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As notas dos jogadores que foram menos Portugal que o Uruguai conseguiu ser /premium

Perdemos porque Cavani foi mais Ronaldo que Ronaldo. O Uruguai não teve medo de criar infelicidade, de mostrar quão ilógica é a vontade de viver. As notas do Portugal-Uruguai... com muito humor.

Como adepto tanto de café como de sofá estou sempre certo, é impressionante mas é verdade. Quando perdemos é porque não prestaram atenção à minha sabedoria; quando ganhamos é porque o caos não deu ouvidos à minha insensatez. Estou sempre certo – e se a realidade me contraria isso só demonstra o mau feitio dessa senhora de má fama.

Mas desta vez era razoavelmente óbvio: desde o início do Mundial que carecíamos de negatividade; já não impelíamos os adversários ao suicídio; por vezes eles pareciam acreditar que poderiam, e até com justiça, ganhar. Não foi o que aconteceu: o Uruguai ganhou com injustiça, ou como se diz desde o Europeu: à portuguesa.

Perdemos porque Cavani – e todo o homem aspira a ser Cavani, lindo, esbelto, de cabelo rebelde, eficiente mas também romântico – foi mais Ronaldo que Ronaldo. O Uruguai não teve medo de criar infelicidade, de mostrar quão ilógica é a vontade de viver.

Nós, esquecendo a lição do Euro (não fazer nada, deixar que o adversário se auto-destrua) acreditámos que poderíamos ser felizes num mundo justo, em que os Bernardos recebem com elegância, os Quaresmas cruzam de trivela e os Andrés, além de serem lindos, cabeceiam para o fundo das redes. Esquecemo-nos de Godin – e todo o homem, em não sendo Cavani, aspira a ser Godin, feio, duro, mas a pôr o pão na mesa para alimentar as crianças . Godin foi mais Pepe que Pepe e o Uruguai foi mais Portugal que Portugal. O talento, o empreendedorismo não compensam – pelo menos no Campeonato do Mundo.

Rui Patrício: 6

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Se notarem bem, na estátua que lhe fizeram em Leiria não está a sair a um cruzamento e há uma razão para isso: o escultor sabe que Patrício é dos melhores em reflexos e no um contra um mas ainda não sabe sair a cruzamentos – ou fechar o poste mais próximo. Este jogo foi um bom exemplo disso: fez uma defesa enorme a um livre de Suárez, aos 21 minutos, e não conseguiu antecipar o cruzamento de Suárez ao segundo poste, nem fechar o poste esquerdo, logo aos 7 minutos – e essa é a diferença entre os bons guarda-redes e os grandes. No segundo golo de Cavani nada podia fazer.

Ricardo Pereira: 6

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Há um lance, aos 74 minutos, que espelha o drama de Ricardo e da selecção: recuperou alto a bola quase à saída da área do Uruguai, tabelou bem, adiantou, encontrou espaço e, com vários homens na área, escorregou e cruzou para fora. O problema de Portugal foi táctico – por exemplo, Ricardo, aos 7 minutos, tentou fechar o flanco e Suarez, que é destro, agradeceu e foi para dentro, cruzando à vontade – mas acima de tudo ontológico: quando esta nação tenta criar, prejudica-se. Devíamos, simplesmente, ter recusado tudo o que há-de bonito na vida – mas Ricardo não sabe jogar assim.

Pepe: 7

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Na Pastoral Americana Philip Roth cria uma personagem, o Sueco, que tem tudo (é um atleta para quem todos os olhos se voltam quando entra numa sala) que mais tarde, já na meia-idade, conhece a tragédia humana, quando a sua filha, que defende o direito à vida de todos os seres, até as moscas e as formigas, se torna bombista. A moral é que a vida é composta de caos e ninguém, nem os eleitos, está a salvo – Pepe aprendeu isso hoje, quando depois de limpar tudo, antecipar-se a Suarez várias vezes, e marcar o golo do empate, falhou uma antecipação, a bola sobrou para um uruguaio cujo nome eu devia ter apontado (mas estou irritado e exagerei novamente num mau vinho) e Cavani marcou um golo genial. Ainda assim, é o melhor português de sempre.

José Fonte: 5

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«Filho, já te contei que uma vez joguei um Mundial inteiro ao lado do Pepe?»

«Sim, pai.»

«A sério, o Pepe era INCRÍVEL.»

«Sim, pai. Mas fala-me do Cavani, como era o Cavani?»

«COME A SOPA, GAROTO INGRATO.»

Raphael Guerreiro: 5

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Tentou e tentou, ao ponto de ter sido o mais rematador dos portugueses, disparando  de fora da área a cada ressaca que sobrou – não vi nenhuma estatística, isto é uma impressão a olho. Não fugiu do choque, subiu o que mais que pôde, mas é impossível analisar a sua prestação sem ponderar naquele momento, aos 7 minutos, em que se esqueceu de Cavani e o deixou isolado para fuzilar Patrício.

William Carvalho: 7

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Foi bonito vê-lo, aos 59 minutos, a ganhar uma bola a Suarez na raça e no corpo – o tipo de lance que tenta evitar, porque prefere antecipar, ainda que a sua inteligência a ler o jogo (e a sua capacidade de passe, hoje imaculada) nem sempre compense a sua letargia. Mas talvez o seu momento mais simbólico tivesse ocorrido antes, quando o relógio acabara de chegar aos 15 minutos: William recuperou uma bola quase em cima da área uruguaia, puxou-a para o pé direito, rematou e caiu – um lance que pode ser visto como uma metáfora da seleção, quando tenta jogar futebol.

Adrien Silva: 5

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É aquele amigo que queremos ter para umas mudanças, ou quando precisamos de carregar a bateria às 4 da manhã e desempenhou bem o seu papel de médio genérico e com capacidade de sacrifício.

Bernardo Silva: 8

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Há um momento, já aos 89 minutos de jogo, em que veio buscar a bola junto aos centrais – não significou nada no cômputo geral do jogo, mas foi como se nesse instante ele se apercebesse que só ele poderia resolver esta contenda, abrir uma frincha na negatividade do muro uruguaio. Não conseguiu, em parte por culpa própria: foi ele que falhou, de baliza aberta, aos 69 minutos – e que esse lance o faça passar muitas horas a treinar o remate, porque tem um talento imenso mas falta-lhe, ainda, aquele sangue de matador, aquela contundência que lhe permita ter influência mesmo quando as coisas não correm bem, ou quando a equipa não é tão boa quanto o seu talento precisa. E as coisas de facto não lhe correram bem (durante todo o Mundial) até à segunda parte de hoje, quando passou para a posição 10, o seu lugar natural, e desatou a puxar os cordelinhos da selecção – que, no futuro, terá de ser construída à sua volta, porque é um jogador magnífico.

João Mário: 6

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Desatou a jogar futebol quando, na segunda parte, foi para a direita – e jogou melhor ainda quando assentou arraiais no meio, como 8, que é o que aliás é onde se sente à vontade. Na primeira parte fez o mesmo que no resto do Mundial: andou perdido entre o flanco e o meio, desapoiando Rapha e não chegando o suficiente à frente. É um jogador de veludo, de antecipação e passes medidos, de impor ritmos e tabelar – não é um flanqueador nem um médio ala. Não parece mas isto de um jogador passar 90 minutos fora de posição influi no desempenho e nem sempre é boa política sacrificar tudo em nome da vontade de um matador. Aplauda-se a abnegação.

Cristiano Ronaldo: 5

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Tentou vir atrás (porque não havia espaço), tentou tabelar, libertar-se, cruzar (mas havia sempre a cabeça de Godin), fintou um, fintou dois, mas havia sempre um terceiro, forçou o remate uma, duas, três vezes, tomou más decisões porque quer corresponder às expectativas de todo um país – mas nada lhe saiu muito bem.

Gonçalo Guedes: 4

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Desta vez estou chateado com ele não pelo que não jogou, mas por me ter obrigado a apagar o que tinha escrito ao intervalo: «Bem aos 37 minutos, ao ficar lesionado num choque com Godin; mal ao levantar-se e continuar a jogar, desperdiçando uma substituição que não só melhoraria a equipa como poderia ser o momento em que a equipa sentia que ia virar o jogo – assim percebemos que até as lesões estavam contra nós.» Depois passou para a esquerda e mostrou, pela primeira vez neste Mundial, alguma da sua sua qualidade, em particular nas diagonais para o meio. Tem dois anos para crescer.

Ricardo Quaresma: 4

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Quando era novo costumava gozar com minha mãe, por ela possuir, em sua biblioteca, um exemplar do livro de Dale Carnegie, «Como Ser Feliz e Influenciar Pessoas», sendo que não estou certo do título e estou com demasiada preguiça para ir verificar se é realmente este. Hoje, velho e sabido, não só não faço pouco dos livros de auto-ajuda como sei que todos precisamos de pequenos truques para sobreviver neste mundo cruel, que todos temos de ser psicólogos de nós próprios, de sermos os primeiros a dar a nós próprios o que precisamos (e não, não estou a fazer essa piada), de modo que já estou a rever em loop o golo contra o Irão, que é, aliás, a única memória que me fica deste Mundial.

Manuel Fernandes: 5

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Entrou e, no intervalo de dois minutos, rematou duas vezes de fora (aos 85 e aos 86 minutos). Convenhamos que é complicado pedir a um médio genérico que trave uma infecção generalizada.

André Silva: 1

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Impressionante como a sua conta de Instagram cresceu durante o Mundial.

Fernando Santos

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É um homem vivido e sabe que, da mesma forma que ganhámos o Europeu com uma pontinha de sorte, hoje fomos vítimas de o Uruguai ter usado a “ideia” de futebol que criámos no Europeu melhor que nós a usamos.

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