1244,6kWh poupados 1244,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-2215757604
i

Getty Images

Getty Images

Isabelle Huppert: "É muito difícil levar a poesia para o ecrã, mas precisamos dela"

Estreia-se esta quinta-feira "As Aventuras de uma Viajante na Coreia do Sul", de Hong Sang-soo. Falámos com a atriz francesa, soberba protagonista, "entre a bruxa e a fada, a melancolia e o realismo".

Íris é uma mulher sem passado. Não sabemos de onde vem, para onde vai, sabemos tratar-se de uma mulher estrangeira, errante, que uma dia estava a tocar flauta num parque em Seul de uma forma tão graciosamente má que atraiu a curiosidade do jovem sul-coreano Inguk, ao ponto de este a convidar a viver no seu apartamento. Convence-a a dar aulas de francês a sul-coreanos e ela abraça a tarefa com uma ideia muito peculiar de ensino. Num post-it, escreve em francês aquilo que as suas alunas não sabem expressar sobre si próprias e sugere que o leiam vezes sem conta à noite, perante um gravador cuja cassete lhe entregarão depois.

Terceira colaboração de Isabelle Huppert com Hong Sang-soo, premiada pelo papel com um Urso de Prata no Festival de Berlim do ano passado — As Aventuras de uma Viajante na Coreia do Sul passou também no IndieLisboa de há duas edições —, a forma de trabalhar do realizador sul-coreano é conhecida: apresenta uma ideia de uma história, os diálogos são dados aos atores pouco tempo antes de as cenas serem filmadas e o instinto e espontaneidade são forçados a revelar-se nesse encontro entre elenco, personagens, equipa técnica e locais de rodagem. Mas essa não é uma espontaneidade sem guia.

A repetição opera um papel fundamental neste filme, tanto a nível formal como narrativo, como lhe permite entrar em diálogo com filmes anteriores, nomeadamente os que têm Huppert como protagonista, Noutro País (2012) e A Câmara de Claire (2017). Há planos muito semelhantes, como quando Huppert vira as costas para a câmara e se afasta, com roupa e paisagem quase indistintas, e, em As Aventuras de uma Viajante na Coreia do Sul, as duas alunas de Íris repetem literalmente as mesmas respostas perante a pergunta sobre o que sentiram quando tocaram, uma o piano e a outra a viola: sentiram-se felizes, a melodia é muito bonita.

As emoções, nesta “sociedade da transparência” de que o também sul-coreano, radicado em Berlim, Byung-chul Han fala, são relegadas em favor da eficácia da performance (“tenho de melhorar”), homogeneizada e insípida. São os loucos e os poetas — a poesia é aqui apresentada enquanto monumento —, e também a bebida alcoólica makgeolli, que ainda cumprem o papel de desconstrutores da racionalidade e são agentes do deleite do aqui e agora. E foi também sobre este “aqui e agora” que falámos com Isabelle Huppert.

[o trailer de “As Aventuras de uma Viajante na Coreia do Sul”:]

O que mais a fascinou quando se deparou com esta personagem?
Hong Sang-soo faz filmes de uma forma muito peculiar. Não há guião, não há história, não há realmente personagens. Ele apenas escolhe alguns locais, alguns outros atores e escreve diálogos maravilhosos. Trata-se apenas das interações entre todas essas personagens. Foi rápido, por isso não posso dizer-lhe. Não sei, talvez ele me tenha dito previamente que eu iria interpretar uma professora estranha, a ensinar alguns coreanos. Mas nem mesmo isso tenho a certeza de que mo tenha dito. Talvez ele só mo tenha dito quando cheguei a Seul.

Aceitou o papel pelo facto de o convite ter partido de Sang-soo.
Exato.

Olhando para esta personagem agora, como definiria Íris?
Ela está um pouco a meio caminho entre a bruxa e o anjo. Ela é um pouco bruxa porque sabe exatamente como explorar os segredos das pessoas, a psique das pessoas. Portanto, ela está um pouco a meio caminho entre a bruxa e a fada.

Quando vi o filme, ela lembrou-me muito O Homem Sem Passado, de Kaurismäki. Não tem história que lhe conheçamos e é a pessoa mais gentil à face da Terra. Será que a Íris é também esse tipo de errante?
Acho que é uma definição muito boa de quem ela é, adoro a referência ao filme do Kaurismäki, à sua personagem e a ele como cineasta, porque acho que tem algo em comum com Hong Sang-soo no sentido em que há sempre algo um pouco misterioso nas suas histórias, nas suas personagens, a meio caminho entre a poesia, a melancolia e o realismo. Acho que é uma comparação muito boa, sim, gosto disso.

"A minha personagem não vem desse mundo. Ela simboliza uma espécie de liberdade. E ela revela, também, as pessoas a si mesmas através da forma como ensina línguas. É um meio-termo entre a bruxa e a fada."

Qual é o papel da poesia no filme? É o de desconstruir toda a racionalidade que temos nas nossas vidas hoje em dia?
É exatamente isso, sim. É muito difícil levar a poesia para o ecrã, mas precisamos dela. Não sabemos muito sobre aquelas pessoas, mas sabemos que elas estão certamente à procura de algo nas suas vidas. Não é trágico, mas há uma espécie de humanidade, de emoção, de sensibilidade, que faz com que Íris se preocupe muito com essas pessoas. E elas são muito comoventes e muito engraçadas. Acho que a Íris também é engraçada e comovente.

Há muita repetição neste filme.
Repetição?

Coisas que se repetem, como os diálogos, em que as alunas dizem, em momentos diferentes, exatamente a mesma coisa. Por que acha que isso acontece?
É muito engraçado, porque se pensa que todo esse tipo de coisa resulta da improvisação. Na verdade, não é nada improvisado, porque está muito bem escrito. Os diálogos são muito precisos. Claro que Sang-soo só nos dava os diálogos na manhã em que filmávamos, e isso dava-nos muito pouco tempo para aprendê-los. Mas os diálogos são muito precisos, muito mesmo. E essa ideia de repetição também é muito interessante, porque dá uma indicação de como, de certa forma, essa mulher é articulada e ponderada. Ela não faz nada ao acaso. Mas, como há tanta poesia, nunca é um fardo, nunca é pesado. Pelo contrário, ela fica muito leve e quase deslumbrante.

Olhando para os seus outros dois filmes com Sang-soo — Noutro País e A Câmara de Claire — vemos inclusive algumas cenas muito semelhantes, enquadramentos iguais, como quando Íris se afasta das outras personagens no parque. Concorda?
Concordo plenamente, sim. Há sempre algo em comum. Um filme de Hong Sang-soo é um filme de Hong Sang-soo, não é como [Hirokazu] Koreeda, não é como qualquer outro cineasta asiático. E, diria — especialmente nos filmes que ele faz comigo, porque acho que há algo na nossa colaboração que faz com que eu me sinta sempre uma estranha — que revela as pessoas a si mesmas. E também, através dos meus olhos, ele observa o seu próprio país, com uma certa dose de diversão. Nunca é confrontacional, claro, nunca é como se eu estivesse a gozar ou a ridicularizar as pessoas, mas o simples encontro entre essas pessoas muito diferentes torna-se algo muito engraçado e muito comovente.

Este filme fala também sobre como as pessoas estão desconectadas das suas emoções, como quando as alunas estão preocupadas apenas em ter um melhor desempenho, em vez de apreciar e sentir a música que estão a tocar.
Exatamente, sim. Ela quer que as pessoas tomem consciência dos seus limites, de como talvez nem sempre tenham acesso às suas emoções mais profundas.

Qual acha que é o papel dos post-its e da língua estrangeira — no caso, o francês — em contar a verdade sobre as pessoas?
Quanto ao francês, talvez seja apenas porque eu sou francesa. Não sei se o francês em particular desempenha um papel particularmente significativo, é apenas um confronto de línguas estrangeiras. Alguém disse-me algo interessante há algum tempo, que, neste filme, em que eu falo francês e as outras personagens falam coreano, estão todos a tentar falar uma mesma língua que não é a sua, o inglês.

A língua comum a todos é uma língua estrangeira.
Exatamente.

Este filme passa-se no verão, tal como os dois anteriores que protagonizou. O que se passa na Croisette em Cannes tem inclusive o nome de A Câmara de Claire. Vê alguma ligação a Rohmer, que nos filmes ditos “de verão” tem um com o título O Joelho de Claire?
Para ser sincera, nunca gostei muito dessa comparação com Rohmer. Entendo de onde vem, mas acho que, no fim das contas, é algo muito diferente. Acho que é uma comparação fácil porque, como sabemos, nos filmes de Rohmer há muito diálogo. Além da forma como a linguagem está realmente em primeiro lugar em todos os filmes de Sang-soo, tal como em Rohmer, não acho que haja muito em comum. Não sou crítica de cinema, mas parece-me que Rohmer é muito mais racional. Tudo o que Sang-soo tem escrito é mais errático, mais poético. Por mais que eu adore Rohmer, acho que é uma comparação fácil dizer que Sang-soo será o Rohmer coreano.

"Um filme de Hong Sang-soo é um filme de Hong Sang-soo, não é como [Hirokazu] Koreeda, não é como qualquer outro cineasta asiático. E, diria — especialmente nos filmes que ele faz comigo, porque acho que há algo na nossa colaboração que faz com que eu me sinta sempre uma estranha — que revela as pessoas a si mesmas."

E qual lhe parece que é o papel da mãe de Inguk na economia da história?
Ela é muito importante no filme. Acho muito engraçada a maneira como Íris encara a rivalidade com a mãe, que é muito invasiva. Talvez o filho tenha uma certa dificuldade em afastar-se da mãe e decidir a sua própria vida, libertar-se da mãe. É como se fosse o fardo do passado das pessoas, da infância das pessoas, dos parentes das pessoas, o quanto isso pesa — nas pessoas,  nos laços familiares —, e de como é difícil afastarem-se disso, desatarem esse tipo de nós.

Representa também a necessidade imperiosa da sociedade em definir as pessoas, de colocá-las em gavetas, através da insistência da mãe em querer saber o passado de Íris.
Exatamente. Inguk fala muito sobre esses laços familiares e o modo de vida da sociedade, sobre a organização da sociedade, sobre a vida das pessoas. E, claro, a minha personagem não vem desse mundo. Ela simboliza uma espécie de liberdade. E ela revela, também, as pessoas a si mesmas através da forma como ensina línguas. É um meio-termo entre a bruxa e a fada.

A relação entre Íris e Inguk pode ser muitas coisas, todas as perspetivas estão em aberto. Não foi difícil para vocês, os protagonistas (a própria Huppert e o ator Ha Seong-guk) trabalharem essa relação?
É precisamente por isso que é tão interessante. Não é realmente uma relação amorosa. Quero dizer, talvez venha a ser uma relação amorosa, talvez continue a ser uma relação muito amigável. Depende da interpretação de cada um. Nestes filmes, às vezes trata-se mais de levantar questões do que de dar respostas.

Trabalhou alguns maneirismos físicos, como o andar?
Não trabalhei nisso, apenas o fiz. Espontaneamente. Claro que sabia o que estava a fazer. Íris tem uma certa maneira de andar, sim: um pouco desequilibrada.

Robert Wilson morreu na semana passada. Gostaria de dizer alguma coisa?
Sim, claro. Acho que ele foi um grande artista do século XX. Ele era realmente um mestre, um génio. E, claro, estou muito chocada com a sua morte. Mas o seu trabalho permanecerá, ninguém trabalhou na estética do teatro como ele. Ele inventou uma linguagem teatral única. A forma como ele trabalhava com luzes e silêncios… Tive o privilégio de ter feito três peças [Mary Said What She Said, um monólogo da rainha Mary da Escócia, apresentada no CCB no contexto do Festival de Almada; Quartet; e Orlando] e muitos outros trabalhos com ele — leituras e muitas outras coisas. Vou sentir imenso a falta dele. Ele era realmente incrível. Tinha o seu próprio mundo que, durante toda a sua vida, nunca parou de explorar. E era tão poderoso, nunca quis fazer outra coisa. Sabia como criar uma atmosfera. Amo-o profundamente. Era um grande, grande artista, era um poeta.

Em abril, vamos poder ver Bérénice, outro monólogo de uma figura histórica interpretada por si, no Teatro Nacional de São João, no Porto. O que podemos esperar desta Bérénice de Racine, encenada pelo italiano Romeo Castelucci?
Podem esperar uma grande obra de outro grande artista que é um romântico. Na verdade, há uma ligação muito profunda entre Romeo e Bob [Wilson]. Acho que ambos sabem como impor e criar o seu próprio mundo. Outra coisa que acho que eles têm em comum é a forma como, sabem, sabiam, exatamente o que é a abstração teatral, sem nunca imporem realmente essa abstração. Acho que é exatamente isso o teatro. São, eram, ambos mais experimentadores que encenadores.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.