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Bruce Dickinson: carismático, virtuoso e inimitável enquanto vocalista e frontman dos Iron Maiden
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▲Bruce Dickinson: carismático, virtuoso e inimitável enquanto vocalista e frontman dos Iron Maiden

Jorge Botas

▲Bruce Dickinson: carismático, virtuoso e inimitável enquanto vocalista e frontman dos Iron Maiden

Jorge Botas

Iron Maiden na Meo Arena: ao fim de 50 anos, a dama de ferro não esconde a idade, mas continua imparável

Os anos passam, os Iron Maiden abraçam-nos e não há ninguém como eles. Num desfilar de clássicos ao alcance de poucos, os mestres do heavy metal demonstraram que ainda têm combustível para mais.

De todos os grandes dilemas que a última década nos trouxe, um que tem afetado especialmente os fãs de música é este: quando é que uma banda ou um músico deve parar? E será que deve de todo? Após as explosões do rock e do metal nos anos 50, 60 e 70, as suas principais figuras ou já partiram, ou já entraram na velhice, mas não há uma resposta definitiva. A recente e assumida despedida dos palcos dos Black Sabbath e de Ozzy Osbourne não é habitual. E há nomes como os Judas Priest, que voltaram atrás com a decisão de aceitar a reforma, como mostraram na semana passada no festival Evil Live. Os Iron Maiden mantêm-se na estrada e neste domingo à noite na Meo Arena foi fácil perceber porquê.

Há uma razão para tanto Judas Priest como Iron Maiden terem faltado a esse enorme evento de despedida de Ozzy e companhia decorrido este fim de semana em Birmingham — ambas as bandas estão em digressões mundiais. No caso dos segundos, a tour — batizada com o nome Run For Your Lives — reveste-se de particular significância, já que assinalam 50 anos de existência no dia 25 de dezembro, naquele que foi possivelmente um dos melhores presentes de Natal da história da música. Foi nesse espírito de celebração que voltaram a Portugal pela 18.ª vez, para um concerto onde demonstraram uma vitalidade impressionante.

Façam-se alguns pontos prévios antes de falar-se da atuação propriamente dita. Em primeiro lugar, estes não são os mesmos Iron Maiden que estiveram entre nós em 2022. O baterista Nicko McBrain, apesar de não abandonar a banda, deixou de tocar ao vivo devido a um AVC sofrido em 2023, sendo substituído em digressão por Simon Dawson, ele próprio um intérprete com décadas de experiência e homem de confiança do baixista e patrão Steve Harris por tocar no seu projeto paralelo de hard rock, os British Lion.

No entanto, é preciso reforçar que não existem apenas “uns Iron Maiden”: desde que a banda foi formada por Harris, não só este foi único elemento constante ao longo de meio século, como apenas ele e Dave Murray tocaram em todos os discos. Mesmo descontando a porta giratória que foram os primeiros anos, o grupo passou por várias fases com vários intérpretes — a mais crítica das quais após a saída de Bruce Dickinson em 1993, meses após um concerto na discoteca Kadoc, no Algarve, com o vocalista a regressar apenas em 1999.

Jorge Botas

Mas mesmo reconhecendo que a fase “tardia” dos Iron Maiden — desde Brave New World, em 2000, até Senjutsu, de 2021 — tem sido universalmente aceite como de muito bom nível, o referencial para a maior parte das pessoas é a sequência lendária de álbuns desde o auto-intitulado de 1980 até Seventh Son of a Seventh Son, lançado em 1987. Ora foi por isso que esta digressão, descrita como sendo um regresso às origens, teve um alinhamento a focar-se apenas nos primeiros nove álbuns de estúdio — incluíndo Fear of the Dark, mas ignorando No Prayer for the Dying (e ainda bem).

O outro ponto assente é que quem escreve este texto tem como concerto preferido de sempre — elevado mesmo a experiência religiosa — a atuação dos Iron Maiden no festival Super Bock Super Rock de 2008, também ela baseada num alinhamento de temas clássicos dos anos 80. Por razões altamente subjetivas, seria muito difícil, 17 anos depois, a banda igualar ou subir a parada. Mas por razões objetivas, também.

Aquilo que os Iron Maiden trouxeram à Meo Arena foi o melhor concerto possível para uma banda onde os membros são todos sexagenários a chegar às sete décadas. A velocidade frenética de outrora sofreu um abrandamento em temas como The Trooper, Fear of the Dark ou Wasted Years e Bruce Dickinson sentiu, a espaços, algum esforço em acompanhar o ritmo, além de já não soltar gritos agudos com a mesma vivacidade. Tudo isto é normal, além de que também é aplacado pelo facto de um concerto dos Iron Maiden com algumas mazelas deixadas pela idade continuar a envergonhar muitas bandas mais novas.

Não só os seus intérpretes continuam a tocar a um extraordinário nível — nem mesmo o som por vezes deficiente abalou aquelas harmonizações de guitarra que continuam a ser tão sublimes como da primeira vez que as ouvimos, tal como o incansável trabalho de baixo de Harris —, como os Iron Maiden têm um manancial de clássicos de tal ordem que era possível fazer mais dois alinhamentos paralelos de qualidade idêntica. Ao longo do concerto fomos desde os Maiden com a energia punk dos primeiros tempos de Paul Di’Anno em Murders in the Rue Morgue, Wrathchild e Killers até aos Maiden épicos e a roçar o prog em The Clairvoyant, Seventh Son of a Seventh Son e Rime of the Ancient Mariner.

Jorge Botas

Como os Iron Maiden já nos habituaram, todo o espetáculo foi acompanhado por uma forte componente cénica, com direito a projeções numa tela a ocupar todo o palco — mostrando desde os ambientes decadentes do East End londrino que os pariu e da sombria Paris oitocentista que Edgar Allan Poe descreveu até a uma interpretação visual estonteante do poema O Conto do Velho Marinheiro de Samuel Taylor Coleridge (“eis o que não fazer quando um pássaro vos caga em cima”, recordou Bruce Dickinson). Pelo meio, explosões, chamas e faíscas, Dickinson a mudar de indumentária consoante a canção e a envergar a bandeira de Portugal em The Trooper e mais do que um Eddie — a famigerada mascote da banda — animatrónico a surgir em palco a atazanar o juízo aos membros da banda.

A questão, porém, é que, ao contrário de outras bandas, os Iron Maiden nem precisavam de todos estes apetrechos — são adições bem vindas, sim, mas que apenas resultam dada a força das canções que as acompanham. Sem qualquer tipo de acrescento, a sala esgotada teria continuado a perder a cabeça com a elegância maníaca de Phantom of the Opera ou a espetacular energia fúnebre de Hallowed Be Thy Name, tal como teria à mesma berrado a plenos pulmões os refrães de Run to the Hills, Powerslave ou Fear of the Dark.

“Estão a facilitar-me a vida esta noite”, disse Bruce Dickinson a dado momento, aproveitando para assinalar a iminência dos 50 anos da banda. Ao fim desse tempo todo, o refrão de Iron Maiden — “Oh Well, wherever, wherever you are // Iron Maiden’s gonna get you, no matter how far” — canção do primeiro álbum, do mesmo nome, parece uma declaração de intenções cumprida ao fim destas 50 décadas. Foi com esse tema que terminaram a fase regular do concerto, avançando depois para um encore composto pela saraivada de energia que é Aces High, o hino de Fear of the Dark e uma muitíssimo apropriada Wasted Years, cantada a nível ensurdecedor e provando que desperdiçar anos foi uma coisa que a banda pouco fez. No final,  o vocalista deixou o mantra a seguir: “todas as noites são a melhor noite das nossas vidas”. Com concertos assim, fica difícil refutá-lo.

Nem tudo que apregoam, contudo, é sábio. Antes de subirem a palco, o conjunto inglês continuou uma infeliz tradição que há muito o acompanha: a de escolher bandas de abertura que pouco ou nada se coadunam com o seu espetáculo. Desta feita, a responsabilidade recaiu nos Avatar, que misturam a sua temática circense lunática com metal moderno de pendor eclético, indo de ritmos de reggaeton e riffs de rock and roll a blastbeats e metralhadas de death metal — ou seja, algo diametralmente oposto ao que os Iron Maiden tocam.

Por um lado, não obstante a vacuidade de algumas daquelas canções — a banda estar toda a abanar as cabeças ao mesmo tempo não esconde que estão a tocar apenas acordes abertos camuflados com distorção — os Avatar não acusaram a pressão. Em primeiro, porque, apesar de serem caçulas ao lado dos ingleses, estes suecos já têm mais de 20 anos de atividade; em segundo, porque é fácil conquistar o público com um vocalista com o carisma de Johannes Eckerström. Concede-se assim que terá havido certamente gente a sair da Meo Arena interessada em explorar o catálogo da banda. Por outro lado, o seu nome é particularmente apropriado: seria indiferente qualquer que fosse a banda a abrir este concerto, pelo que poderia estar ali um avatar de outra coisa qualquer — quem vai a Iron Maiden, quer ouvir Iron Maiden.

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