A sessão de fotografias aconteceu a 28 de setembro do ano passado — um sábado. Eram 11h30 da manhã. Pinto da Costa entrou no estúdio de André Gouveia, onde meia hora antes tinha entrado um caixão, dentro de uma carrinha funerária, o que pôs a vila de Grijó, em Vila Nova de Gaia, em alerta.
A ideia estava fechada desde a véspera e sem grande margem para mudanças. Era preciso fazer uns retratos a “alguém” encostado a um caixão. Tudo no dia seguinte e com o máximo de sigilo. André Gouveia aceitou fazer o trabalho sem saber quem era esse “alguém”. Soube no segundo telefonema naquele fim de tarde de sexta-feira que iria fotografar Jorge Nuno Pinto da Costa para a capa do seu novo livro. Era também preciso manter o maior segredo e pedir aos vizinhos que não estranhassem a carrinha funerária a entrar na casa do fotógrafo onde é o estúdio de fotografia.
O pedido foi feito, mas foi em vão. Em frente ao estúdio, André Gouveia tem também uma oficina e um café. E quando Pinto da Costa saiu já toda a vila sabia que tinha sido o ‘Presidente’ “a ir ali ao estúdio do André”. O Observador entrevistou o fotógrafo autor da fotografia que deu capa ao controverso livro de Pinto da Costa.
Como é que surgiu a oportunidade para fazer este trabalho? Foi a editora ou Pinto da Costa a fazer o contacto para a sessão de fotografias?
O contacto surgiu através do editor Rui Couceiro. Eu não o conhecia e ligou-me a pedir um orçamento para fazer um trabalho de retrato em estúdio a “alguém”.
Mas não disse quem é que era? Não sabia quem é que ia fotografar?
Não, nesse primeiro telefonema não me disse quem é que era. Havia uma premissa principal de que as fotografias teriam de ser feitas no dia seguinte, sábado, porque era uma coisa bastante urgente e não se adiantou muito mais. Eu enviei o orçamento e ligaram-me horas depois a dizer que tinha sido aprovado e foi aí que se abriu um bocadinho o jogo. Foi engraçado porque ele disse: “André, pedia-te o máximo de sigilo e que avises a tua vizinhança que amanhã vou mandar uma carrinha fúnebre para a tua casa”. E eu: “Uma carrinha fúnebre?”. E ele: “Sim, aqui a ideia seria fazer um retrato ao presidente Pinto da Costa, um caixão e uma bandeira do Futebol Clube do Porto”. E eu até lhe disse de uma forma cómica: “Pá, eu tenho de tudo no meu estúdio, mas caixões ainda não tenho nenhum”. E ele: “Não te preocupes com isso, eu tenho aqui uma agência que vai providenciar isso, da nossa parte fica descansado”. Isto foi numa sexta-feira, sei lá, oito da noite, e depois, mais consciente de quem era a pessoa que iria fotografar e do mediatismo que isto iria ser, comecei a ficar com algum nervosismo.
E o dia da sessão fotográfica, como é que tudo começou?
No sábado, pedi, para uma hora antes de o presidente chegar, se a agência funerária me podia trazer o caixão e essas coisas para eu montar um set-up de luz no estúdio. E foi tudo ainda mais foi curioso, porque lá avisei os meus vizinhos, mas como moro em Grijó, em Vila Nova de Gaia, é uma vila, é um meio muito pequeno e as pessoas acabam todas por se conhecer, só o facto de ter avisado para as pessoas não ficarem assustadas que de que ia receber uma carrinha funerária no estúdio, e não ficarem assustadas a acharem que tinha falecido alguém lá em casa, ainda criou mais alarmismo. No sábado de manhã, eu tinha todos os vizinhos, de uma forma disfarçada, a tentar perceber o que é que se passava (risos). E quando chegou a agência funerária, além do caixão, trouxeram também um monte de adereços, desde castiçais, suportes para caixões — até fiquei um bocado assustado, o que é que eu vou fazer com tantos adereços, isto vai ficar uma coisa mesmo horrível. O senhor da agência funerária lá começou a montar as coisas no meu estúdio e disse: “Então como é que quer que monte isto?”. E eu: “bem, eu também não sei bem como é que quero as coisas”. Eles estavam a montar o caixão num suporte, com muitos “rococós” e eu estava a odiar aquilo tudo. Entretanto, eles acabaram as montagens, eu pus umas luzes para testar e pedi a uma das pessoas que estava presente para ver se podia ser a minha cobaia antes de o presidente chegar, e uma senhora disponibilizou-se, e eu devo ter feito uma cara tão feia com o resultado que o senhor da agência disse assim: “Então não está a gostar?” “Eu não, por acaso não estou a gostar mais de nada disto”. E ele: “Sabe que nós já fomos a outro fotógrafo e você é a segunda vez, portanto convinha sair daqui a alguma coisa”. Respondi para ele não se preocupar que iria sair qualquer coisa dali, que só disse que não estava a gostar nada daquilo.
Porquê?
Porque estava um bocado condicionado com uma ideia que o Rui me passou no dia anterior, disse-me que não queria que a fotografia fosse em fundo preto, porque não queria uma coisa muito mórbida. Então tinha posto no início um fundo branco, só que a coisa estava a ficar assim mesmo muito, muito crua. Só pensava “não é nada disto que eu quero” quando toca o meu telemóvel e era o Rui a dizer que já estava à porta do estúdio, meia hora mais cedo e eu fui recebê-los à porta. Veio o editor que me encomendou o trabalho com o Pinto da Costa e o seu motorista. E ele disse: “Olha, foi aqui em Grijó que começou a minha vida ligada ao futebol”. Confesso que não sou adepto de futebol, portanto não sei todos estes contextos, mas deixei-os estar a contar.
Mas é do FC Porto?
Sou portista, porque o meu avô desde pequenino me incutiu esse culto ao FC Porto, mas não sou fã de futebol. Mas lá o deixei contar a história de Grijó, que ele disse que tinha sido num restaurante aqui na terra que tinha feito umas reuniões importantíssimas.
▲ Fotografia original que deu original à capa do livro
ANDRÉ GOUVEIA
Pinto da Costa entra no estúdio e vê o caixão, o que é que diz?
Entrou no estúdio e gostou do espaço, começou a espreitar o estúdio. Tenho lá uma parte de receção aos convidados, um bar, e ele disse: “Ah, você faz aqui festas”. E eu: “Não, festas não faço, isto é local de trabalho”. E ele olhou para o caixote do lixo e tinha umas cervejas… E ele: “não? Faz, faz, estão aqui os vestígios” e toda a gente que estava lá se começa a rir. Ou seja, quando chegou eu ainda não tinha nada pronto, tinha tentado antecipar-me, mas como chegaram meia hora mais cedo… Então, lá montei o setup, o preto e tal.
Mas aí já tinha mudado o branco para o preto, não é?
Exatamente. Ou seja, fiz aquilo que achava, correndo o risco de não ir ao encontro do briefing que me passaram. Entretanto, tivemos assim um momento de, sei lá, 15 minutinhos em que o presidente estava no telemóvel a ver os resultados de um jogo de basquetebol feminino e não falou para ninguém. Foram assim 15 minutos quase de silêncio.
Mas ele já enfrentara a câmara?
Não, ele estava assim um bocadinho retirado para o lado. E eu disse-lhe que quando ele pudesse, podíamos começar a sessão. E ele pediu-me para esperar mais uns minutos. E ficou ali uns 15 minutos de tensão porque eu disse uma vez, o editor disse uma outra e ele deixou-se estar no momento dele. Percebemos depois que ele estava a ver um jogo de basquetebol feminino no telemóvel. Lá começamos então a sessão. Disse-lhe, por exemplo: “Pode-se sentar aqui?”; “Vamos fazer isto assim, assim, assim?”; E ele disse: “Vamos lá então”. E eu fiz dois testes, dois disparos. Fui-lhe mostrar, perguntei: “Gosta?” E ele: “Sim, sou eu“. E eu: “Está confortável com a sua imagem?” E ele: “Sim, sim, sim”. Pronto. Percebi que podia avançar com esta ideia. Entretanto, não tinha a luz como queria porque queria uma luz para iluminar o caixão, queria outra para o presidente e outra para o fundo. E as coisas não estavam assim tão bem trabalhadas. Precisávamos de fazer uma alteração no posicionamento do caixão. Tinha de ficar mais inclinado. E aí há outra parte cómica… Por acaso, uma parte da minha casa está em obras e, por isso, fomos buscar uns tijolos para tentar equilibrar o caixão. E o motorista do presidente disponibilizou-se para ficar debaixo do caixão com uma luz para o fundo, aquilo que chamamos de luz de recorte. Então foi assim que conseguimos a posição perfeita para o caixão. Os tijolos a suportar o caixão, o motorista debaixo com uma luz de recorte para o fundo, o presidente sentado. Foi a fotografia que deu original à capa.
Uma sessão fotográfica como essas tem muitos riscos e pouco tempo para errar. Como é que foi o processo de chegarem à “fotografia certa”?
Eu fiz três ou quatro fotos e o Rui veio ver e disse: “pronto, André, olha, acho que é mesmo isto“. E senti mesmo que aquela seria a fotografia que representava, no fundo, todo o intuito daquele conceito para a capa do livro. “Não precisamos fazer mais nada”, disse-me o editor.
Tem noção de quanto tempo esteve a fotografar Pinto da Costa e quantas fotografias resultaram dessa sessão?
Não tenho a certeza, diria que eu estive 15 minutos com o presidente no meu setup, por aí. Sim, foram 15 minutos, não foi mais do que isso. Também não quis insistir muito na sessão, foram meia dúzia de cliques. Em relação ao número de fotografias… diria que não mais que do 30 fotos.
A fotografia aprovada foi aquela que achavam que ia ser logo a final?
Não, a fotografia final e que depois acabou por ir para a capa do livro é uma ligeiramente diferente, é mais “normal”.
E a fotografia final, a da capa do livro, é a fotografia de que mais gosta de toda a sessão?
Isso é uma pergunta complicada. Gosto desta fotografia, sim, mas gosto mais da outra fotografia que não saiu. A fotografia funciona, e está bem, tenho orgulho na fotografia. A outra, acho que era um bocadinho mais ousada e não expectável. Gosto muito desta fotografia, como é óbvio. Pelo momento que simboliza, sabe? Acho que independentemente de estarmos aqui a discutir a fotografia, acho que é o momento. É o final de um ciclo consciente, ou seja, a própria pessoa ter consciência e dar-se a ser representada neste contexto, eu acredito que também não seja fácil, não é? E nesse sentido sou apaixonado pela foto, como é óbvio.
A ideia de fotografar o Pinto da Costa encostado a um caixão… a ideia foi de quem?
Eu acho que a ideia foi da editora. Pelo menos o Rui transmitiu-me já esse briefing. Até questionei se o presidente sabia que iria ser fotografado ao lado de um caixão e foi-me garantido que sim, que o presidente Pinto da Costa estava ciente de que as fotografias iam ser todas assim.
▲ Capa do livro de Pinto da Costa editado pela Contraponto com o título "Azul até ao fim"
E a bandeira, quem é que levou a bandeira?
Quem levou a bandeira foi o Presidente. Aquela bandeira tinha um autógrafo dele e era relativa a um campeonato qualquer. Que eu não sei dizer qual. Sei que era uma bandeira que ele guardava com carinho e fazia com que fosse aquela.
Foi a primeira vez que o fotografou?
Assim, em retrato, sim. Já o tinha fotografado para o Jornal de Notícias, em eventos, já o tinha apanhado, mas assim, olhos nos olhos, e privar ali um bocadinho com ele, foi a primeira vez.
Esta foto foi muito controversa na altura, logo quando saiu o livro. Muita gente questionou a intenção daquela imagem. Recebeu críticas e elogios?
Os feedbacks que eu recebi, quase todos através de Facebook e Instagram, foram todos muito bons até de se ler, porque acho que foi mais no sentido de me darem os parabéns por ter tido a oportunidade de fazer aquela foto. Eu tinha noção que estava a fazer história, estava a imagem do encerrar da vida profissional do Pinto da Costa. Até tenho noção de que foram das últimas fotografias feitas ao presidente. Até recebi muitas mensagens de amigos e pessoas com quem nunca falei e que viram a fotografia, a darem-me os parabéns a dizerem que estava a fazer história, coisas assim deste género. Comentários negativos confesso que não. Acho que a maior parte das pessoas tem um carinho especial por Pinto da Costa.
E com tanto sigilo houve quem não tivesse reparado na carrinha funerária nem na presença de Pinto da Costa?
Bom… todos na vila ficaram a saber… junto à oficina que tenho em frente à minha casa — onde tenho o estúdio — juntou-se muita gente curiosa. Lá juntaram-se porque que era o único sítio que dava menos nas vistas para verem o que é que se estava ali a passar. Os meus vizinhos estavam todos na oficina naquele sábado de manhã. Estavam ali conscientes de que no estúdio do André ia haver qualquer coisa, estavam ali prontos para ver qualquer coisa. Perceberam logo quando o carro do presidente chegou, reconheceram-no logo. Ainda por cima eu fui recebê-los à porta e vi toda a gente a olhar para ele e depois quando o presidente foi embora voltaram a vê-lo.
E não lhe disseram nada?
Não fizeram eles outra coisa (risos). Quando fui ao café comprar tabaco, todas aquelas pessoas já sabiam que tinha fotografado o Pinto da Costa no meu estúdio, só não perceberam o porquê de ter estado lá o ex-presidente do FC Porto e uma carrinha funerária. Perceberam umas semanas depois. Quando o livro saiu é que toda a gente ficou a perceber que era a capa do livro.