Aqui há uns dias, chegado a casa de um jantar, abri uma mini, acendi um cigarro e dei ao dedinho num scroll noturno pelas redes sociais antes de ir nanar – quando de repente me deparei com uma publicação de uma amiga em que esta partilhava a canção Silver Springs, dos Fleetwood Mac. A minha imediata reação foi pensar: “Esta garota está com o coração partido, tenho de falar com ela”. A minha reação subsequente foi ir dormir, que a empatia é muito linda, mas descansar ainda o é mais.
É uma canção danada, Silver Springs. Nela, Stevie Nicks dirige-se a um homem por quem está apaixonada:
“You could be my silver spring
Blue green colors flashin’
I would be your only dream
Your shining autumn, ocean crashing”
Assim canta ela. Mas ele, por sua vez, está enamorado de outra moça:“And did you say that she love you”. Stevie Nicks continua e, de repente, chega aquela frase que machuca o coração até dos mais duros: “So I’ll begin not to love you”
Ouço isto e, caraças, há algo em mim (e note-se que eu sou A Epítome Do Macho Duro e Silencioso, O Último dos Clint Eastwoods) que estremece, o coração falha uma sístole, o corpo antecipa o que vem aí, como quando a mãe dos nossos putos nos diz “Temos de conversar” e mentalmente pensamos como é que vamos sobreviver a isto. E Stevie segue: “Turn around, see me runnin'”.
E quase nos apetece dizer: “Pára, Stevie, pára agora que eu não aguento”. Mas ela não pára:
“I’ll say I loved you years ago
Tell myself you never loved me, no”
Como se isto não fosse suficiente, ela atira: “Time casts a spell on you but you won’t forget me”. E eu, confesso, apesar de ser a A Epítome Do Macho Duro e Silencioso, O Último dos Clint Eastwoods, quebro sempre.
[“Silver Springs” — os Fleetwood Mac ao vivo em 1997:]
Nem sempre foi assim – comigo e com muita gente. Nem sempre Stevie e Lindsey Buckingham, seu colega nos Fleetwood Mac e objeto da canção, nem sempre estes dois tiveram sucesso. Em 1973, por exemplo, ainda não havia Silver Springs, nem sequer Fleetwood Mac (não com estes dois, ainda com Bob Welch e Bob Weston a garantir o combustível mais próximo do rock’n’roll à banda que confiara a alma aos blues do profeta Peter Green). Mas Nicks e Buckingham já se conheciam — e já se namoravam — e fizeram um excelente disco folk chamado Buckingham Nicks que passou completamente despercebido – e que agora é finalmente reeditado, depois de ter sido redescoberto nos entrefolhos mais obscuros da net.
Artistas, discos e canções têm muitas vidas e o seu significado cultural está em constante mutação, resultado do diálogo de cada era com o passado. Durante anos, os Fleetwood Mac tiveram mau nome, até que a reedição de Rumours (em 2013) os tornou heróis de uma nova geração (os millenial, basicamente) que o levaram ao Tik Tok e o transformaram outra vez em sucesso. A minha companheira da altura apaixonou-se pelo disco, mas eu mantive-me irredutível; esse e Carrie & Lowell, de Sufjan Stevens (de 2015), eram os únicos discos acerca dos quais discordávamos por completo – algo normal, se tivermos em conta que em jogo estavam as opiniões de uma moça inteligente, culta e com bom senso e a de um burro teimoso.
A responsabilidade de eu mudar de opinião sobre os disco é de Inês Menezes: mais ou menos quando eu e a moça nos separámos, a bela da Inês andava numa fase em que passava na Rádio Radar esses dois discos com regularidade; é possível que o meu estado emocional (o equivalente àqueles farrapos que os mecânicos usam para tocar nas peças) e a ligação dos discos à pessoa de quem me acabara de separar tenham influenciado a minha mudança de opinião, mas de repente eu não conseguia ouvir aqueles discos sem ficar com lágrimas nos olhos – e não queria parar de ouvir.
[o álbum “Buckingham Nicks” está disponível na íntegra no Spotify:]
O poder da música é extraordinário: encena o seu drama e depois o público deixa-se ou não comover. Mas esse mesmo público pode um dia descartar o drama como lamechice e um dia dar por si a viver drama semelhante na sua vida e a sua relação com o drama na canção muda por completo porque o entende melhor.
Em 1973, o poder da música de Buckingham e Nicks já era extraordinário, como é passível de se provar no álbum com o nome da dupla. Por exemplo em Crying in the night, quando Stevie canta “She will leave you / Crying in the night (…) Come on, baby/ she’se the wrong kind of girl (..) She’ll take your money/ she’ll wreck your world”. Ou nessa inacreditável ode ao amor que são os sete minutos e quinze segundos de Frozen Love, uma canção em que apesar de toda a tragédia que envolve os dois amantes ele ainda assim diz: “And if you go forward (you go forward), I’ll meet you there”.
Buckingham Nicks, um extraordinário pedaço de folk-rock, veio (sabemos hoje) a tornar-se uma peça de culto na história do rock, o que faz sentido, tendo em conta que é o único álbum lançado pela dupla antes de se juntarem aos Fleetwood Mac. Não vale a pena fingir o contrário: o magnetismo que emana deve tanto à qualidade musical quanto ao mito que se construiu em torno da relação de Nicks e Buckingham, explicitamente expressa em Silver Springs, que hoje é quase um hino feminista.
Quando ouvimos uma canção como Silver Springs damos por nós a pensar nas pessoas que amámos (pais, filhos, amigos, paixões) e que saíram da nossa vida ou de cuja vida saímos e ficamos quase assoberbados ao pensar quantas vidas uma vida tem.
▲ Mick Fleetwood (na bateria), com Stevie Nicks (ao centro) e Lindsey Buckingham: os Fleetwood Mac ao vivo em 1975
Mark Sullivan
A de Lindsey Buckingham começou em Palo Alto, Califórnia, em 1949. Precocemente inclinado para a música, aprendeu a tocar guitarra de ouvido, sem aulas formais. Era fã de folk e tinha um fraquinho pelo virtuosismo dos tocadores de banjo de bluegrasss (quem nunca). Talvez tenha sido isso que o levou a desenvolver a sua técnica muito própria de fingerpicking, que se tornaria reconhecível para o mundo inteiro mais tarde, em canções como Never Going Back Again e Big Love.
Na adolescência, Buckingham, como muitos outros músicos precoces, fez parte de bandas locais até que conheceu Stevie Nicks, com quem encetou uma parceria que acabou por definir o rumo da vida de ambos. Pequena trivia pop: antes de serem um duo, os dois fizeram parte de uma banda chamada Fritz, que abriu concertos para artistas como Janis Joplin e Jimi Hendrix no final dos anos 60.
Por sua vez, Stevie Nicks (nascida em 1948, no Arizona), podia nunca ter encontrado Buckingham – enquanto crescia, a família saltou de estado em estado, devido ao trabalho do pai. Havia música lá por casa: a avó introduziu-a à country e à folk, e a miúda desde cedo começou a escrever canções e poemas e desde cedo que se interessou por personagens femininas fortes e canções sobre de amor e perda.
Nicks e Buckingham conheceram-se no liceu e, obviamente, acabaram a fazer música (entre outras coisas): ele já era um exímio guitarrista e ela já tinha uma voz cheia de emoção. Um encontro fortuito e eis que foram parar a parceria que atravessou décadas. Bem cedo decidiram apostar nas suas próprias composições e foi assim que chegámos ao disco que agora homenageamos, no dia em que é reeditado. Nesta altura o modus operandi era uma combinação da habilidade instrumental de Lindsey com a voz rouca, cheia de gravitas, de Stevie.
▲ Stevie Nicks e Lindsey Buckingham com os Fleetwood Mac, num concerto em 2013 em Amesterdão
ANP/AFP via Getty Images
Outra trivia pop a que chamaremos Trivia Pop Truca-Truca: desde a juventude que Stevie e Lindsey tinham um romance, que começou no final da adolescência e se prolongou ao longo dos anos 70. Foi, supostamente, uma relação intensa – ao fim e ao cabo, eles não eram só namorados, também compunham, pelo que cada segundo da vida deles era passado em conjunto.
Esse amor conturbado é o cerne de uma série de canções dos Fleetwood Mac – e às vezes dou por mim a pensar como é que eles se aguentaram, mesmo já separados, a lidar um com o outro e a transformar os seus dramas pessoais em canções que, ainda por cima, tinham acolhimento universal. A química musical mantinha-se viva enquanto o amor se desfazia e quanto mais o amor se desfazia mais os seus detritos serviam de combustível para a fogueiras das canções. Que o Deus em que não acredito tenha tido toda a piedade por estes dois, porque não há-de ter sido fácil.
É um disco impressionante, este Buckingham Nicks. É-o em Crystal, em Crying in the Night e em Frozen Love, que a amiga que mencionei no início do texto (ela está bem, obrigado por se preocuparem) diz ser hoje a melhor canção de sempre. Se na altura passou despercebido de forma comercial, foi este mesmo álbum que levou Mick Fleetwood a convidar Lindsey para a sua banda— que só aceitou o contrato com a garantia de que Stevie também iria. Depois, foi a história pop rock que mudou. Agora, somos nós que podemos regressar a estas canções, com uma reedição em todos os formatos, incluindo os do streaming, que tornam a obra ainda mais global.
Sempre que escrevo um texto sobre um disco de que gosto muito, tenho esperança que alguém encontre nele a mesma beleza. E que um dia essa pessoa partilhe essa beleza com ainda outra pessoa e daí nasça uma amizade. Somos as pessoas que se atravessam na nossa vida e a beleza que encontramos no mundo. A beleza só tem sentido se for partilhada. Se encontrardes beleza em Buckingham Nicks, partilhai-a. Porque sozinhos não somos nada e partilhar é a única forma de existir que faz sentido.