O pai tem negócios, a irmã tem negócios, a mãe participa nos negócios de todos. Por isso, ninguém estranhou que, aos 20 anos, Mariana Ribeiro criasse uma marca de roupa, que deixasse o curso de Economia para trás e que meia dúzia de anos mais tarde tivesse um projeto digital dirigido a jovens adultos.
Amiga, Faz Parte é agora um podcast Observador e junta dúvidas, medos, desabafos, conquistas, temas leves e mais complexos, gargalhadas e partilhas muito pessoais. O que o distingue é ser feito para a faixa etária dos 20 anos, onde a transição para a vida adulta pode ser confusa e violenta. Mas, como demonstra Mariana Ribeiro, ninguém está sozinho nesta atribulada viagem.
Tem 26, “quase 27”, anos. Nasceu e sempre viveu no Porto, onde tirou a licenciatura em Economia, na Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP). Seguiu para Erasmus, em Budapeste (na Hungria), e foi aí que se lançou numa espécie de experiência no mundo digital. “Comecei a fazer vídeos e vlogs e a partilhar a experiência de um aluno estrangeiro no YouTube. Foi nessa altura que surgiu o interesse pela comunicação”, recorda ao Observador.
Regressou a Portugal, terminou o curso e percebeu que queria explorar a área de marketing. Como tinha gostado de viver no estrangeiro, fez as malas e seguiu para Barcelona (Espanha), onde se inscreveu num mestrado. “Depois fiquei lá a trabalhar numa agência de comunicação e, no fundo, continuei todo este percurso no digital, pegando nas experiências que as pessoas já estavam habituadas a acompanhar, como um bocadinho da minha vida e das minhas aventuras.”
▲ "Nesta altura dos 20 anos questionamos uma data de coisas: será que é este o caminho? Será que o que estou a fazer está certo? Será que estou a perder uma oportunidade?”
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A paixão transformou-se em interesse que a levou a estudar todas as valências do digital para saber como desenvolver mais ainda aquilo que lhe dava tanto prazer fazer. “Nessa altura também tinha o projeto de uma marca de roupa, a Flair, que me acompanhou nos últimos quatro anos.”
Com tanta coisa para gerir (e outros tantos projetos sonhados), escolheu despedir-se e regressar a Portugal. Instalada em Lisboa, sentiu necessidade de ter um espaço onde pudesse explorar a vertente da comunicação. “Queria falar mais abertamente dos temas, porque comecei a sentir-me muito perdida. Nesta altura dos 20 anos questionamos uma data de coisas: será que é este o caminho? Será que o que estou a fazer está certo? Será que estou a perder uma oportunidade?”
Rapidamente percebeu que, à sua volta, as pessoas com a mesma idade tinham dilemas semelhantes e que fazia falta um espaço para falar sobre eles. Em vez de discutir tudo isto entre amigos, Mariana Ribeiro decidiu fazê-lo publicamente.
Criou um primeiro podcast chamado Amiga, Dás Casa?. “Eram mesmo conversas de sofá, gravadas em minha casa. Mas, em setembro do ano passado, quis apostar mais no projeto, fiz a transição para estúdio e acabei por alterar o nome para Amiga, Faz Parte. Achei que fazia sentido dar um recomeço ao projeto e poder trazer outro tipo de convidados, além dos meus amigos, mas sempre nesta ótica de explorar problemas e confusões que ocupam a nossa cabeça nesta idade.”
A transição da vida de estudante para a vida adulta carrega responsabilidades, contas para pagar e um número gigante de desafios que precisam de respostas imediatas. Ter a sensação de atropelo é comum nesta fase. “Muitas vezes, temos a nossa vida toda planeada até acabar os estudos, mas a partir daí parece que de repente começa a vida e não sabemos bem o que fazer, temos de tomar todas as decisões e é assustador”, explica. “Comecei a perceber que era comum a toda a gente, que não era só eu que estava a passar por isto, ninguém está sozinho. Há alguns momentos de instabilidade emocional por causa dessas dúvidas todas e acabo também por abordar muitos assuntos de saúde mental.”
Fala abertamente sobre o facto de ela própria ter procurado ajuda através da terapia, sente que é uma forma de normalizar estes temas. “Às vezes pensamos que somos só nós que estamos a passar por determinada situação, mas, se falarmos abertamente, outras pessoas vão identificar-se. Não temos de navegar estes sentimentos sozinhos.”
No podcast decidiu partilhar também a decisão de não continuar o projeto da marca de roupa (chegou ao fim em janeiro) para poder seguir outros caminhos. “Foi uma decisão difícil porque implicou muito investimento de tempo e dinheiro, mas foi algo que eu criei quando tinha 20 anos. Hoje em dia já não me identifico tanto e, com o crescimento, faz parte explorar outras coisas. A minha mensagem passou por aí.”
Neste momento, Mariana Ribeiro está completamente focada no digital e no Amiga, Faz Parte. Apesar da sua pressa de ver coisas a acontecer, tirou uns meses para perceber o que quer fazer no futuro, em vez de se atirar já de cabeça a outro projeto. E é no meio de um dia de turismo por Budapeste, Hungria, que falamos com ela ao telefone.
▲ “Faz todo o sentido este tipo de comunicação que aborda temas mais adultos para outra geração, que são pouco falados nas redes sociais”
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Adora viajar e descobriu a libertação de fazê-lo sozinha. Além disso, tem muitos pontos em comum com as pessoas da sua geração. “Estou solteira nestes 20 [anos], gosto de aproveitar a vida mesmo que as minhas amigas não possam, é bom conseguir fazer aquilo que me apetece e explorar da forma que me apetece. A minha mensagem passa igualmente por aí.”
Juntando-se aos podcasts do Observador, Amiga, Faz Parte atingirá um target de ouvintes muito específico e, para Mariana Ribeiro, o convite que lhe fizeram foi exatamente por ser essencial chegar a um público de jovens adultos com a cabeça a fervilhar de ideias e dúvidas. “Faz todo o sentido este tipo de comunicação que aborda temas mais adultos para outra geração, que são pouco falados nas redes sociais.”
A transição que fez de casa para estúdio não foi um acaso. Mariana Ribeiro acreditou que o podcast tinha tudo para sair do registo amador e, por isso, fez um investimento a longo prazo. “Tive a consciência de que o projeto ia dar retorno e o Observador vem provar isso mesmo. Acho que, se tivesse continuado em casa, provavelmente nunca teria chegado ao Observador.” Continuou a gravar os episódios no mesmo estúdio, para manter o ambiente intimista que criou num cenário com sofás, candeeiros, almofadas e luz reduzida. “É um ambiente acolhedor que permite que, quando tenho convidados, haja conversas mais intimistas.”
Há episódios novos todos os domingos e Mariana tenta manter a lógica de fazer um a solo, seguido de um com convidado, e assim sucessivamente. “Gosto muito deste registo em que trago pessoas, mas em que também tenho espaço para ter as minhas terapias e dilemas.”
Das viagens à pressão social; da busca constante por um propósito na vida aos relacionamentos; da felicidade no trabalho às comparações com os outros — os temas não se esgotam, mas há uns mais impactantes do que outros. “Foi surreal o feedback que tive quando falei pela primeira vez do meu distúrbio alimentar, um problema que já me acompanha há alguns anos e do qual nunca tinha falado online. Senti uma proximidade e uma abertura do outro lado como nunca tinha sentido. Muitas pessoas mandaram mensagens a dizer que não tinham parado de chorar e desabafaram comigo coisas que nunca tiveram coragem de contar a ninguém. Isso é muito forte.”
Se ainda restavam dúvidas, ficou claro para Mariana Ribeiro a urgência de falar destes temas, mas sobretudo falar deles abertamente. Ainda assim, há episódios que a deixam esgotada. “Há temas muito difíceis de partilhar, como decidir acabar com a minha marca. Estava com muito medo de ser vista como fraca ou desistente.” Porém, o que aconteceu foi exatamente o oposto. “A coragem de querer mudar foi o que se destacou e ter esse feedback do outro lado também funciona como terapia, faz-me sentir compreendida.”