Reportagem em Martorell do nosso enviado a Espanha

O Llobregat é um dos dois rios que desaguam junto a Barcelona. Quem olha de frente para o Mediterrâneo tem o Llobregat à direita e o Besòs à esquerda. Antes de chegar à capital catalã, o Llobregat faz 170 quilómetros num percurso com paisagens variadas: montanhas, campos, aldeias criadas na Idade Média, algumas pequenas cidades e, quase a chegar ao fim, parques industriais sucessivos. A não muita distância do mar, este rio passa junto a uma cidade que não tem grandes motivos de interesse, mas tem um dos principais motores da economia local, regional e nacional: a fábrica da Seat.

Martorell fica a 45 minutos de comboio de Barcelona e, a umas três estações de distância, começam a surgir junto à linha os sinais de que, por aqui, a Seat é o epicentro do mundo empresarial. Grandes armazéns de para-choques sucedem-se a grandes armazéns de pneus, que se sucedem a grandes armazéns de peças metálicas. À saída da estação central da cidade (tem três), os sinais continuam: oficinas automóveis, lojas de acessórios, estações de serviço. A fábrica, contudo, nem vê-la. Fica a uns cinco quilómetros do centro da terra, mas só se descobre isto depois de perguntar a uma pessoa que passa, porque a sinalização é inexistente.

Pormenores destes à parte, os números. A Seat de Martorell emprega 14 mil pessoas diretamente e umas 6 mil indiretamente, o que faz dela não só a mais importante empregadora da comarca Baix Llobregat, como também uma das principais exportadoras espanholas. Por esse motivo, são frequentes ali as romarias de autoridades. “É uma empresa tão importante que vieram cá os dois reis, o Juan Carlos e o Felipe”, comenta Lluís Rodríguez, a única pessoa que se encontra nas ruas de Martorell às três e meia da tarde. Mas não são só as personagens reais que gostam de aqui vir, também cá esteve Mariano Rajoy há uns meses — e trouxe a notícia de que o grupo alemão Volkswagen, dono da Seat, ia investir 3.300 milhões de euros nesta fábrica.

Spanish Prime Minister Mariano Rajoy smiles as he sits in a Seat car during a visit to the SEAT motor vehicle plant in Martorell near Barcelona on September 8, 2015 to celebrate the 40th anniversary of the plant's technical centre. AFP PHOTO / JOSEP LAGO (Photo credit should read JOSEP LAGO/AFP/Getty Images)

Em setembro, a fábrica de Martorell fez 40 anos e Mariano Rajoy foi visitá-la. (Foto: JOSEP LAGO/AFP/Getty Images)

Foi no início de setembro. Menos de dez dias depois, uma agência ambiental norte-americana acusava a Volkswagen de utilizar um kit que tinha como objetivo falsificar os resultados de emissões de gases poluentes, quando os carros estavam a ser sujeitos a testes laboratoriais. O escândalo espalhou-se como um cancro e rapidamente atingiu a Seat, também suspeita de utilizar o mesmo kit. “Houve um susto com isso” em Martorell, explica Lluís, negociante de obras de arte, enquanto bebe um café e um whisky. Além das muitas empresas que a Seat subcontrata para assegurar partes da produção e que trabalham em exclusivo, há outras relações com a marca menos evidentes. Antes de se dedicar à venda de quadros e esculturas, Lluís tinha uma empresa de caramelos e gomas. A Seat era um dos clientes.

O maquinista filósofo

A cidade de Martorell é algo confusa. Ocupada pelo menos desde o tempo dos romanos, tem hoje uma parte antiga que surgiu no fim do século XVIII e se mantém mais ou menos inalterada. Numa outra encosta, na margem de uma ribeira que alimenta o Llobregat, fica a parte nova, cujo boom se deu a partir dos anos 60, quando chegaram as indústrias. A Seat estacionou ali em 1975.

“Nestes prédios a água chega lá acima. Mas nos últimos pisos, como chega com pouca pressão, é difícil ter água quente. Por isso temos de pagar uma bomba.” Jesús Puertolas foi das primeiras pessoas a chegar a este bairro, “ainda nem luzes havia”. Trabalhou muitos anos para a Renfe, a companhia de comboios espanhola, que tem uma estação de mercadorias dentro do complexo da Seat. Jesús foi chefe dos maquinistas que tinham como missão levar motores de automóveis para fora de Martorell, mas a sua história de vida não se resume a isso. Hoje com 76 anos e a memória já a falhar, raramente consegue contar um episódio até ao fim sem fazer inúmeros apartes e sem dizer umas três ou quatros frases feitas. É ele mesmo que admite que são frases feitas. Em casa, onde nos convida a entrar, tem dezenas de livros de citações.

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Jesús Puertolas em casa, no quarto andar de uma torre onde a água quente não chega facilmente. As prateleiras têm livros de comboios, dicionários de literatura e compêndios de citações. (Foto: D.R.)

“A política é a arte de encontrar problemas” é uma frase de Groucho Marx. Jesús escreveu-a num guardanapo numa destas manhãs quando foi tomar café e leu os jornais. Aliás, encheu o guardanapo com tiradas do mesmo género: “A política é uma associação de colocação de pessoas sem formação que precisam de trabalho”; “Em Espanha, em cada dez, um pensa e os outros nove atiram-se de cabeça”; “Liberdade, igualdade e equidade, tal como existem, leva à pobreza, insegurança e opressão”. Depois de ler todo o guardanapo, cheio de cima abaixo com uma letra pequenina e cuidada, ri-se: “Soy un poco raro“.

Antes de ser o chefe dos maquinistas, este homem, nascido em Saragoça e que muito novo se mudou para a Catalunha, começou por baixo. Foi operador de máquinas de fazer portas, tetos e chassis para os carros. Aprendeu a conduzir comboios e fez cursos por conta própria, depois do trabalho, para subir na vida. Já como chefe da secção ferroviária da fábrica, cargo que ocupou durante 17 anos, começou a dar formação aos novatos sobre tudo e mais alguma coisa, desde comboios até ao funcionamento de um motor de automóvel. Até deu aulas de condução, mas nunca tirou a carta.

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Martorell é atravessada por este ribeiro (Foto: D.R.)

Todo va bien…

Jesús lembra-se dos tempos em que a fábrica da Seat tinha muito menos tecnologia do que atualmente. Cada máquina tinha de ser operada por mais empregados, mas as condições de trabalho eram muito piores. “Havia quatro operários por cada máquina. E ela só funcionava quando os quatro carregavam num botão de segurança”. Isso não impedia, contudo, acidentes graves, quando alguém mais consciencioso queria ajeitar a posição de uma peça. “Aqui, quando havia um que perdia o braço numa máquina, havia outro à porta à espera para trabalhar”, diz Jesús, recordando-se de como eram tantos os que queriam um emprego na Seat.

O genro de Lluís Rodríguez também quis, mas a marca de automóveis fez o que muitas empresas fazem hoje em dia: outsourcing. Por isso, o genro foi trabalhar para uma empresa de chapas metálicas que produz exclusivamente para a Seat. Se a Seat afunda, esta empresa afunda, o genro de Lluís afunda — tal como quase 20 mil pessoas. O investimento de 3.300 milhões anunciado em setembro trouxe o conforto de que, tão cedo, os automóveis não vão deixar de se produzir aqui. O escândalo das emissões da Volkswagen trouxe o sobressalto. “Seat va bien“, diz Lluís com muita calma. Então e as 400 pessoas que vão ser despedidas nos próximos meses para poupar 200 milhões de euros? “Contratam mais empresas exteriores e têm menos pessoal fixo.”

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As torres construídas quando a cidade começou a ser procurada por operários (Foto: D.R.)

Esta visão do mundo preocupa Jesús. “Os administradores não entendem que são assalariados do povo. E o povo é rico quando tem trabalho.” E, mais uma vez, lhe foge a boca para a crítica política. “Porque é que não há dinheiro para pagar pensões? Eu espero que não chegue o dia em que me cortem a reforma, quero morrer antes. Mas não há dinheiro para as pensões porque não há trabalho. A tecnologia rouba o fator humano às empresas. E o fator humano é que paga impostos.”

... cuando acaba bien

Os 400 trabalhadores que vão para casa entre dezembro e julho do próximo ano são pessoas que a Seat contratou através de uma empresa de trabalho temporário. Muitos são os que entram e saem continuamente da fábrica, conforme o volume de trabalho. Com o investimento que aí vem, a marca vai produzir quatro novos modelos de carros nos próximos dois anos. Por isso, os sindicatos consideram que pelo menos 100 dos trabalhadores despedidos tinham lugar fixo na empresa.

Além da Seat, há outra empresa em Martorell a causar alguma preocupação. É a Solvay, que tem um complexo fabril enorme na cidade e onde trabalham 500 pessoas (mais 1.500 que dependem indiretamente da firma). Dedicada à produção de PVC (material usado em janelas e tubos, por exemplo), a Solvay terá ficado em dificuldades quando perdeu alguns contratos importantes com companhias elétricas. “Economicamente, pode fazer mais dano aqui à terra do que a Seat”, comenta Lluís, que lamenta que os reis e o primeiro-ministro espanhol não venham visitar a fábrica de PVC, que foi dada como “inviável” pelos seus responsáveis.

Esta história ainda não se sabe se vai acabar bem. Quanto à Seat, que afirma estar a despedir agora para poder investir mais tarde, é “uma história muito feliz”, diz Lluís. Por aqui, parece que o León vai continuar a rugir.