Querem que vos seja sincera? Mesmo assim honestazinha? Vamos trabalhar com a verdade, migas? Estava capaz de não ver esta edição da Eurovisão. Xôxa, capenga, manca, anémica, frágil e inconsistente me encontro. Não fisicamente, lagarto, lagarto, lagarto, bati três vezes na madeira (na verdade, é MDF. Quem é que tem móveis de madeira da boa, hoje em dia? Ó filhos, onde é que isso já vai…) Vamos concordar que o maior evento musical televisionado do mundo já teve melhores dias, mas eu sou uma mulher com uma missão e pode ser que uns cabelos ao vento, um foguetório ou, na loucura, música propriamente dita me anime o espírito. Eurovision, do your thing.
A cerimónia abre com uma VT engraçadota subordinada a JJ, vencedor austríaco do ano passado e ao barquinho do tema. E ainda entregou em palco um excerto da minha ópera favorita A Flauta Mágica. Sim, tenho os meus momentos de erudição, o que é que pensam? Só que depois JJ cantou a canção com que ganhou o ano passado e continua inaudível. Mas o palco estava lindíssimo e havia malta pendurada no teto e uma carrada de bailarinos e tudo e mais um par de botas. A apresentação está a cargo de Victoria Swarovski (sim, a brilhante herdeira) e o ator e humorista Michael Ostrowski, que envergava um look verdadeiramente galhofeiro. Mas como o Galopim e o Malato não fecham a matraca nem um bocadinho, que é para isso que lhes pagam, não terei oportunidade de aferir a graça do comediante.
Dinamarca
Søren Torpegaard Lund, “Før Vi Går Hjem”
O intérprete enverga uma boa calça de cabedal, tem um bom menear de anca, faz-se acompanhar por um grupo de baile enfiado num cubo de vidro com uma vibe bem bas-fond. Dá-se uma apoteose com fogo de artifício, uma camisa arrancada à bruta que deixa um par de mamilos masculinos expostos por uma camisola coleante e transparente e ainda atira um agudo bem estridente para fechar o negócio. É camp, é lá para cima, é Eurovisão. Ainda assim, acho que quando chegar ao fim, já me esqueci do dinamarquês. Mas deu uma animada.
Alemanha
Sarah Engels, “Fire”
Todo o santo ano, desde 2018, aparece uma wannabe Eleni Foureira, a bafónica intérprete de Fuego, uma queridinha dos fãs do festival. A Sarita nem fez muita questão de disfarçar. Traduz-se o título da canção para inglês e ninguém dá por ela. A alemona é uma senhora cavalona, abanou a coxa e a trunfa, trouxe canhões de fogo, um quarteto de mulherões sincronizados e por aí vai. Já a voz, parecendo que não é capaz de ter a sua importância, não apresenta uma performance tão forte como a anca. Bom esforço, bela perna, ainda assim uma cópia mediana do original.
Israel
Noam Bettan, “Michelle”
Sabia que o músculo responsável por piscar os olhos é o mais rápido do corpo humano? Uma piscadela dura apenas entre 100 e 150 milissegundos e podemos piscar até 5 vezes por segundo. Outro facto curioso é que as imagens são captadas pela nossa retina invertidas, ou seja, de cabeça para baixo. É o cérebro que se encarrega de processar e virar a imagem para a posição correta. Sabia ainda que as lágrimas não são todas iguais? Têm uma composição diferente consoante a sua função: apenas para lubrificar o olho ou resultado de uma reação emocional.
Bélgica
Essyla, “Dancing On The Ice”
Música péssima, coreografia preguiçosa, a intérprete passou metade do tempo a andar para trás e para frente, como se de um desfile do concurso da Miss Universo se tratasse e ao nível da afinação, desafinou do princípio ao fim. Achei coerente. Malato afirmou: “Não me arrepia nem um bocadinho. Nem pinto, quanto mais pele de galinha”. Já eu digo que não dá para confiar num país que tem como prato-estrela mexilhões com batatas fritas.
Albânia
Alis, “Nân”
O participante albanês apresentou-se com um look Guerra dos Tronos e óculos de quem frequenta afters. No background, uma projeção de uma carantonha gigante de uma senhora com um ar meio creepy, que é possível que me assalte o sono ainda hoje. Depois, a carantonha é substituída por várias mulheres. Senti matriarcado, gostei. Corta para um coro de homens, também em projeção. Ninguém me tira da cabeça que isto foi uma maneira de poupar dinheiro em aviões, que os bilhetes estão pela hora da morte. Vai daí, sai plot twist: a senhora creepy do início aparece em palco. Vai direita ao artista e tira-lhe os óculos como quem diz “estás dentro de casa, filho! Isso dá-te ar de drogado”. Põe-lhe a mãozinha na cara e mete-lhe um relógio de bolso na mão. Parece-me óbvio que é mais uma indireta passivo-agressiva maternal “Vê lá a que horas chegas ao almoço de domingo, ouvistes? A comida arrefece toda, à tua espera.” A canção? Epá, distraí-me, não vos sei dizer.
Grécia
Akylas, “Ferto”
Temos gorro com orelhas, temos botas com pelo, temos temos uma senhorinha a tricotar, temos uma estátua grega viva e um homem de oiro com uma poupa impressionante. Andou de trotinete em palco, deslizou por um varão abaixo. Cantou? Poucochinho. Passei mais de metade do tema a pensar o que é que me lembrava e quando ele fez o coraçãozinho coreano, caiu-me a moeda. É o Gentleman do Psy, pessoas. Mas tal e qual. Tá a valer a cópia descarada, é isso? Pronto, ficamos assim.
Ucrânia
Leléka, “Ridnym”
Epá, muito aborrecida. Ah e tal mandou um agudo que rebentava com a cristaleira da minha sogra? Mandou. Mas é mesmo isso que eu quero nos meus tímpanos? It’s a no for me. Nem me apraz dizer mais nada.
Austrália
Delta Goodrem, “Eclipse”
Diz que a nossa amiga Delta está em segunda posição na casa de apostas e ganhou o prémio da crítica. Levava um vestido que a Cristina Ferreira adoraria usar, tinha um piano todo em doirados que a própria “tocou” a meio da música. Porquê as aspas? Porque pouco se ouviu e as mãos dela a tocar as teclas, mal se viu. Mas vou escolher acreditar. Canta bem? É capaz. Mas parolíssima.
Sérvia
Lavina, “Kraj Mene”
Eu não gosto nadinha disto, mas isto é meu gosto pessoal, mesmo da minha pessoa. Considero desagradável à vista e à audição, lamento. Não diria ao cheiro, que eu não sou preconceituosa e acredito que estão muito lavadintos debaixo daquele cabedal todo. Ao tato, mais uma vez, não deve ser prazeroso, que deve arrepanhar na pele e magoar nos picos. Quanto ao paladar, prefiro morrer na ignorância.
Malta
Aidan, “Bella”
Faz-se um compasso de espera para montar o palco para a atuação de Malta, o que aumenta significativamente a expectativa. Is it a bird? Is it a plain? Não é o Super Homem, que ele na apresentação usou um chapéu de cowboy. O que levanta outra questão: há cowboys em Malta? E eis que a montanha pariu um gazebo de cristal e uma canção chata para cacete. Aidan exibe uns bons bíceps, mas uma voz pequenina e uma cantiga a atirar para o repetitivo. Next!
Chéquia
Daniel Zizka, “Crossroads”
Malato diz que esta é para ficar nos dez primeiros. Galopim responde: “Sim, entre o décimo e o décimo quinto”. Tudo bem, eu também sou de letras. Quem nunca se enganou que atire o primeiro cateto. O nosso amigo Daniel apresenta-se numa espécie de sala de espelhos da Feira Popular (referência só para maduros) que faz um bonito efeito. E canta bem, vejam lá? Veio-me qualquer coisa de Matt Bellamy dos Muse. Estou com o José Carlos nesta. Top ten.
Bulgária
Dara, “Bangaranga”
O título tintilou-me, a vocalista tem crazy eyes, os bailarinos têm umas máscaras a atirar para o bizarro, o ritmo dá vontade de abanar a bunda com vigor, a coreografia está impecável e todos os envolvidos no brainstorming que gerou isto devem ter feito bom uso de substâncias potencialmente ilegais. Resumindo, amei! Podem insultar-me.
Croácia
Lelek, “Andromeda”
Malato anuncia um grupo feminino de etno-pop, que junta a herança eslava e o ritmo eletrónico. Representam o canto arcaico, que dizem que tem alguns pontos em comum com o cante alentejano. Poucos, porque elas estão na final e os meliantes do chaparro foram de vela. As pequenas parecem um pouco as Brumas de Avalon ou, se quisermos algo mais atual, podiam ser personagens dos chamados Fairy Smut Books, com fadas e fados com uma vida sexual de fazer corar a fada madrinha da Cinderela. A nível musical não me disse muito, mas achei meio bruxonas, o que é um ponto a favor.
Reino Unido
Look Mum No Computer, “Eins, Zwei, Drei”
O Reino Unido traz-nos um tema bem anos 80. Cheio de sintetizadores, oco de ideias e o vocalista tem um penteado a atirar para o descabido. Dito isto, estou a ver isto a dar nos bares de Albufeira este Verão. Septuagésima oitava razão para não pôr lá os pés.
França
Monroe, “Regarde !”
Mas sou eu que estou a embirrar ou isto é o ano da cópia cuspida e escarrapada? Fui só eu que ouvi o Berghain aqui? Até a estética foi replicada a papel químico.Tive que esperar até ao final para me sentir validada e ouvir o Malato dizer que é uma referência aquela senhora que o nome começa por r e acaba em lia. Uma referência, Malatinho? Que amor. Eu se fosse a Rosalia processava a Monroe até à cueca, apesar dela ser lindíssima e ter sido do melhorzinho que ouvi esta noite.
Moldova
Satoshi, “Viva, Moldova!”
Hip hop moldavo? Temos. E vêm com tudo, saltam como se não houvesse amanhã, uma das pequenas cantou lírico em cima de andas cobertas por uma saia gigante. E até incluem um “vida loca” no refrão, óbvia homenagem ao hit de Fanny Rodrigues e Canuco Zumbi. Houve também um pequeno skit em que Malato disse o nome da banda como se de um espirro se tratasse e Galopim respondeu com um santinho. Viva Moldova!
Finlândia
Linda Lampenius E Pete Parkkonen, “Liekinheitin”
Os finlandeses são os favoritos nas casa de apostas, até porque o violino tem muita saída na Eurovisão e o tipo com pinta de galã de novela turca e uma camisa excessivamente decotada também é um crowd pleaser. Já eu, que hoje estou feita uma velha do Restelo, apesar de não ter dinheiro para alugar uma dispensa sequer nesse código postal, achei uma azeiteirice do pior. E no final, vou estar irritadíssima se isto ganhar.
Polónia
Alicja, “Pray”
Gospel polaco? Também temos. A Alicja ganhou o “The Voice” e, de facto, estou a vê-la a virar várias cadeiras. Vozeirão, linda de morrer e cheia de star quality. Os bailarinos dançam numa espécie de cenário inclinado que pediram emprestado ao Manzarra. Embora seja um pouco batido, faz um bonito efeito. Está tudo certo e é mais que certo que não vai ganhar. Malato disse que a canção polaca é uma “espécie de Santa Apolónia”. Galopim dá uma gargalhadinha arrancada a ferros e responde: “A propósito, vamos apanhar o comboio para Lituânia”. É melhor, é.
Lituânia
Lion Ceccah, “Sólo Quiero Más”
Então, temos um Tin Man do Feiticeiro de Oz vestido com um capelo e capote da mulher açoreana. Super teatral, com uma vibe meio Kraftwerk e o refrão em espanhol. Aquilo a que se chama uma bela de uma salganhada. Não se pode dizer que o Lion tenha cantado mal, que não cantou. Mas não foi bom, nem mau. Antes pelo contrário.
Suécia
Felicia, “My System”
Então, esta querida traz uma máscara de Covid de tule pejada de lantejoulas. É capaz de ser a pensar no hantavírus. Acresce a isto um quarteto de marmanjos vestidos à la Matrix. A canção propriamente dita é do recorrente Euro Dance Musica, que me traz à boca o sabor de Pisang Ambon com laranja e me dá vontade de ouvir Falésia do Amor em loop.
Chipre
Antigoni, “Jalla”
A Antigoni é muito linda, “Jalla” tem um rtimo muito dançável e as pequenas a abanar guardanapos têm a sua graça. No entanto, ela não canta uma beata e é, como dizem os brasileiros, inimiga do ritmo. Se eu fazia melhor, perguntam vocês? Deus vos livre! Mas por isso é que eu estou aqui sentada no meu sofá, de pantufas da Serra da Estrela, pernas traçadas e a cuspir palermices para o teclado. Cada um é para o que nasce. E esta bela cipriota talvez se desse melhor no macramé ou assim.
Itália
Sal Da Vinci, “Per Sempre Sì”
Querem comentário melómano com interesse? Peçam ao Luís Oliveira da Antena 3. Aqui, é bar aberto de ilações descabidas e aqui vai mais uma dose: o candidato italiano tem umas sobrancelhas que parecem ter vontade própria. Pronto, está dito. Quanto à música, acho que bem dispõe, a performance foi divertida, um casamento em palco tem a sua graça, sacar a saia à noiva, que por sua vez tem uma bandeira italiana no forro deu um tcharã. Ainda assim, não é propriamente memorável.
Noruega
Jonas Lovv, “Ya Ya Ya”
O Jonas roubou o look ao vocalista dos Måneskin, mas lamentavelmente não lhe roubou o carisma, nem a aura. Mas a restante banda estava a curtir bem e isso contagiou-me mais. Embora, a canção seja cool, segundo o autor o tema é repetitivo, para ficar rapidamente no ouvido. E isso cheira-me a desculpa de preguiçoso, mas eu hoje não estou para amar, como já deu para perceber. O nosso José Carlos remata o final da performance com o seguinte comentário sobre o intérprete: “ É muito alegre, é mesmo nórdico. E também um bocadinho maluquinho”. Também já estou por tudo, companheiro.
Roménia
Alexandra Căpitănescu, “Choke Me”
Mais uma vencedora do “The Voice” da terra dela. E sim, a música intitula-se “esgana-me”. E aqui não se faz kink shaming, por isso é deixá-la. Digamos que são uma espécie de Evanescence romenos, com uns momentos operáticos à mistura, que é uma coisa que já me começa a dar uns certos engulhos, já que têm sacado dessa cartada música sim, música não. Mas muita calma nessa hora. Só falta uma! Ninguém larga a mão de ninguém.
Áustria
Cosmó, “Tanzschein”
O pequeno austríaco tem 19 anos, uma estrela azul na vista esquerda e dançarinos com cabeças de animais metalizados e cubistas. Galopim diz que lhe fez lembrar o Falco de Rock Me Amadeus e eu também senti, até porque revi o Amadeus de Milos Forman muito recentemente. Ou isso ou já me começa a faltar o que dizer e uma vez que esta é a edição do “Não é plágio, é homenagem”, porque não?
Para comemorar os 70 anos de Eurovisão e encher chouriços enquanto as pessoas votam, ouvimos vários números musicais, sendo o melhor um medley bem catita de versões de cantigas da Eurovisão interpretadas por um sortido fino de participantes dos últimos anos: Max Mutzke (Alemanha, 2004), Ruslana (Ucrânia, 2004), Lordi (Finlândia, 2006), Alexander Rybak (Noruega, 2009 e 2018), Verka Serduchka (Ucrânia, 2007), Kristian Kostov (Bulgária, 2017), Erika Vikman (Finlândia, 2025) e Miriana Conte (Malta, 2025). Foi bem jeitoso e acabou em com a arena a cantar a uma só voz o “Volare”. Eurovison at its finest. E agora, rufam os tambores…
E a Bulgária ganhou! A minha favorita sagra-se campeã, coisa que aconteceu pouquíssimas vezes na minha vida. E sem contestação: canção mais votada pelo júri e pelo público. Fico contente, até porque todos vimos o que esteve quase a acontecer, o que em muito justifica que o meu estado de espírito para ver este certame ao nível do sub-solo. A verdade é que têm vindo, sistematicamente, a conspurcar o glitter da minha querida Eurovisão, ano após ano. Uma celebração feita de arco-íris coloridos, tem sido desviada do seu caminho, besuntada a óleo. Mas a música ganhou hoje. Parabéns à Bulgária. E à Espanha, aos Países Baixos, à Irlanda, à Islândia e à Eslovénia.