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Niklas Frank, filho do governador da Polónia nazi: "Sou totalmente contra a pena de morte. Mas, para o meu pai, foi a decisão acertada"

Em 1987 foi publicado o livro que o antigo jornalista escreveu sobre o pai, nazi que cooperou com o Holocausto. Falámos com o autor de "O Meu Pai: Uma Vingança", agora editado em Portugal.

O pai foi enforcado faz este mês oitenta anos. Niklas tinha 7 e vivera até então como um “príncipe num castelo”: o filho do ministro da Justiça da Baviera durante o Terceiro Reich e governador-geral da Polónia, integrante do círculo mais próximo de Hitler. Publicado pela primeira vez em 1987 e editado agora em Portugal (ed. Zigurate), o livro O Meu Pai: Uma Vingança é uma longa carta que o filho de Hans Frank — conhecido como “o carrasco da Polónia” — lhe dirige, fruto de muitos anos de pesquisa, consulta de documentos e entrevistas feitas a quem o conheceu.

No livro, fala da vida íntima, familiar e política do pai, denuncia a vida de corrupção sistemática como forma de enriquecimento ilícito da elite nazi, em que a lei se dobrava aos interesses da vida de luxo que levavam. Descreve os meandros do poder, onde chega a referir, por exemplo, que o pai era pouco dado ao trabalho, à semelhança do que veio agora afirmar em relação a Hitler um livro da autoria do alemão Philipp Ruch, Der Rückfall (A Recaída, em tradução literal). Pormenoriza as atrocidades cometidas pelos nazis, chamando-os de “cobardes” e “sem perdão”, lembrando, sempre, os milhões de judeus — e não só — inocentes levados para as câmaras de gás, mas referindo também as purgas do próprio sistema, que se livrava de opositores ao regime sem qualquer dó.

Fala do avô, advogado, expulso da profissão, manipulador de mulheres. Fala da mãe, calculista e ambiciosa, amante de peles e que simplesmente as usurpava, ou porque pertenciam a judeus a caminho do campo de concentração, ou porque no mercado de Varsóvia ninguém se atrevia a pedir-lhe dinheiro por elas. Também ela, Brigitte Frank, foi protagonista de um livro de Niklas (2005), intitulado Meine Deutsche Mutter (Minha Mãe Alemã, numa tradução literal). Num tom magoado, zangado e satírico, O Meu Pai — Uma Vingança é um livro contra o silêncio.

▲ Título: "O Meu Pai: Uma Vingança" | Autor: Niklas Frank | Tradução: Pedro Serpa | Editora: Zigurate | Páginas: 328

Este mês de outubro marca os 80 anos desde que o seu pai morreu, após os julgamentos de Nuremberga. O que tem a dizer sobre este marco?
Era a noite de 16 de outubro de 1946, e sei que ele merecia a pena de morte. Sou totalmente contra a pena de morte. Mas, para o meu pai, foi a decisão acertada, na minha opinião.

Tinha apenas sete anos. No início do livro, descreve que sentia uma espécie de prazer ao contar as noites que faltavam até à sua morte. Mas, naquela altura, não sabia grande coisa sobre o que ele tinha feito. Como explica esse sentimento?
Naquela altura, penso que por volta de 1945, os americanos que ocuparam a Baviera após a guerra publicavam jornais. Nesses jornais, havia fotografias de cadáveres, montanhas de cadáveres de judeus mortos nos campos de concentração. E debaixo dessas fotografias estava sempre escrito: “Polónia”. Sempre pensei que a Polónia fosse propriedade privada da família Frank, especialmente do meu pai. E, de repente, ele estava ligado àquelas montanhas de cadáveres. E isso causou-me, diria eu, um choque que me marcou para toda a vida.

Ainda tem a foto do seu pai morto?
Sim, mas não no bolso do casaco.

Porquê?
Para ter a certeza de que ele está mesmo morto. Por outro lado, se olhar para a fotografia, de repente vejo-o a rir, a sorrir, com um sorriso de orelha a orelha, porque ele vai vencer. Acho que a sua maldita ideologia, ou a maldita ideologia de Hitler e de todos os outros criminosos, está agora a vencer novamente na Alemanha.

Já lá vamos. Disse no seu livro que, quando era adolescente, não procurou saber muito sobre o seu pai. Como era viver na Alemanha do pós-guerra? Como era a vida naquela altura, tal como se lembra?
Na adolescência, eu estava num colégio interno. Ninguém se atrevia a perguntar “por favor, conta-me o que realmente aconteceu”, “o que viveste durante o regime de Hitler?”, porque, no mínimo, já não te davam o jantar.

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▲ Brigitte, Hans e Niklas Frank: um retrato de família

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Quando foi que sentiu a necessidade de investigar, de investigar aprofundadamente sobre o seu pai?
Durante toda a minha vida fui muito curioso. E assim, quando cresci, aos 15, 16, 17 anos, comecei a questionar todas as pessoas que conhecia da família e do meu círculo de amigos. Comecei a perguntar-lhes: “como era realmente o meu pai?”, “o que é que ele fez?” E tenho de confessar que nunca comi tantos bolos, porque todas as senhoras e todos os homens me diziam: “Oh, isso já foi há muito tempo, por favor, pára com isso. Queres mais um pedaço de bolo?” O silêncio deixava-me cada vez mais curioso. Quanto mais velho ficava, mais curioso ficava em relação a esse maldito silêncio. Porque, por outro lado, o antissemitismo na Alemanha não tinha desaparecido, estava apenas escondido.

De todas essas fontes, documentos e pessoas com quem entrou em contacto, qual ou quais o surpreenderam mais, lhe revelaram o facto mais surpreendente sobre o seu pai?
Ninguém foi realmente importante ao ponto de me ter dito algo verdadeiramente especial. Tentaram descrever o meu pai como uma pobre vítima e que ele nunca teria feito aquilo. Mas quanto mais lhes fazia perguntas, mais coisas vinham à tona: como o seu casamento era mau, quantas namoradas tinha, que amava muito mais o seu uniforme do que a vida das outras pessoas e que amava verdadeiramente — estava realmente apaixonado  — por Hitler, querendo sempre agradá-lo. Além disso, enquanto governador-geral — e, já agora, enquanto governador-geral da Polónia ocupada —, era politicamente responsável por todos os crimes cometidos pelos alemães e austríacos no Governo-Geral.

Descreve-o como um cobarde, é o adjetivo mais recorrente que usa no livro para descrevê-lo.
Sim. Era uma pessoa com uma excelente formação. Falava, por exemplo, latim fluentemente. Sabia, desde o início, que tinha ajudado a cometer crimes, inclusive durante o chamado período de paz antes de setembro de 1939. Sempre soube exatamente o que se passava, mas o seu amor por Hitler e a sua carreira eram, para ele, mais importantes. E isto, para mim, é pura cobardia. Ele poderia ter sustentado facilmente a sua família, com os seus cinco filhos, como um advogado normal, mas, por outro lado, queria ter todo o luxo em que adorava viver e não se importava minimamente com vidas humanas. Poderia ter-se demitido de todos os seus cargos e levado uma vida normal. Mas não o fez, e isto, para mim, é a maior cobardia.

Há uma parte no livro em que descreve que ele tentou evitar que os comandantes da cúpula das SA — Sturmabteilung [tropa de assalto nazi] fossem mortos durante a Noite das Facas Longas. Diria que é o mesmo argumento que muitos nazis levados a julgamento usaram, o de que estavam a cumprir ordens e que não podiam ir contra o sistema?
Sim, é verdade. Mas todos sabiam muito bem o que se passava. Até os melhores soldados abdicaram da própria consciência. Não podiam dizer nada. Estamos a cometer crimes sangrentos.

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▲ O governador da Polónia entre a elite nazi: aqui ao lado de Himmler (em pé)

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Descreve como era o seu avô, a sua mãe, a vida íntima da sua mãe e do seu pai. Por que sentiu necessidade de falar sobre a vida privada da sua família, juntamente com a vida pública e política do seu pai?
Quis mostrar como uma família completamente normal estava a perder a moralidade. Fosse por acaso, fosse planeado, fosse por vontade de Deus. Como filho nascido nesta família, achei que era muito importante dizer que qualquer família pode perder a moralidade. Também a minha mãe era assim. Descrevi-os a todos.

Está a falar da banalidade do mal de que falava a filósofa judia Hannah Arendt?
Conheço essa frase, mas não concordo com ela. Matar nunca é uma banalidade. Eles sabiam exatamente o que estavam a fazer, esconderam-no e continuaram a matar. Por isso, não era uma banalidade.

Outra coisa bastante interessante que se retira do livro é a de que havia uma corrupção sistémica por parte da elite política. Escreve que era possível vê-la em cada pormenor da sua vida de luxo que levavam, do dinheiro e bens que roubavam.
Sim, sem dúvida. Éramos o exército mais corrupto, a invadir todos os outros países. E todas as pessoas e tudo o que roubaram aos judeus, aos judeus alemães.

Há uma frase no livro em que diz que adora a Alemanha, mas que não confia nos alemães porque eles não têm qualquer empatia. Por que razão acha que não têm empatia?
Porque, se se esconde algo, isso transforma-se em veneno. E, se o veneno se acumular durante tempo suficiente — e já são cerca de 80 anos —, torna as pessoas agressivas. E é exactamente isso que os alemães estão a ser agora. Não estamos a repetir um Holocausto do passado, mas vamos voltar a fazê-lo.

Porque faz estas afirmações com tanta certeza?
Temos, pelo menos, um partido vencedor da extrema-direita, da extrema-direita extremista. Vamos entrar noutra ditadura. Para mim, isso é certo. Nos próximos cinco, dez anos. E nós, alemães, devíamos saber melhor. Porque fomos o único povo do mundo que fez o Holocausto. E não queremos ouvir mais nada sobre esse Holocausto. As pessoas estão cada vez mais agressivas por lhes ser lembrado em todo o mundo que foi um Holocausto. Por isso, já não querem ouvir falar nisso. E a razão é que todos os alemães, mesmo os mais de extrema-direita, têm imagens de judeus nus e mortos na sua mente. Todos. E ninguém, como eu fiz durante toda a minha vida, trocou essas imagens bestiais pelos rostos dos seus entes queridos. Não consegue imaginar quantas vezes eu e a minha mulher levámos a nossa filha e os nossos três netos a ver a câmara de gás.

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▲ Niklas Frank no julgamento de Nuremberga, onde seria condenado à morte

picture alliance via Getty Image

Porquê?
Estávamos ali sentados a tentar imaginar como seria, como nos sentiríamos, se, nesse momento, tivéssemos a nossa amada filha nos braços e, chegados à rampa de Auschwitz, eles de repente a levassem e a conduzissem para a câmara de gás. Se fizéssemos todos isso, seriam talvez milhões a sentir esse sentimento inacreditável de desespero, essa morte da justiça feita ao povo judeu, que era inocente e que nós matámos. Este exercício, diria eu, nenhum outro alemão o está a fazer. Quando dou aulas ou palestras nas escolas — já há cerca de 30 anos, desde que este livro foi publicado, em 1987 —, conto-lhes sempre esta história. E olho para os rostos dos jovens à minha volta. Todos eles fecham o semblante. Não querem seguir-me no exercício. E todos eles amam os seus pais, os seus amigos, os seus tios, irmãos e irmãs. Mas ninguém o faz. A Alemanha, tal como o meu pai era, é cobarde.

Porque faz essa acusação?
Há políticos que se mantêm em silêncio. Recorrem sempre ao argumento da nossa responsabilidade pelo que fizemos aos judeus. E isso também não passa de cobardia. Deviam dizer que o que o governo israelita está a fazer é, na verdade, um assassinato em massa. Isso é certo. Digo sempre isto, mesmo em público.

Qual é a sua opinião sobre o que está a acontecer em Gaza?
Os alemães poderiam ter aprendido com o Holocausto. O que está a acontecer em Gaza deve-se ao facto de Israel ter agora um governo totalmente criminoso. Todos eles deviam ser levados a tribunal, mas não são. É realmente horrível o que estão a fazer.

Ainda sobre o silêncio: o Niklas fez tudo menos esconder-se. Isso ajudou na vida, de alguma forma?
Praticamente nada, porque as vítimas continuam vivas comigo. Não há um único dia em que não pense nelas e em que não sinta o desespero que devem ter sentido. A minha mulher morreu há quatro anos e meio, de cancro. Ela lutou durante cerca de quatro anos. Uma vez, depois de mais uma cirurgia, eu estava sentado à porta de casa, a beber uma cerveja, e chorei imenso. De repente, na minha cabeça, surgiu Auschwitz. E, por incrível que pareça, isso confortou-me. A minha mulher e eu pudemos viver uma vida muito longa. Ela morreu aos 81 anos, mas pudemos viver muito tempo, pudemos até passar por esta maldita doença. E isso tirámos a todas aquelas pessoas inocentes. Sim, admito que este conforto não durou muito tempo. Mas é assim que penso e que me sinto.

É muito emotivo no livro, isso transparece na forma como escreve e nos adjetivos quase usa quando se dirige ao seu pai. Não receia que toda essa emoção acabe por se tornar mais importante para o leitor do que a história? A linguagem pode superar-se ao conteúdo?
Escrevi este livro para revelar publicamente como lidar com os pais. Como lidar realmente com eles. E não para escrever um livro sem qualquer emoção. Isso nunca poderia ser feito por um filho ou uma filha, certo? Por isso, abri-me, sim. Todas aquelas palavras, como pode imaginar, o editor queria cortá-las. E eu disse: “Se não for assim, não quero ter nada a ver com isto”. Isto é importante: eu escrevi um livro político. Para acordar as pessoas e pô-las a dizer “sim, estivemos sempre em silêncio”, “nunca perguntámos aos nossos pais o que se passava, o que aconteceu durante o Terceiro Reich”. Nisso, devo dizer que falhei. Por outro lado, devo ter acertado em algo, porque recuperei os direitos da editora ao fim de 15 anos e, imprimindo este livro por conta própria desde então, vendo cerca de 1.000 exemplares por ano. E nunca faço publicidade. Deve estar a espalhar-se de boca em boca. É muito interessante.

▲ Niklas Frank: "Isto é importante: eu escrevi um livro político. Para acordar as pessoas e pô-las a dizer 'sim, estivemos sempre em silêncio'”

Por falar em esconder: Alice Weidel, do partido de extrema-direita alemão AfD [Alternative für Deutschland], é contra os imigrantes e a adopção por casais do mesmo sexo, mas é casada com uma mulher oriunda do Sri Lanka, têm dois filhos e vivem na Suíça. Como explicamos esta contradição entre o que faz e o que diz?
Tenho de lhe dizer isto: quando a AfD chegar ao poder, a Weidel já não estará lá. Tenho a certeza absoluta. Ela é agora uma mulher poderosa. A AfD ocupa cargos de topo. Ela é muito dura nos seus discursos, no Bundestag [parlamento alemão], mas não vai durar.

Nunca considerou deixar de assinar com o apelido do seu pai?
Nunca. Porque tenho-o por acaso — a propósito, não acredito em Deus —, não escolhi ser filho dele. E, portanto, nunca tive vergonha disso, nunca mudaria o meu apelido. Por outro lado, o apelido Frank é como Meyer, Müller, Becker, é um apelido muito, muito comum na Alemanha.

E nunca saiu da Alemanha, apesar de adorar o país.
Não, nunca. Somos um país maravilhoso. Temos pessoas lindas e maravilhosas. Mas acho que só temos um milhão de verdadeiros democratas neste país. Já agora, posso fazer-lhe eu uma pergunta?

Sim, claro.
Quando leu este livro, riu-se?

Ri-me, sim, tem muitas partes caricatas.
Ótimo. Obrigado. Posso dizer-lhe que foi também por isso que o escrevi. [O humor] é o meu lema de vida, a minha filosofia, que experimentei ao longo destes meus 87 anos. Torna a vida mais forte.

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