exemplares. Com o quarto e o quinto a procura intensificou-se e, no sexto, já toda a gente falava de Emma M. Lion pela Internet fora, do TikTok ao Instagram, dos clubes de leitura às plataformas de registo de leituras. Beth Brower só tem uma rede social, o Instagram, e garante que nem essa usa muito, mas percebeu que os livros ganharam vida própria e que o controlo no mundo digital não era dela. “Os leitores apropriaram-se do assunto e utilizam-no no Instagram, TikTok e noutras redes sociais. Esse é o território deles. E deixo que explorem isso ao máximo. Entram e criam coisas muito interessantes, que partilham com todos os seus amigos. E o meu trabalho como escritor é manter a cabeça no lugar, em St. Crispian, e bloquear todo o ruído para que possa escrever os livros da melhor forma possível.”
@kistreadsbooks The Unselected Journals of Emma M. Lion follows a fiercely independent young woman trying to build a life on her own terms in 1880s London while an increasing number of suitors complicate matters. I’m halfway through Volume 4 (which is shaping up to be the best book yet) and I’m fully addicted, especially with the way the women around Emma are expanding her sense of what her own life could look like. Also, Genevieve Gaunt is so damn good on these audiobooks. (S/O to @Kristen and Maddie for the rec!) #booktok #creatorsearchinsights #bookrecommendationsfornewreaders
O que se diz sobre a coleção?
Os direitos foram vendidos para pelo menos 17 países. O primeiro volume de Os Diários de Emma M. Lion tem mais de 140 mil avaliações na plataforma Goodreads, com a maioria dos leitores a elogiarem a facilidade que os livros têm de cativar. “Desenvolvi uma lealdade enorme por esta série da qual, há algumas semanas, certamente nunca tinha ouvido falar. ‘Os Diários de Emma M. Lion’ são as minhas coisas preferidas de sempre”, escreve a utilizadora Alisha.
Há também quem diga que a narrativa é pouco desenvolvida e os livros demasiado curtos, mas a maioria é unânime. “Encantador”, “honesto”, “irreverente”, “fofo” ou “excêntrico” são alguns dos adjetivos mais usados, muitas vezes acompanhados por uma explicação simples para o sucesso: são livros fáceis e leves e, por vezes, é só isso de que o cérebro precisa.
Quem é a autora?
Beth Brower cresceu no estado norte-americano do Utah. É a quinta de 11 filhos e diz que sabia que queria ser escritora mesmo antes de aprender a ler. “Tinha três ou quatro anos e ficava a olhar para os livros nas prateleiras. Às vezes folheava os livros, mesmo sem saber sobre o que eram.”
Assim que aprendeu a ler, começou por escrever poemas, além de imaginar histórias constantemente. “Ia para a cama à noite e simplesmente tinha uma história na cabeça, deixava-a desenrolar-se, refazia as cenas várias vezes, editava e acrescentava música. E conseguia visualizar, quase como se estivesse a realizar um filme.”
Foi por isso óbvio escolher o curso de estudos literários quando chegou a altura de ingressar na faculdade. A meio, fez uma pausa de 18 meses que a levou até ao Brasil como missionária. Quando regressou aos EUA, retomou os estudos e arranjou um trabalho em lares de acolhimento, onde ajudava miúdos dos cinco aos 18 anos a terem sucesso escolar. Como esse trabalho era muito intenso, começou a fazer jardinagem como uma espécie de terapia e, quando terminou o projeto com as crianças, pensou que era mesmo isso que queria continuar: jardinagem. “Tornei-me jardineira e consegui um emprego em Rivendell, a propriedade que serviu de inspiração para O Senhor dos Anéis. Lá, fui jardineira chefe durante sete anos.”
Enquanto isso, terminava os estudos e escrevia os primeiros livros. “Éramos [ela e o marido] estudantes pobres e, por isso, eu conduzia até às montanhas para trabalhar nos jardins. Ao mesmo tempo, sonhava com os meus livros, pensava em todas as cenas e personagens. Estávamos a viver uma fase adorável da nossa vida, muito felizes.”
Porém, Beth adoeceu, acumulou análises e exames e o diagnóstico não aparecia — “a hipótese mais provável é que fosse a doença de Lyme [uma infecção bacteriana transmitida pela picada de carraças]” — e um trabalho tão físico como a jardinagem deixou de ser hipótese.
Por essa altura, a editora que estava a criar para publicar as próprias obras já estava em marcha e Beth garante que isso a salvou. “Já tinha feito o suficiente para me manter motivada e, quando fiquei doente, pude continuar a trabalhar a partir da cama.”
A escrita manteve-a focada, mesmo que não soubesse muito bem o que lhe reservava o futuro. “Os meus anos de doença transformaram-se numa experiência contemplativa e meditativa muito frutífera. Há uma certa sacralidade humana quando nos deparamos com uma experiência muito difícil na vida. Se conseguirmos seguir em frente nas coisas que amamos, esse espaço ganha uma força e uma alegria diferentes, e acabamos por nos aproximarmos de quem queremos ser, apesar dos desafios.”
Da autopublicação a um contrato editorial
Apesar de sempre ter desejado publicar obras através de uma editora convencional, a intuição dizia-lhe para fazê-lo de forma independente. Lutou contra ela, não queria desviar-se dos métodos tradicionais, mas mais uma vez uma voz disse-lhe: “Chegarás mais depressa onde queres e divertir-te-ás mais a fazê-lo se estiveres disposta a ouvir”.
Ela ouviu e lançou-se. Não sabia nada do processo de editar um livro, fazer a revisão, formatar ficheiros, mas recorreu aos (muitos) irmãos. A mais velha editou os textos e paginou os manuscritos, o cunhado é designer e ajudou-a a desenvolver os conceitos para as capas. Todos se uniram no esforço do parto dos primeiros livros. Agora, até Beth já sabe paginar. Aprendeu também o que é desenvolver e gerir um negócio e ganhou muito mais autopublicando cada livro do que se o fizesse através de uma editora tradicional.
Porém, chegou a um ponto em que já não conseguia dar resposta à procura. “Assinei contratos com editoras de todo o mundo, mas mantive os direitos nos EUA para mim até chegar ao ponto em que estava a vender muitos livros. E, como editora independente, é muito difícil conseguir uma distribuição que as livrarias possam pagar e, ao mesmo tempo, garantir a qualidade.”
Ao longo de cinco anos recebeu inúmeras propostas. Recusou-as todas. Até que a Penguin norte-americana se mostrou disposta a deixá-la manter a autonomia. “Quiseram trabalhar comigo como parceiros. Continuo a escrever e a editar exatamente como sempre fiz.”
Há vida além de Emma M. Lion?
Beth Brower está a escrever o décimo capítulo de Os Diários de Emma M. Lion, embora tenha pedaços de todos os seguintes escritos aqui e ali ou guardados na mente. Mas não é só: “Tenho cerca de 40 outros romances, partes deles a circular na minha cabeça”.
Para trás, Beth Brower tem mais cinco livros publicados, apesar de nenhum traduzido para português. Ainda assim, quem quiser ler as versões originais, pode sempre encontrar nas plataformas digitais The Queen’s Gambit, The Ruby Prince, The Wanderer’s Mark, The Q e The Beast of Ten.
Dos livros para a televisão?
Os livros estão escritos quase como se fossem temporadas e são incrivelmente visuais — portanto, é inevitável imaginá-los transformados numa série televisiva. Obviamente, as grandes produtoras pensaram o mesmo, mas Beth Brower quer ser prudente. “Tenho recebido bastante interesse, já tive algumas reuniões, mas estou a tentar avançar devagar. Não quero que a escrita dos livros seja ofuscada por uma série televisiva. Sou escritora e tenho de garantir que a minha escrita não é sacrificada. Portanto, é esta a linha ténue que estou a tentar descobrir: em que ponto digo sim, sem comprometer a capacidade dos livros de se sustentarem durante muitos anos?”