O cineasta haitiano Raoul Peck não realiza filmes biográficos e chegou mesmo a confessar-nos — no âmbito dos Encontros Unifrance, em Paris — que tem especial desdém pelo género. Prefere partir de obras de grandes pensadores do passado e inscrevê-las no presente, num combate actual. O seu objectivo? Recuperar, sem cartilhas, fundamentos políticos e históricos que estão a ser perdidos porque, se tal acontecer, perde-se igualmente a democracia. Neste sentido, Orwell: 2+2=5 segue uma linha paralela à de I Am Not Your Negro — Não Sou o Teu Negro (2016), documentário nomeado para os Óscares em torno de James Baldwin e do racismo congénito da América do Norte. Próximos na metodologia de Peck (que chegou a ser ministro da Cultura do seu país no final dos anos 90), são contudo filmes bem distintos, em grande parte porque o mundo mudou profundamente nesta última década, tornou-se inflamável.
Partindo de textos de George Orwell (1903-1950) em cruzamento com um aturado e fascinante trabalho de montagem — excerto de filmes, arquivos, reportagens de todas as guerras que temos testemunhado, noticiários televisivos, etc. —, este filme reinterpreta o legado e o pensamento do autor britânico à luz do presente, sublinhando a sua pertinência face aos desafios políticos que o mundo enfrenta hoje. Orwell, de resto, foi também um prolífico autor de reportagens e documentos não-ficcionais de assustadora relevância hoje em dia, para lá dos seus romances mais badalados, de O Triunfo dos Porcos a 1984.
Chegámos a 2026. A celebérrima fórmula matemática “2+2=5” que Orwell “inventou” para ilustrar o modo como os regimes autoritários forçam as pessoas a aceitar falsas verdades nunca teve — sugere-nos este documentário de excepção — tantos destinatários. Não deixa de ser importante notar que, nos protestos contra os bonés MAGA (“Make America Great Again”), já houve quem tivesse respondido com bonés “MOFA” (Make Orwell Fiction Again”) — como se Orwell fosse, de facto, um mito salvífico, ou “um nome que se tornou marca, como a Coca-Cola…”, dirá Peck mais à frente. Orwell: 2+2=5 vai, contudo, muito além de uma insurreição assumida contra o actual chefe de Estado americano e nada tem que ver com o estilo provocatório de um Michael Moore. Este filme é, acima de tudo, uma radiografia ponderada e exemplarmente documentada do estado do mundo. Convém não esquecermos que, a Leste, há duas super-potências ditatoriais com lideranças vitalícias, “pequeno privilégio” que ainda não existe na terra de Tio Sam — por enquanto.
O que o levou a fazer este filme?
Acima de tudo, foi uma questão de cidadania, reconhecendo que sou um democrata responsável e que essa responsabilidade exige a minha participação. Ora, eu acredito que as pedras basilares da democracia estão hoje a ser atacadas. Tenho visto o Ocidente a perder a noção das suas fundações. Na verdade, cresci com o Newspeak [ou “novilíngua”, o idioma fictício e autoritário criado por Orwell em 1984]. No Haiti, ainda miúdo [Peck nasceu em 1953], habituei-me a ouvir os meus pais falarem baixinho, por causa da ditadura. O meu pai foi preso enquanto Kennedy falava de democracia e da continuação do New Deal ao mesmo tempo que apoiava a ditadura [de François “Papa Doc” Duvalier]. Fui testemunha desta contradição. A minha família teve que fugir nos anos 60, fomos para o Congo, estavam os americanos a apoiar Mobutu e a congeminar planos para assassinar Lumumba [figura que Peck abordou por mais do que uma vez em filmes anteriores]. Desde os meus dez anos que me dei conta de que aquilo que me dizem não é verdade e que a palavra democracia não tem o mesmo valor em todos os lugares. Enquanto crescia, fui-me apercebendo nas minhas idas ao cinema que os cadáveres dos negros não tinham a mesma importância dos cadáveres dos brancos. Nos jornais, quando morriam 500 negros, a notícia era uma nota de roda-pé. A morte de um americano em África desencadeava uma reportagem. É duro de compreender isto enquanto ser humano: que os mortos não têm o mesmo valor. Como nos filmes. Em Hollywood, geração após geração, tivemos os índios, os negros, depois os árabes, uma tapeçaria de assassinatos com milhares e milhares de vítimas sem nome. Quantas vezes reinterpretou o cinema a Guerra do Vietname para sair dela com algo de vitorioso no ecrã? A realidade histórica diz-nos o contrário disso. Orwell respeitou-a.
Não acha que Orwell se tornou também um mito que tem servido de bengala para confortar o Ocidente sempre que é evocado?
Claro, é um nome que se tornou marca, como a Coca-Cola. Orwell morre jovem, alguns meses antes da publicação de 1984, tinha apenas 46 anos. Morre em plena Guerra Fria, expressão que ele inventa, de resto, num tempo em que O Triunfo dos Porcos já é um romance conhecido, mas não tanto quanto se tornará o seu autor. Ou seja, Orwell morre sem fazer o balanço do seu trabalho e toda a gente a partir daí colhe dele o pedaço que quer. O Ocidente decide que ele é um escritor anti-soviético e anti-estalinista, com indiscutível verdade, mas atenção: ele não é apenas isso. É também um anti-colonialista. Um terceiro-mundista que critica as derivas do mundo em que vivemos.
O seu filme desmonta essa rescritura da vida de Orwell?
Esse foi o propósito, absolutamente. A obra dele foi usurpada e dirigida para servir um discurso contra os inimigos a Leste, sem a sua total abrangência. Foi a fazer este filme que descobri outro Orwell próximo das minhas inquietações, como se ele tivesse sido um irmão e estado na minha casa a tentar compreender o que me aconteceu. Na adolescência, no início da vida adulta, era o Reino Unido um império, obrigaram-no a muitas coisas que ele detestou fazer e lhe causaram vergonha, no filme ele fala disso. E quantos autores, escritores, jornalistas tiveram a coragem de retractar-se depois como ele se retractou? Orwell foi alguém que rompeu sempre que o poder lhe pediu para pensar que 2+2 é igual a 5.
O título do filme [que vem de 1984] foi decidido logo no início do projecto?
Veio pouco a pouco, andava à procura da melhor maneira de reduzir tudo ao osso e tudo está, no fundo, ligado a essa simples fórmula que não é verdadeira mas que, paradoxalmente, todos entendem, como no excerto que utilizei [do telefilme The Crystal Spirit: Orwell on Jura, de John Glenister, 1983]. Tal como Orwell se tornou uma marca, entendo também que 2+2=5 continua a funcionar para desmascarar fulanos como Donald Trump e outros.
Como é que definiu a estrutura de Orwell: 2+2=5?
O filme foi muito escrito, sem improvisações de última hora, como um guião cinematográfico. No início houve uma leitura profunda de todos os documentos. Tenho uma pequena equipa que me ajuda nesta fase.
▲ Raoul Peck reinterpreta o legado e o pensamento do autor britânico à luz do presente, sublinhando a sua pertinência face aos desafios políticos que o mundo enfrenta hoje
AFP via Getty Images
De que se ocupa essa equipa?
Peço-lhes que investiguem, leiam ou resumam este ou aquele episódio, documento, ou parte de romance e que me devolvam o resultado num relatório. A partir dessas notas, releio o dito texto, acrescento coisas, retiro outras, num trabalho faseado, etapa por etapa. Ao longo deste processo, vou construíndo o guião em causa. Eu não lhe chamo guião. Chamo-lhe libretto.
Como na ópera?
Exactamente. Um libretto com estrutura dramática, não linear, para que a estrutura não se torne rígida nem aborrecida. Por isso julgo que os meus filmes são, à sua medida, musicais. Penso neles como sinfonias que tomam como base a palavra de Baldwin, de Ernest Cole, ou de Orwell — palavra essa que respeito absolutamente. No fundo, trabalho nestes documentários como um actor que veste a pele de um personagem para senti-lo o mais intimamente possível. A minha abordagem à obra destes autores é sempre mais intuitiva que intelectual. Tento compreender o que eles são como seres humanos. E penso: poderiam ser meus companheiros, interessar-se-iam pelo país de onde venho, partilhariam o que eu sei e penso do mundo, à mesma mesa? Grande parte dos grandes pensadores europeus são eurocêntricos. Mas aqueles que mais fascinam – como um Sven Lindqvist — são, acima de qualquer outra coisa, grandes humanistas, como Orwell, como Baldwin.
A palavra documentário interessa-lhe?
Vivo em paz com ela, sabendo que faço ficção. Quando escrevo um guião, tenho perfeita consciência e domínio dos desafios dramáticos que estão em causa. Sei que tenho de criar um personagem — neste caso, ele chama-se George Orwell. Preciso de saber como ele sente, como ele respira, que momento da sua vida atravessa. Neste filme, escolhi um momento em que tudo vai mal para ele. Ele sabe que quer acabar aquele livro [1984] e não está a conseguir, sente que pode morrer a qualquer instante, até ao momento em que ele se dá ao luxo de reflectir em tudo o que já escreveu até então, na sua vida, nos seus amores, no seu filho, etc, com uma lucidez extraordinária. Isto é o que escrevo. Depois, há todas as outras camadas. A música. Os arquivos. Tudo o que tem que ver com a antropologia e o mundo em que ele viveu, com as suas conexões. Foi por isso que eu quis tanto ter aquele filme de Ken Loach [Land and Freedom / Terra e Liberdade]. Porque ele foi trotskista, fez filmes sobre a Guerra Civil de Espanha em que Orwell combateu contra o fascismo. Todas estas camadas levam a outras. Precisava de ter a ilha de Jura no filme, a Birmânia, a Índia…
É também intuitivo o processo de montagem? Queria perguntar-lhe se o filme se faz ao mesmo tempo que vai sendo montado.
Sim, vai aparecendo, camada por camada, a partir do libretto de base, que também vou alterando, tudo em permanente aller-retour. Uma coisa que ainda não lhe disse é que, geralmente, começo os filmes com duas páginas íntimas, isto é, como se eu calçasse os sapatos da personagem que escolhi e quero desenvolver. Essa carta inventada, um princípio emocional que ponho em prática, acaba quase sempre por tornar-se o esqueleto dos meus filmes, é o meu Why I Write, para citar o ensaio de Orwell. O resto constrói-se. Por exemplo, com as diferentes versões de 1984 que foram escritas. Ou com a própria representação de Orwell pois são poucas as fotos que existem dele. Como encontrar um tom para Orwell? Procurei uma inspiração no cinema social das décadas de 30, 40 e 50 porque nesses filmes está também parte da história de Orwell.
▲ "Orwell: 2+2=5" vai muito além de uma insurreição assumida contra o actual chefe de Estado americano e nada tem que ver com o estilo provocatório de um Michael Moore
À partida, todos os regimes de imagens eram admissíveis no seu filme?
Sim, sem preconceitos na sua qualidade, nas suas variações. O meu primeiro modelo é e será sempre Chris Marker. Porquê? Porque venho de um país sem imagens – e Marker foi um cineasta que deu imagens a esses países. A minha história não pôde chegar aos ecrãs. A história do cinema ignorou-me. E quando o cinema começou a olhar para mim, usou-me, manipulou-me. Enquanto ser humano, tenho o direito de reescrever a minha história e de reivindicá-la, com os meus combates, “with every means necessary”, como dizia Malcolm X. Então recolho tudo o que posso: vídeos, fotos, quadros, plantas, pedras. Sinto que esses elementos são meus, da mesma maneira que as cidades portuárias de Nantes ou Hanover foram construídas pelos barcos esclavagistas. Essa herança também faz parte de mim. Reivindico propriedade sobre ela porque é uma herança que me constitui. Isto é: lá porque me disseram no passado, como haitiano e negro, que “eu não existo”, não é por isso que vou deixar de existir. Estabeleço critérios. Por exemplo: não rejeito as fotos colonialistas só porque elas representam quase sempre o ponto de vista dos colonizadores. E fico com aquelas que jamais são degradantes para os seres humanos. Quando Orwell fala dos indígenas nas fotografias, eles olham para a câmara. A ama negra de Orwell olha para a câmara. É uma figura humana, tem a história dela.
Na sua opinião, que tempos são estes que atravessamos?
Estamos todos no Titanic. Esquecemo-nos de que os regimes autoritários não têm limites. Nos anos 30 do século XX, ficámos a jogar às cartas até ao último dia. Não acreditámos no avanço de Hitler. E quando ele invadiu a Polónia, era demasiado tarde. Eu politizei-me em Berlim com 17 anos, com a SWAPO e o ANC sul-africanos e a resistência iraniana. Quando voltei ao Haiti, após acabar os meus estudos, sabia que ia bater-me contra a ditadura e pôr a minha vida em risco. Era o meu horizonte. Hoje, enviamos SMS, postamos nas redes sociais e pensamos que estamos a fazer a revolução. Abrimos essa auto-estrada ao totalitarismo, o mundo inteiro está tetanizado. E por onde anda a Europa? Isso é que custa. O falso poder das capitais europeias que agora salta à vista é preocupante. Há 30 anos que a democracia na Europa deixou de funcionar. Os programas políticos constituem-se por sondagens, sem verdadeiras personalidades. O que nos acontecerá depende do que fizermos agora.
O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico