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LUÍS VASCONCELOS / LUSA

LUÍS VASCONCELOS / LUSA

A Vilafrancada, a morte de Sá Carneiro ou a Coluna Infame: 25 datas essenciais na história da direita portuguesa /premium

Esta é uma hipótese de cronologia, uma que percorre três séculos, entre monárquicos e republicanos, publicações fundamentais e governos, golpes, tragédias e até blogues que se tornaram decisivos.

Se aceitarmos que a direita e a esquerda se definem a partir da Revolução Francesa, então a direita portuguesa terá de começar com a reação ao liberalismo. Como todas as classificações comparativas, há desvios, reposicionamentos e uma história que não é simples de escrever. Apesar de tudo, há um fundo de vitórias e derrotas que faz parte do património comum da direita. Aqui estão alguns dos seus momentos fundamentais.

Vilafrancada

27 de maio de 1823

Depois da Revolução Liberal, a Vilafrancada é a primeira grande reação absolutista e, de certa forma, aquela que molda os acontecimentos do século. É chefiada por Dom Miguel, como que a prenunciar a fratricida contenda que ocupará Portugal nos anos seguintes, e é a primeira de muitas revoltas que, de um lado e de outro, marcarão a primeira metade do século. É também a Vilafrancada que põe fim à vigência da constituição de 22.

Abrilada

30 de abril de 1824

Se a vilafrancada pôs fim à vigência da Constituição de 22, a verdade é que não tirou o país de uma espécie de indecisão política. Dom João VI continuava a reinar, na estranha configuração de um mesmo rei encabeçar dois regimes diferentes. A abrilada foi a forma de o partido absolutista forçar a barra, prendendo vários dirigentes liberais, e obrigar o rei a uma tomada de posição. O golpe, no entanto, não correu bem: Dom João VI fugiu momentaneamente do país e demitiu Dom Miguel do cargo de generalíssimo. Apesar de tudo, não chegou a tomar uma posição definida. Como bem explica Oliveira Martins, quando Dom João VI morreu, era difícil saber quem viria a reinar em Portugal.

Entra em vigor a Carta Constitucional de 1826

Abril de 1826

Tem a peculiaridade de ser uma Carta dada pelo rei, e não escrita pelo povo, o que a torna um dos bizarros documentos da História da democracia forçada e pouco séria que assombra o liberalismo português; apesar disso, é um documento conciliador, que procura retirar o rei do seu papel de “fantasma”, como lhe chamou Dom Miguel, e dotá-lo do poder moderador. Há uma influência óbvia de Constant, quer nos propósitos, quer nas ideias, e é na verdade o mais próximo que há de um documento do “girondinismo” português.

A Carta Constitucional é um documento conciliador, que procura retirar o rei do seu papel de “fantasma”, como lhe chamou Dom Miguel, e dotá-lo do poder moderador

Coroação de Dom Miguel como rei absoluto

25 de abril de 1828

Já tinha havido várias proclamações populares anteriores e o acontecimento só não se dá antes porque uma delegação de lentes de Coimbra foi atacada dias antes, quando se destinava a proclamar Dom Miguel como Rei absoluto. No entanto, é a 25 de Abril de 1828 que se dá a aclamação oficial de Dom Miguel, com as conhecidas consequências. O fim do primeiro período de vigência da Carta e o reinado de Dom Miguel, que dura até ao fim da Guerra Civil.

Princípio da publicação de “A Besta Esfolada”

Julho de 1828

É o mais cómico, o mais mordaz e o mais agressivo dos periódicos políticos, mas também o maior exemplo português de literatura polémica. Esta publicação de José Agostinho de Macedo, dedicada a esfolar a besta (o liberalismo) dá bem conta do ambiente da época e tornou-se, de certa forma, a referência estilística do reinado de Dom Miguel. Se é verdade que na mais sensata correspondência do Visconde de Santarém há uma inesgotável fonte de informação sobre este tempo, nenhuma publicação capta o espírito da época como a Besta Esfolada, em que a verve de José Agostinho de Macedo está na sua melhor forma.

Início do governo de João Franco

19 de maio de 1906

Depois do fim da Guerra Civil, e apesar das várias revoltas, não há tantas datas marcantes na vida da direita. A verdade é que a direita entrou no jogo do rotativismo e é difícil encontrar um programa ideológico muito vincado na segunda metade do século. É só com a cada vez mais preocupante situação económica e com a ameaça republicana que volta a haver um político verdadeiramente apostado em proteger a Monarquia e o sistema Constitucional. Esse político é João Franco, que, atacado por todos os lados e, após a morte de Dom Carlos, já sem apoio do Rei, pouco conseguiu fazer para evitar a República.

É só com a preocupante situação económica e com a ameaça republicana que volta a haver um político verdadeiramente apostado em proteger a Monarquia e o sistema Constitucional, João Franco

Ataque de Chaves

8 de julho de 1911

A monarquia caiu praticamente sem esforço; no entanto, passada a surpresa inicial, alguns monárquicos, sob a égide de Paiva Couceiro, procuraram a restauração da Coroa. Se já antes se tentara tomar Bragança, a verdade é que a Incursão de Julho, em que se dá o ataque a Chaves, é a mais famosa e aquela que está mais perto de resultar. Ainda assim, os atacantes de Chaves são presos, embora o estatuto de Paiva Couceiro, um dos heróis das campanhas de Pacificação contra o Gungunhana, tenha suavizado as penas.

Primeiro número da “Nação Portuguesa”

8 de abril de 1914

Este número da revista Nação Portuguesa marca, de certa forma, o nascimento oficial do Integralismo Lusitano. A influência do Integralismo na direita, do recuperar do prestígio da Idade Média à transformação do racionalismo numa força agregadora, da ideia dos corpos intermédios à afirmação de uma cultura nacional, extravasará muito os meios monárquicos e tornar-se-á um dos marcos fundamentais da História doutrinária da direita.

Início do Mandato de Sidónio Pais

28 de abril de 1918

O apoio tímido do Integralismo Lusitano, a posterior admiração do Estado Novo, tudo isto mostra que a ditadura de Sidónio Pais, de certa forma, é um corpo estranho entre a primeira República. Ele será, em parte (e, antes dele, Pimenta de Castro), o exemplo de que era possível um governo forte e de que o povo português estaria cansado da confusão republicana.

O apoio tímido do Integralismo Lusitano, a posterior admiração do Estado Novo, tudo isto mostra que a ditadura de Sidónio Pais, de certa forma, é um corpo estranho entre a primeira República

Início da Monarquia do Norte

19 de janeiro de 1919

É a última reação armada da Monarquia. Em janeiro de 1919 eclode a Revolta no Porto, e instaura-se a Monarquia que durará pouco tempo. As divisões entre os monárquicos são evidentes e a falta de apoio de Dom Manuel II tornarão cada vez mais difícil sustentar o governo. A última grande ação é a tomada de Monsanto, que obrigou tropas Republicanas a recuar até Lisboa, mas logo em Fevereiro do mesmo ano os vários focos de revolta são contidos e a Monarquia do Norte neutralizada.

Pacto de Paris

17 de abril de 1922

O pacto de Paris foi a concordata assinada entre os dois ramos da Casa Real, que estabelecia como prioridade a restauração da Monarquia, implicando assim que o ramo Miguelista renunciaria às suas pretensões e o ramo manuelista reconhecia como herdeiro o ramo Miguelista, em caso de não haver descendência. Como o pacto provocou certa celeuma, na prática neutralizou as atividades monárquicas mais pujantes e legitimou a passagem de vários militantes monárquicos para uma militância mais tática, menos centrada na cabeça do regime e mais nas suas bases.

Golpe Militar

28 de maio de 1926

A história do 28 de Maio é conhecida. É difícil dizer quais seriam as intenções do golpe, ou se estariam medidas todas as suas consequências, mas a verdade é que é este golpe militar que consegue acabar com o constante sobressalto político da primeira República. Claro que o golpe, em si, dificilmente teria o significado político que tem sem a chegada, poucos anos depois, de Salazar, primeiro ao Ministério das Finanças, depois à chefia do Governo.

O 28 de Maio não teria o significado político que tem sem a chegada, poucos anos depois, de Salazar, primeiro ao Ministério das Finanças, depois à chefia do Governo

AFP/Getty Images

Chegada de Salazar à chefia do Governo

5 de julho de 1932

O ministério de Salazar à frente das finanças já dera brado; a resolução do problema do défice, o empréstimo que Salazar negociou em condições muito superiores àquelas em que Sinel de Cordes se preparava para pedir, tudo isso deu a Salazar um capital político que nenhum outro político conseguiu ter. No entanto, foi a partir de 32 que o regime se tornou verdadeiramente o regime de Salazar. A nova configuração política, a nova Constituição, tudo isso tem como base este dia de julho de 32 em que Salazar chegou ao poder.

Início da Exposição do Mundo Português

23 de junho de 1940

Foi a grande manifestação de força do regime e a mais clara expressão do seu programa ideológico. Portugal voltado para o Império, a grandiosidade da sua História, a defesa da sua independência, todas as grandes linhas de força estão patentes na exposição que remodelou Belém e que procurou mostrar a existência de um património exclusivamente português, de que o regime se encarregava de cuidar.

Início da revista “Tempo Presente”

Maio de 1959

Se é habitual ouvirmos dizer que a esquerda dominou o panorama cultural e literário a partir de meados dos anos 50 (com o fim do projeto de António Ferro e da novidade do Modernismo), a verdade é que há, pela mão de Fernando Guedes, António Manuel Couto Viana ou Goulart Nogueira, uma espécie de reação, personificada na revista “Futuro Presente”. Uma revista voltada para as tendências modernas da literatura, embora sem deixar de se afirmar nacionalista, é a última grande manifestação de fulgor intelectual por parte de partidários do regime (ou de um regime ainda mais à direita).

“Para Angola rapidamente e em força”

13 de abril de 1961

A famosa frase de Salazar marca a última grande causa do Estado Novo. Se, nos primeiros anos, a grande preocupação passou pela contenção das despesas e o desenvolvimento da metrópole, a verdade é que a partir dos anos sessenta a razão de ser do regime passa a ser a manutenção das possessões ultramarinas. Esta proclamação de Salazar marca, assim, o último fator de união entre as direitas que, com mais ou menos paixão, ainda viam no regime a única esperança para a manutenção do território ultramarino.

A partir dos anos sessenta a razão de ser do regime passa a ser a manutenção das possessões ultramarinas.

Abandono da Assembleia por parte da “Ala Liberal”

1 de julho de 1971

Talvez este abandono estivesse melhor numa cronologia da esquerda portuguesa; no entanto, este é o grande marco fundador do PSD, que sempre colocou a sua origem fora da fundação oficial do Partido. A índole reformista e ao mesmo tempo pragmática, que levou a Ala Liberal a colaborar com o regime na esperança de o mudar, está na génese daquilo que é o programa do PSD. Mais do que uma direita programática, uma direita pragmática, capaz de lidar com o que tem sem desistir das suas maiores causas.

I congresso do CDS

25 de janeiro de 1975

O primeiro congresso do CDS está na memória de toda a direita portuguesa. Os confrontos, o cerco, a invasão do Congresso, tudo isso transformou o CDS numa espécie de abrigo para todos aqueles que se julgavam perseguidos pela deriva comunista do 25 de Abril e que confirmavam a dificuldade de manter um espaço político à direita no panorama político pós-abril. O CDS ganhou, assim, uma aura de resistência que, durante muitos anos, foi a base do seu capital político. O congresso só foi concluído mais de um mês depois e, embora o partido já tenha tido várias vidas, em todas este congresso é um momento fundacional.

A normalidade democrática

25 de novembro de 1975

O golpe militar falhado, que acabou com o predomínio das Forças Armadas é habitualmente considerado o início da normalização democrática portuguesa. Depois do Congresso do CDS, das nacionalizações e dos saneamentos, o 25 de Novembro refreia os ímpetos revolucionários e permite perceber que, mais do que para um paraíso comunista governado por militares, Portugal se deve encaminhar para ser uma democracia Europeia.

Fundação da Aliança Democrática

5 de julho de 1979

A Aliança Democrática permitiu à direita governar pela primeira vez no pós-25 de Abril. Com os esforços conjuntos do CDS, PPD e PPM, este foi o primeiro esforço federativo das várias correntes ideológicas da direita democrática, que teve como fruto a vitória nas eleições intercalares de 1979.

Diogo Freitas do Amaral, Francisco Sá Carneiro e Gonçalo Ribeiro Telles: os protagonistas da Aliança Democrática

Alfredo Cunha

Primeiro número da revista “Futuro Presente”

Maio de 1980

Enquanto a direita democrática chegava ao poder, a direita radical ia fazendo o seu caminho na sombra. Embora algumas manifestações de 10 de Junho ainda provocassem um certo sobressalto, é na revista Futuro Presente, de Jaime Nogueira Pinto, Nuno Rogeiro, António Marques Bessa, entre outros, que se encontra uma certa refundação ideológica desta direita. Influenciada pela Nouvelle Droite, é nela que se encontram pela primeira vez muitos dos que, ainda hoje, constituem a referência intelectual da direita radical.

Morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa

4 de dezembro de 1980

A queda da avioneta em Camarate ficará para sempre na memória do regime. De certa forma, a morte do primeiro-ministro e de Adelino Amaro da Costa condenou a AD; tornou o grande projecto federativo da direita um projecto incompleto e enfraqueceu um governo tomado pela sombra do seu grande mentor. É, ainda hoje, difícil encontrar uma figura mais consensual entre a direita (talvez Lucas Pires, embora não com a mesma importância), e um símbolo maior de uma direita ainda não plenamente realizada.

Primeira maioria de Cavaco

19 de julho de 1987

Foi um acontecimento estrondoso. A primeira maioria absoluta do pós-25 de Abril e logo uma maioria de Cavaco Silva. Não de um dos combatentes contra o Estado Novo, nem de um dos pais fundadores do regime. De certa forma, a primeira maioria de Cavaco Silva foi a libertação do regime, já livre do último resquício do poder militar (desde a saída de Ramalho Eanes da Presidência) e agora também dos seus pais. A governação de Cavaco terá muito que se lhe diga como marco da direita; a eleição, no entanto, é inequívoca. Nunca a direita teve resultados parecidos, nem nunca teve uma oportunidade tão grande para moldar o futuro do país.

A primeira maioria absoluta do pós-25 de Abril e logo uma maioria de Cavaco Silva. Não de um dos combatentes contra o Estado Novo, nem de um dos pais fundadores do regime

Fundação de o “Independente”

20 de maio de 1988

Enquanto Cavaco governava, aparecia a sua grande besta negra, a direita mais cosmopolita e liberal do Independente. Ainda hoje a imprensa é dominada pelas memórias dos tempos loucos do Independente, pelas suas manchetes, os trocadilhos nos títulos e o estilo humorístico de Miguel Esteves Cardoso. Se Cavaco libertou a direita do seu peso governativo minoritário, o Independente deu-lhe uma liberdade intelectual e uma irreverência que contribuíram para a descolar do imaginário salazarista.

Nascimento da “Coluna Infame”

15 de outubro de 2002

Se a PAF foi importante na divisão política deste século e na relação da direita com a Europa, a verdade é que vários dos seus ideólogos ganharam clareza política e reconhecimento através dos blogues, lugar por excelência para a luta política mais entusiasmante deste princípio de século. Ora, destes blogues, o mais interessante e mais influente, por conjugar o wit já próprio d’O Independente com um pragmatismo mais vincado, foi com certeza a Coluna Infame, de Pedro Mexia, Pedro Lomba e João Pereira Coutinho. O blogue não durou muito tempo, mas esteve na génese de vários outros que trouxeram para a política e para a opinião a esmagadora maioria dos comentadores e decisores de hoje.

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