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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Maria do Céu Guerra: "Não há arte sem liberdade. Como é que os artistas a usam? Como eles quiserem"

As agressões no 10 de junho e as reações. O teatro enquanto expressão política e a História como inspiração inacabável. O palco de hoje e as memórias com 50 anos. Entrevista com Maria do Céu Guerra.

O sal que brota da humidade da parede que acompanha as escadas do foyer até ao bar no primeiro andar lembra umas frondosas barbas de Adamastor, a quererem sair por debaixo dos cartazes de algumas produções d’A Barraca lá pendurados. O interior do edifício de arquitetura e decoração art déco, situado na praça de Santos – que foi palco de insultos e agressões por um grupo de neo-nazis no dia 10 de junho, sobre atores que chegavam ao Teatro Cinearte para a última representação do espectáculo pel’A Barraca Amor é Fogo que Arde Sem Se Ver, baseado na figura de Camões, e que foi igualmente palco de uma manifestação de apoio ao ator hospitalizado e à causa anti-fascista –, encontra-se agora iluminado pela claridade tépida do sol da Lisboa da manhã que consegue entrar pelos vidros foscos da porta da entrada.

Maria do Céu Guerra chega com a sua rafeira de pelo desgrenhado, a Custódia, e começa por contar um episódio no veterinário, ucraniano, que perante o comentário da dona a dizer que a sua cadela era “linda”, respondeu de forma lacónica com um “linda, não, engraçada”. As gargalhadas ajudaram a descontrair o ambiente para a sessão fotográfica antes da entrevista, que veio a decorrer na primeira fila da sala de espectáculos, onde ainda estavam montados os adereços da peça baseada nesse poeta épico que foi “o grande fixador da língua portuguesa”: um baloiço de madeira pintado de vermelho à esquerda, com umas verduras atrás a sugerirem um jardim, e, à direita, vários bancos e uma mesa com jarro e copos de barro em cima a comporem um ambiente de taberna.

Esta foi uma conversa sobre os acontecimentos recentes e uma história que tem tanto de atual como de distante — a da própria Barraca, que se confunde com a sua fundadora.

▲ Maria do Céu Guerra no palco da Barraca com Fernanda Lapa e João D'Ávila; no Teatro Experimental de Cascais com Zita Duarte

Tem nos ombros o keffiyeh, o lenço que simboliza a resistência palestiniana. O que tem a dizer sobre o que se passa no Médio Oriente?
Trouxe este lenço da Palestina. Fui à Palestina em 1987, aquando da Primeira Intifada. Não sei muito bem como nem porquê. Era um grupo de jornalistas, de gente da política, várias pessoas. Penso que éramos 10 pessoas.  Fomos a Israel e andámos a acompanhar durante 10 dias a Primeira Intifada. Achámos que aquilo era violentíssimo. Era uma brincadeira de crianças ao pé do que se está a passar agora. Era uma luta, uma guerra, uma oposição… mas era uma coisa suportável, embora já houvesse traços de grande violência. Mas não era uma violência de um governo contra o outro.

Que tipo de violência era essa?
Uma violência quotidiana. Meninos fardados de militares sentavam-se no chão em Jerusalém para impedirem os velhotes de passar. Eram coisas deste estilo, coisas desagradáveis. E já havia muitas fotografias de pessoas com folhas de cedro como moldura. Eu não percebia o que era, diziam-me que eram os palestinianos que tinham morrido.

A que propósito foi este grupo de portugueses a Israel?
Não sei muito bem qual foi a iniciativa, convidaram-me para ir. Eu já tinha uma grande simpatia pela causa palestiniana e aceitei logo, nem perguntei porquê. Soube mais tarde que a primeira pessoa convidada foi a Natália Correia. A Natália disse que não podia ir, porque nessa altura estava a fazer não sei o quê, e deu o meu nome. Quando eu era mais nova, ela ajudou-me, ensinou-me a dizer poesia. Ela ia muito à Casa da Comédia, havia traços de grande simpatia entre nós. Ela deve ter dado alguns nomes e deu o meu. E eu fui, com grande alegria. Conheci aquela realidade e vim de lá arrasada. Fomos à faixa de Gaza, vimos crianças a serem atropeladas, uma delas por um jipe israelita. Vimos polícias a guardarem a praia para não deixarem ninguém passar, que é uma coisa que não se percebe. Fomos a sindicatos, fomos a prisões, fomos a hospitais. Tivemos um médico a explicar-nos o que eram os tiros de fragmentação dentro do corpo de uma criança, por exemplo. Na altura, era moda disparar para os olhos. Havia muitas crianças só com um olho. Isto em 1987. Fiquei para sempre apoiante da luta dos palestinianos.

E artistas, conheceu?
Conheci grandes artistas. Não pessoalmente, mas conhecia a qualidade artística daquela gente, a sua inteligência, a sua sensibilidade. Vieram cá a convite d’A Barraca.

Quando?
Há uns sete anos. Eram de Jenim, de um campo de refugiados. E foi impressionante. Jenim é na Cisjordânia e eles nunca tinham visto o mar. Aquilo é um território muito pequeno. Nunca tinham visto o mar porque não podiam ir à praia. Não têm livre circulação. Eles ficaram tão felizes por vir. A Barraca colocou-os no Inatel de Oeiras e marcou-lhes trabalho só para o fim da tarde. Estiveram cá acho que dez dias. Estivemos em vias de não poder fazer o espetáculo, porque Israel dificultou o visto de saída a um dos elementos. Por maldade, só para dificultar. A gente todos os dias à espera que ele viesse e ele sem poder vir. Isto é um comportamento criminoso. Mas também é criminoso calarmo-nos, deixar passar. Isto tem de ser julgado. Não são só os tribunais que têm de julgar os comportamentos. Individualmente, as pessoas também têm de ter a sua opinião sobre o comportamento dos outros – dos países, dos adversários, até dos amigos. Não podemos ser neutros. Hoje, esta questão de Gaza já passou – se é que alguma vez teve uma dimensão política – para uma questão de humanidade. Mas não acho que seja racismo. Os palestinianos não são diferenciáveis fisicamente das outras pessoas dali. A gente está em Jerusalém e tanto vê palestinianos como vê israelitas e não são diferentes. Como é evidente, há características, mas não são diferentes.

"Não, a História não pode acabar, porque, quando a gente julgar que o fim da História está a acontecer, vai surgir, de outra parte do mundo, outro tipo de pessoa, que vai fazer com que a História continue, num lugar onde a gente pensa que ela nunca continuaria. Portanto, a História vai mudar, seguramente."

Diria que é uma questão de perceção, do Ocidente para fora?
Não, é a ganância e a falta de moral que se foi criando nas pessoas. Isto é falta de moral, isto é falta de ética, é falta de capacidade de um ser se tratar a si próprio como um ser humano: “Eu sou um ser humano, não posso fazer isto. Não posso tratar assim as outras pessoas”. Mas, ao longo dos séculos, os seres humanos foram aprendendo que podiam fazer tudo: “Quanto mais poder eu tiver, piores coisas posso fazer, melhor posso fazer aquilo que me interessa, melhor posso conseguir os meus objetivos”.

Está a falar de poder absoluto?
A correria para o poder absoluto, sim. Para o poder que não é julgado, que não é avaliado e que tem que se mostrar enquanto tal. E isso é o fim do ser humano. Temos um grande exemplo do que é o último e mais feio estádio do ser humano, Donald Trump. Tudo o que não se deve ser está ali resumido. A violência mental, o exercício do poder absoluto, a mentira, a falta de respeito por todos. Tudo o que ensinamos aos nossos filhos, aos nossos netos, aos nossos amigos, a não serem. E como é que este homem consegue ser o rei do mundo? Como é que podemos acreditar que pela via da inteligência – ele é doido, mas não é estúpido –, vamos conseguir chegar a objetivos válidos? Como é que o ser humano, inteligente, razoável, bem-intencionado politicamente, pode esperar alguma coisa de bom daquele ser humano?

É um novo Fim da História?
Não, a História não pode acabar, porque, quando a gente julgar que o fim da História está a acontecer, vai surgir, de outra parte do mundo, outro tipo de pessoa, que vai fazer com que a História continue, num lugar onde a gente pensa que ela nunca continuaria. Portanto, a História vai mudar, seguramente. Estes seres que agora temos à nossa frente são seguramente os últimos exemplares de um horror que reconhecemos como o nazismo, o fascismo, a violência dos reis. Isto vai mudar – estou convencida –, mas não é connosco. Somos melhores do que eles, mas pertencemos a um universo que os inclui. É terrível termos de conviver com esta gente. Mas o mundo vai continuar, o mundo não vai acabar. O que vai acabar é esta maneira de viver, estou absolutamente convencida disso. Os portugueses estão revoltados, por exemplo.

Porquê?
Portugal estava a ter um bom rumo, um bom caminho, mas com muitas falhas. Normalmente, há falhas nos universos políticos, mas também há boas intenções e coisas a correrem bem. Portugal foi atacado por uma espécie de vespas que andam em todo o mundo a ensinar o nazismo, que passam por fazer acordar nas pessoas todos os seus descontentamentos – e amplificá-los. Desse modo, conseguem ter uma grande audiência de pessoas a ouvi-lo. Mas não estão todas. Portugal não é um país rico e há muitas injustiças. A Justiça está a léguas do que deve ser e isso revolta as pessoas. O descontentamento deve gerar protesto, deve gerar luta, mas sã. A luta política é isso mesmo. Não é, de repente, criar uma horda de gente que está disposta a acabar com o regime, acabar com a democracia. E ainda estamos para ver qual será o perigo deste novo partido da oposição. E a direita não aguenta estar mais tempo sem um domínio e sem um poder verdadeiramente absoluto, que é aquilo que deseja.

▲ "Aquilo que é só para distrair também tem o seu espaço [no teatro]. Acho é que nunca chega a ter a mesma grandeza"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Não considera que existe uma diferença entre a direita e a extrema-direita? E que haverá uma responsabilidade da esquerda em indiferenciar ambas?
Há uma responsabilidade da esquerda em ter muitas vezes governado mal e em ter acreditado que o seu poder não era absoluto, mas era eterno. Que o povo ia gostar sempre da esquerda, o que não é verdade. Os fascismos e os anos de direção no outro sentido deixaram marcas. E as pessoas, num momento de escolha, estão hoje mais perto de culpar a esquerda do que de se solidarizarem com ela. Onde acho que há muita responsabilidade é na Justiça. A maior responsabilidade está na Justiça, não está a ter unhas para a sua tarefa. O que sinto é que não há vontade de moralizar, de ensinar às pessoas o que se deve e o que não se deve fazer.

“O teatro girava muito à volta da luta contra a censura”

A Maria do Céu Guerra viveu este ciclo de 50 anos de regime democrático. Para quem viveu todo o clima de esperança e euforia do 25 de Abril, como se sente hoje?
Sinto uma grande tristeza. Tenho medo de estar a ser injusta quando olho à volta, mas são muito poucos aqueles que eu acho capazes de corajosamente virar isto.

Mas acredita na tal “viragem” de que fala?
Acredito. Acho que há gente muito boa e muito séria, mas não são muitos. Há muita gente na esquerda, mas a esquerda está a ser ensinada quase a não ser radical, a deixar andar. E há coisas com que não se pode transigir. Eu simpatizei com o Montenegro quando ele disse “não é não”, e respeitei-o. Agora vamos ver se esse “não” é mesmo não: “não” às medidas de extrema-direita, “não” às medidas abusivas, “não” a tudo o que esta gente quer fazer do nosso país. Parte das coisas são inconstitucionais. Portanto, mexer na Constituição por vontade de uma extrema-direita é inadmissível. Precisamos da firmeza do “não é não”, o país precisa dessa firmeza. O parlamento português, que teve momentos tão altos e tão interessantes, com bons combates políticos… E agora é isto, parece uma feira. Um país que não respeita a sua mais alta instituição, que é o parlamento, que é o que representa o povo português… Não é o Presidente nem é o primeiro-ministro, é o parlamento. E, no entanto, faz-se daquilo uma peixeirada. A esquerda é, muitas vezes, transigente. E este presidente da Assembleia devia ter apressado o passo para rever, de alguma maneira e tanto quanto possível, comportamentos passíveis de serem considerados anticonstitucionais, que levassem à expulsão obrigatória. Não se pode viver assim, não se pode discutir um qualquer assunto assim.

Há muita polarização, mas no pós-25 de Abril também existia.
De facto, não sei se nessa altura toda a gente acreditava no coletivo. Acho que está na hora de se ouvir os que acreditavam. Os que acreditavam levaram muitos anos a serem calados, a serem silenciados. O 25 de Abril foi uma aventura extraordinária dos capitães e da nossa gente a aderir e a levar a revolução ao colo, sem mortes, sem violência, sem ordinarices, sem ofensas.

Mas não é o mesmo povo?
Não são as mesmas pessoas, se calhar. As outras estavam em casa, naquela altura. Maravilhosos tempos se passaram, sem nada que desmerecesse a qualidade do povo português. Sem nada que denunciasse os portugueses como ignorantes, como brutais, como capazes de fazer mal aos outros. Os primeiros anos foram anos anos de bênção, de limpeza da alma, de vontade de fazer bem. Depois, começaram a vir ao de cima os que estavam calados, os que estavam com medo, os que no primeiro ano não falaram, os que no segundo ano não falaram.

Como atriz, como viveu aqueles tempos novos ao mesmo tempo que fazia teatro?
Já se fazia antes. O teatro girava muito à volta da luta contra a censura. Tenho um livro organizado por um grande sabedor do que era o teatro e do que se passava nos meandros, o Luiz Francisco Rebello, que se chama Combate por um Teatro de Combate [ed. T.N.D. Maria II]. É um livro que nos leva a conhecer o que se foi passando no tempo da censura.

"No teatro havia a força que nos impelia a levar a cena coisas que nos magoavam, que queríamos que fossem respeitadas, que queríamos que fossem ouvidas. Na maior parte das vezes, não se conseguia. Era uma luta de todos os dias."

Nomeadamente no teatro universitário?
Sim, mas também nos outros. Até o D. Maria II teve grandes lutas. A senhora dona Amélia Rey Colaço, que era uma mulher de direita, fez uma luta muito grande contra a censura, exigindo que determinadas peças fossem levadas a cena. Ela era diretora do Teatro Nacional e tinha voz. Às vezes, não conseguia. Ela fez uma luta enorme, por exemplo, para que o Bernardo Santareno, grande dramaturgo português, fosse levado a cena. Ele era sempre proibido. Brecht foi sempre proibido. Sartre foi sempre proibido. E muitos, muitos outros. [Alfonso] Sastre, também. Fez-se na altura um documento em que praticamente todo o teatro assinou a exigir o fim da censura. Pessoas completamente de direita. Portanto, havia esse caldo. A seguir ao 25 de Abril, a Laura Alves fez a peça — Um Zero à Esquerda — virando completamente a sua maneira aparente de pensar. Ela fez parte dos signatários do abaixo-assinado a pedir ao Salazar para acabar com a censura no teatro. No teatro havia a força que nos impelia a levar a cena coisas que nos magoavam, que queríamos que fossem respeitadas, que queríamos que fossem ouvidas. Na maior parte das vezes, não se conseguia. Era uma luta de todos os dias. E não era uma luta por falta de dinheiro, era uma luta por aquilo que mais nos interessava na nossa vida. O que nos atirava para uma posição de esquerda, naturalmente.

Deve conhecer muitas histórias fascinantes desse tempo.
Quando veio cá a Maria Della Costa fazer Brecht [A Alma Boa de Se-Tsuan, em 1960, no Capitólio, Lisboa], houve um grupo de gente de direita que foi ao teatro impedir que se fizesse a peça. Atiravam garrafinhas de mau cheiro, gritavam, durante o espectáculo. Ela esteve cá várias vezes. Trouxe Brecht, trouxe Sartre, trouxe brasileiros. Acabou por ser proibida. O espetáculo acabou por não ir mais a cena e ser um escândalo nacional. Mas a maioria das pessoas queria a liberdade, o teatro queria a liberdade, os escritores não queriam mais os seus livros proibidos. Eram muitos os que eram retirados. Depois, toda a gente sabia que a corrupção era tão grande que os PIDEs iam ao Parque Mayer vender os livros que apreendiam a um quiosque que havia lá, que os vendia de volta ao público. Era uma coisa suja. Um bocadinho como o que está a acontecer e é preciso ser limpo. Mas não é com comportamentos fascistas que se limpa uma sociedade. É com bons exemplos, é com uma boa Justiça, é com a gente a sentir que a sociedade pode melhorar, que pode fazer as pessoas viver em situações de de maior igualdade, com melhores condições. Essa reivindicação é muito política.

O teatro é necessariamente político ou é arte per se?
O teatro é arte. E a arte traz em si mesma o direito da liberdade. Não há arte sem liberdade. Depois, como os artistas a usam, é como eles quiserem. É como eles sentirem que se estão a exprimir. Para mim, a denúncia do crime, das coisas terríveis até onde o ser humano pode chegar, político ou não, é matéria interessante sobre a qual se deve fazer arte, se deve fazer teatro. Aquilo que é só para distrair também tem o seu espaço. Acho é que nunca chega a ter a mesma grandeza.

É o conflito que está na essência de um enredo?
É. E é esse conflito que é interessante. A dimensão do conflito pode ser mais moral, mais social, é o que a cada um lhe interessa falar. O grande valor é que a sociedade não impeça que cada artista fale, toque, mexa nas coisas que mais lhe interessam e que mais lhe interessa que a sociedade ouça. É isso que os artistas mais desejam, é que a sua voz seja ouvida.

O site d’A Barraca refere que as peças representadas têm um cariz social e político. Estas duas palavras definem o que tem sido a linha dramatúrgica da companhia desde 1976?
Sim. Vivi nove anos de trabalho com censura. Durante esse tempo, uma das peças que gostava mais de ter representado chama-se A Noite dos Assassinos, de José Triana, que foi cortada. Foram feitos quatro ou cinco ensaios com os censores no teatro. Na primeira fila, com as namoradas. Eles levavam namoradas para as sessões de censura.

Em que teatro foi?
No Teatro Experimental de Cascais. E não tínhamos coragem de lhes dizer “só os senhores é que podem assistir”, embora tivéssemos muita vontade de o fazer, porque pensávamos que talvez assim…

▲ "Chapéu de Palha de Itália", com Mário Viegas; "Menino ou Menina", com Orlando Costa; "Calamity Jane"; e "Amor é um Fogo que Arde sem se Ver"

J. Marques - 10

Fossem mais tolerantes nos cortes.
São aqueles enganos, não é? São aqueles enganos. Algumas seriam esposas, a mim tanto me fazia, se eram namoradas ou esposas. O que me interessava é que iam com pessoas que não tinham o direito de estar ali. Depois saíam dali e iam para o Hotel Baía, em Cascais, discutir a peça.

Entre eles.
Entre eles. A gente é que sabia que iam e íamos lá bisbilhotar, ver se aquilo demorava, se não demorava, passar por outra porta, aquelas coisas que se faz. Fizeram isso quatro ou cinco vezes. Foi sempre proibido. E nós sempre a pedirmos um recurso para irem lá outra vez. A peça acabou proibida. Foi uma das primeiras peças a ser logo representada, a seguir ao 25 de Abril. E não foi por nós. Já na revista, fiz três espectáculos e tive sempre problemas com a censura. As coisas melhores eram cortadas. Houve uma cena muito bonita do João Perry sobre a guerra do Vietname. Só lhe deixaram ficar a cantiga que ele cantava. Não pôde dizer nada, não pôde exprimir nenhuma ideia, nenhuma lógica, porque é que aquela personagem estava ali a cantar aquela cantiga. Eu tive um número inteiro cortado. Fizemos recurso, repuseram metade, mas disseram que aquela metade só podia ser vista em Lisboa. Foram muitas coisas, durante esses nove anos, que nos iam magoando. Nós éramos muito jovens, estávamos a sair das universidades.

“Camões chega onde nós não conseguimos chegar”

Quando surgiu a ideia d’A Barraca?
Comecei a pensar fazer A Barraca ainda antes do 25 de Abril. Era uma coisa que eu sonhava. Lembro-me que comecei a trabalhar n’As Troianas do Sartre, que é uma adaptação d’As Troianas do Eurípedes. Era sobre a guerra colonial na Argélia. Aquilo era a voz das mulheres sobre a situação de guerra e sobre os que morreram. Mandei a peça para a censura e eles cortaram tudo o que dizia respeito à guerra. Não se percebia nada. Naquela altura, lembro-me de pensar para mim mesma, e disse-o várias vezes: “Nunca serei capaz de ser diretora de uma companhia enquanto houver censura”. Era de tal maneira violento relativamente àquilo que desejávamos fazer…

E o que é que desejavam fazer, em termos de programação, n’A Barraca?
Fazer aquilo que fizemos. Quando comecei a pensar que sim, que queríamos fazer A Barraca, foi para levar peças de grande qualidade a cena, temas que interessassem as pessoas, em que a cultura portuguesa pudesse ser falada com verdade e não com aquele panegírico que fazemos, de que somos sempre os heróis e sempre extraordinários. Foi perceber realmente o que é que durante aqueles nove anos me magoou tanto não fazer.

O José Cardoso Pires era sempre proibido. O Render dos Heróis foi proibido. Porque é que a verdade sobre a nossa gente e o nosso povo e a nossa história tem de ser escamoteada, tem de ser mentida? Ganha-se o quê com a mentira? Foi muito isso que nos interessou desconstruir, desde o Gil Vicente até aos autores do nosso tempo. Foi por isso que fizemos o Fernão Mendes Pinto. A Peregrinação é um desmascarar das intenções e das práticas dos descobrimentos e do colonialismo. A guerra colonial foi uma coisa que magoou muito Portugal e não se podia falar disso. Os nossos irmãos, os nossos namorados, os filhos das nossas mães, iam para a guerra, estavam lá. E, portanto, nós precisávamos, o teatro precisava, de sentir-se útil, de dizer a verdade. Foi o que fez A Barraca andar.

Sentir-se útil a dizer o que diz hoje em palco, difere daquela altura?
Nada. Por exemplo, o que nós estudámos para fazer este Camões [o espectáculo Amor É Fogo que Arde Sem Se Ver] tem a ver com todos os camonianos que escreveram depois da censura ter caído. Ou seja, até essa altura era muito complicado dizer a verdade sobre Camões. Porque a verdade sobre Camões é uma coisa que os governos e a censura portuguesa não quiseram saber. Quiseram mascarar Camões.

Quiseram usar Camões?
É isso mesmo, usar Camões. Camões foi um revolucionário. Dentro da escrita épica em que só se falava dos heróis, dos heróis, dos heróis, Camões mostra que as descobertas tiveram muitos pecados e acabaram com o pecado mortal de D. João III de dar menos importância à navegação, à sabedoria do mar, do que deram os reis anteriores e que, por isso, tinham conseguido chegar longe. Com D. João III, aquilo foi transformado numa coisa de amigos, de parentes, ao ponto de, a seguir a’Os Lusíadas, termos uma coisa chamada História Trágico-Marítima. O que havia para contar eram desgraças. E isso o fascismo português nunca permitiu que fosse visto dessa maneira. De um ano para o outro, o mar ficou mais perigoso. Camões não era grande fã de Vasco da Gama. Ele grande fã da sabedoria náutica. A meio d’Os Lusíadas, ele deixou de falar de Vasco da Gama. E o que, para ele, passou a ser importante foi a língua portuguesa. O que ele fez para se criar uma língua portuguesa com uma gramática, com uma sabedoria própria, nada de cópias, nada ao acaso… Os Lusíadas passaram a ser o grande livro da língua portuguesa. E ele, Camões, considera-se o herói da fixação de uma língua portuguesa grandiosa. Luís de Camões faz uma coisa interessantíssima que nós nunca aprendemos na escola. N’Os Lusíadas, as últimas estrofes de cada um dos 10 cantos – às vezes 3 ou 4, às vezes 4 ou 5, às vezes 2 estrofes – eram críticas. Chamavam a atenção para coisas que não estavam bem, que ele dizia serem conselhos ao jovem rei. Aliás, o Fernando Lopes-Graça fez um concerto só com essas partes cantadas. Um concerto ético interessantíssimo. Já o fim d’Os Lusíadas é o Camões a falar de si próprio. É uma mistura maravilhosa, entre um grande poema épico e um grande poema lírico. Porque só os líricos é que falam de si próprios. Quando se diz que Camões era um poema, era isto. “Ah e tal, era isto e aquilo, era namoradeiro, era bêbedo…”

"Este lado de Camões agarrado ao seu país, agarrado à sua rua... era aí que ele escrevia os seus versos, era aí que ele conseguia ser ele. E isso é tão interessante e, ao mesmo tempo, tão inquietante, que faz dele um ser muito misterioso – que nós não conseguimos e não quisemos tentar descobrir."

Davam aura à personagem?
E eram mentira, porque não se pode escrever tantos versos, não se pode escrever Sobre Rios que Vão, não se pode descrever aqueles dez cantos sem tempo e dedicação. Morreu aos cinquenta e tal anos. Como foi a vida dele? Em que parte do seu tempo andou a navegar?

O que é que a fascina tanto em Camões, além de ter sido o grande fixador da língua portuguesa?
Foi uma figura extraordinária. Aquilo que ele escreve… ainda hoje fico fascinada com os sonetos de Camões, com as canções de Camões. No outro dia, li uma coisa muito interessante. No Brasil, onde existem muitos camonianos, saiu numa revista um artigo grande que se chamava De Camões a Herberto Hélder. E o Herberto, que não se preocupava muito com essas coisas, pediu para não fazerem isso. Tinha vergonha de se ver numa capa comparado ao grande poeta de Portugal. Isso é uma coisa de uma grandeza… o Herberto é ele próprio um grande poeta. Não era imerecido que lhe fizessem isso. O que é belíssimo é ele não ter admitido. Para mim, Camões… Talvez eu tenha aprendido com o meu filho, ele adora poesia, lê muita poesia, sabe tudo sobre poesia. Tem uma livraria de poesia chamada Poesia Incompleta. Um dia, com 20 e poucos anos, perguntaram-lhe se ele gostava mais de Pessoa ou de Camões, quem seria o grande poeta dele. Eu esperava que ele, moderno, com tantos temas contemporâneos postos na poesia de Pessoa, com tantos temas sobre a liberdade, com tantos temas interessantíssimos, dissesse “Pessoa”. Mas disse “Camões”! A paixão por Camões… Camões chega onde nós não conseguimos chegar. E consegue ser tão moderno que ainda hoje nos toca, nos comove, nos emociona, nos provoca admiração.

Houve, portanto, a preocupação de passar essa paixão.
Andámos vários anos, o Hélder [Mateus da Costa] e eu, a ler e a estudar, a discutir. A encenação foi exatamente a tentativa de dar às pessoas um Camões que era simultaneamente humano, apaixonado, jovem, desafiador e um grande e secretíssimo artista.

Secretíssimo porquê?
Porque ainda era jovem, ainda estava por vir. Ele não se explicava. Ele era o que era e nunca ninguém percebeu aquele ser que escreveu aqueles milhares de versos n’Os Lusíadas, que escreveu Sobre os Rios que Vão – que já é outra onda, outro pensamento, mais adulto, mais cristão. As canções… As canções do Camões são das coisas mais belas e difíceis, e aí sim líricas, confessionais, assumidas. A canção décima, a canção sétima, a canção nona, são coisas muito belas. E como é que há um país com tanta gente culta na corte, que ia para o estrangeiro e no estrangeiro era considerada filósofa, historiadora, poeta, e deixaram que este homem acabasse por morrer na pobreza absoluta, absolutamente abandonado. A única mão que se lhe estendeu foi a de um negro que o acompanhou, que lhe ia buscar comida, o ia tratando. Como é que é possível que aquele homem, para ter com quem conversar, tivesse de ir à igreja de São Domingos [na baixa lisboeta], onde ele reviu e mudou muito do seu pensamento religioso? Estava sozinho, completamente sozinho.

Qual diria que foi verdadeiro motivo da desgraça de Camões?
Primeiro, foi ser imediatamente percebido como um grande poeta, o que lhe desencadeou uma veia um bocadinho libertária, à frente dos tempos.

▲ "De ano para ano, queremos fazer aqui coisas, marcando a nossa memória e a memória das pessoas com as muitas coisas interessantes que aqui viram"

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Não era controlável.
Exato. Depois, a questão dos namoros e das paixões também contribuiu para ele ser olhado com desconfiança e maldade. Ele foi simplesmente afastado daquele poder que tinha realmente poder sobre as pessoas. E também, estranhamente, Camões nunca conseguiu deixar Portugal. Como Damião de Góis conseguiu, por exemplo. Damião de Góis acabou morto, perseguido pela Inquisição. Este lado de Camões agarrado ao seu país, agarrado à sua rua… era aí que ele escrevia os seus versos, era aí que ele conseguia ser ele. E isso é tão interessante e, ao mesmo tempo, tão inquietante, que faz dele um ser muito misterioso – que nós não conseguimos e não quisemos tentar descobrir.

Não afirmar Camões não é enriquecedor?
Nunca afirmámos as histórias de Camões perante as coisas que não são certas, que são lenda. Embora tenhamos deixado passar coisas que se contam, nunca quisemos impingir histórias de Camões. A história do livro se perder no rio, a história da namorada se perder no mar. Tantas, tantas coisas que se perguntam e que, no espetáculo, a personagem dele se calava. A dada altura, ele diz: “Entre a poesia e a verdade, há um grande mal-entendido”. E é verdade. A poesia não precisa de nada da verdade. Trabalhámos nesse sentido, trabalhámos na revolta dele, na fragilidade dele. Ele esteve preso uma data de vezes. Ele escondia os poemas e só os mostrava a meia dúzia de poetas, a meia dúzia de amigos: ao Diogo do Couto, ao Garcia de Orta. Nada daquilo era mostrado, nada era conhecido. Era o interior da vida daquele homem que era o seu maior bem. Essa coisa de nós não tentarmos ir atrás do que se diz, de deixar tudo em aberto, está muito no espetáculo. Quando não sabemos como responder, respondemos com a poesia dele.

“Sempre que vem cá um presidente da câmara, explicamos que era bom que se fizesse aqui uma obra”

O Cine-Teatro A Barraca está aqui em Santos, um bairro muito diferente hoje de quando vieram para cá. Que lugar é este que A Barraca ocupa numa cidade em transformação tão grande?
Em primeiro lugar, acho que o património tem o direito de ser respeitado. E nós, os que trabalhamos na cultura, temos obrigação de trabalhar para esse respeito. Quando viemos para esta casa, ela estava transformada num armazém. Isto era um cinema que, depois de ter fechado, era um lugar que recebia encomendas vindas por via marítima. Coisas grandes, grandes cargas de frutas. O dono estava doente e tinha isto entregue a um guarda. E nós vimos uma coisa que era interessantíssima e, ao mesmo tempo, uma ruína.

Vieram para cá em que ano?
1997.

Nessa altura ainda era um armazém?
Sim, sim. Mas tinha coisas lindas, como aquele palco que está ali tapado. É uma beleza, tem umas bonequinhas de gesso, coisas lindas. A gente começou a perceber que este era, talvez, um dos únicos exemplares de art déco que ainda existem no país. E começámos a levar essa responsabilidade a sério, não deixar cair isto. Isto era de um senhor que era também o dono dos cinemas Europa e Monumental que, por acaso, era familiar de um excelente arquiteto chamado Rui Pimentel. Excelente arquiteto e excelente cartoonista. E de uma excelente historiadora chamada Irene Pimentel, nossa amiga. De repente, recebemos um telefonema que nos perguntava se a gente queria pensar em mudar-se para aqui. Andávamos à procura de um lugar para mudar A Barraca, do Rato, porque iam tirar-nos aquele bocadinho de espaço que tínhamos, que era de um banco. Viemos ver este espaço, que estava um desastre, e resolvemos levar o desafio a sério e arranjar dinheiro. Não para fazer uma obra, porque nunca teríamos capacidade como grupo de teatro para fazer uma grande obra aqui – uma obra necessária –, mas uma obra que o tornaria num lugar possível. Sem estragar nada, sem deixar que ninguém estragasse nada. E, de ano para ano, queremos fazer aqui coisas, marcando a nossa memória e a memória das pessoas com as muitas coisas interessantes que aqui viram. E aqui estamos, com um contrato que nos garante o espaço durante aproximadamente 50 anos e depois, eventualmente, mais, se a companhia se mantiver. Sempre que vem cá um presidente da câmara, explicamos que era bom que se fizesse aqui uma obra, que não estragasse, que permitisse que isto continuasse a ser um espaço de art déco interessantíssimo. As janelas, o palco, o bar, as escadas. Este edifício é todo paralelo: as escadas, as varandas. Ele esteve a ver e disse que este edifício tinha mesmo que ser conservado.

O edifício é hoje propriedade da câmara.
É. Quando viemos para cá, o que estava apontado como património era a fachada. Isto pertencia, na verdade a duas pessoas. O edifício era do Pimentel, o dono do Monumental e do Europa. Mas o terreno era de outro proprietário. Cada um considerava que metade era seu. Um dia, disse a este último: “A fachada é património”. Ele respondeu-me: “Põe-se aqui uma bomba e lá se vai o património”. Esse senhor teve a coragem de dizer isto. Toda essa arrogância entusiasmou-nos a dar alguma luta. A gente viu ser destruída a Casa da Comédia [em 2021]. A Casa da Comédia era uma coisa linda. Muita gente se estreou ali, deu ali os seus primeiros passos. Eu, por exemplo. A Manuela de Freitas, a Fernanda Lapa, o Norberto Barroca, o Santos Manuel. Tantos, tantos. O próprio Filipe La Féria. E foi obra de dois senhores: o doutor Fernando Amado, que era professor de Estética no Conservatório, e o Osório de Castro, dramaturgo, que tinha uma loja de móveis. Os dois compraram aquela lojinha, que era uma carvoaria, e fizeram um teatro. Estreámos com uma peça do Almada Negreiros. Foi muito bonito.

"Quando viemos para esta casa, ela estava transformada num armazém. Isto era um cinema que, depois de ter fechado, era um lugar que recebia encomendas vindas por via marítima. Coisas grandes, grandes cargas de frutas. O dono estava doente e tinha isto entregue a um guarda. E nós vimos uma coisa que era interessantíssima e, ao mesmo tempo, uma ruína."

As insuficiências técnicas do edifício sobrepuseram-se às memórias do que ali se viveu.
Gostaria que não acontecesse o mesmo com o Cinearte. Estamos a fazer por isso.

Que espectáculo vão estrear agora?
Estamos a fazer uma coisa que já foi escrita há bastante tempo pelo Hélder [Mateus da Costa]. Sobre o Rudolf Hess, aquele grande amigo do senhor Hitler. Achamos todos que é uma peça muito bem escrita. E é sobre o nazismo. É altura de pôr em cena um bom texto sobre o tema.

Como se chama?
O Príncipe de Spandau. É o texto necessário para agora. É o texto que desmonta tudo o que é o nazismo por dentro, por fora.

E sobre o que trata, em concreto?
Rudolf Hess foi um dos enormes apoiantes de Hitler. Foi julgado, condenado e preso em Spandau. Escreveu uma obra em que se percebe como que é que ele pensava, em que se percebe o que é realmente o pensamento nazi. Defendeu os valores de Hitler até ao fim. Ficou preso a vida toda, não foi condenado à morte, mas acabou por se enforcar.

Já estava previsto estrear antes das agressões aos atores d’A Barraca na noite de 10 de junho por neo-nazis?
Sim, claro. Esta peça já tinha sido levada a palco, há muitos anos, por outro ator. Temos estado a pegar em textos do Hélder, que trabalha n’A Barraca há 50 anos. Alguns já foram levados à cena há tanto tempo e são tão interessantes que faz sentido voltar a fazê-los. Quando começou esta onda de direita pela Europa toda, começámos a pensar fazer O Príncipe de Spandau outra vez.

Como é a cenografia?
Gostava que o ciclograma em fundo estivesse bem esticado, para se atirarem projeções de coisas que remetessem para aquela prisão de Spandau onde o tipo esteve, coisas do nazismo. Não quer dizer que a peça seja obrigatoriamente representada como uma coisa muito realista, mas há coisas do horror nazi que são interessantes ressuscitar. Hoje em dia, as pessoas nem sabem o que foi o nazismo. Os jovens não sabem. E é muito importante que os jovens saibam.

As pessoas vieram para a rua manifestar solidariedade depois daquelas agressões no 10 de junho.
Sim. Estavam aqui duas mil e tal pessoas.

Algumas notícias referiram-se a centenas de pessoas.
É curioso, os jornais falam em duzentas e tal. Duzentas e tal foi em Coimbra, 150 em Faro. Aqui, tivemos duas mil e tal pessoas. Era desde o fundo da rua de um lado ao fundo da rua do outro. Era realmente muita gente. Mas esses números não os dizem.

Porquê, na sua opinião?
Porque as coisas estão infiltradas de gente de extrema-direita. Tem que ser isso, só pode. Porque é que a gente vê numa televisão a carinha toda laroca do Adérito [Lopes, o ator agredido hospitalizado] e vê a dos nazis a passarem por aqui e a irem-se embora com uma nuvem de névoa em cima da cara? Pelo amor de Deus, quem precisa de proteção é o Adérito, somos nós, as pessoas normais, que podem apanhar com uns tipos destes em cima.

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