Em junho de 2024, num armazém situado num bairro suburbano nos arredores de Varsóvia, um cliente encontrou-se com Yuriy, o diretor executivo da Alvi-Bel, uma empresa madeireira polaca. Estava interessado em adquirir contraplacado de bétula, mas fazia questão que o produto tivesse origem russa, pela qualidade associada à madeira, utilizada principalmente para pavimentos, mas com usos tão diversos como a construção de paredes de escalada. Por essa altura, as sanções impostas ao produto russo, devido à invasão da Ucrânia, já vigoravam há mais de dois anos, mas o aparente bloqueio legal não era problema para este vendedor: “O cliente é o nosso Deus“, respondeu um dos empresários polacos perante o pedido.
Quem estava a abordar a empresa não era cliente nem queria ser, apenas se fazia passar por um. Era um investigador e ativista da Eartsight a recolher provas de um esquema internacional de branqueamento de madeira russa. A ONG já tinha recebido pistas e recolhido indícios de que esta empresa era uma intermediária na venda ilegal do produto alvo de sanções. Através da simulação de compra conseguiu deslindar o modo como era dada uma nova face à madeira de origem russa. “Enquanto nos mostravam a existência de contraplacado de bétula no armazém, disseram-nos que ainda era possível obter contraplacado de três fabricantes russos”, relata a ONG no relatório “Bétula manchada de sangue“, publicado esta semana.
Antes de chegar à capital polaca, para ser revendida para outros países da União Europeia, aquele contraplacado tinha sido exportado por uma empresa no Cazaquistão, a Intop, que, desde que as sanções contra a madeira russa e bielorrussa entraram em vigor, começou a expedir grandes quantidades deste produto para oito Estados-membros diferentes da UE.
Em meados de 2024, vários países europeus já tinham importado mais de 600 contentores de transporte marítimo cheios de contraplacado russo ilegal apenas deste intermediário cazaque. Mas havia muito mais para descobrir. China, Geórgia e Turquia passaram a ter, desde fevereiro de 2022, dezenas de empresas dedicadas à exportação de madeira de bétula. Entre os sete países europeus que mais recorreram à importação de bétula, através do esquema de branqueamento, consta Portugal, que terá, até ao início deste ano de 2025, importado o equivalente a 100 milhões de euros desta madeira.
O esquema da madeira que não pode ser vendida na UE, mas que chega de cara lavada e com etiquetas mudadas
O padrão detetado pela ONG é particularmente evidente em relação ao Cazaquistão, já que este país da Ásia Central tem florestas escassas e, segundo a Earthsight, “nunca tinha exportado uma única unidade de contraplacado de bétula até há poucos anos”. Mesmo assim, e sem uma explicação plausível, em outubro de 2022, cerca de seis meses depois de impostas as sanções à Rússia, cerca de 230 camiões grandes carregados de contraplacado de bétula, alegadamente fabricados no Cazaquistão, passaram a chegar à fronteira da UE todos os meses para ser vendidos.
O investigador infiltrado na empresa polaca recorda, no relatório da Earthsight, o momento em que os vendedores lhe disseram, entre risos, que a produção da madeira tinha a qualidade que ele exigia, porque vinha de um “país onde cresce a bétula e as pessoas falam russo“, mesmo estando certificado enquanto originário do Cazaquistão — informação disponível na etiqueta e em toda a documentação referente à remessa.
A verdade é que o contraplacado de bétula, enquanto material de construção comprado em território europeu, até às sanções impostas ao país, provinha quase em exclusivo da Rússia, onde as bétulas proliferam, bem como a indústria necessária para transformar a sua madeira em contraplacado.
Com o fechar da porta russa, quase de imediato várias janelas se abriram: na China, Turquia e Cazaquistão, todos países que, perante, a limitação de vendas russas, passaram a registar aumentos de exportação tão significativos como mal explicados. Só a Polónia, em valor de retalho, comprou mais de 650 milhões de euros em contraplacado de bétula entre julho de 2022 e outubro de 2024. Portugal registou um valor próximo aos 100 milhões de euros no mesmo período.
Estas novas janelas de negócio fizeram bem mais do que aproveitar a lacuna que a Rússia deixou no mercado. Serviram, sim, como meio de branqueamento do contraplacado que continua a ter exatamente a mesma origem russa, mas que é injetado estrategicamente nos mercados chineses, turcos e demais para, logo depois, surgir de cara lavada nas trocas comerciais com a União Europeia.
No caso da Alvi-Bel, a empresa polaca que a ONG conseguiu provar que estava a vender madeira russa a pedido dos clientes, tudo estava aparentemente em ordem. Até de acordo com um relatório de uma inspeção realizada pelas autoridades polacas em dezembro de 2023 ao abrigo do Regulamento da Madeira da União Europeia (EUTR), uma lei destinada a travar as importações de madeira ilegal para a UE.
O relatório aprovou a avaliação de risco da Alvi-Bel, incluindo para as suas importações de madeira de um fornecedor não identificado do Cazaquistão, e não assinalou quaisquer violações do EUTR. A partir daí, as mãos de quem compra a madeira a seguir parecem ficar limpas de qualquer ilegalidade. Coisa diferente é perceber se, no momento da compra, sabiam ou não sabiam da verdadeira origem do contraplacado.
“Só total cegueira ou extrema ingenuidade poderá ter levado a que empresas não soubessem da origem da madeira”
Para Tara Ganesh, a líder da investigação que conduziu a Earthsight ao centro do esquema de lavagem de madeira russa, o que torna esta operação de venda “tão sofisticada e intrincada” é precisamente permitir que empresas europeias possam alegar que não sabiam da real origem do material, porque existe uma “aparência de legalidade” da madeira que estão a comprar.
No caso português, esta aparência é obtida através da compra da madeira na China. “Portugal representa uma parte enorme da importação de madeira ilegal russa”, destaca a investigadora ao Observador, alertado para a “cumplicidade nesta troca comercial manchada de sangue”, já que reverte a favor da economia russa, que alimenta a máquina de guerra contra a Ucrânia.
A ONG não confrontou diretamente as seis empresas portuguesas que assinala enquanto compradoras — e cuja lista foi consultada pelo Observador — mas enviou alertas para as autoridades europeias e nacionais sobre elas. Estes relatórios dão conta da compra de contraplacado de bétula com origem russa introduzido na China, mas que ao tempo da transação comercial, na maioria dos casos, tinha surgido em território nacional com uma etiqueta de origem chinesa.
Tara Ganesh diz, no entanto, ter dificuldades em acreditar que um “empresário que se diz expert no seu produto” não saiba a verdadeira origem da madeira. “Ou é total cegueira ou extrema ingenuidade que poderá ter levado a que não soubessem”, defende ao Observador, garantindo que “há maneiras de identificar que a madeira passou por estas rotas de ‘lavagem de madeira'”, desde logo a própria compra nesta lista de países identificados enquanto promotores da venda de contraplacado russo.
“Sempre que tenham dúvidas, os clientes europeus devem ‘parar’ estes documentos e verificar que a carga provém mesmo da China”, alerta ainda, lembrando que o claro aumento de importações à China, no caso português, é indício mais do que suficiente, perante a lacuna de mercado provocada pelas sanções à Rússia, de que a origem daquele material nunca poderia ser tão clara como alguns membros do setor fazem parecer.
A Earthsight defende que as empresas portuguesas — a par com as de outros países europeus — são responsabilizáveis por ser “enganadas” por esta venda de madeira branqueada na medida em que são obrigadas a manter procedimentos legais e as diligências “que as impedem de comprar negligentemente madeira de regiões de onde a sua importação seja proibida, quer por motivos ambientais, quer por motivos financeiros”.
Tara Ganesh defende mesmo que, se as empresas portuguesas envolvidas tivessem feito estas diligências “de forma significativa e suficiente, os números de importação da madeira que é da Rússia e que chegou a Portugal nunca poderiam ser tão altos”.
Vítor Poças, presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal, discorda da investigadora. “Não me permito entrar no mesmo campo da especulação dessa ONG. Eles podem apresentar provas de que existe um determinado circuito, mas apresentar provas de que existem empresas portuguesas que sabem, duvido muito”, assegura ao Observador.
Admite ter tido conhecimento, já há vários anos, de que a Rússia começou a utilizar países, como a Turquia, o Cazaquistão e a China para enviar contraplacado com marca de origem modificada, mas defende ser impossível demonstrar que a empresa que efetua a compra final tem como saber deste branqueamento. Isto porque, por um lado a documentação anexa à compra não tem menção à Rússia e, por outro, essa mesma documentação já passou por várias cadeias de verificação, de autoridades europeias e nacionais, que levam o empresário a acreditar que cumpre a lei.
“Não consigo perceber como é que podemos estar ligados a isto”. Empresas portuguesas alegam desconhecimento
O Observador tentou contactar as seis empresas que fazem parte da lista disponibilizada pela ONG e que, segundo a mesma, terão importado contraplacado de bétula russo a empresas intermediárias chinesas. Três das empresas responderam aos pedidos de contacto e apenas uma admitiu, de facto, ter realizado uma transação comercial do produto com a China, assegurando que não conhecia a verdadeira origem do produto.
“Só fizemos uma vez uma importação pequena a uma empresa chinesa, no início de 2023, de dez camiões de contraplacado de bétula, mas nunca mais comprámos, porque foi tão complicado que nos fornecessem os documentos que desistimos de continuar”, descreve o administrador dessa empresa, que diz agora estar a explorar outros mercados europeus para evitar tamanha burocracia.
Outro administrador de outra das seis empresas recorda como durante mais de 15 anos comprou “um contentor por dia” à Rússia do tipo de madeira que está a ser alvo de investigação. “Quando apareceram as sanções, a União Europeia deu-nos um folga até agosto e a última carga que recebemos surgiu nesse mês de 2022”, garante. Depois disso, diz que passou a comprar outro tipo de contraplacado — de eucalipto e pinho — ao Brasil e a Espanha. Destaca, no entanto, a qualidade inferior destes produtos e o buraco no mercado que a sanção comercial à Rússia deixou. Não entende, no entanto, qual pode ter sido a associação que a ONG encontrou da sua empresa a uma troca comercial com a China, já que nega alguma vez ter estabelecido relações comerciais com o país.
Um terceiro empresário diz o mesmo: “Não consigo perceber como é que podemos estar ligados a isto“, garante, assegurando que realizam todos os processos de mitigação de risco de compra de produto russo, impostos pela União Europeia desde o irromper do conflito na Ucrânia. Admite, no entanto, “desconforto de poder ter sido enganado” pela empresa europeia a quem comprou um pequeno lote de contraplacado de bétula, que lhe foi vendido enquanto originário da própria Europa.
As três empresas garantem que não foram contactadas, nem pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), responsável por fiscalizar a importação de produtos derivados de madeira, nem por outra autoridade portuguesa ou europeia, a propósito de terem cometido algum tipo de irregularidade. Dizem, no entanto, ter sido alvo de fiscalizações regulares, sem que motivos concretos para as mesmas lhe fossem indicados.
Foi impossível contactar uma das empresas referidas e em relação a outras duas os administradores alegaram estar ausentes.
Segundo informou a Eartsight ao Observador, tanto o ICNF como o Governo português foram notificados em 2023 em relação ao envolvimento das seis empresas portuguesas. O instituto confirma ter sido contactado no dia 3o de março de 2023 por esta ONG, que lhe “apresentou uma preocupação fundamentada sobre possíveis violações às sanções impostas à Federação Russa pela UE”. Para tal, mencionou “um conjunto de empresas portuguesas que estariam a importar produtos abrangidos pelas sanções, contornando supostamente as mesmas”.
O ICNF efetuou então uma fiscalização às empresas mencionadas, concluindo pela “legalidade do produto colocado no mercado“. Adicionalmente, avaliou os sistemas de diligência que as empresas são obrigadas a ter e decidiu aplicar um “conjunto de medidas corretivas aos procedimentos existentes”. Refere ainda agir sempre que recebe alguma denúncia fundamentada, caso da enviada pela Earthsight, sobre possíveis violações à compra de produtos com origem na Federação Russa.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) português também respondeu ao contacto do Observador e confirmou a receção de uma denúncia da organização não governamental britânica sobre alegadas violações do regime de sanções à Rússia, incluindo da comercialização de madeira por determinadas empresas nacionais, em abril de 2023.
Alinhado com o Ministério das Finanças, enquanto Autoridades Nacionais Competentes em matéria de medidas restritivas, os dois ministérios acompanharam “a evolução dos regimes sancionatórios europeus e o seu impacto/execução em Portugal”.
Segundo nota o MNE, os ministérios “não estão dotadas de poderes de investigação, que competem às autoridades policiais e judiciais”, assim, perante a denúncia da a ONG Earthsight, as informações foram remetidas à Procuradoria-Geral da República que, até ao momento da publicação deste artigo, não tinha notificado ou contactado as empresas envolvidas, isto de acordo com aquelas que o Observador conseguiu contactar.