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Paulo Alexandre Coelho

Paulo Alexandre Coelho

Data With Purpose Summit: o presente e o futuro dos dados

Foi no passado dia 25 de junho que teve lugar a 4.ª edição do Data with Purpose Summit. No Centro de Congressos do Taguspark, os dados e a inteligência artificial estiveram no centro do debate.

Sustentabilidade, gestão urbana, competitividade económica, da soberania à guerra, da governação ao talento, passando pela arte e até pelo mar, a inteligência artificial propõe-se a transformar informação em conhecimento e, consequentemente, em decisões mais informadas e conscientes. Mas, num mundo cada vez mais complexo e em constante mudança, até onde podem os dados ajudar-nos a antecipar o futuro? Como poderemos controlar esta guerra pelo poder? E como podemos, em contrapartida, utilizá-los com vista a um bem comum? Os dados deixaram de ser só um recurso tecnológico para se transformarem num recurso central para empresas, governos e organizações. Como devemos reagir?

Foi com estas questões em mente que a 4.ª edição do Data with Purpose Summit aconteceu, no passado dia 25 de junho, no Centro de Congressos do Taguspark, em Lisboa. Organizado pela NOVA Information Management School (NOVA IMS) e pelo Município de Oeiras, o tema deste ano centrou-se nos “Data Visionaries: Imagining Tomorrow, Today” e, ao longo do dia, foi discutido em flash talks e mesas-redondas onde, responsáveis políticos, académicos, investigadores e líderes empresariais, refletiram sobre a forma como os dados e a inteligência artificial são capazes de redefinir economias e as próprias organizações. Mais do que um simples debate sobre tecnologia, o encontro transformou-se numa reflexão sobre poder, responsabilidade e a importância de cada tomada de decisão. E aqui ficou claro que os dados surgem como um ativo estratégico capaz de apoiar políticas públicas, acelerar a inovação ou responder a desafios – nacionais ou globais -, e que o seu verdadeiro valor ainda está dependente da capacidade humana de os utilizar de forma ética.

Miguel de Castro Neto, Diretor da NOVA IMS, foi o responsável por dar o pontapé de saída, aproveitando o momento para deixar uma mensagem que serviu de base para todo o evento: já lá vai o tempo em que a transformação digital podia ser encarada como uma simples evolução tecnológica. Para lá do desenvolvimento de algoritmos, do aumento da capacidade de processamento, o verdadeiro desafio está em colocar os dados ao serviço das pessoas e das decisões que transformam a sociedade. “O dia de hoje é uma visão do futuro que queremos construir. Esta capacidade de usarmos os dados para construir visões de futuro é cada vez mais importante, mas também cada vez mais desafiante. Acreditamos que este espaço é um espaço de reflexão e que o tema desta quarta edição, onde cruzamos, como já foi referido, a geopolítica, a defesa, os oceanos, as cidades, o talento, a ética, a inteligência artificial, a criatividade e a arte, são temas que podem parecer dispersos, mas todos eles estão ligados por um fio condutor: as pessoas. Todos estes temas dizem respeito a cada um de nós”, começou por dizer, deixando a ressalva: “A grande questão é a capacidade humana de fazer as perguntas certas e escolher os instrumentos certos para tomar decisões. E, portanto, os dados são o instrumento, mas as pessoas são sempre o fim. E a expectativa desta nossa edição é que saiam daqui com mais perguntas do que quando entraram”.

A geopolítica dos dados: a nova disposição do poder mundial

Convidado para inaugurar os momentos de reflexão, Paulo Portas conduziu a audiência por uma viagem geopolítica do mundo contemporâneo, mostrando como os dados e a inteligência artificial passaram a integrar a competição estratégica entre Estados. Ao longo da intervenção, o antigo Vice-Primeiro-Ministro defendeu que a tecnologia deixou de ser apenas um motor de inovação económica para assumir uma dimensão claramente geopolítica. A capacidade para controlar infraestruturas digitais ou dominar cadeias de valor tecnológicas tornou-se, hoje, um fator de influência internacional comparável aos recursos naturais ou ao poder militar. “A inteligência artificial vai ser decisiva na competição entre Estados”, sublinhou, alertando para o facto de esta corrida tecnológica estar a redesenhar os equilíbrios internacionais e a obrigar países e empresas, a repensarem a sua posição num contexto global cada vez mais competitivo. Neste contexto, defendeu que a Europa enfrenta o desafio exigente de preservar a sua autonomia estratégica, sem perder capacidade de inovação. Para o conseguir, será necessário investir em conhecimento, talento, capacidade industrial e infraestruturas tecnológicas. Mais do que discutir tecnologia, Paulo Portas procurou mostrar como a inteligência artificial se tornou numa nova linguagem de poder.

“Há duas coisas que não mudam quando tudo muda à nossa volta: História e Geografia. Tudo o resto mudará. E, hoje, o território da guerra é a cloud. A questão essencial não é um mundo sem IA ou um mundo com IA, até porque o mundo não vai ficar sem IA. Não se para a inovação com as mãos, mas temos que pensar na questão da Inteligência Artificial no conflito"
Paulo Portas

Na primeira mesa-redonda do dia, que contou com a participação de Miguel Bessa Pacheco, Comandante da Escola Naval e Contra-almirante da Marinha Portuguesa; Mónica Dias, Diretora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa; e Germano Almeida, Comentador Político no canal NOW e Colunista da revista Sábado,a questão deixou de ser quem controla a tecnologia e passou a ser a forma como os dados são utilizados para influenciar sociedades e moldar conflitos. “Os dados da guerra e a guerra dos dados” foi o tema que guiou toda a conversa e que deixou claro que os conflitos de hoje são travados em vários domínios, com a informação a assumir um papel tão decisivo quanto os meios convencionais. A desinformação, a manipulação de conteúdos, os ataques cibernéticos e a utilização estratégica dos dados passaram a integrar aquilo que os especialistas apelidam de guerra híbrida. E, ao longo da conversa, tornou-se evidente que o verdadeiro campo de batalha deixou de ser exclusivamente físico e que hoje se disputa também no espaço digital, com plataformas e redes sociais a influenciar, de forma diária, a forma como sociedades constroem as suas perceções da realidade e, onde, a própria informação se transforma numa arma. Mais do que nunca, é urgente um pensamento crítico e uma mente humana capaz de questionar, interpretar e validar informação. Se é verdade que os dados representam um enorme instrumento de poder, é igualmente verdade que a forma como decidimos utilizá-los é o que determina o seu verdadeiro impacto.

“Os dados da guerra sempre existiram, mas, hoje, a velocidade com que chegam aos decisores é estonteante. Quem decide primeiro, ganha vantagem"
Miguel Bessa Pacheco

O que nos dizem os dados sobre o oceano

A 2.ª mesa-redonda do dia teve como foco o tema “Oceano e dados: um ativo por explorar”. Com as intervenções de Pedro Patacho, Vereador da Câmara Municipal de Oeiras, Helena Vieira, Investigadora Coordenadora em Bioeconomia do Oceano da Universidade de Aveiro, e Leonardo Vanneschi, Professor Catedrático na NOVA IMS e Co-coordenador do NOVA Oeiras Ocean Analytics Lab, abordou temas como:

  • De que forma a ciência de dados pode contribuir para o desenvolvimento da chamada economia azul;
  • O elevado nível de produção científica nacional vs a dificuldade que ainda persiste em transformá-la em inovação económica e impacto real na sociedade. E, aqui, Helena Vieira sublinhou que os dados recolhidos sobre o oceano só adquirem verdadeiro valor quando conseguem ajudar no apoio a decisões, na orientação de políticas públicas e na geração de benefício concretos, nos campos da economia e da sustentabilidade;
  • A quantidade de dados disponíveis vs a sua qualidade, com Leonardo Vanneschi a sublinhar que o verdadeiro desafio passa pela sua diversidade. Com base nesta ideia, reforçou como o oceano constitui um dos ambientes mais ricos para o desenvolvimento de soluções baseadas em IA, através do cruzamento de informação ambiental, económica, biológica e social, desde a monitorização da biodiversidade até à prevenção de fenómenos extremos;
  • Já Pedro Patacho foi o responsável por trazer para o centro da conversa a realidade de Oeiras, através da apresentação da Parque Cidades do Tejo, com o Ocean Campus e outros projetos do município que têm em vista aproximar universidades, empresas e administração pública. Muito para além de novos investimentos, o autarca defendeu uma nova forma de trabalhar, assente na partilha de informação entre instituições, e na utilização integrada dos dados para fomentar decisões mais eficazes.

Os dados que transformam cidades

Depois do Oceano, foi altura de pousar os pés em terra, numa conversa que se focou em “Oeiras 2030: Um Modelo de Governação Inteligente”. Com a moderação de Paulo Ferreira, host do Observador, e os oradores Francisco Rocha Gonçalves, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Mara Duarte, Presidente da Parques Tejo, Paulo David Correia, Tech Director na área de AI & Data da Deloitte, e Pedro Simões Coelho, Professor Catedrático na NOVA IMS e Co-coordenador do NOVA Data-Driven Public Policies Lab, foi possível perceber como os dados podem transformar a forma como se governa um território e que o que faz de uma city “smart” é a sua capacidade de utilizar os dados em prol do bem-estar e da melhoria de vida dos seus cidadãos. Mais do que defender uma administração pública tecnológica, o Vice-Presidente da Câmara Municipal de Oeiras defendeu que os dados devem funcionar como instrumentos de apoio à decisão política. Para Francisco Rocha Gonçalves, a tecnologia pode apoiar decisões, mas não elimina a responsabilidade humana. Perspetiva complementada por Mara Duarte, que apresentou exemplos concretos da utilização de dados na gestão da mobilidade, do estacionamento e dos serviços urbanos em Oeiras. Mais do que indicadores ou plataformas digitais, o que está em causa é a capacidade de adaptar políticas públicas em função da informação recolhida diariamente. Também Paulo David Correia reforçou que a inteligência artificial deve ser encarada como um instrumento de apoio ao decisor e não como um mecanismo destinado a substituir quem governa.

“Os dados são apenas os ingredientes. O verdadeiro desafio continua a ser saber combiná-los para responder às perguntas certas”
Pedro Simões Coelho

Mais intervenções

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Para além das várias mesas-redondas, o Data With Purpose Summit contou com intervenções de vários especialistas, que se focaram nos mais diferentes tópicos, relacionados com a temática do dia. Foram eles:

  • “A Nova Arquitetura do Poder: Integrar, Decidir, Agir”, com Ana Miguel dos Santos, Head of Defense, Security & Justice at Deloitte;
  • “Inteligência Artificial e Creative Data Trees na Arte, Arquitetura e Design”, com Le_Brimet, Fundador e Director Criativo da SPECTROOM;
  • “The Framework and the foresight: AI that keeps people in”, com Samuel Fernandes, CTO da WY Performance;
  • “Centros Inteligentes, Cidades Vibrantes”, com Beto Marcelino, CEO da iCities;
  • “Talento e Competências na Economia da IA”, com Carla Calisto, Chief People Officer da Start Campus, e Ivo Bernardo, CEO da DareData;
  • “IA, Confiança e Supervisão Humana”, Sergiy Barbashyn, Presidente da International Association for AI Ethics and Integrity;
  • “Dados com Intenções Artísticas”, com Inês Baptista da Câmara, CEO da Studio Astolfi – Luxury & Arts Advisory.

E por fim… o futuro

Como podem, então, as empresas preparar-se para os tempos que se avizinham? Deverão antecipar ou reagir? Para responder a estas perguntas, Paulo Ferreira voltou a assumir o lugar de moderação, com a ajuda de Nuno Saramago, CEO da SAP Portugal, Eduardo Baptista Correia, CEO do Taguspark, Mourad Abboubakr, Presidente da Novartis Portugal, e André Grilo, CEO da QuantumNova Cybersecurity. As respostas variaram consoante a experiência de cada participante, mas acabaram por convergir numa conclusão: a inteligência artificial não eliminará a importância das pessoas. Pelo contrário, surge para as incentivar a desenvolver novas competências. No fundo, cimentou-se uma ideia que vinha já a ser criada ao longo de todo o dia – o futuro das organizações não depende apenas da tecnologia que estas utilizam, mas sim da forma como conseguem integrá-la de forma ética e responsável. Tudo isto, sempre de olhos postos no fator mais importante: as pessoas.

Paulo Alexandre Coelho

Brian Klaas, Professor de Política Global da University College London e Investigador Associado da Universidade de Oxford, foi o último orador a subir a palco, pronto a lançar a pergunta que iria guiar toda a apresentação: “O problema fundamental que enfrentamos, quando pensamos em dados, é: como é que sabemos que os padrões do passado nos poderão dizer algo útil sobre o futuro?”. De acordo com a Teoria do Caos, e ao longo de cerca de 20 minutos, apoiou-se em episódios históricos, pessoais e exemplos desta teoria para demonstrar como pequenos acontecimentos são capazes de desencadear consequências completamente imprevisíveis. Como, por exemplo, a decisão de Henry Stimson de retirar Quioto da lista de alvos da bomba atómica, por se tratar de um destino de férias onde, um ano antes, tinha estado com a mulher, ou a nuvem que desviou o segundo bombardeamento de Kokura para Nagasaki. No fundo, acontecimentos que à primeira vista podem parecer “insignificantes”, mas que, no grande esquema das coisas, foram suficientes para alterar o percurso de gerações inteiras. No fundo, o objetivo foi mostrar que a realidade é muito mais suscetível ao acaso do que aquilo que pode aparentar e que “nós não controlamos nada, mas influenciamos tudo”, acrescentou, reforçando que mais do que querer controlar o futuro, devemos aprender a navegar no caos e na incerteza.

A par com tudo isto, Brian Klaas fez também uma reflexão sobre a realidade das empresas e das organizações, apontando que, nos dias de hoje, se vive cada vez mais focado na eficiência. Os objetivos passam por cadeias logísticas perfeitas, organizações 100% otimizadas e modelos cada vez mais precisos. Aqui, e para o orador, o problema reside na fragilidade que sistemas demasiado eficientes tendem a demonstrar. Através do exemplo do bloqueio do Canal de Suez, em 2021, demonstrou como um sistema que não está preparado para o inesperado é capaz de ruir, graças a um único incidente. “Ao invés de nos concentrarmos apenas na otimização, devemos apostar mais em resiliência. Precisamos de levar o caos a sério, de o respeitar, de o valorizar e não cair na arrogância de achar que os dados vão resolver tudo. Não vão”, palavras de Brian Klaas, que termina a sua intervenção com uma única certeza: o melhor é assumir que não existem certezas. Em vez de procurar eliminar toda a incerteza, empresas, governos e organizações devem preparar-se para responder rapidamente quando ela inevitavelmente surgir. “Este é um mundo incrivelmente complexo. Não sabemos como é que as coisas vão evoluir no próximo ano, ninguém sabe. Independentemente dos dados de que dispomos, não sabemos. Por isso, quando refletimos sobre como lidar com esta incerteza, é preciso recompensar as pessoas que são honestas a este respeito e que nos dizem que não sabem. Porque, quando não se sabe, tem-se um pouco mais de cautela ao lidar com o futuro”, remata.

Dean’s Open Innovation Challenge

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Perto do final do evento, sobrou ainda tempo para a entrega de Prémios do Dean’s Open Innovation Challenge. Promovendo a colaboração, experimentação e desenvolvimento de projetos orientados por dados, a edição de 2026 convidou os participantes a serem Data Visionaries, utilizando dados e Inteligência Artificial para antecipar o que nos poderá trazer o futuro, em termos de riscos, necessidades, oportunidades ou mudanças em curso. As três soluções que tiveram lugar no Pitch Final foram:

  • Assembleia Watch: uma plataforma de transparência parlamentar que torna a informação legislativa mais acessível, compreensível e útil para os cidadãos;
  • Shadoo: uma solução de navegação urbana orientada para o bem-estar, que propõe rotas pedonais mais seguras em contextos de calor extremo;
  • SARA: um sistema digital de apoio pós-diagnóstico que ajuda famílias e cuidadores a gerir jornadas de cuidados de forma mais estruturada, especialmente em casos de doenças neurodegenerativas.

Guilherme Victorino, Subdiretor da NOVA IMS para a área de “Criação de Valor”, Miguel de Castro Neto e Pedro Patacho foram os responsáveis pela entrega dos prémios, que se distribuíram da seguinte forma: o projeto Shadoo em 3.º lugar, SARA em 2.º lugar e Assembleia Watch a ocupar o 1.º.

Prémios entregues e agradecimentos feitos, coube a Pedro Patacho encerrar esta 4.ª edição, deixando no ar uma mensagem de esperança. Segundo o autarca, o verdadeiro desafio consiste em garantir que esta transformação continua a ser conduzida pelas pessoas, preservando os valores democráticos, a liberdade e a capacidade de decidir. “Mais importante do que os dados, per si, é o conhecimento, aquilo que conseguimos fazer com eles e a forma como nos podem ajudar a fundamentar as nossas decisões”, rematou.

Num mundo onde a Inteligência Artificial surge como uma ferramenta de futuro, torna-se óbvio que o maior desafio continua a ser empiricamente humano. Não se trata apenas de recolher dados. É preciso, mais do que nunca, saber o que fazer com eles.

Se não conseguiu estar presente nesta edição, saiba que ainda vai a tempo de conhecer ao pormenor tudo o que dela fez parte. Assista à parte da manhã, aqui, e à parte da tarde, aqui. Venha fazer parte do futuro, olhando para o presente! Acompanhe todos os conteúdos do evento nesta página.

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