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Hip-Hop: elas estão a mudar as regras deste jogo de meninos

Joana Pacheco, Máry M, Muleca XIII, redoma, Tsuki e Vanessa Parish Crooks: falámos com seis vozes emergentes do rap feminino português para entender como é que elas estão a escrever um novo capítulo.

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1994 foi um ano histórico para o hip-hop nacional. O motivo? O lançamento de Rapública, o primeiro registo discográfico do género a ser gravado em Portugal. Reunindo nomes como Funky D, Boss AC ou Black Company, o álbum assumia-se como um trabalho agregador dos artistas e coletivos que, de forma exploratória, começaram a desbravar o caminho do hip-hop tuga. Porém, como em tudo na História, há tanto de incluso como de omisso em Rapública, desde logo as vozes femininas. Vozes como, por exemplo, as MCs do coletivo Divine ou as Djamal, o primeiro grupo de mulheres a lançar um álbum de rap em Portugal (Abram Espaço, 1997), que se formaram precisamente no ano de 1994.

Desde a sua fase embrionária, em que a cultura hip-hop se implementou nos bairros periféricos dos principais centros urbanos, até ao momento atual, com o movimento a crescer em fãs, praticantes, geografias e até em espetros sonoros, que vão do jazz à música eletrónica, as mulheres viram subvalorizadas as suas narrativas. Soraia Simões de Andrade, no livro Fixar o (in)visível: Os primeiros passos do RAP em Portugal (1986-1998), dá nota disso mesmo: assuntos de “violência com base no género e o sexismo”, relatados nos discursos das primeiras rappers portuguesas, foram praticamente excluídos do cânon que se veio a instalar.

Pese embora a globalização e a democratização, o rap continua a ser um meio muito masculinizado. Um “boy’s club” ou, se preferirmos, um “balneário onde a menina não entra”, como explicaram Capicua e Chong Kwong ao jornalista Ricardo Farinha, em Preconceito, obstáculos e resiliência: qual é a experiência das mulheres no rap português?. As críticas apontadas por pioneiras como Djamal, Telma Tvon, Denise, Dama Bete e Capicua, encontram ressonância nas críticas enumeradas pelas artistas que estão hoje a dar os primeiros passos: comentários condescendentes, abordagens de produtores com segundas intenções, dificuldade em entrar nos circuitos artísticos e encontrar espaços seguros para gravar e apresentar trabalho são algumas das barreiras que Joana Pacheco, Máry M, Muleca XIII, redoma, Tsuki e Vanessa Parish Crooks afirmaram ter tido de enfrentar.

Isso nunca impediu, contudo, que as mulheres ao longo dos anos se enchessem de força, beats e rimas para fazer frente ao status dominante. Muitas das estratégias adotadas passaram pela formação de grupos que funcionavam tanto como um ponto de encontro como um lugar de profissionalização. As Hip Hop Ladies, o fórum criado em 2000 por Dama Bete e que posteriormente deu origem a eventos em salas e clubes, foi talvez a primeira grande manifestação desta coletivização. Já em 2017, Capicua começou a organizar no Porto e em Lisboa os encontros Conselhos da Tribo, para que jovens artistas se pudessem conhecer, tirar dúvidas e trocar contactos. Nesse mesmo ano, o Hellas, idealizado por Denise, lançava a sua mixtape. Em 2022, este projeto que pretende dar visibilidade e ferramentas de criação a rappers emergentes, apresentou uma compilação de 19 faixas inéditas, com a participação de, entre outras, Shiva, Peki, Nemesy, Landisch, Lady S, Lady N, Kika G, Chininha, Chikita, BLvck P, ADN e Eve II.

Mais recentemente, foi o She Raps a dar um passo importante neste trajeto de empoderamento do hip-hop feito por mulheres. O projeto, que teve origem em França, em 2021, chegou este ano a Portugal e abrangeu 10 rappers portuguesas que, durante duas semanas, tiveram aulas na academia Skoola sobre aspetos tão distintos como técnicas de voz e de escrita, produção, comunicação, postura em palco ou dicas sobre como lidar com editoras, técnicos, empresários e agentes do meio musical. Vanessa Parish Crooks, Máry M e Tsuki foram as três finalistas, que em fevereiro vão participar numa residência artística na Croácia. Daí seguem para uma digressão por vários festivais e palcos europeus com as eleitas das outras edições nacionais do She Raps.

Como canta Tsuki, a mudança neste jogo de meninos já está a acontecer. Quanto maior o conhecimento e a autonomia de criação e quantas mais referências femininas surgirem no hip-hop, mais a diversidade se tornará uma inevitabilidade. Venha daí a RAPvolução.

Somos a raça e a batida dentro duma revolução
E a cada voz que é oprimida, damos mais uma saída
Damos mais uma canção
Somos mulheres, somos as filhas de uma sina
Que rasgam essa cantiga de viver numa opressão”

(Nossa Arte, Eve II, Hellas, 2022)

Joana Pacheco

Quebrar as regras, com beleza

Ela chega exaurida à cantina da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE), no Porto. A semana tem sido exigente para Joana Pacheco, com a entrega da tese de mestrado a queimar-lhe as pestanas. “Estou a fazer mestrado em Ensino de Música, vertente canto”, diz a estudante de 26 anos, com um montão de pautas debaixo do braço.

No sotaque, nota-se-lhe a insularidade, mas não é só na fala que Joana carrega os Açores. “O sotaque é uma pequena coisa do universo de se ser açoriano”, diz esta terceirense, lembrando Vitorino Nemésio e o seu ensaio sobre a açorianidade.

▲ Escreveu a primeira letra aos 22 anos e lançou, com a ajuda do irmão, o tema "Síndrome do Impostor" (2022). A primeira versão foi gravada como um rap, “mas tive medo de a assumir assim”

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

Da Ilha, sente falta do sentimento de comunidade. Ainda assim, no Porto encontrou alguma familiaridade com a sua terra natal, no trato das pessoas e no clima. Não só por isso preferiu rumar à Invicta, em detrimento da Capital, como pelo tipo de ensino mais clássico que a ESMAE propunha, em relação à Escola Superior de Música de Lisboa (ESML). “Queria perceber as regras para depois as quebrar”.

Levar a vida com beleza

Quebrar regras é o prato do dia para Joana Pacheco. Aos 9 anos, no festival de música infantil do município da Praia da Vitória, de onde é natural, disse que queria ser cantora quando fosse grande. Os pais, embora alimentassem o gosto de Joana pela música – ela que estudou canto erudito e enverga desde os 10 anos a farda da Filarmónica União Praiense – quiseram que ela seguisse outro rumo. No secundário, inscreveu-se em Línguas e Humanidades: “Se tivesse continuado, ia ser administrativa ou algo do género. Não ia ser feliz”.

O linfoma que lhe apareceu entre o pulmão e o coração aos 18 anos não só lhe deu coragem para repetir o secundário em música, como lhe mudou a vida “para sempre”: “Foi um pesadelo que me esteve quase a matar, mas que me acordou e me deu vida”. A partir daquele momento, Joana não ia fazer mais fretes. A vida, diz, tem de ser levada com beleza.

Renascida, escreveu a primeira letra aos 22 anos e lançou, com a ajuda do irmão Rui Pacheco (músico autodidata e companheiro de sempre), o tema Síndrome do Impostor (2022). A primeira versão, conta, foi gravada como um rap, “mas tive medo de a assumir assim”. Acabou por ser transformada numa canção entre a pop e o R&B e, embora Joana se orgulhe dela, riscou em definitivo do seu vocabulário a palavra medo.

Tudo para vencer

A partir daquele momento, a batida ditaria o rumo das suas composições. Se fosse a pop a chamá-la, com um solo de guitarra eighties, como em Inverno (2022), ela abraçaria esse chamamento; se fosse o hip-hop clássico, piscando o olho a Boss AC, como na seguríssima Prefácio, ela seguraria as rimas sem se engasgar:

Não sei quem sou mas sei quem quero ser
Sou quem não arreda pé com o mundo a estremecer
Tenho os meus comigo pro que der e vier
Nada mais preciso, tenho tudo pra vencer”

“Quando era mais nova, tinha aulas de clássica e depois ia cantar rock em bares para fazer dinheiro. Depois fui para a ESMAE fazer jazz, que em certos aspetos faz uma ponte com o hip hop. Portanto, não vou ser inteiramente feliz se fizer apenas um género musical”. O mais sábio, defende, é seguir o coração sem receio de tropeçar.

Foi o coração que a levou a estar numa apresentação exclusiva do tema Aleluia de Jimmy P, em Lisboa. “Tinha montes de merdas para dizer ao homem, mas só consegui chorar”, recorda, com uma lágrima a ameaçar a conversa.

Joana Pacheco

"Um pesadelo que me acordou"

O linfoma que lhe apareceu entre o pulmão e o coração aos 18 anos não só lhe deu coragem para repetir o secundário em música, como lhe mudou a vida “para sempre”: “Foi um pesadelo que me esteve quase a matar, mas que me acordou e me deu vida”. “Não acredito que não haja mais mulheres rappers. Elas não têm é acesso ao mesmo destaque que os homens. A informação não passa. Há muitos muros e limites”, diz.

Jimmy P não ficou indiferente a Joana. Pouco tempo depois, começou a seguir o seu trabalho e fez-lhe uma surpresa: apareceu com a sua equipa de produção à porta de casa de Joana, com um girassol na mão, convidando-a para atuar a seu lado no concerto Natal Urbano, na Casa da Música. “Claro que voltei a chorar”, ri-se, desta feita.

Já em 2024, a açoriana concorreu a uma Open Call do Festival Tremor, para uma Residência Artística com Sam The Kid e com a Escola de Música de Rabo de Peixe. “Concorri com toda a certeza que não ia entrar”. Felizmente, errou no prognóstico.

Joana foi a única mulher a participar na residência e, ao distanciamento inicial que os colegas lhe dedicaram, seguiu-se a conquista do seu lugar e do respeito dos pares. Participou no tema Quase Lá, de NTK, apresentado nessa edição do Tremor, e colaborou com Outsidah numa faixa que será incluída no próximo álbum do rapper de São Miguel.

“Não acredito que não haja mais mulheres rappers. Elas não têm é acesso ao mesmo destaque que os homens. A informação não passa. Há muitos muros e limites”. Para os quebrar, Joana Pacheco continuará a emprestar a sua voz, seja em que registo for. Já que “no final do dia todos vamos morrer e vamos”, então que morramos a derrubar barreiras, com lágrimas de felicidade a escorrer pelo rosto.

Máry M

Está para nascer quem a pare

Serpenteando as exíguas estradas de Calhandriz, rodeados por oliveiras e muito verde, quase nos esquecíamos do quão perto estávamos de Lisboa, não fosse um viaduto a rasgar autoritário a paisagem. Por trás deste corpo de betão, vemos Máry M a acenar-nos de casa.

“Cresci em Alverca, mas depois os meus pais quiseram-se mudar para o campo e viemos para aqui”, conta, enquanto nos guia, escada abaixo, até ao seu estúdio particular. Num canto, uma bateria, no outro, um microfone. A secretária, com o computador, fica ao centro e ao fundo, qual retábulo, um quadro aludindo ao disco Madrepérola, de Capicua. “É aqui que eu gravo”.

Ter um estúdio em casa, mais do que um luxo, foi uma necessidade. “Tem a ver com o facto de ser mulher no rap. Para nós, é difícil ir para um espaço que não conhecemos, ainda por cima, para um espaço de homens”, diz a rapper de 28 anos, falando de gestos de condescendência e convites com segundas intenções que são recorrentes no início de carreira de uma mulher.

Uma luz chamada Capicua

O universo rap tem os seus pontos “intimidantes”, prossegue: “É preciso ver que o rap é um meio muito machista. É difícil encontrar homens que tenham uma atitude profissional contigo, porque muitos não sabem lidar com uma mulher. Isso nota-se muito nos camarins, pelo tipo de conversas e de linguagem, e põe-nos em situações desconfortáveis”.

Contudo, Máry M, não gosta de entrar em generalizações, até porque foi um amigo que a expôs ao rap, quando tinha 14 anos. Graças ao David, colega de turma, Mariana fez-se curiosa às rimas de Sam The Kid, Dealema, Reflect ou Valete: “Passava-me tudo pelas mãos”.

▲ Depois de ter participado numa Batalha do Conhecimento organizada por Valete e de ter integrado a compilação Hellas, Mariana foi uma das três finalistas do She Raps Portugal

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Quantos mais CDs ia colecionando, mais fascinada ficava com o hip-hop. Mas foi só quando o álbum homónimo de Capicua (2012) lhe chegou aos ouvidos que tudo mudou: “Foi uma luz que se acendeu. Não gosto muito de utilizar a palavra ‘ídola’, mas de facto foi isso que ela foi para mim. Ainda hoje é a minha maior referência”.

Pela primeira vez, Máry M sentiu que havia alguém a escrever as suas lutas, de uma perspetiva feminina e feminista. Percebeu, no fundo, que as regras do rap “masculinizado” podiam e deviam ser contestadas e que valia a pena levar a sua paixão pelo hip-hop a outro nível.

Bandeiras de todas as cores

O primeiro EP surgiu em 2018. Momento Certo é um registo autobiográfico a apalpar terreno para algo maior, que se viria a consubstanciar com o LP Incidência (2022): 11 faixas com uma precisão e leitura social tremendas, capazes de abalar qualquer crença de betão.

Versos como “Avisa pra eles que eu no rap ainda estou a aquecer os motores / Tu és só red flags, as bandeiras que eu trago são de todas as cores” (Cinturão de Vénus) ou “Os teus artistas favoritos / São machistas, homofóbicos / Acham-se homens / São só rappers comuns” (Iridescência) são claros nos valores que Máry M carrega: os das lutas feminista e LGBT+.

Nesta “reflexão crítica” em que mergulhou, e à qual a formação em sociologia não é de todo dissociável, embatemos de frente em denúncias de abusos, como o da faixa Miragem, na qual descreve uma violação (o tema mais difícil de digerir do disco); ou em relatos de emancipação, como em Rainbow: “Mostraram que era ingenuidade pensar que posso ser eu de verdade / Eu que sofria por fugir à normalidade / De quem é que eu sou propriedade?”.

Ainda que extremamente maduro, Incidência, que tem samples de Lena D’Água ou de discursos da ativista feminista e fundadora da UMAR, Manuela Tavares, é obra-manifesto, mas não é obra acabada, muito menos mater, até porque o rap de Máry M evoluiu muito desde aí. O funaná, a pop, o trap, o funk e muitos outros sabores começaram a povoar o seu som, como se percebe pelos singles Salto, Pelo sim pelo não ou o mais recente Anti-stress. “As minhas músicas são o resultado do momento em que estou”.

Máry a.k.a la fucking diosa M

"De quem é que eu sou propriedade?"

“Se dúvidas houvesse, o She Raps provou que é importante haver mais mulheres a viverem da música para serem referências para outras jovens”. Mesmo não vivendo exclusivamente da música, Máry a.k.a la fucking diosa M tem tudo para se tornar ela própria numa referência. “Está p’ra nascer quem me pare ou inquiete.”

O momento de agora é de muita luz para ela: depois de ter participado numa Batalha do Conhecimento organizada por Valete e de ter integrado a compilação Hellas, Mariana foi uma das três finalistas do She Raps Portugal, iniciativa que a vai levar em fevereiro à Croácia.

“Se dúvidas houvesse, o She Raps provou que é importante haver mais mulheres a viverem da música para serem referências para outras jovens”. Mesmo não vivendo exclusivamente da música, Máry a.k.a la fucking diosa M tem tudo para se tornar ela própria numa referência. “Está p’ra nascer quem me pare ou inquiete.” Pelo sim, pelo não, não devemos tomar estas palavras como levianas. Um novo álbum está aí a caminho e ela não tem intenções de baixar a parada.

Muleca XIII

Na escola ou na rua, veste-se de hip-hop dos pés à cabeça

Samantha escolheu sempre o que “não era suposto uma menina escolher”. “Lembro-me de ir com 10 anos para o recreio, cantando rap, e de uma amiga me dizer, isso é coisa de homem”, conta, sentada numa esplanada em Alfama, perto de casa. Talvez por isso, o avô lhe tenha dado a alcunha de Muleca.

A “menina bagunceira”, nascida no Rio de Janeiro, teve o primeiro encontro com a cultura hip-hop aos 9 anos, através de um álbum do grupo brasileiro Planet Hemp que o irmão lhe passara para as mãos. “Quem ouve rap com essa idade, não tem como não ficar intrigada.” De tal forma Samantha ficou vidrada no hip-hop, que acabou por lhe provar todas as manifestações: do skate às rimas, passando pelo breakdance e pelo graffiti, não houve meio onde não tivesse deixado a sua impressão.

Porém, é na escrita e no graffiti que a assinatura Muleca XIII se fez referência, seja nas favelas do Rio de Janeiro ou nas paredes da Cova da Moura, em salas de aula da Bahia ou de Lisboa. A sua prática é a de rua, a sua formação empírica e o seu pensamento é sempre coletivo. “Identifico-me muito com o hip-hop como plano educacional.”

Um ser livre, entre o Rio, a Bahia e Lisboa

A entrada a sério de Muleca XIII no universo hip-hop deu-se com 18 anos, quando se inscreveu no curso de audiovisual da Central Única das Favelas (CUFA), organização fundada em 1999 na favela Cidade de Deus.

Foi nessa altura que se juntou ao coletivo de artistas Comando S.E.L.V.A — cuja sigla significa Segue na Estrada Livre e Voa Anonimamente — e que começou a fazer valer o seu graffiti e o seu rap nos circuitos cariocas. “Senti-me cada vez mais à vontade em rimar em qualquer evento.” A sua praia eram as rodas de rima, em especial as Batalhas do Conhecimento, centradas num tema específico.

▲ É na escrita e no graffiti que a assinatura Muleca XIII se fez referência, seja nas favelas do Rio de Janeiro ou nas paredes da Cova da Moura, em salas de aula da Bahia ou de Lisboa

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Cansada do Rio, resolveu mudar-se para a Bahia, terra-natal do avô, onde deu aulas de graffiti numa Escola Pública, para combater o abandono escolar. “Para mim, o hip-hop é uma mensagem de transformação dentro de uma comunidade. É uma motivação para quem não tem acesso à cultura encontrar uma porta de entrada.”

A vida de Muleca XIII daria uma nova cambalhota em 2014. Um apartamento em Lisboa, comprado pelo irmão, foi quanto bastou para ela fazer as malas e voar. O ambiente do hip-hop que encontrou quando chegou era “muito mais fechado” do que o do Rio de Janeiro. “Aqui, por exemplo, os artistas só lançam uma coisa cá para fora quando o som está gravado. Lá, no Rio, a essência era mais amadora.”

Quando se pôs a rimar à porta das festas no Cais do Sodré, ao jeito freestyle que tão bem domina, chamou naturalmente a atenção de muitos olhares. Muleca XIII não se lembra se foi numa dessas ocasiões que conheceu Sam The Kid ou no apartamento onde estavam alojados os ConeCrewDiretoria, aquando da vinda do grupo brasileiro ao Music Box. O que ela sabe é que nesse mesmo apartamento “rolou uma rima descontraída” e a primeira troca de palavras a sério com o MC de Chelas: “Conheci o Sam fazendo freestyle”.

É Sam The Kid que a desafia a gravar um tema para a compilação Mechelas (2018) e é daí que sai Arrisca. Antes, já Muleca XIII tinha vencido um Concurso de Rap na ETIC, ao mesmo tempo que andava pela mão do artista NOMEN, pioneiro do graffiti em Portugal, a dar uma nova cor às paredes da capital, e com os MC Papo Reto e Zuka a organizar sessões de rimas no Groove Bar, no Bairro Alto.

Mulheres do rap são foda – então porquê a invisibilidade?

O que se seguiu a isso foi muito orgânico, como em tudo na vida desta carioca de 37 anos. Juntou-se à equipa do concurso de rimas Red Bull FrancaMente, como jurada e, à boleia disso, foi convidada em 2023 pela editora Faded a participar no projeto Guerrila Girls, um supergrupo feminino formado por Cíntia, Carla Prata, Eva RapDiva, Blaya, Tvon, DJ Allexia e a própria Muleca XIII.

“No movimento da Red Bull identificou-se uma ausência de mulheres. As mulheres no rap são mesmo foda e ninguém entendia o porquê de tamanha invisibilidade. Havia que reverter o jogo e é nesse turbilhão que surge o Guerrilla”, conta. Uma das suas grandes causas é precisamente essa: abrir espaço e dar ferramentas às mulheres para se apresentarem e se sentirem mais seguras em ambientes tradicionalmente hostis.

Muleca XIII

"'Tá no muro o meu graffiti"

“Quando estamos num ambiente em que só há técnicos, produtores, instrumentistas, DJs e donos de espaços homens, é natural que as mulheres se sintam deslocadas.” A mudança, considera, já se está a fazer sentir, até de um ponto de vista pessoal. “O facto de terem surgido nos últimos anos mais mulheres produtoras, fez com que eu fosse convidada para mais eventos.”

“Quando estamos num ambiente em que só há técnicos, produtores, instrumentistas, DJs e donos de espaços homens, é natural que as mulheres se sintam deslocadas.” A mudança, considera, já se está a fazer sentir, até de um ponto de vista pessoal. “O facto de terem surgido nos últimos anos mais mulheres produtoras, fez com que eu fosse convidada para mais eventos.”

Isso, por si só, augura coisas boas para 2025, ano em que Muleca XIII planeia lançar dois álbuns, um com beatmakers e outro com banda. À parte isso, seja no projeto Hellas, na Skoola, onde dá formação, ou nos coletivos de norte a sul em que milita, ela não tem intenções de parar. Como canta em Vira-Lata:

Me mandaram ficar quietinha
Ir me divertir na cozinha
Lavar uma louça, a roupa, um chão,
Esquentar no fogão e esfriar na pia
Dou o meu rolé de skate
E tô vivendo o que eu queria
Tá no muro o meu graffiti
E o meu RAP é o que me guia!”

redoma

Incongruentes e sem critério

Carolina Viana abre-nos a porta, “sejam bem-vindos”. Estamos no estúdio das redoma, que, em si mesmo, é uma redoma escondida numa vetusta moradia da zona do Bonfim. À memória vem-nos logo a letra de Capicua, sobre um Porto que está sempre na fronteira entre a cidade e a vila (Circunvalação). Cheira a terra molhada e a alcatrão da VCI, frenética lá ao fundo.

Joana Rodrigues, a outra metade da romã desta dupla portuense, espera-nos no sofá, lugar onde uma linguagem que não é bem rap, nem é bem trip-hop, nem é bem eletrónica experimental, mas que, ao mesmo tempo, é tudo isso, foi sendo afinada desde a pandemia.

De tão mutáveis são os beats e as rimas das redoma, trabalhadas com a introspeção de um dia chuvoso, que defini-las é tarefa difícil. O EP parte, lançado em 2022, fala por si: uma coleção de seis faixas, onde as palavras se misturam numa sonoridade líquida, como se a música delas fosse impossível de agarrar, porém, ágil a entranhar-se na pele. “Eu estou toda aqui e agora / E se não for mais nada, já me bastei” (Esventrada pt1).

Que se fodam as rimas

Colegas do tempo em que estudaram na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE) e ambas filhas do inverno e com 28 anos feitos, Carolina e Joana nunca pensaram em compor juntas, até que a pandemia as mandou para casa e a troca de ideias começou a fluir. Carolina, que também assina o projeto MALVA, é a voz e a esferográfica da dupla. Joana, a aranha laboriosa da produção.

▲ “Quando isto começou, não havia vontade de levantar nenhuma bandeira”, conta Joana, explicando que tudo o que elas pretendiam era materializar uma conquista pessoal “independentemente do nosso género"

IGOR MARTINS / OBSERVADOR

“Éramos muito amigas na altura. Comecei a fazer instrumentais e a enviar à Carolina”, recorda Joana, que deixou de lado uma formação de oito anos em guitarra clássica para abraçar as ferramentas de produção. Carolina, que dedicara os seus estudos ao violoncelo, pegou nos instrumentais e colou uma letra por cima. Mal ela sabia que esse seria o primeiro passo para arrumar o violoncelo no estojo e começar a soltar o canto. “Foi a redoma que me deu a voz.”

A primeira malha, Tremoço, registada numa altura em que Carolina era tão envergonhada que nem deixava Joana entrar no estúdio enquanto ela gravava, ficou de molho. “A partir do segundo beat, tudo entrou no EP”, contam. É de lá que tiramos o tema que dá título ao projeto. Esta letra é sobre ser redoma, enquanto corpo que sustenta as tormentas e enquanto ser exposto, na multidão, mas indiferente (Redoma).

À primeira vista, parte parece um exercício niilista, mas, ao invés de nos afundar e encher de tédio, arreganha-nos o sorriso com detalhes de subtil ironia e relativismo existencial. “Que se fodam as rimas, se fizer mais uma, que ninguém me leve a sério, que eu sou incongruente e não sigo nenhum critério” (Esventrada pt2).

Elas estão na luta, como mulheres que são (será que são?)

Não há métrica que aprisione as redoma nem as suas inquietudes e se for preciso recorrer à sabedoria popular, elas não têm vergonha de a ostentar: “Já dizia a minha avó / Antes de morrer / O que custa não é viver, / É saber viver”. Os versos são tirados de Condição, único tema que aborda de forma explícita a questão de identidade de género:

Eu sou paradoxal
E o que eu também queria
Era poder viver
Puta, preta, branca, homem, fufa ou mulher
(Como a mulher que sou.
Será que sou?)”

“Quando isto começou, não havia vontade de levantar nenhuma bandeira”, conta Joana, explicando que tudo o que elas pretendiam era materializar uma conquista pessoal, “independentemente do nosso género”.

redoma

"A luta existe e nós fazemos parte dela"

Os elogios paternalistas que lhes eram dirigidos foram a gota de água: “Para rapariga até está fixe” é comentário recorrente, nota Joana, ao qual costuma seguir-se a pergunta “quem é que te ajudou?”. “Nos concertos, gosto de dizer que foi a Joana que produziu as músicas”, refere Carolina, sabendo que a discriminação, muitas vezes, está na “subtileza das coisas”.

Mas depois veio o “despertar”, à custa de uma cultura rap “extremamente machista”, onde ainda é difícil para uma mulher fazer-se ouvir. Os elogios paternalistas que lhes eram dirigidos foram a gota de água: “Para rapariga até está fixe” é comentário recorrente, nota Joana, ao qual costuma seguir-se a pergunta “quem é que te ajudou?”. “Nos concertos, gosto de dizer que foi a Joana que produziu as músicas”, refere Carolina, sabendo que a discriminação, muitas vezes, está na “subtileza das coisas”.

Embora não querendo ser catalogadas pelo género – da mesma forma que não gostam da ideia de que a sua música seja catalogada – a verdade é que as redoma estão na luta para que o hip-hop tenha cada vez mais vozes femininas. “Ela existe e nós fazemos parte dela”. Continuarão na linha da frente em março do próximo ano, data em que será lançado o álbum de estreia, do qual já é conhecido o tema 2572.

Tsuki

Musicoterapia para causar dano

Leonor procura um espacinho vago nas paredes sobrelotadas do camarim do MusicBox. “Quero deixar o meu nome gravado aqui”, diz, passando os olhos nas assinaturas dos artistas, que se alastram do chão ao teto. Naquele dia, vestirá a pele do seu alter-ego Tsuki para atuar no ciclo HipHopSouEu, programa que já leva 18 anos a dar palco a nomes emergentes do hip-hop nacional. “O facto de ser a única rapariga dá-me vontade de pegar nisso para fazer a diferença.”

Ela é, como canta em Doce e Amargo, uma miúda de 26 anos que se está a meter num jogo de meninos e que está longe de se intimidar com isso. “São muitos a achar que o nosso rap não é a sério / É o mesmo que acontece quando passamos pelo assédio / Sinceramente já nada me surpreende / Mantenho o meu caminho com os meus à minha frente”, ouvimo-la na mesma faixa, uma das oito que compõem o seu EP de estreia, Sempre Comigo (2022).

O reconhecimento e a remuneração justa das mulheres rappers no mercado, diz, continuam a ser desafios constantes. Mas há sinais de fumo que a enchem de alento. A primeira edição do She Raps em Portugal, da qual foi uma das três finalistas, mostrou que é possível trazer mais paridade e diversidade ao movimento: “Há espaço para todos”.

▲ No Bairro da Cruz Vermelha, no Lumiar, usa o rap no espaço comunitário Centro Periférico para trabalhar com a comunidade. “O rap permite cruzar realidades e chegar a outras visões”, nota

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Tanto há, que naquela noite, no palco do MusicBox, Tsuki chamou a si o produtor e rapper Genuíno, com quem cuspiu o drill de Nunca sozinha. Já em Clima, antes do beat entrar, fez questão de referir o nome de Dillaz, a quem agradecerá para sempre o álbum Reflexo (2016). Afinal, as suas principais influências foram sempre nomes de projetos masculinos: Dealema, Mind Da Gap, ProfJam, Allen Halloween, Valete, GROGNation, “consumia tudo o que chegava a Évora”.

Alargar horizontes

Crescer numa cidade onde “o hip-hop demorou a chegar” gerou em Tsuki algumas inseguranças. “Havia esta ideia de que o hip hop era um estilo de rua e, por isso, era mal visto.” A escrita serviu-lhe de terapia e acompanhou-a até Lisboa, em 2016, onde iniciou a sua licenciatura em Psicologia. Mas aí veio o sentimento da solidão. “Não conhecia ninguém, não tinha um núcleo e a escrita deixou de ser suficiente.”

Foi então que Tsuki começou a vasculhar beats e novas linguagens para aprimorar as suas rimas. Nessa busca, deu de caras com nomes de rappers mulheres da cena nacional, como Neblina, Sitah Faya ou Chikita: “Ouvia bastante a malta do projeto Hellas”, lembra, trazendo para a conversa outras duas peso-pesadas: Capicua e Mynda Guevara. “Isso alargou-me os horizontes.”

O “bichinho” do hip-hop foi crescendo em si, ao ponto de se inscrever num curso de Produção de Hip Hop na ETIC. “Foi a minha oportunidade de trabalhar com a malta do meio”. Os espetáculos que se seguiriam ao curso caíram por terra, por causa da pandemia, mas a vontade de criar não saiu abalada. Tsuki comprou um pack home studio, como se fosse um kit de jardinagem, e plantou a semente que viria a dar a flor Sempre Comigo.

Síndrome do impostor? Desta vez ela não quer ficar atrás do pano

O EP de estreia toca em temas como a depressão, a crise climática, a sociedade de consumo e a condição feminina no rap. É uma mistura de observações coletivas e íntimas, à qual a sua formação profissional, de prática clínica e investigação em saúde mental, não é alheia. “A minha área dá-me muito sumo para as letras.”

A música, para ela, é também uma ferramenta de terapia e de inclusão social. No Bairro da Cruz Vermelha, no Lumiar, usa o rap no espaço comunitário Centro Periférico para trabalhar com a comunidade. “O rap permite cruzar realidades e chegar a outras visões”, nota. Já o seu próximo single, Todos e Ninguém, criado no She Raps e apresentado no MusicBox, é um exercício de musicoterapia.

Tsuki

"Agora, o meu discurso é diferente"

Ao trazer a sua música para o tal jogo de meninos, Tsuki percebeu, no fundo, que não estava a fazer favores a ninguém. Que, como canta em Rasta, esconder não fazia parte do plano: “Desta vez não fico a ver atrás do pano / Peguei na nau rumo ao now e agora só paro / Quando for para causar dano”

Há mais novidades para breve, desde logo a participação de Tsuki no projeto Hellas, passo importante na profissionalização da sua música. “Antes, sofria da síndrome do impostor. Achava que não era legítimo pedir um cachet em início de carreia. Custava-me muito dizer ‘não’. Agora, o meu discurso é diferente. O Hellas ajudou-me muito.”

Ao trazer a sua música para o tal jogo de meninos, Tsuki percebeu, no fundo, que não estava a fazer favores a ninguém. Que, como canta em Rasta, esconder não fazia parte do plano: “Desta vez não fico a ver atrás do pano / Peguei na nau rumo ao now e agora só paro / Quando for para causar dano”. A assinatura, para o que der e vier, já está bem impressa, seja na parede de um camarim ou na história do hip-hop tuga nacional.

Vanessa Parish Crooks

Ela está no hip-hop para ser vocal

Vanessa sofre de uma condição muito peculiar, o da sampjuda de alma. Sentada no sofá de casa, com girassóis à sua volta, explica-nos que essa condição está associada ao sentimento de saudade de Cabo-Verde, sem nunca, porém, ter pisado a terra dos seus ancestrais. “É o nosso fado. Nunca lá fui, mas isso está em mim, pela forma como cresci e fui educada.”

Onde quer que vá atuar, leva consigo os panos africanos. Os girassóis, símbolo de harmonia e de criatividade, também a acompanham, bem como algumas velas e incenso, para afastar as más energias. “Sou muito espiritual”, assume, abrindo o portal que a conecta a uma das suas mentoras de sempre: Erykah Badu. Baduizm (1997), para ela, é mantra vital.

A música dos anos 90, especialmente os blues e a soul, são a sua grande inspiração e, talvez por isso, Vanessa nunca se tenha considerado rapper. Mas quem ouve Silent Threat, a abrir com os versos “Don’t break your neck, protect your back”, remetendo para Wu-Tang Clan, e se deixa levar pela cadência firme do seu spoken word, não tem dúvidas de que a escola do rap lhe assenta bem. Tal como os apelidos que foi buscar ao nome original de Tupac (Lesane Parish Crooks) e que lhe serviram de batismo artístico.

▲ “O português tem uma intensidade forte. O crioulo é mais emocional. O inglês vem das músicas que ouço”, explica

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O programa She Raps, do qual foi uma das finalistas, fê-la assumir em definitivo a sua proximidade com o universo habitado por Bahamadia, outra das suas artistas de culto. “Éramos nove manas a participar e o facto de termos estilos diferentes é que me fez ver que o que eu faço também é rap”. Porque o rap, prossegue, não é uma coisa só, “não é uma caixinha”. Muito menos o é Vanessa Parish Crooks, que em 2025 lançará dois EPs: um mais virado para o afrotech e outro para a morna.

3 Walls and a Call

Antes de se ver como rapper, ou sequer dona de uma voz portentosa, herdeira de Toni Braxton ou Beyoncé, Vanessa considerava-se uma poeta. Alguém que, dependendo da ideia que quisesse transmitir, escolhia a dedo o idioma para se expressar. Afinal, cada língua tem uma cadência e uma musicalidade precisa, um encanto sensorial que comunica para lá do texto.

“O português tem uma intensidade forte. O crioulo é mais emocional. O inglês vem das músicas que ouço”, explica, folheando o seu caderninho A6, mexido e remexido vezes sem conta, como talismã que é e que carrega consigo para todo o lado.

Nos 10 anos em que viveu em Inglaterra, foi ao caderno que relatou, sempre em verso, a sua jornada emocional, marcada por uma relação “abusiva”. À distância, Vanessa consegue ver o quanto essa relação a abalou. Os movimentos MeToo e Black Lives Matter deram-lhe forças para se superar, mas foi 3 Walls and a Call (2023), o seu EP de estreia, uma obra madura de neo-soul, que a ajudou a sarar as feridas do passado e a abrir uma nova página na sua vida.

Manas Lava em ação

Por alturas do lançamento do EP, já Vanessa estava em Portugal a procurar um espaço próprio. “Sempre procurei as coisas por mim”, diz com uma resolução que é traço de caráter desde a adolescência, em que era a única miúda da escola a vestir-se com roupas garridas e a jogar basquete com os rapazes.

Vanessa Parish Crooks

O rap, prossegue, não é uma coisa só, “não é uma caixinha”

“Sou muito vocal e quando uma mulher é vocal, é logo vista como agressiva e confusionista. Fiquei cansada de estar a repetir as mesmas coisas e foquei-me na minha cena.” “Temos de sair da toca e mostrar o que fazemos sem medo.” Vanessa Parish Crooks dá o mote, é só seguir-lhe os passos.

O encontro com Uncle C, um dos nomes embrionários da cultura hip-hop nacional, foi fundamental no seu percurso. Com ele e outros membros do meio criou o coletivo Black City, um lugar pensado para os miúdos dos bairros darem azo à criatividade. Porém, sendo a única mulher do coletivo, rapidamente se meteu em problemas: “Sou muito vocal e quando uma mulher é vocal, é logo vista como agressiva e confusionista. Fiquei cansada de estar a repetir as mesmas coisas e foquei-me na minha cena.”

Criar lugares seguros para as mulheres se manifestarem é o que a move. Lugares diferentes daqueles que habitava quando começou a ir a sessões de slam poetry em Lisboa, em que era uma das poucas mulheres negras a fazê-lo. “O pessoal negro, que vive na periferia e nos bairros, tem aquela ideia estereotipada de que não vai ser aceite nos espaços do centro de Lisboa e então não vai lá.”

Inverter essa lógica dentro dos circuitos artísticos é, a seu ver, fundamental, a ponto de ter posto em marcha um novo ciclo de encontros. O Manas Lavas aconteceu pela primeira vez no dia 30 de novembro, no Camones Art Bar, em Lisboa, e teve a presença de rappers, DJs e produtoras mulheres. “Foi muito lindo”, partilha entusiasmada. A ideia é repetir o evento uma vez por mês. “Temos de sair da toca e mostrar o que fazemos sem medo.” Vanessa Parish Crooks dá o mote, é só seguir-lhe os passos.

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