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Henrique Gouveia e Melo ainda não anunciou a candidatura, mas já começou a apresentar o seu perfil de candidato e, mais do que isso, de Presidente. Num artigo publicado no Expresso o antigo chefe do Estado-maior da Armada desvenda um pouco sobre o que pensa, numa espécie de pré-manifesto eleitoral. Primeiro, teoriza sobre a sua própria matriz ideológica (“entre o socialismo e a social-democracia”), num piscar de olho ao “centrão”. Depois, assume-se como candidato apartidário num ataque aos seus adversários diretos (com Marques Mendes à cabeça), quando diz que “devemos querer um Presidente isento e independente de lealdades partidárias.”

O almirante ainda levanta o véu sobre a atuação como ator político em Belém, não colocando a aprovação do Orçamento do Estado como condição para manter um Executivo em funções, ao mesmo tempo que admite utilizar a “bomba atómica” se um Governo fugir ao programa eleitoral legitimado nas urnas. Seguido à letra o que diz — e no caso de eleição de Gouveia e Melo — Montenegro pode estar descansado já que este inquilino em Belém permitir-lhe-ia, se for preciso em duodécimos, levar a legislatura até 2028.

Gouveia e Melo deixa ainda críticas indiretas a Donald Trump e afasta-se da linha mais dura do Chega quando alerta para os problemas do “racismo e outras formas de discriminação”.

De esquerda ou de direita? Do centro

Henrique Gouveia e Melo opta, propositadamente, por evitar termos que o associem à direita ou à esquerda. No entanto, sabendo que PS e PSD ainda representam mais de dois terços do eleitorado, tenta seduzir o centro político ao dizer que se situa “entre o socialismo e a social-democracia” e assumindo-se como um defensor da democracia liberal. Ou seja, é apartidário, mas não anti-sistémico: não quer criar uma nova República, como Ventura, mas melhorar a que existe.

O almirante vai depois, ao de leve, a várias áreas. Defende, por exemplo, uma justiça célere, que não seja politizada e que se distancie do espetáculo mediático e de julgamentos na praça pública. Além disso, defende uma administração pública sem “boys”, que não deve “servir de suporte ou trampolim para clientelas políticas“. Ao mesmo tempo que pisca o olho ao eleitorado de PS e PSD não abdica, assim, de surfar a onda de casos como Tutti Frutti — para dizer que tudo fará para os combater.

Gouveia e Melo não vai a nenhuma área temática em profundidade (como Economia, Estado Social), mas mostra-se defensor do Mercado Livre e de uma economia mais dinâmica e mais desburocratizada. Sem a militância de uma IL, apresenta algumas nuances liberais quando diz que “o Estado não deve cair na tentação de conduzir a economia” ou quando acrescenta que é “imperioso libertar a economia”, dando o exemplo da “iniciativa privada”. Ou ainda quando defende “uma economia que valorize o risco, a criatividade, a inovação e o empreendedorismo“.

[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

As críticas a Trump, a Defesa ausente e o Estado Social pela rama

Henrique Gouveia e Melo também quase não fala de política externa, mas regista que “vivemos tempos perigosos, com atores poderosos a tentar subverter a ordem mundial em função dos seus interesses.” E alerta que não é só a Rússia que preocupa, mas também os Estados Unidos de Donald Trump. O almirante adverte que “a ameaça já não vem apenas do Leste [da Rússia de Putin]”, pois “surge agora de todas as direções, num cenário de 360 graus.” E acrescenta que “os valores fundamentais da ética republicana e das democracias liberais estão a ser postos em causa, inclusive por aliados historicamente próximos.” Aqui, claramente, numa alusão à Administração Trump.

A ideia que almirante pretende passar é que, neste contexto de incerteza global, o país precisa “mais do que nunca” de “liderança” e “capacidade de decisão”, sugerindo que o seu perfil é o que melhor encaixa na hierarquia do Estado. E, nesse mesmo perfil, parece atirar num primeiro momento a Marcelo Rebelo de Sousa quando afirma que “não basta sonhar ou recorrer a discursos elaborados, repletos de fórmulas gastas e banalidades cínicas.”

Gouveia e Melo acaba por não falar da necessidade de investimento em Defesa, nem sequer responder à acusação de Marques Mendes que sugere que quer cortar em despesas sociais. Sobre o Estado Social fala en passant para dizer que que “todos contam”, que “ninguém deve ficar para trás” e pouco mais.

Sem arriscar em campos que o pudessem levar a ser acusado de wokismo pela direita radical, adverte que “a exclusão social, o racismo e outras formas de discriminação não podem limitar o direito a uma vida digna e livre.” Gouveia e Melo parece ainda atirar a André Ventura quando diz que “sendo a democracia tolerante por natureza, [o Presidente] não deverá, em defesa própria, permitir ideias e práticas intolerantes, sob o risco de estas comprometerem a própria democracia”. Lembra ainda, com regozijo, que a “maioria dos eleitores rejeitou os extremos do espectro político.”

O apartidário com “contenção” na palavra no ataque a Mendes (e Marcelo)

Gouveia e Melo arrisca até num aconselhamento em forma de ralhete aos partidos políticos, que define como “fundamentais” para a democracia, mas para logo advertir que “é imperativo que façam uma autorreflexão profunda, para recuperarem a confiança e credibilidade junto da população.”

O almirante assume-se como o candidato apartidário (algo que nem Ventura pode reivindicar) e alerta que “transformar a Presidência num apêndice dos interesses partidários é uma ameaça à capacidade da democracia liberal de manter um sistema equilibrado e funcional”. Enquanto Marques Mendes vai puxando dos galões da experiência política, Gouveia e Melo alerta que “as pontes não se constroem sobre redes de influência, compadrios ou intrigas político-partidárias”.

Numa farpa dirigida ao candidato que será apoiado pelo PSD, sem o nomear, Gouveia e Melo defende que na “conjuntura atual, um Presidente sem a independência necessária afunila a democracia”, daí que “a bem do sistema democrático, devemos querer um Presidente isento e independente de lealdades partidárias.”

O afastamento é de Mendes, mas também do incumbente Marcelo. Gouveia e Melo explica que, na sua leitura, “um dos poderes informais mais importantes do Presidente é o poder da palavra.” Daí que sugira que, como Presidente, será mais comedido do que o atual: “Quando o Presidente fala, não é um cidadão comum, é a República. Tem a obrigação de usar a palavra seguindo as regras da relevância, isenção, equilíbrio, contenção e gravitas.”

Mesmo sem Orçamento, se cumprir promessas eleitorais Montenegro irá até 2028

Gouveia e Melo tem sido acusado de não saber lidar, por exemplo, com uma situação de crise política. Se o Orçamento para 2026 não for aprovado — o que é muito provável –, dissolve a AR após tomar posse? Pelo que revela no texto do Expresso, a resposta do almirante é claro: não. O almirante lembra que o Presidente é “o garante último da Constituição, da unidade nacional e do regime democrático”. Recorda que o chefe de Estado tem o “poder de convocar eleições antecipadas e reiniciar o sistema fora dos períodos eleitorais previstos, ou mesmo, em situações especiais, demitir o Governo.”

No entanto, faz um aviso: “Este poder [de dissolver a AR] só deve ser exercido quando existir a forte convicção que o contrato entre governados e governantes foi significativamente comprometido: por uma perda de confiança insanável do povo no Parlamento e/ou no Governo em funções; por um desfasamento grave entre os objetivos-prática do Governo e a vontade previamente sufragada pelo povo; ou por uma tentativa de usurpação de poder e subversão da Constituição, à margem da lei.”

Resumindo, o que Gouveia e Melo está a dizer é que se o Governo não cumprir as promessas eleitorais, essa pode ser uma razão para a dissolução. Na teoria, as palavras são confortáveis para Luís Montenegro. Isto porque a exigência de Belém é para que o Executivo cumpra o programa eleitoral — o que será um bom argumento para o primeiro-ministro defender as execução das ideias da AD. Além disso, não tem a pressão de ter de viabilizar orçamentos porque o almirante pensa diferente de Marcelo Rebelo de Sousa.