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Morreu Robert Wilson, gigante do teatro experimental norte-americano. Tinha 83 anos

Este artigo tem mais de 1 ano

Encenador, dramaturgo e artista visual, era um nome cimeiro no teatro contemporâneo. De presença regular em Portugal, em março passou por Lisboa uma peça sua inspirada em Fernando Pessoa.

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dpa/picture alliance via Getty I

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Morreu Robert Wilson, um dos grandes mestres do teatro contemporâneo, particularmente junto das suas vertentes mais vanguardistas. Tinha 83 anos.

A notícia foi adiantada pelo Watermill Center, centro artístico por si formado no estado de Nova Iorque em 1992.

“Robert Wilson morreu tranquilamente hoje em Water Mill, Nova Iorque, aos 83 anos de idade, após uma doença breve mas aguda”, lê-se numa mensagem entretanto publicada no seu website oficial.

“Embora enfrentando o seu diagnóstico com olhos claros e determinação, sentiu-se compelido a continuar a trabalhar e a criar até ao fim. As suas obras para o palco, em papel, esculturas e retratos em vídeo, bem como o Watermill Center, perdurarão como legado artístico de Robert Wilson”, lê-se ainda na nota, que termina com a promessa de cerimónias de homenagem futuras.

Nascido em Waco, no estado do Texas, em 1941, Wilson chegou a estudar administração de empresas na Universidade do Texas, mas foi quando se mudou para Nova Iorque nos anos 60 que almejou a liberdade: não só a de seguir uma carreira ligada às artes e à arquitetura — formou-se no Pratt Institute, no Brooklyn —, como também a sexual, deixando de reprimir a sua homossexualidade até então manietada pela sua família e comunidade conservadoras.

“Quando eu estava a crescer, era um pecado ir ao teatro. Era pecado se uma mulher usasse calças. Havia uma caixa de oração na escola e, se víssemos alguém a pecar, podíamos pôr o seu nome na caixa de oração e, às sextas-feiras, toda a gente rezava por essas pessoas cujos nomes estavam na caixa de oração”, afirmou numa entrevista ao The New York Times.

Foi na metrópole então que deu os primeiros passos nas artes cénicas, buscando inspiração no trabalho coreográfico de gigantes como George Balanchine e Merce Cunningham, e formando o coletivo The Byrd Hoffman School of Byrds. A aclamação demorou pouco tempo a chegar, com peças como Deafman Glance (1970) e A Letter for Queen Victoria (1974) a serem celebradas dos dois lados do Atlântico.

No entanto, a verdadeira consagração chegaria em 1976, com Einstein on the Beach — ópera concebida com o genial compositor Philip Glass e a não menos brilhante dançarina e coreógrafa Lucinda Childs. A partir daí, deixaria uma marca indelével no teatro contemporâneo, principalmente na forma como fundia performance, luz e imagem, fruto da sua formação académica.

Ao longo de mais de 60 anos, construiu um repertório panorâmico, montando espetáculos que foram desde encenações de clássicos de Eurípides e Shakespeare até a obras de contemporâneos seus como Samuel Beckett, Heiner Müller e Eugène Ionesco — não esquencendo as óperas de Verdi, Wagner, Strauss ou Debussy. Nesse percurso, colaborou também com um número assinável de artistas, como William S. Tom Waits, Lou Reed, Ryuichi Sakamoto, Willem Defoe e Marina Abramović, entre muitos outros.

[Horas depois do crime, a polícia vai encontrar o assassino de Issam Sartawi, o dirigente palestiniano morto no átrio de um hotel de Albufeira. Mas, também vai descobrir que ele não é quem diz ser. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o segundo episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro aqui]

A sua ligação profundada ao teatro europeu fê-lo também passar por Portugal várias vezes. O documentário The Robert Wilson Experience, da RTP, situa as primeiras passagens pelo nosso país nos anos 60 do século passado, mas é na década de 1990 que ganha regularidade. Em 1993, no âmbito dos Encontros ACARTE, traz Dr. Faustus Lights the Light, libreto de Gertrude Stein, que sobe ao Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Um ano depois, Alice, com música de Tom Waits e libreto de Lewis Carrol, decorreu no Centro Cultural de Belém. Robert Wilson ficou ainda ligado às comemorações da Expo 98, ao colaborar novamente com Philip Glass, desta vez para conceber O Corvo Branco, ópera a partir do texto de Luísa Costa Gomes e que se estreou no Teatro Camões no mesmo ano da grande feira internacional. Em 1999, a dois anos da Porto Capital da Cultura, apresentou na cidade a ópera The Days before. A Portugal traria igualmente 4 santos em 3 actos, peça inspirada em Inácio de Loyola e Teresa de Ávila.

Nos últimos anos, os espetáculos de Robert Wilson foram chegando ao nosso país através do Festival de Teatro de Almada, como Mary said what she said, protagonizado por Isabelle Hupert, em 2019, no Centro Cultural de Belém, ou was sitting on my patio, em 2023, voltando a encontrar Lucinda Childs para uma encenação no Teatro D. Maria II.

A sua derradeira peça a passar por Portugal foi Pessoa — Since I’ve been me, em cena de 6 a 8 de março, onde o encenador foi beber às várias obras do autor português, inclusive aos seus heterónimos Alexander Search, Bernardo Soares, Vicente Guedes, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis — e onde figurou Maria de Medeiros no elenco.”Senti-me muito confortável no mundo de Pessoa. Senti uma profunda familiaridade entre a cabeça dele e aquilo que tento fazer como autor e como encenador com a luz, o tempo e o espaço — e com a liberdade de pensamento”, afirmou numa entrevista ao jornal Público.

Além do seu trabalho dramatúrgico, Robert Wilson também se celebrizou como artista visual, criando  desenhos, pinturas e esculturas que foram apresentados por todo o mundo em centenas de exposições individuais e coletivas.

Entre as muitas distinções que foi recebendo ao longo da vida, destacam-se dois prémios Ubu, um Leão de Ouro da Bienal de Veneza, um Prémio Olivier e Prémio Europa de Teatro. Não só foi eleito para a Academia Americana de Artes e Letras, como para a Academia Alemã de Artes, tendo ainda sido feito declarado Comendador da Ordem das Artes e das Letras em França e mais tarde Oficial da Legião de Honra.

“Robert Wilson foi uma das figuras mais radicais e poéticas do teatro contemporâneo”, recordou o festival Salone del Mobile.Milano, que acolheu na sua mais recente edição uma das derradeiras obras do encenador, Mother, uma visão da Pietá, de Miguel Ângelo, com música de Arvo Pärt.

Para Wilson, “o palco era um espaço abstrato, mental, construído”, afirma o festival italiano, que recorda as influências do teatro de Giorgio Strehler e Luchino Visconti na sua obra. “Uma ópera que rompe com todos os padrões tradicionais”, lê-se na página do Salone del Mobile.Milano. “Sem enredo, sem actos, sem árias. Apenas visões.”

Bob Wilson, como era conhecido, deu corpo a tudo. “Um palco é diferente de qualquer outro espaço. Detesto o naturalismo. Estar em palco é algo artificial. E quando se tenta agir naturalmente, parece artificial”, disse o encenador, citado pelo festival de Milão. Porém, “quando se aceitar [o palco] como algo artificial, torna-se mais natural.”

O Salone del Mobilie.Milano recordou a reação do poeta francês Louis Aragon, quando assistiu a uma das encenações de Bob Wilson, em 1971: “Nunca vi nada mais belo no mundo desde que nasci. Nunca nenhuma peça se aproximou desta, porque é ao mesmo tempo a vida desperta e a vida de olhos fechados, a confusão entre o quotidiano e a vida de cada noite. A realidade mistura-se com o sonho, tudo o que é inexplicável na vida… É o que nós, outros, que gerámos o surrealismo, sonhámos que podia vir depois de nós, além de nós.”

*com Lusa

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