O presidente da Carris prestou esta quinta-feira esclarecimentos sobre o papel da empresa municipal de Lisboa no acidente do ascensor da Glória que causou, até agora, a morte a 16 pessoas. Pedro Bogas assumiu como prioridade afastar dúvidas sobre potenciais falhas na empresa de manutenção, apresentando provas de que a MNTC nunca deixou de estar sob contrato e que as inspeções diárias ao ascensor foram todas realizadas.

Bogas sublinhou a especialização dos técnicos que fazem o trabalho de manutenção e sublinhou que a Carris tem dois profissionais dedicados à fiscalização deste trabalho. Pedro Bogas revelou ainda que foi feito um inquérito ao pequeno descarrilamento que aconteceu com o ascensor da Glória, em 2018, mas não revelou detalhes sobre conclusões do mesmo ou medidas aplicadas na sua sequência.

O elevador da Glória tinha manutenção

A empresa de manutenção do elevador da Glória nunca deixou de estar sob contrato da Carris e as “inspeções periódicas mantiveram-se sem qualquer falha”, garantiu esta quinta-feira o presidente da empresa municipal de Lisboa. No dia 20 de agosto deste ano, a Carris celebrou um contrato por ajuste direto com a MNTC no valor de 223 mil euros e duração de cinco meses, depois de não ter aceitado nenhuma das propostas recebidas num concurso público para um contrato de maior duração.

O contrato, que não está disponível no portal Base (onde são depositados por norma os contratos públicos), foi disponibilizado à imprensa depois de uma conferência de imprensa em que Pedro Bogas, presidente da Carris, abordou o acidente no centro de Lisboa que causou, até agora, 16 vítimas mortais.

Como era esse contrato

Os detalhes deste vínculo contratual esclareceram algumas dúvidas que tinham sido levantadas sobre se a manutenção tinha sido efetuada nos dias que antecederam o acidente. Isto, porque o anterior contrato para a manutenção do elevador da Glória tinha terminado dia 31 de agosto e não era pública a existência de outro vínculo contratual para aquisição deste serviço pela Carris.

O que esteve na origem do acidente

Além de abordar as dúvidas quanto à questão contratual, Pedro Bogas avançou que ainda a Carris “ainda não sabe quais são” as causas do acidente e acrescentou que, ao contrário do que tem sido veiculado nos media, “poderão não ser” o rompimento de um dos cabos do funicular. Estas serão apuradas “pelos peritos e pelos técnicos que são as pessoas indicadas e credenciadas para chegar a essas conclusões”, disse.

Desta forma, o presidente da empresa municipal remeteu todos os esclarecimentos quanto à origem do acidente para as conclusões do inquérito interno. Reconhecendo que a Carris não consegue “controlar totalmente” o prazo para a conclusão desse inquérito, Bogas disse esperar que o inquérito, em que participarão auditores externos, e espera ter conclusões para apresentar “muito em breve”.

Entretanto, o elevador e os ascensores de Lisboa serão alvo de “uma rigorosa inspeção técnica feita por uma entidade externa nos próximos dias”. Até estar concluída, todos os ascensores de Lisboa continuarão suspensos.

Plano de manutenção foi “escrupulosamente cumprido”

O presidente da Carris procurou dissipar as dúvidas sobre qualquer defeito na manutenção realizada ao elevador, avançando que foi feita uma avaliação pela empresa que não aponta para falhas a esse nível. “As inspeções periódicas mantiveram-se sem qualquer falha, as inspeções diárias estão devidamente registadas, o plano de manutenção deste equipamento foi escrupulosamente cumprido. Mas vamos ver o que se apura no âmbito do inquérito”.

O presidente da Carris confirmou também que não foi registada nenhuma anomalia pela equipa de manutenção que inspecionou o veículo na manhã do dia do acidente, como noticiou esta quinta-feira o Observador. “Daquilo que foi detetado na inspeção, não foi detetada nenhuma falha, se tivesse sido detetada o veículo não tinha saído”, destacou Pedro Bogas.

Sobre a Main Maintenance Engineering (MNTC), que presta o serviço de manutenção aos elevadores e ascensor , Pedro Bogas esclareceu que a empresa estava encarregue deste serviço desde 2019 — antes de o presidente da Carris entrar em funções. Depois de ter ganhado um primeiro concurso público, nesse ano, voltaria a ganhar um segundo, em 2022, cujo o prazo de execução acabava no final de agosto deste ano.

A empresa Main e os seus trabalhadores “estão credenciados para fazer um trabalho especializado, para este tipo de operações, encarregando-se inclusivamente pelo fabrico de peças”, explicou o mesmo Pedro Bogas.

Concurso público ficou deserto

No verão de 2025, após não ter recebido propostas abaixo do preço base estabelecido para o concurso público do novo contrato (1,19 milhoes de euros para três anos), a Carris “de imediato” contratou por ajuste direto a Main por cinco meses. Desta forma, a empresa procurava assegurar o serviço durante o tempo considerado necessário para concluir um novo concurso público, que será lançado ainda “neste mês”, sendo que a Carris tem “tudo preparado para avançar”, disse Pedro Bogas.

O presidente da empresa de transportes rejeitou a ideia de que a Carris terá querido “poupar” dinheiro com o concurso público que não recebeu nenhuma proposta. Prova disso é que o preço base aumentou de 995 mil, em 2022, para cerca de 1,2 milhões, em 2025, alegou Bogas. “Não havia nenhuma intenção de poupança”, disse, sublinhando que há “regras” a aplicar na mudança do preço base.

Carris recusa ter poupado na manutenção

Pedro Bogas afirmou também que a segurança tem sido uma prioridade da Carris durante o seu mandato, apresentando dados do aumento do investimento da empresa em manutenção. Entre 2015 e 2025, o orçamento executado nesta área duplicou e, entre 2022 e 2025, aumentou 25%. Contudo, esse dados dizem respeito a todos os transportes da Carris e não exclusivamente aos ascensores de Lisboa, cuja manutenção apenas passa pelos contratos anteriormente mencionados. Sobre o cálculo feito para justificar o aumento do investimento, disse: “O aumento de custos tem de acompanhar aquilo que são as necessidades da manutenção, que vão sendo reportadas”.

Técnicos fiscalizavam manutenção da Main

Em resposta às críticas de trabalhadores da Carris e respetivos sindicatos que alegam ter reportado sistematicamente problemas que causavam dificuldades na travagem do elevador da Glória, Pedro Bogas disse que a empresa não tinha “qualquer queixa” que levasse a  “pôr em causa a confiança que tínhamos neste prestador”, rejeitando dúvidas sobre a idoneidade da Main. “Nunca houve uma crítica geral à manutenção dos nossos ascensores”, disse ainda.

Depois, revelou que há técnicos da área da manutenção deste ascensores com “30 ou 40 anos de casa” que “estão evidentemente perplexos” com o sucedido, que, defende, não terá uma causa simples. “Se fosse algo muito evidente com certeza que já tínhamos apurado”, diz o responsável da Carris, explicando que a empresa tem um total de 38 elétricos clássicos e que não tem havido “nenhuma acidentalidade extraordinária” com eles.

Pedro Bogas também detalhou como é composta a equipa de “especialistas” que se ocupa da manutenção dos elevadores e a quem faz a fiscalização da mesma, do lado da Carris. “Estão alocados a este contrato seis técnicos, enquadrados por três engenheiros da empresa prestadora, sendo que dois elementos estão em permanência na empresa (24 horas por dia), acompanhados e fiscalizados por dois técnicos especializados da Carris”.

Pedro Bogas disse também que a manutenção dos ascensores de Lisboa funciona “ininterruptamente e segundo o mesmo esquema desde 1914”. Contudo, acrescentou que este plano foi “sofrendo atualizações”, ao longo dos anos, após decisões tomadas em conjunto com fabricantes do material utilizado. “São procedimentos que têm décadas e que, felizmente, sempre funcionaram bem até à data de ontem”, disse.

O relatório de 2018 continua por revelar

Por fim, o representante máximo da Carris ainda respondeu a perguntas sobre o pequeno descarrilamento do ascensor da Glória, que não causou vítimas, em 2018 — quando ainda não estava à frente da empresa. Pedro Bogas disse que foi feito um inquérito interno e que “as conclusões certamente foram tidas em conta” pela Carris. O Observador tentou apurar as conclusões deste inquérito e que medidas foram tomadas com base no mesmo, mas não recebeu resposta em tempo útil por parte da Carris.