1231,5kWh poupados 1231,5 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-74255764
i

Michael Ochs Archives

Michael Ochs Archives

Buckingham Nicks: e se este disco nunca tivesse existido?

Finalmente, está de volta a este mundo o álbum de 1973 que a dupla, então apaixonada, gravou antes de mudar os Fleetwood Mac e — convenhamos — a pop. Ouvindo bem, o que seria de nós sem estas canções?

Aqui há uns dias, chegado a casa de um jantar, abri uma mini, acendi um cigarro e dei ao dedinho num scroll noturno pelas redes sociais antes de ir nanar – quando de repente me deparei com uma publicação de uma amiga em que esta partilhava a canção Silver Springs, dos Fleetwood Mac. A minha imediata reação foi pensar: “Esta garota está com o coração partido, tenho de falar com ela”. A minha reação subsequente foi ir dormir, que a empatia é muito linda, mas descansar ainda o é mais.

É uma canção danada, Silver Springs. Nela, Stevie Nicks dirige-se a um homem por quem está apaixonada:

“You could be my silver spring
Blue green colors flashin’
I would be your only dream
Your shining autumn, ocean crashing”

Assim canta ela. Mas ele, por sua vez, está enamorado de outra moça:“And did you say that she love you”.  Stevie Nicks continua e, de repente, chega aquela frase que machuca o coração até dos mais duros: “So I’ll begin not to love you”

Ouço isto e, caraças, há algo em mim (e note-se que eu sou A Epítome Do Macho Duro e Silencioso, O Último dos Clint Eastwoods) que estremece, o coração falha uma sístole, o corpo antecipa o que vem aí, como quando a mãe dos nossos putos nos diz “Temos de conversar” e mentalmente pensamos como é que vamos sobreviver a isto. E Stevie segue: “Turn around, see me runnin'”.

E quase nos apetece dizer: “Pára, Stevie, pára agora que eu não aguento”. Mas ela não pára:

“I’ll say I loved you years ago
Tell myself you never loved me, no”

Como se isto não fosse suficiente, ela atira: “Time casts a spell on you but you won’t forget me”. E eu, confesso, apesar de ser a A Epítome Do Macho Duro e Silencioso, O Último dos Clint Eastwoods, quebro sempre.

[“Silver Springs” — os Fleetwood Mac ao vivo em 1997:]

Nem sempre foi assim – comigo e com muita gente. Nem sempre Stevie e Lindsey Buckingham, seu colega nos Fleetwood Mac e objeto da canção, nem sempre estes dois tiveram sucesso. Em 1973, por exemplo, ainda não havia Silver Springs, nem sequer Fleetwood Mac (não com estes dois, ainda com Bob Welch e Bob Weston a garantir o combustível mais próximo do rock’n’roll à banda que confiara a alma aos blues do profeta Peter Green). Mas Nicks e Buckingham já se conheciam — e já se namoravam — e fizeram um excelente disco folk chamado Buckingham Nicks que passou completamente despercebido – e que agora é finalmente reeditado, depois de ter sido redescoberto nos entrefolhos mais obscuros da net.

Artistas, discos e canções têm muitas vidas e o seu significado cultural está em constante mutação, resultado do diálogo de cada era com o passado. Durante anos, os Fleetwood Mac tiveram mau nome, até que a reedição de Rumours (em 2013) os tornou heróis de uma nova geração (os millenial, basicamente) que o levaram ao Tik Tok e o transformaram outra vez em sucesso. A minha companheira da altura apaixonou-se pelo disco, mas eu mantive-me irredutível; esse e Carrie & Lowell, de Sufjan Stevens (de 2015), eram os únicos discos acerca dos quais discordávamos por completo – algo normal, se tivermos em conta que em jogo estavam as opiniões de uma moça inteligente, culta e com bom senso e a de um burro teimoso.

A responsabilidade de eu mudar de opinião sobre os disco é de Inês Menezes: mais ou menos quando eu e a moça nos separámos, a bela da Inês andava numa fase em que passava na Rádio Radar esses dois discos com regularidade; é possível que o meu estado emocional (o equivalente àqueles farrapos que os mecânicos usam para tocar nas peças) e a ligação dos discos à pessoa de quem me acabara de separar tenham influenciado a minha mudança de opinião, mas de repente eu não conseguia ouvir aqueles discos sem ficar com lágrimas nos olhos – e não queria parar de ouvir.

[o álbum “Buckingham Nicks” está disponível na íntegra no Spotify:]

O poder da música é extraordinário: encena o seu drama e depois o público deixa-se ou não comover. Mas esse mesmo público pode um dia descartar o drama como lamechice e um dia dar por si a viver drama semelhante na sua vida e a sua relação com o drama na canção muda por completo porque o entende melhor.

Em 1973, o poder da música de Buckingham e Nicks já era extraordinário, como é passível de se provar no álbum com o nome da dupla. Por exemplo em Crying in the night, quando Stevie canta “She will leave you / Crying in the night (…) Come on, baby/ she’se the wrong kind of girl (..) She’ll take your money/ she’ll wreck your world”. Ou nessa inacreditável ode ao amor que são os sete minutos e quinze segundos de Frozen Love, uma canção em que apesar de toda a tragédia que envolve os dois amantes ele ainda assim diz: “And if you go forward (you go forward), I’ll meet you there”.

Buckingham Nicks, um extraordinário pedaço de folk-rock, veio (sabemos hoje) a tornar-se uma peça de culto na história do rock, o que faz sentido, tendo em conta que é o único álbum lançado pela dupla antes de se juntarem aos Fleetwood Mac. Não vale a pena fingir o contrário: o magnetismo que emana deve tanto à qualidade musical quanto ao mito que se construiu em torno da relação de Nicks e Buckingham, explicitamente expressa em Silver Springs, que hoje é quase um hino feminista.

Quando ouvimos uma canção como Silver Springs damos por nós a pensar nas pessoas que amámos (pais, filhos, amigos, paixões) e que saíram da nossa vida ou de cuja vida saímos e ficamos quase assoberbados ao pensar quantas vidas uma vida tem.

GettyImages-1481153047

▲ Mick Fleetwood (na bateria), com Stevie Nicks (ao centro) e Lindsey Buckingham: os Fleetwood Mac ao vivo em 1975

Mark Sullivan

A de Lindsey Buckingham começou em Palo Alto, Califórnia, em 1949. Precocemente inclinado para a música, aprendeu a tocar guitarra de ouvido, sem aulas formais. Era fã de folk e tinha um fraquinho pelo virtuosismo dos tocadores de banjo de bluegrasss (quem nunca). Talvez tenha sido isso que o levou a desenvolver a sua técnica muito própria de fingerpicking, que se tornaria reconhecível para o mundo inteiro mais tarde, em canções como Never Going Back Again e Big Love.

Na adolescência, Buckingham, como muitos outros músicos precoces, fez parte de bandas locais até que conheceu Stevie Nicks, com quem encetou uma parceria que acabou por definir o rumo da vida de ambos. Pequena trivia pop: antes de serem um duo, os dois fizeram parte de uma banda chamada Fritz, que abriu concertos para artistas como Janis Joplin e Jimi Hendrix no final dos anos 60.

Por sua vez, Stevie Nicks (nascida em 1948, no Arizona), podia nunca ter encontrado Buckingham – enquanto crescia, a família saltou de estado em estado, devido ao trabalho do pai. Havia música lá por casa: a avó introduziu-a à country e à folk, e a miúda desde cedo começou a escrever canções e poemas e desde cedo que se interessou por personagens femininas fortes e canções sobre de amor e perda.

Nicks e Buckingham conheceram-se no liceu e, obviamente, acabaram a fazer música (entre outras coisas): ele já era um exímio guitarrista e ela já tinha uma voz cheia de emoção. Um encontro fortuito e eis que foram parar a parceria que atravessou décadas. Bem cedo decidiram apostar nas suas próprias composições e foi assim que chegámos ao disco que agora homenageamos, no dia em que é reeditado. Nesta altura o modus operandi era uma combinação da habilidade instrumental de Lindsey com a voz rouca, cheia de gravitas, de Stevie.

GettyImages-183586351

▲ Stevie Nicks e Lindsey Buckingham com os Fleetwood Mac, num concerto em 2013 em Amesterdão

ANP/AFP via Getty Images

Outra trivia pop a que chamaremos Trivia Pop Truca-Truca: desde a juventude que Stevie e Lindsey tinham um romance, que começou no final da adolescência e se prolongou ao longo dos anos 70. Foi, supostamente, uma relação intensa – ao fim e ao cabo, eles não eram só namorados, também compunham, pelo que cada segundo da vida deles era passado em conjunto.

Esse amor conturbado é o cerne de uma série de canções dos Fleetwood Mac – e às vezes dou por mim a pensar como é que eles se aguentaram, mesmo já separados, a lidar um com o outro e a transformar os seus dramas pessoais em canções que, ainda por cima, tinham acolhimento universal. A química musical mantinha-se viva enquanto o amor se desfazia e quanto mais o amor se desfazia mais os seus detritos serviam de combustível para a fogueiras das canções. Que o Deus em que não acredito tenha tido toda a piedade por estes dois, porque não há-de ter sido fácil.

É um disco impressionante, este Buckingham Nicks. É-o em Crystal, em Crying in the Night e em Frozen Love, que a amiga que mencionei no início do texto (ela está bem, obrigado por se preocuparem) diz ser hoje a melhor canção de sempre. Se na altura passou despercebido de forma comercial, foi este mesmo álbum que levou Mick Fleetwood a convidar Lindsey para a sua banda— que só aceitou o contrato com a garantia de que Stevie também iria. Depois, foi a história pop rock que mudou. Agora, somos nós que podemos regressar a estas canções, com uma reedição em todos os formatos, incluindo os do streaming, que tornam a obra ainda mais global.

Sempre que escrevo um texto sobre um disco de que gosto muito, tenho esperança que alguém encontre nele a mesma beleza. E que um dia essa pessoa partilhe essa beleza com ainda outra pessoa e daí nasça uma amizade. Somos as pessoas que se atravessam na nossa vida e a beleza que encontramos no mundo. A beleza só tem sentido se for partilhada. Se encontrardes beleza em Buckingham Nicks, partilhai-a. Porque sozinhos não somos nada e partilhar é a única forma de existir que faz sentido.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.