Sentámo-nos a uma das mesas do café que Margarida Ferra refere no primeiro texto do seu novo livro, Saber Perder, na mezzanine, que serve também de sala de pequenos-almoços do hostel que se encontra na esquina em frente. Era lá, no café Chick & Sip, de vidraças altas a ocupar dois andares, que Margarida Ferra bebia a bica todas as manhãs, antes de o país e o mundo terem entrado em confinamento por causa da pandemia. Falava com o jovem Karim, paquistanês que já tinha vivido em Londres com o tio que explora agora o Chick & Sip e o hostel em frente, e que tinha um inglês melhor que o seu. Falava também com Puja. Entre confinamentos, chegou a passar dias a trabalhar à distância no café do Karim e da Puja, quando a internet falhava em casa. Este é o primeiro de seis textos que compõem o livro (ed. Companhia das Letras) e resultou da necessidade de Margarida Ferra voltar a escrever, desta vez em prosa, depois de dois livros de poemas publicados.
Viu que ia haver um workshop conduzido pela escritora e ex-colega de faculdade Susana Moreira Marques, intitulado Mais Perto do Mundo, e decidiu inscrever-se. Este texto veio a ser publicado em março de 2021 na revista Pessoa, da Casa Fernando Pessoa, onde trabalhou no departamento de comunicação depois de ter trabalhado na editora Quetzal e antes de ir para o Museu da Marioneta, sempre nos departamentos de comunicação. Agora, trabalha na Quinta Alegre, no Palácio Marquês do Alegrete, na Alta de Lisboa, “um projeto muito mais pequeno, de proximidade”. Cada um dos seis textos de Saber Perder é composto por uma sequência de fragmentos, ligados por um fio invisível que orquestra de forma bastante poética cada uma das narrativas. Os objetos, os lugares e as relações que criam são as personagens principais destas histórias.
Publicou dois livros de poesia e reuniu agora um conjunto de seis textos compostos por fragmentos, que são bastante poéticos. Foi mais difícil do que escrever poemas ou do que escrever os textos corridos, em prosa?
Organizei o pensamento por textos. Não tinha uma coleção de fragmentos que ia depois jogando “este fragmento entra neste texto”. Parti sempre para cada texto como um texto. O primeiro que fiz é o primeiro do livro, foi publicado na sequência de um workshop da Susana Moreira Marques sobre escrita ficcional autobiográfica. Depois fiz um outro, sem saber ainda que os ia casar. É o dos anéis que herdei. Foi uma encomenda do [festival literário] Correntes d’Escritas. Era um ano em que não podiam convidar pessoas [por causa da pandemia], fizeram-se as residências à distância, imaginava-se como é que seria se se estivesse lá.
A produção de pensamento para a prosa é diferente?
Sou a mesma pessoa, o pensamento é o mesmo. Não sei se foi para sempre, mas o facto de já não estar a escrever poesia… Quando escrevia poesia, tinha muito a noção “agora tenho o casaco de poeta”. Simultaneamente, trabalhava a comunicar livros, que era uma lógica de escrita completamente diferente, um circuito completamente diferente. Eram duas personas. Agora, neste livro, é muito mais tranquilo, porque as coisas estão muito mais juntas. E, de facto, como sou a mesma pessoa, há também aqui algumas das minhas preocupações sobre essa coisa dos objetos. Não sermos verdadeiramente donos dos objetos e eles passarem temporariamente por nós – que acho que acaba por atravessar o livro – é um pensamento que também está presente na minha ideia de museu.
Ideia essa que também espelha neste livro.
Exato. Tem a ver com esta coisa de os museus estarem a devolver objetos: olharmos para uma coisa e perguntarmo-nos porque é que está lá. Havia, de facto, estes pontos de ligação entre o primeiro e o segundo texto. No primeiro texto, havia também algo relacionado com a ideia de não pertencermos verdadeiramente a um lugar, essa ideia de uma certa…
▲ A capa de "Saber Perder", o novo livro de Margarida Ferra (Companhia das Letras)
Passagem.
Passagem, exatamente isso. E, daí para a frente, já fiz os textos com mais consciência de que estava a fazer um livro. Ou seja, pensei “tenho estes dois textos, será que consigo, a partir daqui, construir um livro?” Parti sempre para cada texto como uma unidade e trabalhei cada um. Foram viagens diferentes.
No workshop e na residência pediram-lhe para escrever especificamente em prosa?
O workshop era mesmo prosa. Foi um bocado um gatilho. Vi o anúncio do curso no verão de 2020 e pensei “é isto!”. Estava mesmo a precisar de voltar a olhar para a escrita. Foi um desbloqueador. No workshop das Correntes d’Escritas, Casa Vazia, que resultou no texto Dois Anéis, um Missal e um Busto Talvez de Bronze [o segundo do livro], o que me encomendaram foi um conto. Disse-lhes “não vou fazer ficção”. Se fosse uma coisa de não-ficção e apresentasse um texto ficcionado, com coisas que não eram reais e que eram inventadas, acho que era perverter o compromisso com o leitor. Agora, assim, se eles pedem coisas inventadas, e eu não inventei… quer dizer, há sempre um lado de invenção, não é? A memória tem sempre a sua camada de ficção.
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Refere também muito no livro as notas que tirava. São diferentes das que tirava para servirem poemas?
Tiro muitas notas. Mas, na verdade, sou muito desorganizada com as notas que tiro. Ainda desejei — e um dos textos até diz isso — ir a cadernos antigos buscar ideias: “nalgum dia quero escrever sobre isto, algum dia quero escrever sobre aquilo”, e vou anotando. Mas não consegui visitar esses cadernos. Para este livro, o que visitei foi a memória de ter escrito em algum momento essas notas. Quando escrevia poesia, era a mesma lógica.
Mas servem caminhos diferentes. Ou não?
Há uma coisa que distancia esta escrita da da poesia, que é o fôlego. Senti necessidade, a certa altura, de demorar mais tempo a chegar a uma imagem, a uma ideia, a partir para os textos. Dava por mim quase sempre a pensar “vou escrever um texto sobre viajar, sobre o tempo”. Cheguei a escrever um texto sobre como é que o tempo passa fisicamente, as marcas físicas que deixa. Muitas vezes, o texto ia para outros lados e eu ficava até um pouco frustrada. A poesia também consegue fazer isso, no sentido em que, por vezes, um verso ou um poema pode conter muita coisa, abre muitas leituras. Queria demorar mais tempo a transmitir uma só ideia. Procurava um bocadinho a respiração da crónica. Quando estou a ler uma crónica de que gosto verdadeiramente, sou levada pelo texto. A pessoa que escreve a crónica está um bocadinho mais no controlo da escrita do que na poesia, que oferece uma possibilidade de amplos sentidos que são depois criados pelo leitor. Neste caso, acho que os leitores também continuam a poder criar os seus sentidos, mas é uma coisa um bocadinho mais… vamos juntos na viagem. E, para isso, precisava de mais tempo. Aquilo que aproxima a poesia da escrita deste livro são essas unidades, esses fragmentos. Acho que um dia vou deixar isso.
Será natural?
Tem a ver com esse caminho que vem da poesia, também. Tem a ver com as leituras que andei a fazer nessa altura e com muita coisa que escrevi por fragmentos. É um mecanismo que é fácil, talvez por ter escrito poemas. É uma boa forma de transição. Acho que é isso. Gostava de, quando voltasse a escrever, escrever já em texto corrido.
E os outros textos do livro?
Esses já foram feitos com outra consciência. O último foi conscientemente um epílogo. Ou seja, quis fazer um texto que fechasse, que atasse as pontas soltas.
Que linhas cosem os seis textos? E porquê aquela ordem?
Ordenar não foi difícil. Também tinha as minhas notas deste livro que eram umas notas conscientes disso mesmo. Tinha noção para onde queria ir. Às vezes, uma ideia já não cabia naquele texto, a forma do texto já estava fechada. Então ficava ali, de fora. Depois, ia ver o que é que tinha sido preterido. Talvez pudesse entrar, mas não eram fragmentos, eram só imagens.
Ou ideias, ou marcas, ou objetos.
Sim, listas de objetos perdidos: “Isto é importante”. A história, por exemplo, da minha filha com o futebol estava anotada, ela disse que não podia jogar futebol. Eram coisas que eu ia guardando e, quando não cabiam, eu voltava a elas.
No último texto, os fragmentos são maiores. Foi intencional?
Se não me dissesse, nem sabia. No primeiro, tenho a ideia de ter uns fragmentos mais pequenos do que os outros. Mas nesse último não tive consciência. Se calhar é essa a evolução. Embora os textos do meio não tenham sido escritos cronologicamente por essa ordem, o primeiro foi realmente o primeiro e o último foi realmente o último.
A pandemia marcou um antes e um depois, na sua vida?
Não queria nada fazer um livro sobre a pandemia.
Mas tudo o que conta vem dali.
Vem tudo dali. Foi o que marcou a minha necessidade de escrever. Não só a pandemia, mas também um assunto delicado. Todas as famílias são infelizes à sua maneira, como dizia o Tolstói. Toda a gente sofreu com a pandemia à sua maneira, mas, na minha família, caiu uma pedra, em determinado momento. O meu marido andava a fazer exames de prognóstico e eu apanhei COVID-19. Muito provavelmente, foi ele que a apanhou ao fazer os exames e estava assintomático, porque estávamos [juntamente com os três filhos] fechadíssimos em casa e eu era daquelas que cumpria sempre tudo. Só saía para ir ao supermercado, ia de máscara, fazia tudo direitinho. Era uma loucura ir às compras. E era uma alegria ao mesmo tempo. Não é que fosse com medo, porque até ia feliz por sair. Mas cumpria as regras todas. E, portanto, acho que devo ter apanhado do meu marido. Como ele como estava numa situação de prognóstico, teve de sair naquela noite de casa. Foi para um AirBnB emprestado. E eu fiquei sozinha, sem saber como é que ia evoluir a doença, se ia ser uma coisa mais complexa ou não. Sozinha, com os três miúdos, fechada em casa. E o Zé no AirBnB, coitado, sozinho, a fazer as várias sessões de tratamento médico. Só queria que aquilo acabasse para poder recebê-lo em casa. Foi violento. E serviu para pôr uma série de coisas em perspetiva. A verdade é que foi uma história que correu bem.
A escrita ajudou-a nessa reflexão de olhar para trás?
Não sei se a escrita me ajudou. Nesse verão, fizemos umas férias mais tardias, fomos à Grécia. A casa Fernando Pessoa ia inaugurar a nova exposição e eu não podia tirar férias antes daquela inauguração. Foi uma loucura. Foi um bocado violento também, o Joãozinho [o filho mais novo] estava ainda no carrinho. Eu realmente senti que estava a perder um bocado o controlo sobre a realidade. E o facto de fixar essas coisas em texto teve um efeito organizador. Organizou o caos.
Depois da pandemia passámos a relacionar-nos com o medo de uma forma diferente, apesar de já trazermos medo da grande crise económica de 2008?
Tenho pensado muito nessa crise, no que foi para pessoas que tinham a nossa idade em 2008. Outras pessoas terão vivido de outra maneira, diferente. Mas a quantidade de pessoas que queriam emigrar… Nessa altura separei-me. E, portanto, separar-me em plena Troika significou que os meus filhos mais velhos sejam pessoas muito ponderadas nos seus gastos, mas também muito disponíveis para alegrias gratuitas. O medo começou a ser instrumentalizado de uma forma diferente porque não senti que o medo fosse um instrumento da Troika, foi o efeito em nós da crise de 2008. Desde a pandemia é que se confirmou a eficácia política do medo – e agora estamos a viver isso de uma forma super-presente.
Sentiu uma necessidade física de escrever?
A escrita, tal como a leitura, a esse respeito acho que são pares – agora, por exemplo, tenho-me refugiado muito na leitura –, implica uma pausa do momento, um movimento de desaceleração. Foi mais isso do que… também há uma componente física, mas acho que foi mais isso do que propriamente uma necessidade física de gerir ansiedade.
Escrever não a acalma?
Pelo contrário, até me energiza.
Dá-lhe adrenalina.
Exato, sim. Por isso é que é complicado para mim escrever à noite, até altas horas, prefiro acordar cedo.
Qual é a sua rotina de escrita?
Até conto isso um bocadinho no livro. Começar um texto é difícil, mas, uma vez começado, a pessoa parece que já está nessa velocidade e, em qualquer bocadinho, consegue escrever.
Nas partes do livro em que fala sobre o processo de escrita, é interessante perceber que não fala da escrita precisamente sem falar da leitura, como se fossem as duas faces de uma mesma coisa.
Até leio menos do que penso. Mas é mesmo uma seta com dois sentidos – e não é reta. Há uma escritora norte-americana de quem gosto muito, escreve sobre as mais variadas coisas. Gosto muito do ritmo do pensamento dela, é a Rebecca Solnit. Tem uma citação a que recorro muitas vezes para explicar essa ideia, porque é muito poética. Ela tem um livro precisamente sobre o poder das histórias, está esgotado em português, mas há em inglês, foi publicado na Quetzal no tempo em que eu trabalhava lá. O título em português era Esta Distante Proximidade e é sobre empatia, sobre o poder da história. É lindíssimo. Em inglês é The Faraway Nearby. A Rebecca Solnit diz que um livro é como uma coisa em potência – ela não usa esta palavra, mas no fundo é esta a ideia –, que depois é atualizada na leitura. Diz que é como uma partitura ou uma semente, é uma sinfonia que só acontece na cabeça do leitor, é um coração que só bate no peito dos outros. Isto é super-poderoso e sinto mesmo que é isso. Podemos escrever as maiores coisas, mas elas só vão existir porque a escrita tem esse poder de ser um gesto de exteriorização, de pôr cá para fora. E pôr cá para fora, para fora de nós, é sempre em direção a um outro. Seja uma outra pessoa, um outro estado ou mesmo eu daqui a uns anos. Posso dizer dos diários “isto é só para mim”, mas daqui a dez anos não sou a mesma pessoa. Os diários são recados que deixamos a nós próprios para o futuro.
Refere no livro várias questões ligadas à teoria do texto. Reminiscências das aulas de hermenêutica de Maria Augusta Babo, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas?
Estou sempre a dizer isto à Susana Moreira Marques. Estou sempre a dizer “Susana, as aulas da Babo… isto ficou cá gravadíssimo”. Na altura, achava aquilo interessante e tal, mas sempre com uma certa leveza. A verdade é que as coisas ficaram gravadas.
Falou há pouco no género jornalístico da crónica. O que separa a crónica da literatura de não-ficção?
Só cheguei a essa ideia depois de fazer o livro, ela não esteve sempre presente. Acho que é essa respiração de que falava há pouco. Não é crónica do ponto de vista formal, mas mais do ponto de vista do sentido.
Do reparar?
Do reparar, exatamente. Mas as coisas em que reparo são as mesmas em que reparava quando fazia os poemas, portanto, não são muito…
Mesmo tematicamente?
Tematicamente, talvez não. Mais as coisas reais em que reparo: a pedra numa gaveta, a pedra na rua, essas coisas são as mesmas. O olhar acho que é mais ou menos o mesmo. Porque a poesia que fazia também era muito sobre coisas banais, como há muita gente a fazer isso. A maior parte das pessoas, na verdade. Não posso dizer essas coisas, senão ofendo os poetas.
Neste livro, as pessoas não são os sujeitos destas histórias, as personagens centrais são os objetos, são as situações. Esta leitura faz sentido para si?
Sim, parece-me que sim. É também uma forma de proteger as pessoas, as minhas pessoas, as pessoas da minha vida. As lá de casa, tentei protegê-las. Não quero ser uma vampira, de as pessoas estarem comigo e não saberem o que é que vai acontecer. E não é só por isso. É porque as pessoas servem na medida em que podem ser ilustrações, estar no fundo de um fresco, fazer parte de um consciente fotográfico. Aquele vulto que passa lá atrás…
▲ "Começar um texto é difícil, mas, uma vez começado, a pessoa parece que já está nessa velocidade e, em qualquer bocadinho, consegue escrever"
FOTOS: ANA BRÍGIDA
A relação com a fotografia analógica e com a fotografia digital de que fala no livro. Escrever sobre os objetos fê-la vê-los de forma diferente ou apenas fixou aquilo que já sabia deles?
Só fixei aquilo que já sabia. Já ritualizava um bocadinho alguns objetos, não demasiados, mas alguns. Essa coisa dos anéis, de só usar aqueles anéis em dias especiais. Agora fui à Póvoa [de Varzim, ao festival Correntes d’Escritas] e levei o anel da minha avó. Agora já só tenho um. Quando a minha filha fez 20 anos, ganhou o outro. Foi bonito porque ela já sabia a história, já tinha lido o livro. Só não se lembrava que ia recebê-lo, porque é distraída.
Passagem de testemunho.
Gosto muito de receber coisas em segunda mão, gosto muito de dar coisas em segunda mão, livros. Adoro que alguém me ofereça um livro, até mesmo com uma assinatura.
Escreve nos livros?
A lápis, não uso caneta. Mas dobro páginas.
Dobra?
Não me importo nada. Acho que são marcas de leitura. E não me importo nada de um dia, se aquele livro deixar de fazer sentido para mim, o oferecer a uma pessoa, com essas marcas.
Normalmente, os livros em que deixamos muitas marcas não queremos separar-nos deles.
Estou a lembrar-me de alguns livros que recebi em segunda mão que conhecia e que realmente faziam mais sentido estarem na minha mão. Alguns assinados, até.
É importante fazer os livros circular?
Termos menos superfície, menos posse sobre as coisas. Sempre comprei muita roupa em segunda mão. Também passo a minha roupa, os meus filhos fazem o mesmo.
A história ligada ao café em que nos encontramos nasceu de uma necessidade de trabalhar sobre a questão da imigração?
Acho que não pensei nisso assim. Agora o tema é mais evidente para nós. Na altura, não pensávamos tanto. Foi mais a coisa de como é que se aprende uma língua. Isso foi o que me fez reparar primeiro. O Karim era muito amigo do meu filho. Quando descobrimos essa coincidência, foi uma alegria.
O que vos levou a quererem encetar conversa?
Há uma alegria… em português não temos uma expressão como em inglês… há uma alegria nesse small talk. Viver os dias aqui no bairro, para mim, é ir também ao mercado do Forno do Tijolo, que está cada vez mais reduzido e agora já só tem a senhora do peixe. Cumprimentar as pessoas, fazer ali uma conversa que não leva a lado nenhum e que só acontece na interação entre pessoas. Esse tipo de conversa nas redes sociais já é outra coisa, é pouco interessante. Há tempos, ouvi um podcast precisamente sobre o small talk. Referia que as pessoas tímidas são melhores nessa atividade.
É tímida?
Somos todos, não? Mas, sim… Também apareço em público. No meu trabalho, faço muitos acolhimentos. Temos um ritual de receber as pessoas. Faço isso sem problema algum.
Mas essa é uma função que está a desempenhar.
Numa festa, sou mais tímida, sim.
Queria perguntar-lhe também sobre os jogos de futebol noturnos em campos urbanos e de toda a poética que dali extraiu.
Quando ia correr à noite, ia para a escola Nuno Gonçalves [na Penha de França, em Lisboa]. Corria à volta do campo porque era um sítio seguro, o encarregado da escola já me conhecia e deixava-me entrar. Estava a correr e os rapazes estavam a jogar no campo. Hoje em dia as raparigas também jogam e são cada vez mais. Só miúdas ou equipas mistas. É uma alegria saber isso. Mas não estava ali de caneta na mão com esse modo ativado. São coisas que chegam mais tarde. No caso estava a pensar em que medida é que me posicionaria se a escrita fosse a minha arena: qual seria a minha posição em campo? Seria só na bancada? Seria como jogadora profissional? Convivi muito com escritores a nível profissional e não sei o que seja viver da escrita.
Financeiramente?
Financeiramente e não só, porque não me parece que seja uma grande liberdade. As coisas que é preciso fazer, coisas que são subsidiárias da escrita, mas que garantem que se consigam rendimentos, os encontros, as encomendas. Não quer dizer que também não saiba o que é isso. Mas posso escolher. Estou muito mais livre. Para mim, não viver da escrita é na verdade uma liberdade. Gosto muito das pessoas que vivem da escrita, mas para mim não ia servir.
Faz também uma analogia entre a escrita e a vitrine do museu. A escrita resgata uma dada realidade da realidade?
Sim, congela. Por um lado, corta e congela, porque não contamos tudo, contamos um pouco, mas há um antes e há um depois. É feito um recorte. E, ao mesmo tempo, em quem vê, em quem está do outro lado, em quem olha, em quem lê. Cria toda uma possibilidade de sentidos e de interpretações. Quando lemos um livro, é um bocado como essa coisa das peças num museu. Não sabemos em que mochila é que vai cair aquele livro, o que é que as pessoas já leram antes, qual é a sua vida, se é um grande leitor. Não sabemos o que é que vai acontecer, que sentidos é que vão ser construídos ali.
Fala no livro em perder o chão, quando se refere ao embarque num avião. Escrever um livro é também um bocadinho isso?
Sim, é uma coisa que pomos no muro e vamos ter de a largar.
Diz no livro que não gosta de perder o chão.
É verdade, não gosto nada, mas por acaso na escrita estou à vontade com isso. Não é coisa que me apoquente. Já com a poesia também é assim. Os livros são dos leitores. Às vezes as pessoas veem coisas que eu não vi. Tenho mais retorno das leituras dos livros de poesia, as pessoas são sempre super-queridas, gostaram sempre muito. São muito poucas as pessoas que me dizem na cara que não gostaram. Felizmente, tenho alguns amigos desses. São aqueles a quem posso mandar os livros antes de os enviar para a editora. Esses amigos são preciosos.
Fechar e não mexer mais, não há essa dificuldade?
No meu lançamento, não fiz uma apresentação, mas uma conversa. Eu e a [escritora] Joana Bértholo. A última pergunta que a Joana me fez foi precisamente “o que é para ti vencer na escrita?”. Estive muitos anos sem publicar nada, sem assumir que queria fazer alguma coisa. Escrever é acabar, é assumir que está ali o meu melhor. “Neste momento não consigo fazer melhor do que isto. Pronto, é o que temos. Esperemos que gostem.” Assumir que vai ficar por ali e depois fazer o processo de edição, de melhoramentos. Já vi quem escrevesse muito rapidamente, mas tem sempre alguma revisão.
Sempre soube que ia ser escritora? Escreve desde miúda?
Sim, Sim, pequenos textinhos, continhos.
Poesia?
Poesia, sim, de vez em quando. Mas menos. Sempre achei que ia escrever ficção. Mesmo quando publiquei poesia foi uma surpresa, quase… “ah, eu faço poesia? Sim, eu faço poesia.” E por isso também nunca acreditei tanto na poeta.
Os seus livros de poesia foram bem recebidos.
Sim, foram super-bem recebidos. E depois há esse efeito de quando se publica: se as pessoas gostam, é preciso escrever mais. Por isso é que o livro de poesia Sorte de Principiante se chama Sorte de Principiante.
Diz-se uma pessoa otimista. Porquê este título, Saber Perder?
Acho que é também uma ideia de desprendimento, de desprendimento das coisas e, no caso do jogo, do prazer de jogar, do prazer da escrita e da construção do texto, sem estar à espera de estar num campeonato. É só um processo, um caminho em que ninguém é derrotado.